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terça-feira, outubro 24, 2006

Tempos de Esquecimento
O poeta na era da TV

Estou lendo Rilke. Ele fala de uma ampla solidão.

Vivo na era em que muitas pessoas egoístas impõe seu eu, repetindo automaticamente slogans simples, "progresso", "indústria", "tecnologia", deslocados das necessidades primárias da vida.

Uma aristocracia ridícula, grosseira e gentil, dócil, opressora, se considera raça superior: olhos azuis te tornam competente, belo, promissor.

O escritor tem de "impor seu eu", a imagem de escritor torna alguém escritor.

Não há maior contradição com a natureza do poeta do que ter de "vender sua poesia".
Justamente porque não fez isso por depender da compaixão, do poder exercido por outra pessoa, não quer, nem merece, ter de "promover" nada. Ele quer uma solidão repleta, abandonando tudo que é demais, ficando com as coisas simples e produtivas, em primeiro lugar a gentileza.

Entretanto, parece agora uma questão de olhar, a mais simples empiria: seu trabalho nem sequer chega às mãos das pessoas sem o uso da propaganda.

O livro é um artigo de luxo, para a aristocracia.

Tem de levar então em conta a utilidade, sabe do prazer em entender um pouco esse mundo invisível e real- essa alma cheia de tristeza, medo, paixão desgovernada, que é o hábito do ser, a castração da tradição, a ignorância da informação e também os poderes econômicos, ou será um "entretenimento".

"Dizer o que vê e vivencia e ama e perde", diz Rilke. O artista contemporâneo tem de saber de uma realidade que envolve poderes globais, Estados, tecnologia e manipulação de mentes. O real.

Contra o pensamento inercial, vago, contra o pensamento produtivo sem resultado, abstrações econômicas e ideologia desgovernada. A vida, dia a dia.

As notícias comerciais são fotografias sem nexo; não há conversa em espaço livre, a restrição do diverso, evolução. Os políticos "do progresso" falam "slogans" para simplificar a realidade, já que as mentes estão atordoadas de informação sufocante, pois, de alguma forma, a informação serve para agir, e informação demais, genérica, mata. Desesperadas por um caminho, as mentes aceitam.

A poesia pertence ao barro- aos sentidos que libertam o pensar. Tornar a mente mais flexível para um mundo em mutação. Arte, objetividade: não àquela inflexível, mas capaz de "abarcar a vida" como quer o poeta. O nome não dito dos dias que virão.

A ética é a base de qualquer verdadeira arte; aquela que vai de encontro às idéias desaclopladas, aos sentidos intoxicados, a ação brutal dos olhos, com compreensão variável, se um ramo vem, abaixe-se! Não uma ética do dever; as cores são abrir os olhos para o prazer da vida, olhar pela coisa da vida, querer que a vida floresça, e caminhos de bosque e água.

Não se aplica à vida o Alto (que esquece o particular), nem o "baixo" (como hedonismo ou consumismo), mas a vida de todos com todos. O mundo político, o mundo das paixões ocultas, o mundo espiritual, o mundo profundo.

A arte busca a experiência comum do sentir, o saber comum, a linguagem verificável de um referencial humano; a filosofia é linguagem de outra linguagem, o referencial é distante, baseado em um mundo de autor. Hoje, com o desaparecimento da realidade, do sofrimento, da exploração, da dor, ela tem de ser vendida pasteurizada em filmes de Hollywood: sofrimento drops, notícias, terror bizarro.

Lindas flores, lindas praças, cultura, lindos carros, mas alguém é ferido de morte: "não toca na criança, nega suja!" - diz alguém no supermercado para a mãe morena de uma filha loira.

A arte pela arte também é arte pela vida. Hoje: abundância de palavras sem a vida, eus em desconexão com suas partes; até o governo tem de dar lucro e o bem comum é um estorvo. As únicas forças ativas são os vendedores globais, de idéias, de projetos, de cultura.

Um tempo de grande ansiedade, de entrega do eu, incompreensão.

Talvez toda a morte seja a dependência do que não dependemos. O pior tipo de dependência é a
dependência da ação dos outros. Dependência de reconhecimento.

O poeta não quer que ninguém o tenha como guia. Se tiver ajudado a criar uma personalidade única, terá bastado.

Os artistas reais- sim, pois os artistas burgueses são aqueles preocupados em afirmar que a vida é menor que o que parece- são contra idéias parciais, direita hoje é ver parte do todo, soluções antigas, esquecer pessoas, poder, sofrimento. Os meninos param de ir a aula porque não tem passagem de ônibus, as meninas trabalham de segunda a domingo no comércio e não podem estudar.

Se nos prometem tudo, o conforto perfeito, não temos paciência com a realidade. Queríamos nosso mundo fácil de filhos, trabalho, carros, parques, repressão familiar, filmes, livros, ambição intelectual, filhos, queríamos que essas dificuldades do nosso eu íntimo e de nosso ambiente fossem as únicas, pois são imensas.

Para nós, a minoria privilegiada, há tanto barulho, tanta novidade, o pensamento se angustia. Não responde ao mundo lento. Um mundo pequeno, 5 autores, 5 amigos, 5 ruas, 5 programas de TV, a realidade foi soterrada.

É por isso que para Joyce, "nenhuma vivência foi ínfima demais": seu detalhismo também é "uma visão mais simples, uma fé mais profunda" a partir da demolição da realidade pré-fabricada, fábrica, família, procriar, religião regrada.

A arte é adaptação à vida, com alegria. Tornar a mente flexível para o real que se apresenta, não usar a cultura para uma arrogante rigidez.

mergulham n´água os barcos
eu, em mim mesmo
nada há lá que se acha
revelação, interesse
a não ser experiência
coisas-pássaros
o reino das coisas, não falável
a realidade que nos move, muda
concretude
o mistério além do misterioso
solidões
deixe-me viver, na´tureza, e serei agora


ajr

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