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terça-feira, setembro 19, 2006

Othelo – Eimuntas Nekrosius, Lituânia

Nekrosius, Nekrosius, Nekrosius!!!!

Será que fazemos arte só para libertar nosso gesto para os gestos possíveis?
Para criar, para agir, para mostrar que a vida é ação?

Será que queremos dar voz às paixões, mostrar o resultado do eu violento, da excessiva ingenuidade, e, no fim, amamos a força da vida, mesmo se nefasta? Amamos Iago, odiamos Othelo.

Em contraste flagrante com o Shakespeare que acabei de falar, está Othelo, numa produção da Lituânia. Ah, a liberdade!


Tire todo o texto excesivo, não siga a linearidade textual, mas a do sentimento, esqueça o texto e o traduza.
Iago era uma criança brincalhona e malvada, e o cenário era cheio de sugestão, movimento, criatividade!
Algo realmente contemporâneo. Movimentos novos, que dão base a falas bem direcionadas, precisas.
E o melhor de tudo! Othelo é o personagem principal....
Em Shks Othelo é um dos personagens mais chatos já criados... Harold Bloom mostra que ele é pura consciência, honra, dever, depois, puro instinto... (Dizem que, no conto original, Othelo simplemente matava a mulher fazendo cair o dossel sobre ela, portanto, evoluiu...)

Mas, nessa montagem!
Ele é o centro, realmente!
Sensível, dividido, sofredor!
Desdêmona não é aquela quase-chata boazinha, capaz de perguntar se as mulheres seriam capazes de trair seus maridos, mas viva e cheia de nuances!

A cena de sua morte sinteteza tudo que é teatro hoje: um ballet de abraços, uma mulher arrastada, três vezes, um homem que chora e rega vasos de morto.

O famoso "Não me mate agora, mate-me amanhã!" é doce e instintivo.
Que direção!
A luz é precisa, chegamos a ver a manhã, o mar, as gaivotas... Com elementos inusitados, uma porta solta, cabaças de fazer churrasco (hehehe), tinas d´água, chamas, todo um univeso de Chipe é criado.

A música é sensível, exata... o piano, tudo!
Nada de grotesco descabido, de caos forçado, nada de pobreza cênica, nem arrogância...
Simplicidade, mas forte.

As quatro horas são preenchidas com batalhas, barcos, tumultos, uma Emília viva e divertida, um Cássio dentro do razoável... os atores- ah, esses pequenso deuses loiros!- são dirigidos pela compreensão do seu papel, o que sempre é raro!

Os personagens utilizam todo o humor disponível no texto e o melhoram: esse é o negócio, Shks é feito de enchimentos, interpretações...
Só há o que elogiar quando uma peça atinge o sagrado espaço da verdade forte e vital:
ato criador, gesto, ousadia. Parabéns!
ajr

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