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segunda-feira, outubro 23, 2006

Acabo de ler um ótimo depoimento sobre a violência contra a mulher, da Desembargadora Maria Berenice Dias.
http://www.mariaberenice.com.br/

Chocante, terrível.

Como sou uma pessoa muito metida, resolvi comentar. :)

(as mulheres vêem mais, haja paciência com os homens!)

Para mim- é óbvio isso?- a violência contra a mulher começa na violência contra o homem.
(mas como diz a juíza, a culpa é de todos mas a vítima é uma só: a mulher!)

Não há dúvida alguma de que a voz da mulher tem de ser valorizada e de que o infrator deve ser responsabilizado perante a lei com todo rigor e não como se "fosse coisa de mulher".
Bater em mulher não pode ser "bobagem": é crime, e agora recebeu o devido peso.
Mas o homem dessa mulher sofre todo dia, toda hora, o estigma de ser um fracasso, de não poder sustentar essa mulher.

O homem negro é visto como "ladrão" e não lhe dão espaço social. A mulher é criada para apanhar, para aceitar; o homem para ganhar, se perder, para ser ativo, batendo. A violência é "simbólica", é essa rede de normas que, roubando a informação, a possibilidade de criação, a liberdade de crítica, escraviza como consumidor e, pior, ser irremediável, lixo.
Quem TV?

O que observei nesse trabalho na Lomba do Pinheiro - Instituto popular de Arte- Educação- é que se as mulheres sofrem vítimas de uma cultura que as via como passivas, os homens sofrem como vítima dessa mesma cultura que os vê como ativos: devem manter o lar, ter emprego, sucesso, etc. A falta disso os leva à bebida, e, adivinha?

Também descobri que é muito fácil e barato corrigir uma pessoa: A Rosa Lopes, do Banco do Brasil assiste uma infinidade de creches por Porto Alegre pegando 10 reais por mês de alguns funcionários. Ela descobriu que se não desse padaria, curso de bijouteria, marcenaria para os homens, as criançlas seriam espancadas.

claro que para nós que vivemos num mundo de idéias, parece até ridículo falar em pulseirinhas de bijouteria: entretanto o que quero dizer é que nem toda idéia é faraônica, as necessidades são imediatas e bem simples de serem resolvidas.

Lembro me de um caso chocante. Um rapaz negro chegou lá e não tínhamos mais cestas básicas para dar. Eu deu do nosso rancho pessoal um kilo de arroz. No próximo mês ele voltou, completamente drogado, dizendo que os filhos estavam passando fome e que ele, como iso, caiu no crack, tremia todo; chorou dizendo que seus filhos precisavam de comida. Perguntei pra Marta, que é de lá: você acha que ele está mentindo. - Não Afonso, é verdade. Quem vai dar emprego para analfabeto e ainda mais negro?

Ou seja: mulher apanha de marido sem vergonha, mas antes disso, sem saída.
Uma coisa leva à outra: teremos de englobar a violência contra o homem" no debate da "violência contra a mulher. Economia é feminismo.

Por outro lado hoje me contaram de um rapaz negro que namorou uma moça loira em Santa Cruz, ambos com 15 anos; a moça engravidou e a mãe denunciou o menino como estuprador; ele ficou um ano todo preso até que a menina confessou que agiu por vontade própria. Que juiz é esse?

Ficamos com Rilke :

"A grande renovação do mundo talvez venha a consistir no fato de que o homem e a mulher, libertados de todos os sentimentos equivocados e de todas as contrariedades, não se procurarão mais como adversários, mas como irmãos e vizinhos, unindo-se como seres humanos, para simplesmente suportarem juntos, com seriedade e paciência, a difícil sexualidade que foi atribuída a eles".

Rilke, Cartas a um jovem poeta.

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