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quinta-feira, agosto 16, 2007




Tá bem , Lula, não precisava:

“O governador pediu que a maioria do público que o aplaudia vaiasse os manifestantes. O presidente brincou com Cabral e pediu que ele não se importasse com o grupo, ‘que é tão jovem e desprovido de consciência política, que usa nariz de palhaço".

Quando 40 pessoas de um Movimento chamado Luto Brasil (que nem são os parentes das vítimas) saem em cadeia nacional porque vaiaram o ministro (em si um ato perfeitamente democrático, mas sem relevância para estar no Jornal Nacional) , é natural um político temer “narizes de palhaço”.

Puxa, mas, segundo a Agência Estado, que dá a notícia, a qual se vê copiada e colada em todos os sites, “eles pediam concurso para novos professores”.

A relevância não acompanha mais o destaque. A manchete não é "Grande grupo aplaude Lula, enquanto alguns vaiam", como fica claro no vídeo do You Tube. Também não interessa entrevistar com cuidado e detalhar o que queriam os manifestantes, debater qual a possibilidade de atendê-los, o que vem sendo feito na área...

Na verdade, tratava-se de inauguração, conforme comenta no seu blog o engenheiro Roberto Morais:

"Estas três escolas fazem parte fase 1 do Plano de Expansão da Rede Federal de Educação Profissional e Tecnológica, que prevê a construção de 64 unidades e investimentos de R$ 98 milhões.(...) Serão destinados, pelo governo federal, R$ 750 milhões para obras e R$ 500 milhões, por ano, para custeio e salários de professores e funcionários".
http://robertomoraes.blogspot.com/

Não eram "nem meia dúzia, nem uma multidão" e incluíam "alunos da Uenf que reivindicavam bandejão para a universidade junto com mais alguns poucos do sindicato dos servidores públicos federais".
Por que nos passam a idéia, de que o presidente teria sido vaiado por jovens que lutam por mais professores e é, portanto, anti-democrático ou, como coloca a Veja on-line, "demoniza seus adversários"?

Senão, vejamos, onde você leu?

“O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro da Educação, Fernando Haddad, assinaram hoje (20) portaria criando 1.170 vagas para professores de 1º e 2º graus e 1.363 para técnicos administrativos nas instituições federais de educação tecnológica.”

Então joga no Google ["1.170 vagas para professores" + "1º e 2º graus" + Lula ] e compara com [Lula e Cabral se irritam com vaias no RJ].

Dá 6 por 374.

Reinaldo Azevedo, na mesma Veja, vai fundo: "Lula é dirigente sindical desde 1975. Poderia ter estudado. Mas sempre teve aversão aos livros. Acha que sabe tudo. Sua fala é um absurdo lógico." http://veja.abril.com.br/blogs/reinaldo/2007/08/lula-demoniza-os-adversrios.html

A mesma Não-Veja que financiou os tucanos:
"Dados do TSE mostram que Editora Abril, proprietária da Veja, financiou campanhas de candidatos tucanos em SP, entre elas, a de Alberto Goldman. Nada ilegal, mas não custa avisar ao leitor. Ajuda a entender a linha editorial".
Marco Aurélio Weissheimer
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=340ASP001

Lembro-me de um artigo de Marilena Chauí sobre o governo FHC e o Programa Especial de Treinamento (PET), da Coordenação de Aperfeiçoamento do Pessoal de Nível Superior (Capes). Comentava ela:

“Assim, um programa institucional com a tradição de 20 anos (...) com a avaliação positiva de especialistas não envolvidos em suas atividades, está destinado a ser extinto com a alegação de que seus custos são muito elevados (R$ 14.504.922,47) e que sua ação é elitista!

Isso quando, em qualquer madrugada, o governo federal despeja milhões num banco qualquer para "salvá-lo" ou usa recursos públicos para financiar uma ‘privatização"...


http://www1.folha.uol.com.br/fol/brasil500/dc_1_1.htm

Mas como surge essa classe média indignada, que, de modo tipicamente falso “Liberal” acaba defendendo acaba defendendo seu direito imediato e não seu direito mais amplo, porque vê apenas um lado da situação, uma verdade parcial? Da falta de circulação de idéias e da concentração de poder e renda (vide o poder de “CTRL+C” de todos os sites com a Agência Estado).

O capitalismo selvagem atual não consegue renovar suas fontes de riqueza, conhecimento e inovação, gerando novas trocas pela distribuição de renda. Com o excessivo peso no lado lucro, a suposta "liberdade", a sociedade se deteriora, a riqueza diminui.

Quem se lembra daqueles dados do Exame Nacional de Desempenho (Enade) 2006. , segundo os quais os acadêmicos estudam e lêem pouco?



- 43,6% dos universitários brasileiros estuda entre uma e duas horas por semana além do horário de aula

- 34% lêem no máximo dois livros por ano, excetuando os escolares

- 41,3% se informam mais pela televisão.


“A justificativa para a pouca dedicação à leitura e ao estudo está na falta de tempo dos alunos.

Segundo o Enade, 68,2% dos universitários brasileiros estudam à noite e 73,2% trabalham durante o dia.

‘É importante lembrar que o ensino superior brasileiro é essencialmente noturno, privado e pago”, segundo o diretor de Estatísticas e Avaliação da Educação Superior do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep/MEC), Dilvo Ristoff.” (Agência Brasil)


Acontece que estuda quem pode, paga (e de novo, e de novo) quem deve.


Lembremos o acordo FHC/FMI:

“No entanto, (...) a participação da União em Programas de Garantia de Renda Mínima e no Apoio ao Combate ao Trabalho Infantil, por exemplo, sofreu significativos cortes na versão final do Projeto de Lei Orçamentária.


O Programa de Renda Mínima foi reduzido em cerca de 80%, enquanto o Combate ao Trabalho Infantil sofreu cortes de 50%, impactando gravemente a Educação."”

http://www.acaoeducativa.org.br/downloads/fmirev.pdf


Sob a ação dos poderosos agentes "políticos", a democracia dos palhaços desinformados, todos nós, luta contra si mesma. Não precisava o "jovem e desprovido de consciência política", mas que existe, existe...

Castigas rindo e mordes


Foi surpreendente para mim ontem o tom das brincadeiras de Jô Soares com relação ao presidente. É o momento em que se sai de uma ironia ao excesso para uma espécie de crítica sistemática, o que dá a impressão de desmontagem da imagem, pela ridicularização quase próxima à mágoa.

Citando uma frase do presidente segundo a qual no momento que o mundo conhecer a cachaça brasileira vai abandonar o uísque, frase boba, mas parte da espontaneidade lendária do personagem, o apresentador comentou: “Ao contrário do que se diz, ele não entende nada de bebida”. Um silêncio pesado chamou a vinheta.

No debate com “as meninas”, ao elogiar o modo durão e ar de competente do ministro Jobim, aproveitou para completar “não sei se vai agradar ao presidente”.

Ainda mais algumas: “Não faz Pilates, mas fez-se de Pilatos, lavando as mãos”. E, comentando uma frase de Lula segundo a qual seus assessores não iriam ir até Washington a cada tremor no mercado, como teria feito o antigo governo, soltou o verbo sobre ser esse um comentário desnecessário e só adequado ao papel de oposição, etc, etc, etc.


O denso do comentário soou como se, mais que rir dos excessos e deslizes do presidente, estivessem escavando uma a uma das suas falas a procura de qualquer coisa que rendesse um comentário crítico.
Logo de Jô, de quem sempre aguardamos uma amplitude intelectual além de todo sectarismo. Tudo começou com o projeto de “classificação etária” na TV, pobre Austrália, país primitivo, que também usa...

terça-feira, agosto 14, 2007


"No vão da escada": Beckett com magia


A linguagem é a substituição do mundo. O formalismo modernista, pai do estruturalismo e avô do derridadismo, era talvez uma fuga do mundo complicado demais, depois que Napoleão subiu ao poder e estourou a Segunda Guerra. Os autores da guerra pareciam cercados por cinzas e ruínas. “Não vejo qualquer traço de qualquer lógica em parte alguma” – diz Beckett.

Foto de Fernando Pires.

O medo aos “sistemas” iluministas e nazi-stalinistas que propunham um cientificismo único, lógico, abria para a liberdade absoluta, o que deixou a nós, artistas, sem modos de entender o mundo político e econômico. Hoje, entre o “naturalismo” do mercado que prega bom-mocismo (no fantástico mundo TV, a vida como “posição credora” ou “posição devedora”), força de vontade individual e o totalitarismo dos modelos de ser que nos penetram, e a violência que ocupa o espaço de um Estado abandonado pelos ricos para montar a fábrica na Indonésia, lutamos para ver alguma lógica em algum lugar.


O que isso tem a ver com “No Vão da Escada”, do Grupo Teatral Falos & Stercus?


Acho que estamos, de algum modo, passando (se pudéssemos supor um certo movimento insinuado nessas contradições que somos nós) da idade modernista e pós-modernista para uma fase de realismo complexo (vide texto de Fernão Pessoa Ramos, hoje, na Folha, sobre documentários e narrativas na primeira pessoa) uma fase em que as conquistas são mantidas e se supera os excessos. (Recentemente vimos filmes sobre Berlusconi, a rainha e Lady Di, aquecimento global e a Guerra de Bush.)


Sempre gostei do trabalho do Falus (se é que me entendem), mas, assim como ocorreu com “Cassandra em Progress”, da bi-décade Terreira, acho que aqui texto, direção e atuação simplificam e ganham. Luciana Paz mostra que uma grande atriz está presente sempre. Quando falo grande quero dizer grande, pois ela humanizava as frases mais "contadas" do personagem e mantinha o olhar para cada pessoa do público. Também o trabalho com o corpo que marcou a trajetória do grupo é retomado em um movimento difícil e coeso.Marcelo Restori criou um texto beckettiano, falando do fim do mundo, um mundo sem portas, nada novo para esse grupo que luta por teatro inovador enquanto invade uma ala abandonada de um Hospital Psiquiátrico e lá se apresenta.


A geração que foi à rua no início dos anos 90 era marginal porque- diferente do que dizem os falsos liberais que tiveram o “pai” lhes dando proteção antes de “fazerem por si mesmos”- não dá para primeiro crescer e estudar para depois viver: a arte era (é?) lixo no mundo privatizado. O grupo jogou na cara do mundo (reconstruída) essa violência que é ter só FunProArte para financiar, o peso da cidade (o frio que vem do tempo em que se degolava inimigos) e nossa ultra-intelectualização, que muitas vezes vai de Derrida a Tchecov, mas tem medo do novo. (Marília Pera uma vez disse: "Sei como é o público de Porto Alegre: em um primeiro momento mais quieto, não reage tanto quanto o de outros lugares, mas no final é muito caloroso"- Zero Hora, 2ºC, 20/05/06)


Voltando à dramaturgia, achei um texto mais concreto e sensível do que, por exemplo “In Surto”, mais fragmentado e desesperançoso, e mais maior. Aqui algumas narrativas se juntam ao metafísico, suavizando a linguagem. (Gosto da comunicação "essaéminhavida", provavelmente ainda quero mais “o que eu fiz e por que”).


Nietzsche, Foucault, AIDS e Collor faziam parte de uma escuridão absoluta nos anos 90. Nada saiu de cena, mas soubemos fazer nosso espaço, afinal existe o Carnaval, João Gilberto e a Cidade Baixa (dizem que o gaúcho é bairrista, para quem é off-POA, significa Quartier Latin+Copacabana sem água). Esse grupo marcou a história de Porto Alegre por ir ao extremo, por ser puro fogo.


Agora sinto que é o momento em que as conquistas são valorizadas como poesia: sabemos nossos limites, mas sabemos o que somos e podemos. Começam a aparecer esperanças, dentro de um novo realismo.




Classe Média desesperada

Sim, eu fiquei 2hs esperando o avião em Guarulhos. Que drama! Um local limpo, amplo, envidraçado, com café, suco e cadeiras confortáveis (era só subir a escada rolante, mas teve gente, muita, que preferiu ficar sentada no chão não sei por que, vai que aparece a televisão).
Cinco dias depois do desastre, o Aeroporto de Cumbica normal, tranqüilo, vem um velhinho com uma mala, o repórter “pula” nele e pergunta: “como o senhor se sente?” (entenda-se: estressado, desesperado, a beira de um ataque de nervos). O velhinho apenas olha para os lados (tudo vazio) e pergunta “como?”

Entrevistei dois profissionais do aeroporto, um deles que há 20 anos lá trabalha. “Esse acidente não tem nada a ver com a pista. Decolam vinte aviões por hora. Qualquer um sabe que foi falha da máquina, mas isso significaria dizer que a empresa não faz manutenção.” E sobre os atrasos: “Todos sempre fizeram overbook, mas antes outra empresa arrumava esses passageiros. Agora todas fizeram ao máximo, faltou vagas.” Não seria óbvio?

Depois, no Salgado Filho, uma mulher vestida de executiva de nariz de palhaço. Lembrei de meu tio que sempre falou de atrasos em aviões, há décadas.
Na TV, um pai (compreensivelmente) confuso diz: “Meu filho foi sacrificado!” Pela ANAC? Uma senhora distinta, deitada no chão no Portão de embarque: “Nunca saí para reclamar nada, (um francês diria, mesmo, sem 68, sem auxílio desemprego) mas agora CHEGA!”

A mudança na malha aérea que o novo Ministro propôs vai “fazer o consumidor pagar mais” o segundo o JG. Os 40 integrantes do Movimento Luto Brasil (não foi fundado pelos familiares das vítimas) que "vaiaram o ministro da Defesa, Nelson Jobim, em frente ao Palácio Piratini, em Porto Alegre" (Terra) saíram em cadeia nacional, no maior Jornal do país.

Seguindo o JN hoje:

“A CPI cobrou da TAM por que não seguiu uma instrução da Anac de janeiro que recomenda o uso dos reversos no máximo, quando a pista estiver molhada no aeroporto de Congonhas. Para surpresa dos deputados, a TAM disse que nunca recebeu a instrução. (...)

Mais surpresos ficaram quando o presidente da Anac, Milton Zuanazzi, reconheceu, por telefone, que a instrução, publicada no site da agência, não tem valor porque não chegou a ser regulamentada.”

Alguém podia me esclarecer o que a ANAC pode fazer, na realidade? Ela pode bater na porta da TAM e fechá-la? O que significa “Não pode ser regulamentada”? A TV não quer esclarecer isso?

Se nosso país, é bom lembrar, está o que está é justamente porque, como um colonialista no Haiti, houve quem ajudasse grupos minoritários a tomar o poder e evitar a distribuição de renda que ocorreu em parte na Europa e EUA, e não porque a maioria votou em um barbudo operário em 2002.

***
Desesperadamente Fiel

Assistindo às primeiras cenas da mini-série que estréia amanhã, Donas de Casa Desesperadas, ficamos pensando o que a Rede TV trouxe de novo além das fofocas. O seriado se passa em um mundo de casas com jardim (Arvoredo), onde mulheres “desesperadas” cuidam das flores, dos filhos na piscina, jantam em salas enormes, etc. Muito bem, para se começar no ramo do entretenimento é preciso se valer do que já existe. (Hei, têm alguns dramaturgos brasileiros aqui!)

Claro que essa série é uma das mais inteligentes dos últimos tempos, porque a competição exigem sim qualidade nos EUA e a classe média que sai cada vez menos de casa porque alguém não pagou o imposto para investir na Bolsa e não temos segurança, precisa e adora.

Mas, convenhamos, qual a vantagem de se ter o mesmo seriado dublado? Você tem de olhar duas vezes para perceber que não é uma gringa e sim Lucélia Santos. Percebemos o quanto o modelo de família, homem, mulher norte-americanos se torna “global-normal”, quando nossos atores de 1,90 e malhados e nossas mulheres dos outros falam em português. Parece outro assunto, mas não é: é sobre alguns viverem NY-SP enquanto outros vivem favela-Tv aberta. Prefiro a Grande Família...

***
PS: Depois do fato, seguem as mesmas opiniões: ruas impecáveis, com postes antigos, meninos de sete anos em camisa social para ir ao enterro, mulheres em roupões no meio da rua segurérrima à noite vendo a mansão da amiga ser salva pelos bombeiros (você já viu uma cena assim no seu bairro?)... A série acaba fazendo pensar que existe um grupo de pessoas- talvez como a própria Gimenez, que parece passar o fins de semana em Nova York- vivendo sim naquele mundo "de plástico", em condomínios fechados em qualquer lugar do mundo, sem compreender o mínimo dos "surpreendentes" momentos como um ataque terrorista ou uma crise no mercado imobiliário fantasma porque simplesmente passaram tempo demais sem a realidade.
O que mais choca é a naturalidade das "piadas": chega-se a um enterro com uma cesta de pães de mel, toma-se café em bules de porcelana, leva-se grandes buquês de lírios na mão. O exagero das regras da Disney chega ao cúmulo quando, tendo por algum motivo sido gravado em Buenos Aires (equipe mais "entrozada com os métodos de produção" hollywoodianos? mais barata? autorizada?), uma atriz é forçada a fazer uma cena com um vestido de seda num frio de 3 °C (frio que toda a equipe comenta na festa de lançamento), outra fica nua um dia inteiro na cidade cenográfica. Se foi feito na Argentina (vimos isso antes em Chiquetitas, mas aí era ridículo sem comentários), por que esse calor Californiano?
(As atrizes, maravilhosas, souberam dar um jeito brasileiro no meio de tanta estética publicitária. Isadora Ribeiro disse que não assistiu os episódios para não copiar- e está mesmo uma das melhores.)
Onde está a mulher brasileira, solteira, trabalhando três turnos, presa no trânsito e com tendinite? A naturalização do padrão americano de ser rico. A síntese desse agradável clone foram os filhos dublados. Dublados mesmo! Vozes enlatadas como os motoqueiros do Casseta e Planeta, trocando sílabas. Isso que dá tantas normas para filmar, regras em contrato: técnica perfeita, mas não é a nossa.

sexta-feira, agosto 10, 2007

CRISE AÉREA OU CRISE ÉTICA DA MÍDIA?
A invenção da crise aérea - Marilena Chauí
...

"Do ponto de vista da operação midiáticapropriamente dita, é interessante observar que a mídia:

a) não dá às greves dos funcionários do INSS a mesmarelevância que recebem as ações dos controladores aéreos, embora os efeitos sobre as vidas humanas sejam muito mais graves no primeiro caso do que no segundo. Mas pobre trabalhador nasceu para sofrer e morrer, não é? Já a classe média e a elite... bem, é diferente, não? A dedicação quase religiosa da mídia com osatrasos de aviões chega a ser comovente...

b) noticiou o acidente da TAM dando explicações comose fossem favas contadas sobre as causas doacontecimento antes que qualquer informação segurapudesse ser transmitida à população. Primeiro, atribuiu o acidente à pista de Congonhas e à Infraero;
depois aos excessos da malha aérea, responsabilizandoa ANAC; em seguida, depois de haver deixado bem marcada a responsabilidade do governo, levantou suspeitas sobreo piloto (novato, desconhecia o AIRBUS, errou navelocidade de pouso, etc.);
passou como gato sobre brasas acerca da responsabilidade da TAM; fez afirmações sobre a extensão da pista principal deCongonhas como insuficiente, deixando de lado, por exemplo, que a de Santos Dumont e Pampulha são menosextensas;

c) estabeleceu ligações entre o acidente da GOL e o daTAM e de ambos com a posição dos controladores aéreos,da ANAC e da INFRAERO, levando a população aidentificar fatos diferentes e sem ligação entre si,criando o sentimento de pânico, insegurança, cólera e indignação contra o governo Lula. Esses sentimentos foram aumentados com a foto de Marco Aurélio Garcia ea repetição descontextualizada de frases de GuidoMântega, Marta Suplicy e Lula;

d) definiu uma cronologia para a crise aérea dando-lheum começo no acidente da GOL, quando se sabe que hámais de 15 anos o setor aéreo vem tendo problemas variados; em suma, produziu uma cronologia que faz coincidir os problemas do setor e o governo Lula;

e) vem deixando em silêncio a péssima atuação da TAM,que conta em seu passivo com mais de 10 acidentes,desde 1996, três deles ocorridos em Congonhas e umdeles em Paris – e não dá para dizer que as condiçõesáreas da França são inadequadas!

A supervisão dos aparelhos é feita em menos de 15minutos; defeitos são considerados sem gravidade e a decolagem autorizada, resultando em retornos quase imediatos ao ponto de partida; os pilotos voam mais tempo do que o recomendado; a rotatividade da mão de obra é intensa; a carga excede o peso permitido (consta que o AIRBUSacidentado estava com excesso de combustível por haverenchido os tanques acima do recomendado porque ocombustível é mais barato em Porto Alegre!); etc.

f) não dá (e sobretudo não deu nos primeiros dias) nenhuma atenção ao fato de que Congonhas, entre 1986 e1994, só fazia ponte-aérea e, sem mais essa nemaquela, desde 1995 passou a fazer até operações internacionais. Por que será? Que aconteceu a partirde 1995?) não dá (e sobretudo não deu nos primeiros dias) nenhuma atenção ao fato de que, desde os anos 1980, aexploração imobiliária (ou o eterno poder dasconstrutoras) verticalizou gigantesca e criminosamente Moema, Indianópolis, Campo Belo e Jabaquara.

Quando Erundina foi prefeita, lembro-me da grande quantidade de edifícios projetados para esses bairros e cuja construção foi proibida ou embargada, mas que subiram aos céus sem problema a partir de 1993. Por que? Qual a responsabilidade da Prefeitura e da Câmara Municipal? "

http://conversa-afiada.ig.com.br/materias/446501-447000/446655/446655_1.html

domingo, julho 08, 2007

Da Folha: Censura?

... Segundo o diretor do departamento de Justiça e Classificação, José Eduardo Romão, "inventaram um novo significado para censura, mais conveniente aos interesses que esses "críticos" representam"."
Será que, agora, devemos encarar como censura toda ação legítima do Estado que possa causar prejuízos à audiência do negócio, ou melhor, à lucratividade do programa?", pergunta, em texto enviado à Folha.
"As pessoas que trabalham na TV facilmente enxergarão a classificação indicativa tão somente como uma garantia fundamental contra a baixaria quando conseguirem olhar para as câmeras e ver, do outro lado, as necessidades e os direitos dos telespectadores que são crianças e adolescentes."...
São Paulo, domingo, 08 de julho de 2007, Ilustrada

terça-feira, julho 03, 2007

Festival CineEsquemaNovo 2007.

Numa noite pra lá de fria topei o desafio pra lá de doido de assistir uma maratona de filmes da meia noite até as 4 da manhã- uma pequena amostra dos muitos curtas, longas e filmes dos convidados exibidos do dia 25 de Junho ao dia 1º de Julho em Porto Alegre- e depois desafiar a névoa forte que era rompida pelos românticos lampiões amarelos da Andradas.

Aliás, idéia de acabar tão tarde devia ser adaptada: com alguns intervalinhos de 10 minutos e um bar servindo café, se tornaria uma agradável convivência até as 6h, quando a vida volta à cidade.

O Festival ocorre desde 2003, promovido pela Prefeitura, e enfrentou desde o início críticas as mais diversas sobre a seleção, a real experimentalidade dos trabalhos selecionados e outras.

O site do Festival se propõe a dar vazão a "Todos os suportes imagináveis, do 35mm e suas variações até uma produção feita em um telefone celular". Pelo menos no pacote que assisti, nada realmente me surpreendeu pela novidade, apesar de nada desagradar.

Preocupou-me um pouco o fato dessa produção artística parecer não falar muito do Brasil-Cão, pelo menos não nos temas tão mega-abrangentes como os problemas sociais e o trabalho, mas arte é arte e é melhor que um monte de roteiros socialistas pra inglês ver. Reflexo, talvez, do abismo que nos separa dos problemas "reais", vivendo dentro da "bolha de consumo" e do isolamento do artista contemporâneo.

(Vale lembrar que esta seleção foi para filmes de pessoas de alguma forma ligadas a organização do festival e que, portanto, não participaram em mostra competitiva).

De qualquer forma se o objetivo é "A SURPRESA, a EXPERIMENTAÇÃO, a CRIATIVIDADE e a INOVAÇÃO", como anuncia o site, pelo menos na mostra da madrugada, fico esperando mais loucura. Não que toda inovação deva ser obrigatoriamente "uma mosca na parede", claro. Acompanhe a minha premiação de 1 a 5.

**** SKETCHES, de Fabiano de Souza, RS, tem uma mistura de Bekett com Entre Quatro Paredes e conquista pela forma como o roteiro é montado, bem interessante. Um homem se encontra em uma cela branca, ou será o inferno? Vamos descobrindo seu passado. Fernando Kike Barbosa age com espantosa naturalidade nesse meio que não é o seu de origem -o teatro- e Nelson Diniz vai se soltando no docorrer da trama, para ganhar emoção no final. Sandra Dani - sempre impressionante em papéis de mulheres fortes e rancorosas- e Liane Venturella completam o elenco, com maestria.
***** A DOMICÍLIO, de Nelson Diniz, RS, conquistou meu primeiro lugar pela simplicidade e humor do roteiro. Bandidos confundem a casa de um moderno budista com a de um inimigo a ser apagado. Fico sempre chocado com a variedade e energia de Heinz Limaverde e contente em ver Álvaro RosaCosta, muito bom no dramático Boca de Ouro, como um ótimo comediante.

*** PEQUENOS TORMENTOS DA VIDA, de Gustavo Spolidoro, RS, mostra o cotidiano de uma sala de aula de classe média em Porto Alegre. É interessante, mas me pareceu faltar algo, pois um ensino onde todas as crianças são loiras e de olhos azuis parece estranhamente com a Suiça.

**** PORTO ALEGRE DE QUINTANA, de Fabiano de Souza e Gilson Vargas é um dos especiais feitos pela RBS para os 100 anos de nascimento do poeta. è sempre difícil conciliar o literário com o comercial -como falar para um público tão amplo como o da Tv- o que aqui foi conseguido com imagens poéticas.
De alguma forma, entretanto, fico em dúvida sobre a possibilidade e até a necessidade de se tentar "pôr em imagens" poemas; claro que a voz está na origem da idéia de poesia, mas acho um tanto complicado a rapidez da imagem poder acompanhar a reflexão do verso. Seria talvez mais adequado um documentário histórico, entrevistas ou quem sabe um mergulho alucinado em inovações, como em "A Pedra do Reino" (correndo deliciosamente perigo de não servir ao propósito do meio), mas o trabalho é interessante e delicado.

*** SANTA DE CASA, de Allan Sieber, RJ, é um desenho animado realmente carioca, baseado em conto de Aldir Blanc, divertido, mas um pouco longo talvez. Crônica despretenciosa. O cansaço da madrugada também começa a bater...

** GINÁSTICA, de Mariana Xavier, RS, é uma montagem com cenas de academia, música eletrônica e tal. tem um ritmo frenético, que acorda o espectador. Divertido.
** *COMO TATUA PELE, de Manga Campion, RS, mostra um ritual das ilhas alguma coisa-supomos- quando os jovens recebem tatuagens com aqueles "garfinhos", ao som de um locutor sádico que fala suavemente sobre a beleza. Justamente aqui se vê um pouco da badalada "inovação", pois as imagens da família volta ao mundo ficam recontadas com essa roupagem debochada.Bem criativo, mas bastante ocidental, já que cada louco tem seu motivo.

**** ASAS, SOMBRAS, BICOS E UNHAS DE SONHOS, de Beto brant, SP, é o mais inovador de todos, com imagens do quadro “Asas, Sombras, Bicos e Unhas de Sonho”, enquanto Kuta, pintor angolano exilado no Brasil, narra o poema homônimo de Pablo Neruda. Belíssimo.
***** O HORLA, de Igor Natusch e Marcelo Oliveira, RS, merece destaque pela idéia original -um conto de Guy de Maupassant- e pelo ator Rafael Régoli que vence sozinho os diversos estados do personagem oprimido pelo misterioso ser. Muito bom.

**** QUINTANA INVENTA O MUNDO (...com muito sono tentamos ouvir mais poesia), de Camila Gonzatto e Frederico Pinto, RS, é rico em fotografia, roteiro e montagem, seguindo a idéia de televisionar os poemas de Quintana. Dentro de um Hotel se passam várias cenas que remetem ao mundo de Lili, a menina do poeta. Criativo, dentro daquilo que já dise sobre o poema em imagens. Coragem, a madrugada já vai acabar...

*** É PRA PRESENTE, Camila Gonzatto, RS, traz uma delicada história de amigos em uma livraria. Bem narrado, merecem destaque a direção de arte, que recria o ambiente intelectual da cidade e a atuação de Sissi Venturin , como uma suave livreira. Só não entendo o que tem a ver com o esquema novo, já que não me pareceu de modo algum uma "experimentação".

*** OLHANDO O CÃO, de Eduardo Wannamacher, RS, é um making off do filme Cão sem Dono. Com depoimentos e reflexões ajuda a desvendar o universo melancólico, pós-industrial e intelectual- pessimista do filme, onde o protagonista parece perdido em um mundo em ruínas, e entre livros. Mostra o processo de criação do longa, baseado em improvisações e trocas com os atores. Morfeu, saia desse corpo!

* DIÁRIO DO VIRALATA, de Júlio Andrade, "só no" celular, é o mesmo processo visto pelos olhos do ator principal. Interessante mostrar o convívio e o processo do elenco, mas um tanto longo e "doméstico" para ser exibido.

** CLIMAX, de Gurcius Gewdner, SP, animação feita para o grupo goiano de rock de garagem MECHANICS, é curto e criativo. Basicamente paint brush animado, mas bem rápido. Acabou! Estamos em dia com a arte da capital e as três pessoas da sala saem na noite gélida, em busca de um taxi. Acabou! Estamos em dia com a arte da capital e as três pessoas da sala saem na noite gélida, em busca de um taxi. A espera também de alguma solução entre o experimentalismo metafísico vão e a linguagem agradável, mas que não desafia tanto.

quarta-feira, junho 27, 2007



Mais uma para minha coleção FOLHA X LULA...

Merecia capa?

Ai, mais um dia de Jô Soares, agora com a mega-conservadora Lúcia Hippólito, comparando a classificação indicativa com ditadura... Aquela tarjazinha pequena é o início do stalinismo? Jô, com todo respeito que tenho por você, que coisa mais exagerada...
Seria esquecer que o Estado é também a representação do público contra os interesses privados dos poderosos... Alguém esses dias falou em ONGs, que vão vigiar a imprensa. Qual a ONG que pode definir o conteúdo da Veja?

A situação é bem diferente de um mundo ideal onde os pais ficam o dia todo com os filhos regulando o que assistem - uma mãe amiga minha disse que mesmo quando ela proibe, as coleguinhas do colégio falam tanto que a sua filha se sente fora da sociedade...

Na Austrália o Estado até exigiu programas infantis em horário nobre, e isso não foi visto como ditadura, mas como defesa da maioria.
Um senhor amigo de nossa família uma vez disse, em almoço de domingo, enquanto desligava a TV: "Não dá mais nem pra almoçar com os filhos vendo TV..."
Interessante lembrar:

* ..."Aprovada a coalizão, cabe ao presidente integrar o partido ao governo', disse o presidente do Senado, RENAN CALHEIROS (AL), da ala que apóia Lula desde 2003. "

* ... "Os preconceitos da elite são refletidos pela revista. Além dos movimentos sociais, há quem relate que um dos bordões de Tales Alvarenga, atual diretor de publicações, em sua fase à frente da revista era: 'Não quero gente feia'.

Por gente bonita, referia-se não apenas a padrões estéticos de magreza, mas também aqueles ligados à cor da pele. Segundo colaboradores próximos, fotografar negros seria quase certeza de material desperdiçado. "
Dossie Veja -http://www.novae.inf.br/site/modules.php?name=Conteudo&pid=330

* ... "Na minha avaliação, o problema da crise está relacionado à falta de relacionamento existente entre os controladores de vôo e o comando da Aeronáutica.
Essa falta de diálogo, a quebra da confiança que há na hierarquia é que tem propiciado de um lado o preciosismo de por parte dos operadores, na operação do sistema, pressionando inclusive o comando da Aeronáutica e, por outro, na minha avaliação, uma falta de iniciativa por parte da aeronáutica para minimizar essa situação. "

Marco Maia, CONTROLADORES FAZEM A CRISE. EQUIPAMENTOS NÃO -
http://conversa-afiada.ig.com.br/materias/439501-440000/439633/439633_1.html

***

Depois dessa viagem pelo tempo, podemos pensar se não é verdade a seguinte notícia do Conversa Afiada...

Paulo Henrique Amorim – Entendi. A mídia se irritou porque o Lula deu certo.

Marcus Figueiredo – E ela dando certo significa a possibilidade de uma alternância de poder substituindo as velhas lideranças, as velhas oligarquias, a velha elite que sempre comandou o país e sem conseqüências drásticas. Apenas, evidentemente, uma mudança de rumo na política.

http://conversa-afiada.ig.com.br/materias/439501-440000/439982/439982_1.html

sábado, junho 23, 2007

O diretor inglês Luke Dixon esteve aqui em Porto Alegre com sua oficina Playing with Shakespeare, de 11 a 22 de Junho, em projeto do Departamento de Arte Dramática da UFRGS e do FINEP. Trabalhamos "Sonho de Uma Noite de Verão". Foi acompanhado dos excelentes atores Jean Pagni e Victoria Gillmon, ambos muitos simpáticos e generosos.

O que mais aprendemos com ele foi que trabalho significa diversão. Ele nos contou como Shakespeare tentava chamar a atenção de uma platéia de 3 mil pessoas, à céu aberto, que pagavam algo como 10 centavos para assistir comédias e tragédias em uma linguagem pouco conhecida para a época. os atores tinham de prestar muita atenção pois só recebiam suas falas e as "deixas". Resultado: tudo tinha de ser divertido.

Perder o ranço do século XIX, quando Shakespeare foi identificado com a mitológica visão de um classicismo movido a donzelas rimadas e tragédias solenes, era seu propósito. Disso faz parte também as traduções que, de modo geral, tendem ou a perder toda a rima, sendo traduzidas em prosa, ou simplificar totalmente os versos apresentando uma poesia banal, em geral feita não por poets, mas por estudiosos. O que acontece? Shakespeare parece ou chato ou simplista. Assim, tentei traduzir alguns trechos trabalhados.

Luke Dixon também incentivou bastante a subversão, com roupa de baixo, palavras indecentes e até um consolo de plástico. Tudo para chegar ao real sentido do texto- ou àquele que nos parece mais provável hoje- a flor mágica como o desejo sexual dos jovens, ardente, mutável, ilógico. Com direito às fadas dançando "funk" e dizendo "Chinelona!" para a rival de Titânia, a rainha das fadas.

Seu método dá ênfase à imaginação, ao despertar da criatividade no ator. Ou seja, um trabalho também individual e interno, mas quenão abandona o ritmo do coletivo ou o corpo. O que não deixa de ser um pouco diverso do que se está acostumado aqui no estado, muito influenciado pela corrente da Terreira da Tribo, um dos mais importantes e antigos grupos, que vai pela estrada de Artaud, Brecht, o dionisíaco, o ritual e a nudez.

Outra característica é o trabalho em cima da cena. Dentro dessa tendência de popularizar Shakespeare e trabalhar com a criatividade, os exercícios se dirigem para uma cena específica, como preparatórios para determinada função (ao invés de simplesmente abrir espaços de sensibilidade no corpo, como estamos mais acostumados por aqui).

Apesar de sabermos da importância do texto para essa escola, acabamos improvizando mais que o razoável, mas apresentamos um quadro bem variado e criativo de possibilidades de Oberons, Titânias e Bottons. Enfim, Luke nos ensinou a arte de ter prazer.

___

Algumas reflexões que pude fazer a partir da experiência me remeteram aos processos centrais de um evento cênico. Pareceu-me poder falar de quatro linhas de força, que colocamos heuristicamente.

1) Ação. Os atores são naturalmente seres que gostam de agir, ou o desejam. Até por nervosismo, se vêem obrigados a ocupar o espaço, a mover-se, a chamar a atenção. em geral gostam de subverter e de ver o retorno da platéia. Então, em primeiro lugar o evento cênico é sobre algo interessante acontecer. Esperamos ser surpreendidos. A primeira obrigação do ator é ser interessante.

2) Adequação. Entretanto, é muito comum percebermos em um grupo de atores quando o overacting atrapalha a encenação. Mesmo que precisemos de subversão, a ação não pode se tornar uma luta de indivíduos cada qual tentando chamar a atenção para si. Achar o equilíbrio entre explosão e respeito ao grupo, entre inovar e seguir a narração, entre ser critivo e ser generoso, é um delicado processo. Sempre percebi que o bom senso é uma das características básicas dos bons atores- falar no tempo certo, às vezes até subverter o texto. Na comédia bom senso é a base de tudo.


Uma das dificuldades maiores entre atores ultimamente (aliás, entre todas as profissões) é o trabalho em grupo. Como funcionar como um corpo único, sem parecer um balaio de egos procurando o holofote? Alguns exercícios de percepção do grupo ajudaram a trabalhar isso, por exemplo, quadros com os atores que se moviam em conjunto para criar outras cenas e o trabalho de espelho, em duplas e em grupo.
A oficina também foi sobre contar histórias. Fizemos inclusive um exercício de "escutar na escuridão", e, relacionando com Shakespeae, soubemos que sua época se falava "ir escutar uma peça". Talvez tenhamos perdido algo aí, quando passaos a "ver peças". Yoshi Oida nos fala, em seu livro "O Ator Invisível", de dois atores de kabuqui: um deles aponta a lua e as pessoas admiram o seu virtuosismo naquele gesto; outro aponta a lua e as pessoas vêem a Lua. "Eu prefiro esse tipo de ator: o que mostra a lua ao público. O ator capaz de se mostrar invisível", diz ele. O que está em primeiro lugar é a deliciosa contação, mesmo que seja um clima, um momento humano, um enredo sem falas.


3) Comunicação. A comunicação entre o grupo e entre este e a platéia é o verdadeiro objetivo da ação cênica. Entre o grupo isso significa estar aberto ao outro, ajuda-lo a expandir seu potencial, não criticar severamente, ter auto-estima suficiente para ir além da competição e dos papéis sociais que nos cobram produção, eficiência, correção, controle, força. Temos de a todo momento buscar essa comunicação, o prazer de estarmos juntos, a ponto de Grotowski chegar a dizer que, no seu grupo, tudo tratava-se de relações humanas. Em primeiro lugar é preciso acabar com o "certo e errado" e focar no "possível". Todo ser humano carrega um potencial de emoções, memórias e gestos capaz de usar em ações cênicas, e que podem ser potencializados com algum treinamento. Não se trata de julgar o outro, mas de acolhê-lo.

O público também deve ser acolhido. A peça não pode ser um ato de impor ao público uma bela arte, mas antes de usara reflexão do coletivo para dar a ele um texto que possa ser aceito. E ele é aceito quando fala algo que a todos interessa e com o que concordam. Assim o ato cênico é algo que "todos gostariam de ter dito" e cria um efeito de comoção. Passamos aos espectadores o sentido de que todas as pessoas são importants, e que estamos aqui e agora vivendo com eles uma relação humana.


4) Diversão. Aparentemente a diversão - além do prazer visual, sonoro e cinestésico- é tido como algo menor, abaixo da capacidade crítica e do senso estético. Mas sem ela nehum grupo pode sobreviver. A diversão pode ser até com o fato de sefalar de emoções profundas, causas sociais ou problemas que precisam ser debatidos. Essa característica significa também ter prazer com a própria conteção, por exemplo, um ator que tem uma veia cômica ligada a improvisação manter-se mais concentrado e introspectivo em determinado contexto.

Quando o ator como indivíduo perde essa capacidade de se divertir, de experimentar e de errar, se leva tão a sério que acaba entrando em jogos e poder- eu devo te agradar, inclusive querendo parecer informal, aberto e livre. A diversão pode ser mantida quando nos permitimos valorizar os outros e estabelecer com eles trocas criativas pressupondo que todos são interesantes. Quando estabelecemos essa comunicação além das hierarquies e comparações podemos nos divertir e o público percebe que ele também faz parte dessa grande aventura prazerosa e inovadora, ainda que a peça seja Hamlet.

Algo que considero fundamental é a generosidade. Significa desfazer o mundo como ele está, quebrar o medo e o autoritarismo do mercado. A competição da sociedade está minando nossa capacidade de criar e ser ator tornou-se ser "boneco" radical, falar frases de efeito para parecer rebelde e seguir todos os métodos antigos (principalmente a vanguarda, Grotowski e a desconstrução) para ser aceito e fingir para saber quem será o ator mais brilhante. Isso não tem nada a ver com arte.

quarta-feira, maio 23, 2007

JG

"... manifestantes também interromperam serviços públicos e tumultuaram o trânsito...

...A violência foi o método escolhido por manifestantes que tentavam, em São Paulo...

Um grupo radical de militantes – entre eles alguns ligados ao mesmo movimento que já invadiu laboratórios de pesquisa e atacou empresas privadas do agronegócio – tomou de assalto a sala de controle da segunda maior hidrelétrica do país, a de Tucuruí, com uma extensa lista de reivindicações. "
http://jg.globo.com/JGlobo/0,19125,VTJ0-2742-20070523-282732,00.html

CUT

"A campanha da Fiesp, com o apoio da OAB-SP e da Rede Globo é de que fiscal não é juiz. A CUT, a CGTB e o conjunto dos movimentos sociais estão aqui para dizer que o trabalhador não é empresa, que quer acesso aos direitos constitucionais e à CLT, e que não vamos admitir qualquer tentativa de extinção ou flexibilização de direitos", afirmou o presidente nacional da CUT, Artur Henrique da Silva Santos.

O líder cutista frisou que "é preciso que a sociedade saiba o que é a emenda 3, e parar isso é necessário que os companheiros se comprometam a fazer assembléia em suas bases, ampliar a comunicação e a informação".

A verdade, como registraram os manifestantes, é que a emenda 3 agride o mais elementar, o mais primário, o mais primitivo direito que um trabalhador pode ter: simplesmente, o de ser reconhecido como trabalhador. A emenda transforma o empregado da empresa em "pessoa jurídica", o chamado "pj", "empresa de uma pessoa só", prestador de serviço sem registro em carteira e, portanto, sem acesso a nenhum direito.

Ou seja, em vez de relações trabalhistas, teríamos relações entre empresas, onde não haveria mais patrões, mas "clientes"; nem empregados, mas "prestadores de serviço".

O problema é que uma das "empresas" é composta por um único trabalhador, colocado à mercê da outra, a quem é dado o direito de ignorar os direitos do trabalhador, pela negação de sua existência, ou seja, pela farsa de considerá-lo uma "pessoa jurídica".
http://www.cut.org.br/

sexta-feira, maio 18, 2007

Festival Palco Giratório do Sesc Porto Alegre

Desde quando a arte é apenas isso?
Vida, o Filme, é o meu favoritíssimo livro de Neal Glaber, jornalista americano, que coloca em foco a política do entretenimento, uma sociedade em que todo mundo se diverte e poucos governam.

A peça, Vida, o filme, do grupo "Os Desequilibrados" faz uma adaptação deliciosa do tema. Alguém disse que achou um besteirol. Não, na verdade é sobre o besteirol. É criativa a forma como essa nova e quase única "cultura" global - os filmes que todos vimos, o único assunto que nos une- penetra na cena causando choque, riso e reflexão. Tudo bem, tem gente que não vai entender, mas a arte vai salvar o mundo. Pelo menos não todo o mundo.

Sim, eles repetem a bendita frase "Eu sou Adam, príncipe de Etérnia" mil vezes.
Mas a brincadeira sobre realidade ficcional ou ficção real é retratada de mil formas inteligentes: num debate sem fim sobre filmes, tantos que já misturamos esses estereótipos todos, em um debate entre "Ficção-Nietzsche" e "Realidade-Platão", numa falsa cena de Beckett, num reality-show sobre ninguém, num telão mixando cenas real e fictícias, etc... Soluções técnicas interessantes, desde o palco nu, até luzes de camarim na roupa e um uso muito razoável do telão, como na seqüência "a- vida- é- um- clichê" do amor fracassado.

Os atores, Cristina Flores, Saulo Rodrigues, José Karini e Ângela Câmara brincam de modo consciente e dão o tom certo do deboche no pop.
Hoje, quando todos ainda querem fazer Beckett, e quando o movimento de Grotowski se tornou
um efeito mecânico sem alma, é essencial esse arejamento de cena e de texto. Salve e salve Daniela Pereira de Carvalho e Ivan Sugahara por escrever algo tão crítico e divertido.
O final, com uma música de Sandy e Junior, é hilário.
***
Macbeth, do grupo Amok foi recebido com entusiasmo pelos porto-alegrenses. Os textos clássicos são quase uma obrigação de se gostar no meio cult e Lady Macbeth é mesmo um dos personagens mais queridos, e mais atuais. Parece que será deputada.
O grupo usa um figurino deslumbrante, oriental, movimentos trabalhados, um som no palco que cria um ambiente mágico. Ainda assim o início da peça é lento.
Nosso ritmo hoje é outro e é um desafio nos clássicos manter a atenção do público. Numa era de compreensão imediata, Shakespeare precisa de um Dj.
Em alguns momentos não se entende bem o que os atores dizem, em especial o protagonista Stephane Brod, francês (vale ressaltar que sou português é bom, parece português).
Mas do meio para o fim- um pouco pela qualidade do texto de correr a ação após a coroação- a peça ganha ritmo e tudo chama atenção.
Então os elementos todos que o grupo traz- som, roupas, corpo- se unem e fazem um final dos mais interessantes.
Grande destaque para Ludmila Wischansky, a Lady. A direção poderia ter modernizado alguma coisa na sua atuação, que é a de um ator só em cena, mas a atriz tira disso o melhor.
A peça foi aplaudida de pé e é viva e interessante, mesmo eu achando que poderia ousar mais, principalmente na desnaturalização da ação e na velocidade.
Entretanto montar Macbeth de modo integral, colorido e sem nos deixar dormir é por si só um sucesso.

***
Esse Gota d´Água do grupo Breviário eletrizou o público de Porto Alegre. Apesar do erro técnico de não explicar que os lugares não seriam numerados, e de encher o teatro com mais pessoas do que as que poderiam ver bem.
Todo o elenco é protagonista e nos prende desde o início: a macumba ganha de cara a atenção do público.
O texto é o que é e os atores retiram dele toda a graça. Georgette Fadel é uma das maiores atrizes que já vi em cena. Sua Joana faz movimentos de umbanda e aparece como uma estátua da depressão na primeira cena. Suas últimas falas bombásticas com o fraco Jasão acabam sendo repetitivas, mas talvez seja um excesso do texto. Ficamos do lado dela, o tempo todo.
Algo incrível acontece quando os atores estão presentes. E, num mundo onde todos qureem agradar, alguém presente é cada dia mais raro.
***

Valsa n. 6 é o tipo de peça que todos querem ver. Uma clássico, uma ousadia dentro do teatro nacional.
Mas não basta hoje fazer algo correto. O corpo contemporâneo é dominado por movimentos de comprar, trabalhar, teclar e gozar. O palco exige algo novo.
O corpo no palco tem de se livrar da vontade de agradar. Tem a ver com ética, com abertura e generosidade para com o público e- se tiver- com o grupo. Porque a idéia mesma do ator é de se expor, expor sua fragilidade, e para isso vence suas resistências.
Infelizmente se faz hoje muito teatro para. Para fazer um clássico, para ser ator, para ser belo.
Marina Oliveira tem sensibilidade e, principalmente no final da peça, cresce.
Sentimos que ela ficou um pouco sem tempo, precisava de mais tempo para falar e para penar em cena sobre essa coisa esquisita que se chama Nelson.
O palco é outra vida do texto. Um texto que está em vida precisa de cores novas.
Valsa n. 6 agradou o público na sua estréia nacional. Mas esperamos mais.

***

quinta-feira, maio 10, 2007

Papa, palco e papa

"Vamos aclamar o Paaaaapa! Ele está descendo do papa-móvel!!!!"

Celebridade total.
Qualquer europeu ficaria envergohado de ver na sua TV essas pessoas dizendo "É um milagre! Viajei 300 mil quilômetros para ver esse santo!"

Fico um pouco assustado quando vejo essa histeria toda em 40 mil jovens no Pacaembu... Onde foi parar a "igualdade" cristã?

***

O Festival Palco Giratório ocorre aqui em POA logo antes do Porto Alegre em Cena. Para todo mundo que soube de outros estados e países isso é um ponto para a cidade, significa diversidade e aceitação do público. Mas vários grupos têm dito que "quem vai no Palco não consegue ir no POA em Cena..." Ou ainda: tenta-se uma inscriçaõ e não se consegue, nem por e-mail, nem por telefone...
Uma pena, quando o lado grosso do gaudério supera o bebedor de chimarrão em roda.

***

Por uma bênção do Bom Deus, está acabando a papa televisiva do Profeta: até a última cena dramalhão (agora com uma mãe morrendo do coração...)
O que levou a esse humor de caipira na lama (onde a coisa mais emgraçada era um cara falando Gizéli) temperado de "Deus nos deu um dom para fazer o bem" deve ser anos e anos de má educação pública e política comercial de jornal... Mas sempre tem a vida eterna...

quarta-feira, maio 09, 2007

“Agora o Papa desce as escadas! Agora o Papa entra no salão!”
10 minutos esperando subir no helicóptero...

Quando o comentarista Padre tenta explicar algo sobre o contexto, o jornalista- robot corta: "Agora o helicóptero decola!"

Segundo o comentariasta o Papa está desejando “estar mais junto das pessoas”. Bem, talvez por isso a Globo tenha escolhido esse tom bajulador, monocórdio, em que todo o Brasil se torna católico E praticante...

Nem de leve se pode pensar que a verdade é tentar estancar a sangria de fiéis, botar a Teologia da Libertação como fora da lei e a Globo odeie a evangélica concorrente...
De repente Ratzinger deixoude ser o conservador que assusta a todos nós, mais ou menos cristãos...

Seu discurso sobre a família só não foi mais tedioso porque contou com o apoio incondicional do presidente: o que significa? Que todos devemos voltar ao século XIX e viver uma vida toda juntos fazendo papai e mamãe para procriar?

domingo, maio 06, 2007

Desesperados padrões

Legal: vamos ter nossas próprias donas de casa desesperadas, em versão para o brasil da série americana de sucesso "Desparete Housewives".
Isso levante aquela velha questão: a Tv terá ainda menos espaço para criação inteligente?
Lebro-me de uns anos atrás um diretor comentar que tentou mudar um cenário de um sonho (que era ridículo na versão brasileira, pois, para começar, ninguém ia comprar pasta de amendoim na esquina) e quae foi processado.

Há anos vem o "perigo" de que as novelas (ruins, mas nossas) sejam substituídas sem volta pelas séries (ruins e deles). Claro, teoricamente o mercado está aí e ganham os mais aptos.
Mas se perde em diversidade...

Senão, dá uma olhada:

"Há, contudo, desvantagens na padronização. A filha da divorciada atrapalhada Susan, que no Brasil é Susana (Lucélia), vai à escola com saia de prega xadrez, malha com gola "V" sobre camisa branca, sapato de couro e meia curta, uniforme tipicamente argentino."

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0605200706.htm

sábado, maio 05, 2007

CM desaparecida...

Eu li essa nota em um jornal local:

"Permanece o mistério quanto ao sumiço de CM, a colunista do site Z, um dos mais lidos na internet. Seu carro teria sido achado no dia 2, na cidade de São Francisco de Paula, na serra gaúcha, mas a polícia não confirmou o caso. Um morador afirma ter visto um enorme adesivo da série House no vidro.

Carina havia desaparecido após transferir seu blog do Ig para o Uol. Os internautas, nervosos, levantaram a hipótese de que ela poderia estar sofrendo de depressão.

Boatos surgiram em diversos blogs sobre seu desaparecimento, inclusive um boato sobre seu envolvimento com o estilista Ralph Lauren. Outras fontes sugeriam que ela passara a ser investigada pela CIA, por ameaça a segurança nacional com ‘reflexões inapropriadas’, segundo um suposto relatório.”

Lembrei do boato que li na rede:

"Segundo se diz, os dois se conheceram em um evento promovido pela marca para os jornalistas brasileiros, no lançamento de seu novo perfume. Ralph Lauren estava trabalhando com a Disney para uma série de TV onde se ensinaria as pessoas a viverem felizes. Mas a mensagem subliminar seria bem outra. A série começaria com os personagens em férias em Miami dizendo: 'Então, cabe a nós acabarmos com os ditadores do mundo e possibilitar a todos entrar na Caverna do Dragão'.

A publicidade de lançamento, na TV, conteria a seguinte narração: 'você precisa de um cenário novo para sua vida: lojas. Você precisa saber usar essas coisas de cinema: colunistas. Crie sua vida como um desenho animado.' CM teria descoberto que o estilista tivera encontros secretos com elementos do governo americano."

Eu me lembrei de uma entrevista que vi da C no You Tube:

"Sabe, temos de nos defender contra a idiotice global. Será que todas as pessoas vão ficar iguais? os caras fizeram uma guerra de ficção, uma não, duas. A Union Oil da Califórnia está construindo um oleoduto ligando Turcomenistão ao Afeganistão.

No jornal The Guardian de 26 de dezembro de 2001, foram divulgados detalhes específicos de um plano de uma guerra contra o Talibã, que seria tirado da gaveta depois do 11 de setembro. O NYT de 26 de maio de 2007 diz que Clinton queria acabar com o Talibã para enfraquecer a influência iraniana na região".

Será que os caras pegaram ela?

quarta-feira, maio 02, 2007

Vamos matar Vinícius

Não sou um grande fã de Gal Costa, mas ela brilhou no especial Som Brasil Vinícius, uma pérola do bom mocismo que a Globo Apresentou em um horário de alta madrugada, depois de uma semana com divulgação maciça. depois de tanto anúncio, pensamos que podia abrir uma porta na programação de Ibope para algo de qualidade. Não mesmo.

Arriscar é coisa do passado. Fomos presenteados com Chico Pinheiro, um belo rapaz que deve ser apenas muito tímido, mas contou mornamente dois atos e, no terceiro, pareceu se comover, mas quase nada se ouviu. "Desafinado", se isso significou voz de sussurro amoroso, é pouco. Sua camisa punk-fina era o símbolo de tudo que foi esse show: um alternativo minguado.

Cris Delano e o grupo BossaCucaNova ou algo assim, apresentaram uma roupagem toda moderninha, que parecia pronta para empolgar, mas então ela soltou meia dúzia de "tik-tim-tá" e ponto. Parece que faltou mesmo aquecimento para todos, e só implacou também na terceira música, para dizer apenas "she doesn´t see" meia dúzia de vezes, com um Eddy Motta salvador da noite, sendo ele mesmo de novo, pelo menos original. Era “alternativo”, mas faz muito tempo.
A tal Tatiana Parra fez uma pequena apresentação, mas estava ótima. Algo aconteceu com essa nova geração, talvez seja Xuxa demais ou Mortal Kombat. Estão todos mortos.

Mas aí alguém lembrou que chamar a favela é sempre legal, e colocaram lá um grupo formado pelo bonito Terra Negra, o animado Pael da Rima e Criolo Doido, ou algo parecido. A roupagem rap funcionou bem quando cantaram Vinícius, só que de repente alguém puxava um "as pessoa não se falam/ e dizem que/ nem Cristo agradou/ todo mundo (mano!)/ saca só a rima/ você acha mesmo que é igual ao Salvador?" Bizzarro. (A graça da noite ficou com uma frase auto-irônica do Doido alguma coisa: "Só a arte pra me fazer vir aqui".)

Teve mais alguém? Ah, o filho do Baden Powell, ele também um belo e talentoso jovem. E foi isso.Ficamos com a voz sempre sempre Gal, só que com uma verdade que faltou no resto. Tristezinha verdadeira para dizer: "eu ameeei."

Por um lado, somos como que "educados" a gostar desse "gênio da nossa música", por outro a esterilizarão do "bom gosto" urbano nos dá a sensação de deja vú, de "de novo Vinícius?"
Até o cenário era dessa gélida modernice: raios que lembravam violão (raios!) e uma luz ambiente"lounge".
Muito chic, como os vestidinhos de estampa de vovó das gurias backing-vocal-almost-famous de Pinheiro.

Sem falar de uma Patrícia Pillar, claro, em panos coloridos, apresentando o non sense de "hoje temos Gal Costa" : "trizteeeeza não tem fiiiiinnnn", "rap" :"aí galera, o morro não tem vez!", "e Bossa NovaCuca": "pa-ra-ra-rááá!!!", "e como eu ia dizendo"....
Ficamos com a impressão de que nada de novo e autêntico se faz no Brasil, ou que não chega na TV, só o que é novo e (e fica) velho. Pelo contrário, um politicamente correto desagradável e comestível.

Algo como o "Novo Festival Brasileiro" de uns anos atrás que só tinha baião, rap e um cafona-MuitoProdutorBrasil. Festa estranha, com gente esquisita. Talvez seja a coisa paulista de ir sempre na mesma cidade e nos mesmos lugares, ou a nobreza carioca do "Tijuca music circus".

Lembrou um pouco o fato de não ter aparecido a morte de Elis no super super especial especial "Elis, a super rainha do rock", segundo o produtor porque "todo mundo já sabia dessa história desagradável", parecendo, entretanto, que estrela morrendo de overdose era "real" demais para os novos "deuses" e o público "médio". Será?

Respeito demais dá nisso.
A arte só vive de ressurreição, é sempre um “em potência”. O poetinha também é um gênio “em potência”. Infelizmente, Vinícius permaneceu bem morto.

segunda-feira, abril 23, 2007

Adeus ao Urso...

Em mais um furo de reportagem o Jornal da Globo acaba de mostrar o "mais divertido político do século XX", Boris Yeltsin...

Entre uma explicação inacreditável de que ele estava fadado ao comando porque na URSS uma vez é dos cabeludos outra dos caecas (não é piada!) e toneladas de imagens sobre um presidentes "capaz de fazer os outros rirem", foi falado da "maior rapinagem com empesas públicas" que deu lugar a uma "oligarquia".

Ai, ai, assim como a Vejam Só, a euforia da "capitalização" impede que se fale sério... é a nova política: feita de informações banais...
ajr

2-
É uma atrás da outra, na linha duríssima do JG. Quando parecia impossível ser mais neoliberal, hoje se ouve:
"a GM foi vítima de um coquetel de exigências trabalhistas" e perdeu a liderança mundial para a Toyota mesmo tendo demitido "70.000" americanos em 2006. Rapidamente se comenta sobre o fato da empresa japonesa criar carros "menores e mais econômicos" além de um modelo híbrido (elétrico-à gasolina) que agradou a nova mentlidade dos consumidores...

A culpa? "Custos trabalhistas..."
Ou seja, a visão é tão dura que não muda um centímetro, mesmo quando a relidade parece contradizê-la... Qualquer busca na internet mostraria outra coisa. Por exemplo:

"As grandes firmas nipônicas vêem-se mais como comunidades do que como propriedade dos acionistas. Esta comunidade compreende os acionistas, é óbvio, mas também os empregados, os clientes, os fornecedores e os credores.

Antes de maximizar o valor “líquido” – credo americano – os proprietários pretendem equilibrar o interesse comum da comunidade, a fim de assegurar o sucesso da empresa no longo prazo."


Crescimento sem ortodoxia, Sanford M. Jacoby

http://diplo.uol.com.br/2006-05,a1303

Ou querem nos esconder coisas, ou não quer fazer buscas... jornalismo....

- Ah, teve ainda a "CPI" do "caos aéreo"... e
"a reforma da educação proposta pelo governo é um consenso nacional (um elogio?)
blábláblá o PAC - que ainda não saiu do papel (ah, não, era só introdução...)

ajr

quinta-feira, abril 19, 2007

A forma errada de resolver um problema


Entradas sejam reforçadas, com guardas de segurança e detectores de metais: impossível ou eficaz nos centros educacionais que tentaram a medida.
Longas filas de espera para assistir as aulas, guardas com pouca formação, que muitas vezes são agressivos, maior sentimento de hostilidade.
Presença de seguranças quase decorativa.

Será que o fim da proibição do porte de armas de fogo, como sugeriu a "Liga da Defesa dos Cidadãos da Virginia" seria mais eficaz? Duvido...
O fato é que nosso assasino tem um manifesto.

- "Tão logo ele começou a ler, toda a turma começou a rir, a apontar para ele e a dizer, 'volte para a China"

-"Só existiam alguns que realmente perseguiam ele, eram maus, derrubavam ele no chão e riam"

-"Ele realmente não falava bem o inglês e eles faziam piadas."

Não seria o caso de se perguntar por que motivo os estudantes são tão infelizes?
Não seria preciso tentar evitar a competição, incentivar um convívio igualitário, tentar aproximar os "diferentes" numa sociedade cada vez mais multicultural?
Seria preciso rever a ética individualista e/ou dos grupos por classe?
Não, melhor mais estereótipos...

Zbigniew Brzezinski, ex assessor de Carter para Assuntos de Sugurança Nacional, em 1997 já recomendava:

"uma ameaça exterior direta de proporções verdadeiramente maciças e escancaradas". (Gore Vidal, 2002)

Lembremo-nos do "manifesto" dos intelectuais europeus, entre eles Salman Rushdie, segundo o qual

"O islamismo é uma ideologia reacionária que mata a igualdade, a liberdade e o secularismo em qualquer lugar onde está presente"...

Há quem discorde:
"A lógica desses críticos é que os americanos primeiro incentivaram governos ditatoriais seculares, que por sua vez sufocaram a oposição. Agora que os americanos começam a forçar essas mesmas nações a promover uma abertura política, o único movimento que sobreviveu com força para reagir foi o religioso."

http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2006/02/060224_islamismoocidenters.shtml

terça-feira, abril 17, 2007

Tiros, de novo...

Uma coisa que sempre me assusta nesses "crimes na escola" é a surpresa dos envolvidos. Um entrevistado atrás do outro diz: "Não compreendo..."

"O senador Jim Webb, do Estado da Virginia, disse que o tiroteio foi um 'ato sem sentido".

Uma vida "suave e saudável" de subúrbio como diz Luiz Fernando Veríssimo no prefácio do livro de Gore Vidal (Sonhando a Guerra, 2002). "(A Associação Nacional dos Rifles -NRA) é responsável por mais mortes de americanos do que qualquer inimigo do país".

Outra coisa incrível é a confusão e despreparo dessa Universidade, dessa polícia. Será que no mundo perfeito nada vai acontecer?

"Alguns alunos reclamaram que não foram alertados pela universidade até receberem um e-mail mais de duas horas depois do primeiro incidente.

Não foram feitos anúncios no sistema de alto-falante, disseram. O estudante Billy Bason, de 18 anos, disse: 'Eu acho que a universidade tem sangue nas mãos por falta de ação depois do primeiro incidente."
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/story/2007/04/070417_virginiashootingg.shtml


Tirando o Jabor, que conseguiu dizer que a "a razão é uma frescura francesa como escargot, se finit", e pregou que "loucura não se explica", esses horrores mostram as contradições que a sociedade não consegue esconder: Bush, financiado pela NRA diz que "Quando tais santuários são violados, o impacto é sentido em toda sala de aula americana e em toda comunidade americana".

Sempre me impressionou também a violência silenciosa de um mundo onde os "inteligentes" e os "ricos" são glorificados, a solidão dos estudantes, a competição, etc.

Segundo Ballone GJ - Depressão na Adolescência -

"Algumas pesquisas também mostram que cerca de 20% dos estudantes do 2º grau sentem-se profundamente infelizes ou têm algum tipo de problema emocional.

Talvez seja porque o mundo moderno esteja se tornando cada vez mais complexo, competitivo, exigente, e muitos adolescentes têm dificuldades para lidar com as necessidades de adaptação que se deparam diariamente. "

in. PsiqWeb, Internet, disponível em http://www.psiqweb.med.br/, revisto em 2004

Ainda:

“Os europeus se mostraram relativamente felizes e nenhum país ficou abaixo da nota cinco em termos de felicidade ou de satisfação com a vida. A pesquisa mostrou que a confiança na sociedade é muito importante”, afirmou Luísa Corrado, coordenadora da pesquisa na Universidade de Cambridge. (...)

“Os países com índices altos de felicidade também obtiveram os melhores níveis de confiança em seu governo, suas leis e sua sociedade”, disse ela."
http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2007/04/070417_felicidade_am.shtml
Hedonismo pós-cristão de "Roma"

Diz Contardo Calligaris na Folha dessa quinta, comentando a série de TV "Roma": "somos demasiado preocupados com nossa sobrevivência para sermos hedonistas."É verdade: seríamos hedonistas se não estivéssemos pensando em ganhar pra viver, em pagar educação, saúde e cultura, privadas, agora.

Nascí quando Madonna era a Nova Nossa Senhora.

Saturado, portanto. Prazer para minha geração é também servidão a produtos"mentais" de uma empresa...

O problema não é o prazer, claro (de que serviria a vida sem ele?) mas esquecer que participe você ou não existe uma estrutura no mundo, e alguém está decidindo algo sobre seu futuro. Sobrevivência significa: alguém não está cumprindo o que devia cumprir-seja o governo, dominado por grupos minoritários, seja empresários, com isenções de 900 milhões como a Gerdau, seja a ONU, no Iraque, etc.

"Somos higienistas, isso, sim. Mas não hedonistas." As nossas empresas querem de nós uma moral bem rígida, controle e produtividade. Roupas adequadas, aparência, para entrar no "mercado". Não se trata de um marxismo chato, onde primeiro vem a revolução, depois a vida, nem de catolicismo medieval, onde o sexo destrói o mundo, mas de lutar pela capacidade de entender a raíz do hedonismo sem paz.

O bom hedonismo, para mim, surge do prazer do convívio- com outros, com paz, com sexo.

O mau hedonismo é uma repetição compulsiva que esconde um medo e uma paralização de compreensão, ação, criação. "No logo", urgente!

Não se trata de uma moral cristã asfixiando a vida, mas de uma ética prática e diária de preservação e cuidado, quando nosso poder se tornou grande demais e nosso anonimato mútuo permite atropelar sem ver (quase me pegam esses dias!), queimar índio e atirar em 33.
(Um desses atiradores de 15 anos passou a vida toda ouvindo de seu pai "você é um perdedor, porque tira notas baixas- era depressivo- e quando matou sua mãe disse- "para você não ter vergonha de mim").

Podemos criticar a religião pela castração, mas uma educação para a sociabilidade fez e faz falta. Se não somos nada para ninguém- no ninguém da massa metropolitana- queremos nos sobressair pela competição, pelo exibicionismo, quremos roubar a atenção pela excelência compulsiva. Se ninguém me pára, eu posso tudo. Viva o hedonismo comunitário!

segunda-feira, abril 16, 2007

E-mail para uma artista...

"... Um artista nunca pode perder o centro, ou seja, a percepção do que realmente importa na vida, a delicadeza, o contato com as pessoas, a simplicidade, a ternura. Você sempre foi uma menina sincera, estudiosa e sensível.

Todos nós, artistas temos o desafio constante de desenvolver nossa sensibilidade e criar uma linguagem própria nossa, única, um canto autoral. Quando uma individualidade se forma, um universo se abre, todos percebem que podem mais.

Para isso, você sabe, temos de alimentar o espírito sempre, limparmo-nos da repetição e da distração ativa, tornarmo-nos maiságeis e mais sensíveis, com outros artistas, filmes, estranhos, poemas, gente nova, principalmente gente fora do nosso contexto. O que sente uma menina da Cidade de Deus?

Recomendo ardentemente Cartas a Um Jovem poeta do Rilke, pela questão da sensibilidade; qualquer coisa da gravadora Fayga Ostrower, que nos fala da arte como retomada do humano; Memórias, sonhos e reflexões de Gustav Jung, um relato da luta de "um homem consigo mesmo", e também Clarice Lispector, qualquer coisa... Um intelecto que é molhado e quente. Pensar ventre.

A arte, exige recolhimento, reflexão, pois tem de entrar para sair. Temos de vencer a barreira da máscara social, do querer agradar, para mostrar nossa fraqueza, nossa verdade, é só aí que pegamos o outro. A arte é, antes de tudo, uma postura ética perante a vida, um criticar, um propor. Precisamos ser ousados, pois o mundo nos exige, mas precisamos ter uma voz única, isso leva tempo mas é o único caminho- para dentro.

Semessa construção não formamos um eu, e tudo vai com a onda. Um artista só permanece se ele falar com um gesto inédito: isso significa, dobrar-se sobre si mesmo e o mundo.

Como as pedras ou as amplas paisagens, isso leva tempo, silêncio, espera. Um mestre da dança Butoh japonesa, Kazuo Ohno, veio a Porto Alegre: olhava no olho de todas as pessoas.

Eu vejo que você está lidando muito bem com todo esse barulho da necessidade de colocar-se, e sei que compreende o que eu digo. Dentro de você existe uma coisa verdadeira, e não deixe que o turbilhão faça lhe evitar o ato verdadeiro.

Eu não falaria isso se você não fosse uma artista. Uma grande artista, porque tem olhar.

Espero que perdoe esse meu lado conselheiro, mas me senti à vontade por compartilhar desse difícil caminho que é enfrentar nossos medos e por isso poder ter uma alegria verdadeira, que contagia o público.

À luta, companheira :)
! beijão enorme.
ajr

"Eu penso que há algo em comum entre a energia de nascimento de uma vida e a do nascimento do Universo. Existe uma força centrípeta entre mãe e filho , como entre o Sol e os planetas do sistema Solar. Tudo oque existe nesse mundo é ligado profundamente com o Universo. "

Kazuo Ohno
Kill Bill

Bem, começo minha saga pelo KB - que a Globo fez o favor de me entregar em casa- vendo uma moça usar uma caixa de cereais para lançar uma faca e ser morta por outra. Eu acho que a grande sacada para se assistir a esses filmes é estar preparado para uma "piada" ensanguentada atrás da outra, uma espécie de fecho pelo sangue de toda cena. Personagem é ação. Gente é figurante. Diálogo, ação, morte. Eu não estava preparado.

Se fosse apenas lixo, como Power Rangers ou filme de kung-fu, ninguém ficaria tímido para dizer que achou pretensioso e banal.

Mas vejam bem, não é siplesmente trash! É um diretor "brilhante" trabalhando com elementos da cultura de massa, que ele bebeu na mamadeira, é um símbolo cult da minoria chamada nerds-todo-mundo que sabe de cor os episódios da Jornada nas Estrelas. Claro, todos nós vivemos de seriados e novelas, isso que nos permeia de todos os lados. Não é pecado a diversão,
mas até a diversão merece um pouco de distanciamento.

O filme parece ser uma série de "referências", permeadas pela bela fotografia e um enredo frágil, mas didático, que corre fácil. Antes de ser uma originalidade em cima de elementos pop é mais um, sem muita novidade. A novidade é a roupagem "rica". É um filme, no fim, de imagens, um filme onde cor e contraste são o roteiro.

Como disse Michel Laub - BRAVO! edição nº 78 (março de 2004):

"Um certo esteticismo já dá o tom aqui: com sua ausência de referências políticas, reflexo do fim da era das ideologias, e sua dedicação à metalinguagem e às paródias, resposta ao make it new moderno, o pós-modernismo chegava às telas em larga escala. Cães de Aluguel se abstém de traçar painéis e julgar." http://www.bravonline.com.br/noticias.php?id=783

A cultura de massa deixa de ser culpada e passa ser a "cultura" de onde se tira a cult-ura. Um mundo sem trocas, sem grupos, mas com Tvs e internet. Quando não há como sair da redoma, você se fecha ainda mais nela. Uma incapacidade total de entender, relacionar, refletir, politizar, mudar... Adolescência eterna...

QT é o mestre das artes que parece conhecer todos os diretores, todos os filmes banais da história. Talvez seja só a mídia e os "intelectuais" querendo um "novo nome"...

Os filmes originais de kung-fu, têm algo de humor que é a velha fórmula oriental da harmonia dos opostos: é bom um pouco de açúcar no sal e um pouco de verduras na carne, pois eles se misturam e formam umtodo mais completo. Humor (sem graça) no drama é uma das coisas que mais me irritava nos animes no início...

Os "seriels killers" asiáticos, assim como os animes, são desenhados com um tamanho "deboche" que não se pode ter neles mais do que um rascunho zen ou uma máscara Kabuki: é a essência, mas caricaturizada, simplificada, tornada geometria.

Você não pode levar a sério, mas ele também não se leva a sério (sou cultura de massa, e ponto!)... (Ou talvez, na nossa cultura secular liberal, cínica, o que é aceito como "arte" por outros grupos seja impossível, como as cenas mitológicas de serpentes e homens musculosos do palácio de Saddam Hussein, para nós, horror kitsch!)

Mas Tarantino parece fazaer as coisas com ar de "arte" (nos EUA, muita coisa já foi levada á sério....) Ou, pior, assim como juntar milhões de sacos de lixo em uma esquina, não é simplesmente arte, mas "arte pós-moderna", explicada por Foucault.

A diferença para "Pequena Miss Sunshine" é evidente. Ele "vê de fora"... Cortar a cabeça de um membro da reunião, um braço, 450 galões de sangue falso, parecem uma piada ou uma reflexão? Não sei ...

Referências pop fazem parte de nossa vida no mundo-ficção, mas elas precisam- mesmo que desordenados, mergulhados no caos - de um material ético, crítico, ou caem na mesmice...

Talvez depois do 11 de setembro, a violência tenha entrado na vida cotidiana dos consumidores de entretenimento de forma a redesenhar a contúnua fagocitose do "marginal" pelo "estético"...

O diretor disse em entrevista a Bravo:

"Sempre gostei de filmes sobre vingança, da simplicidade deles, sejam westerns, filmes de kung fu, policiais, filmes de samurai, de detetive.Você estrutura o filme conforme a lista de desafetos que o vingador irá eliminar.
(...)

Na minha opinião, violência é aquilo de mais cinematográfico e divertido que você pode fazer num filme. Não agrada a todo mundo. E nem precisa. Mas, por mais que se discuta isso, para mim as seqüências de ação são as que mais se aproximam do cinema em seu estado puro."

http://www.bravonline.com.br/noticias.php?id=783

Se você vive a cultura de massa e reflete sobre ela, bom para você. Se você é cultura de massa, péssimo para nós...

quarta-feira, abril 11, 2007

Orgia, coro e populismo...

Revendo um ótimo site com entrevistas sobre teatro,
http://www.teatrobrasileiro.com.br/
deparei com a explosão do Zé Celso.

Uma pessoa totalmente consciente, percebendo tudo, o tempo todo.
Na entrevista ele fala da época da ditadura, de como criou suas peças, mostrando por que é tido como um revolucionário que fez Artaud e Brecht cantarem o tropicalismo. Quando ele detona a elite industrial e intelectual de São Paulo, "não estávamos educando o povo...", me lembrei do meu amigo inglês que acha os brasileiros pedantes e questiona afinal porque a USP é tão francesa e a Bienal by "Internacional"...

Dá o que pensar pensar que hoje quase ninguém tem coragem...
Há um mundo de cópias, cópias de cópias, e uma linguagem pessoal é raro...
Como diz um amigo meu, você vai ao teatro e vê o estilo Antunes, Zé Celso, Terreira, Butoh...
Não deu pra não copiar alguns trechos:

****


Folha - Exceto pelas drogas, os tabus contra os quais seu teatro se insurgiu foram destruídos. A família patriarcal não existe mais, a repressão sexual é tênue, o capitalismo é quase consenso. Você não vê o risco de estar arrombando portas abertas e, por outro lado, estar dando murro em ponta de faca?
Zé Celso - Não estão abertas. Eu sinto uma censura enorme.

Folha - Pelo lado econômico. Mas que censura moral existe?

Zé Celso - Mas é evidente. Nenhum banco vai financiar uma peça em que uma pessoa do público é ''estraçalhada''. Não faz.

Folha - Mas por razões muito mais econômicas do que morais.

Zé Celso - Não, imagina. Por que financia uma peça qualquer? A peça não existe, passa. Vai ficar a marca do banco. O importante é a marca, e a marca está ancorada numa visão tradicional. Existe uma censura nítida. ''Não, não condiz com a imagem da nossa empresa.'' E a imagem da empresa condiz com alguma coisa. Com uma noção de Deus, de bem, de ordem. E as pessoas colocadas, empregadas, numa sociedade em crise social como esta, é evidente que farão tudo para se manter. E isso implica acreditar que é eterna esta situação. E não é eterna.


Jornal: Folha de São Paulo. Domingo, 31 de agosto de 1997.
Cadernos: Mais! Pág. 5-4, 5-5, 5-6, 5-7 e 5-8.
Entrevista Concedida para Nelson de Sá e Otávio Frias Filho.

quinta-feira, abril 05, 2007

Des-controladores

Existe uma coisa que anda me incomodando faz tempo...
O estardalhaço da mídia sobre o caso "aeroportos" e o silêncio sobre a versão dos controladores...
Até agora não ouvi em lugar algum uma boa explicação sobre isso, parece que a TAM fez overbooking, mas não fica claro...

Senão vejamos: o Jornal Nacional de Hoje teve uma super manchetona de "depois de promover o caos no país..." e a ZH passou um mês com o tema na capa...
(Lula na reta? Pode crer.)

Alguém que leia isso daqui há alguns anos vai jurar que foi o pior problema de década de 2000...
Sei que isso envolve autoridade militar, e uma porção de coisas que não entendo e não estou disposto a buscar agora no google, mas quem sabe há mesmo trabalho extra, stress do vôo caído, ou baixa remuneração, etc... não ficamos sabendo nem de perto quais as reais exigências dos controladores. Será que uma máfia quer derrubar o país? É isso que se insinua, mas será?

E tudo acabou com uma revolta geral, com Lula dizendo "fui traído!" e simplesmente trindo quem ouviu a promeça de não punição.

O caso todo é muito estranho, mas mais estranho é a abordagem da mídia, que nos deixa sem nenhuma informação coerente ao mesmo tempo que insiste no assunto.
Parece querer dizer que a culpa é do Lula, mas obviamente isso insulta nossa inteligência, pois um presidente não governa tudo pessoalmente.
Não sei, só sei que fica a impressão de que algumas pessoas da mídia não andam a pé faz tempo, e tomam um caso sério, mas pontual, como a nova Queda da Bastilha.
Curtas: Inferno Tropical e a Cultura Popular
(já que alguém disse que blog tem de ter título!)

Acabo de assistir meu primeiro capítulo inteiro da novela Paraíso Tropical. Não sei se ela andou mudando de romance bahiano para cinismo urbano, mas achei muito bom. Uma prostituta que não quer voltar a dormir na praia, um pai rico que casa o filho gay, mauricinho que odeia a Lapa, etc.
Pelo menos é um refresco depois do catolicismo militante da "Páginas..." O máximo que a indústria do lazer pode chega rda crítica social...

***

Hoje ou amanhã (quem se importa) vai acabar a Amazônia. (A outra, dizem que é em 2081, e, com isso, eu me importo!) Bem entendido, a trama... constrangedora.

A idéia cafona de fazer um "floresta melhores momentos", em linha reta, mais reta que comercial de margarina... foi incrível ver como, de tão previsível, didática e estereotipada, conseguiam resumir em 30 segundos de comercial... Você assistia o capítulo e não havia nada, nada que fosse acrescentado... "Eu vou lutar pela liberdade" acho que ouvi alguém dizer. Um sacrifício total da forma, da sutileza, da inteligência do espectador... Os anos 70 vieram um dia, mas já era tarde demais...
Como já disse Carina Martins, a TV está mais covarde do que nunca, vide O Profeta (um moralismo alucinante, mas que ganha um pouco pelo enredo estruturado, um alívio depois de "Páginas" e "América", ainda que as falas sejam pobrérrimas, "mamãe, você não vai me deixar, vai?"...)

Mas Amazônia foi cansativa, pedante, positivista, um mar de água doce, se me permitem o trocadilho... Parece que entre o "agradar milhões" e o "cult TV- ainda podemos criar" ficamos tristemente com a segunda opção mesmo onde era um paraíso autoral... ai, ai...
***

Estou relendo com prazer Peter Bruke, Cultura Popular na Idade Moderna...
ele fala sobre o momento em que a cultura de elite se distancia do povo, Reforma, Contra reforma, e acabam os laços comunitários, festas, rituais coletivos, Carnaval e desperdício...
E não dá para não pensar o quanto isso se acentuou com o capitalismo industrial, dinehiro fazendo mais dinheiro e comprando mais "inteligência", tanto que agora há toda um cultura de vanguarda, com gente se "mascarando" de rebelde quando na verdade é pura conformidade, mediocridade e medo de não ser alguém...
Esses dias eu olhava o sinal amarelo e pisei a faixa, onde normalmente ficam carros estacionados, um carro enorme e prateado deu duas businadas enquanto vinha em minha direção, alucinado.

O cara estava com um olhar feroz, tipo "perdi 2 segundos, porra!!!!!!!!!!"

Vi, chocado, um vídeo da cantora (?) Tati Quebra Barraco em apresentação ao vivo na TV pernambucana, onde, quando o apresentador diz "mais uma Tati!" ela responde "Não, valeu!" e vai embora no mais...
É, adeus ao Carnaval...

ajr

quarta-feira, abril 04, 2007

Foram artistas, associações, jornalistas, todos dando "apoio" a Sobel. Mas o que significa um "apoio" desses? Ou se trata de um desequilíbrio momentâneo, ou foi cleptomania, ou... ouu... não, não pode haver "ou", afinal ele foi contra a ditadura... ou... não, não ele defende a tolerância... ou, ou... falei! foi um desvio de caráter, sim, porque falar em democracia não é vivê-la.

(E, naquela manifestação de 9 horas pela paz que ele participou com certeza havia muita gente fazendo pose de "classe média ofendida" que quer mais segurança, mas nunca pensou como e por que o governo não tem dinheiro, ou separa o povo feliz do profissional liberal feliz. )

Claro que essa seria a menos agradável, a que mais nos toca, pois será que todos nós temos um vilãozinho alí dentro, louco por Gucci e Louis Vuitton transviados? Será que somos assim tão precários?

Essa foi das pequenas coisas que mostram grandes coisas: alguém falou das pobres crianças que também roubam motivadas não por "desequilíbrio" mas pela sociedade (humm, o mesmo esquerdismo que odeia tudo que não vem da USP...) ; depois, que o próprio Sobel disse ser a favor da pena de morte (mas voltou atrás) e criticou o filme "A Queda" por retratar Hitler como um ser humano (o que é pior é que ele ERA um ser humano! Dormiríamos melhor se fosse um marciano!)
Então, constrangidos por termos sido pegos em nossa fraquesa, e solidários a um homem que teve uma postura ética a vida toda, só nos restaria um silêncio triste. Porque falar, às vezes, estraga tudo:

"Questionado, ainda de acordo com o boletim de ocorrência, Sobel negou ter pego a peça, mas, depois, chegou a se oferecer para pagar pela gravata antes de admitir o furto."

http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u133615.shtml
FSP, domingo, 01 de abril de 2007

"Na quarta, dez universitários de Guiné Bissau sofreram um ataque em um alojamento do campus da UnB, quando portas de três apartamentos que ocupavam foram incendiadas. O reitor, Timothy Mulholland, não associou o episódio à fala da ministra."

ÃHÃ... então a Ministra incitou o racismo ao dizer: "A reação de um negro de não querer conviver com um branco ou não gostar de um branco, acho uma reação natural, embora eu não esteja incitando isso..."
Sinceramente, a Folha parece perder todo o senso quando se trata do governo Lula... Que coisa!

terça-feira, abril 03, 2007

Fui assistir o último filme de Woody Alen, Scoop. Não sei qual teria sido minha impresão se não tivesse lido a bendita crítica no mural do cinema. "EntretenimentoX Cinema Cabeça". Bem, sentei na sala sabendo que essa era uma produção menor, uma derrapada do gênio, que muitos não haviam gostado... Prazer culpado, enfim...

Uma das coisas que me fez comprar o ingresso, depois da leitura, foi a conexão com "Assassinato em Manhatan", um filme em ue simplesmente tive de virar de costas para a tela, tamanho o acesso de riso...

A história é simpática, singela, lá está o falante americano agora como mágico. Mas não tem a mesma graça de "Assassinatos". enquanto aquele representava tão bem a briga de casal "sonhadoraX realista" este protagosnista masculino não convence com seu bom senso, apesar de tiradas engraçadas... sim, e ele tem graça suficiente para fazer uma cena no barco grego dos mortos, com Caronte e tudo .... (A mesma maravilha do coro em "Descontruindo Harry"...)

A grande graça é justamente essa, a arte como brincadeira, a liberdade de rir de si mesmo, de escrever "A tempestade" depois de ter escrito "Hamlet". dizem que o último espetáculo de Pina Bausch que veio a Porto Alegre foi criticado por ser pouco Pina Bausch, ser leve, divertido, despretencioso... é aquilo, hoje você compra uma personalidade consumindo os "artistas" do momento... deixem Woody tirar meleca do nariz!

ajr

quinta-feira, março 08, 2007

Um Passe de Mágica

"Em todo mundo surge, de vez em quando o desejo de matar, ainda que não a vontade de matar." Essa frase de Poirot em "Cai o Pano" surge como um brilhante resumo dos métodos da grande escritora inglesa Agatha Christie.

Existe um preconceito de fundo romântico que diz que todo livro que não falar de um eu ou dos
sofrimentos de um eu é bobo; outro, de origem modernista, que supervaloriza a linguagem, em
detrimento de o que dizer. Por eses dois motivos o livro de crime sempre é visto como um gênero menor, pois além de tudo gera um prazer real, com a sensação de caso explicado! Amargo para quem pensou sempre que a literatura era uma forma de ganhar status, pelo sofrimento até.
Ou ainda, o assassinato pode parecer aquele gancho fácil, muitas vezes utilizado em novelas, para criar um enredo que parece se sustentar pelo simples "quem matou?". Mas o que poucos percebem é que o texto, de 180, 200 páginas, não atrairia pela simples estratégia do crime. Aliás, em muitos casos, como os dois citados, o crime propriamente dito ocorre apenas em determinado momento no meio da trama. O resto é relações humanas.

Em "Um passe de Mágica" a escritora inglesa cria uma atmosfera de egos em conflito, onde a
ambiguidade humana está toda presente, onde todos poderiam ser e querem ser assassinos. Somos jogados em diferentes direções quando os personagens parecem mostrar uma nova face sempre. A cada página uma nova mudança torna tudo ainda mais desafiador. E, estranhamente, remete justamente ao uso da linguagem tão enfatizado pelo modernismo: quais palavras serão ditas e quais não, para criar esse clima de ambiguidade.
Suas observações críticas - até mesmo ridicularizando os personagens- levantam questões como o sistema das instituições psico-sociais, a rebeldia da juventude, entre outros, que formam o contexto, e aumentam o interesse, para o crime ele mesmo.

Também seria importante compará-la com o método de Sir Arthur Conan Doyle. Parece-me que Sherlock Homes sempre inclui algo que não estava a disposição do leitor que, com razão, sente-se um pouco traído. Então aquele lodo do sapato era das altas montanhas da Escócia? O que nos surpreeende é um segredo bem guardado, mas toda a descrição se dá no exterior. Quando, por exemplo, em "O vale do terror" e "Um estudo em Vermelho" há momentos de romance, isso se dá fora do enredo da história, fora da trama do crime.

A escritora ganhou a Ordem do Império Britânico, merecidamente, já que desvelou as redes de intriga em que estamos mergulhados. Aconteceu comigo de "lembrar" de diversos momentos de dor em minha vida ao ler "Cai o Pano". E, ainda, como diria Umberto Eco, temos a deliciosa sensação de que a vida tem sentido, entendemos melhor o comportamento humano.

Há muito o que se falar da técnica, tão clara no livro em questão, de te envolver com os conflitos humanos até que o crime pareça mesmo desaparecer, herança, quem sabe, de Jane Austen. Porém, esse breve relato é suficiente. Devo confessar que eu havia suposto o truque de "Um Passe de Mágica". Mas o brilhantismo da autora é esse mesmo: você lê até a última página.

ajr

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Bem, acabo de ler sobre a revista ex-gay! Curaram a revista Vênus!

Chegamos a um momento- momento de empresas globais de comunicação captando a atenção de milhões- em que falar, ainda, é melhor do que não dizer: o poder de penetração de um filme de mel Gibson de estragar corações e mentes é fenomenal...

Os argumentos - como o das guerras - ganham pela força simples da repetição...


Vide por Tino Monetti:

"Toda a história começa 13 anos atrás, quando a norte-americana Charlene Cothran, lésbica assumida e militante, resolveu criar a Venus, revista em defesa da comunidade gay afro-americana nos Estados Unidos. (...)


“Mas agora, tenho que sair do closet outra vez. Experimentei recentemente o poder de mudança que vem uma vez que o indivíduo se rende completamente aos ensinamentos de Jesus Cristo. Como crente na palavra do bem, aceito e sempre soube que as relação sexuais entre pessoas do mesmo sexo não são o que Deus pretendia para nós”, completou a editora."


http://mixbrasil.uol.com.br/mp/upload/noticia/4_149_58105.shtml



Quando a concentração de renda acaba em miséria de continentes inteiros (porta de entrada para a violência e terrotismos), e a super-mídia vende cultura cada vez mais menos, pois temos de agradar todos (videnovelas), a reação é religião de fanatismo.

Se a Igreja resolveu no século XIX lutar contra a modernidade (seja a individualidade, a abertura crítica, a transparência, o diferente, etc.) e retomar um modelo de religião medieval da fé pela fé, justificada pela Razão com R, podemos esperar que as pessoas abdiquem de sua vida para querer seguir regras simples e ter "O Simbólico", algo que liga as letrinhas num texto.

Ao invés da fé absorver a liberdade, retormar ao seu modelo ético de amor, mas sem pensar em regrar todos os modos de vida, reforça-se o terror simbólico contra o caos consumista.

Nada mais sintomático do que isso acontecer nos EUA onde, se a distribução de renda possibilitou troca cultural e riqueza de debates, a "esquizofrenia" simbólica explodiu pela força da "individualidade" empresarial em telejornais "publicitários", produção incessante de modelos universais, mídia conservadora e politicamente cada vez mais presa entre o preto do corporativismo anti-povo e o branco do militarismo anti-verde.

Um hedonismo sem ética do pôrno-pop (Britney Spiers era uma menina triste afinal, metabolizada por comércio de bunda) e um conservadorismo que pretende retroceder ao "vamos fazer por você", são ambos péssimas idéias.

ajr

Gente, o que aconteceu com a novela brasileira?
'Páginas da Vida' foi ainda mais inacreditável do que 'América'...
Eu confeso que quis acreditar, mesmo incomodado pelo excesso de "burguesia" da trama, mas vá lá, ver o Rio em Photoshop é bonito e saber das fofocas das pessoas é legal...

Eu gosto e não gosto do estilo Manoel Carlos, a quem muito respeito: o que gosto é a cronicidade (que às vezes descamba para a tragédia da gritaria sem explicação), ele relata o que vê entre amigos, parentes, etc; o que não gosto são os diálogos de supermercado (me dá duas caixas de leite) e lições de moral (temos de ajudar os pobres e não ter preconceito), além, é claro, do "leblonismo" ao qual me referi...

Algumas pessoas comentaram que o autor estava com problema na coluna, parava a todo instante para se alongar... Isso explicaria a criança que só serve para ficar o tempo todo odiando negros...
Pode ser: a verdade é que nesta novela somente as imagens do Rio convenceram... provavelmente tudo já foi dito por Carina Martins, mas há que se falar dos personagens...

A Sandra de Danielle Winits (mostrando que pode... atuar) foi um caso para Aristóteles descobrir: o primeiro personagem que chega em um lugar e começa e dizer coisas como "vocês não merecem minha presença, devia ter nascido na casa do patrão, eu tenho um marido casado e vou roubá-lo". Um personagem a procura de um autor, portanto... Danielle Winits está de parabéns, pois interpretou o própria falta de lógica, 2+2 são 30.

Lília Cabral se tornou um nome na história da dramaturgia televisiva, mas Ana Paula Arósio foi também liberta dos modelos de linda inocente que lhe prendiam. Pude acreditar nela, pela primeira vez. Pena simplesmente seu personagem não existir além de uma modernice que acabava boba.

Natália do Vale, maravilhosa, teve mais sorte, fazendo a dondoca violenta e mesquinha. Foi ela que mostrou o que é interpretar, ao lado de regina duarte, sim, com minúsculas coitada, esta, coitada, presa nos tais diálogos de café da manhã, coitada. E revira o olho, e mexe o pescoço, ai, estou apaixonada...

Caco Ciocler e Vivianne Pasmanter tiveram de levar um enredo para dois dias durante nove meses... Um problema geral do texto...
Aconteceu que os personagens perderam qualquer lógica, eu te amo mas não te quero... Ana Furtado, com sua personagem quero quero quero um cara que me odeia conseguiu algumas vezes igualar o personagem Sandra no quisito sou maluca-luca-luca e azar o teu. Freud, urgente!
O namoro do aviador e da artista plástica ganhou o prêmio "passeando pela praia e falando que linda lua". Inacreditável. Sônia Braga devia fazer aula de fonoaudiologia, leva uma hora para dizer eu te amo, e acaba com qualquer cena...

A cronicidade virou inutilidade, o enredo virou só motivo, os personagens simples figurantes de sentimentos rabiscados, mais de 100... Fica difícil tentar uma pós-escola de Frankfurdt tentando acreditar em cultura dos elétrons.

O contraste com "Vidas Opostas" é chocante: texto que mostra o contato com a realidade, subversão mostrando policiais envolvidos no crime, o lado do povo, etc., mesmo que eu ache a violência fácil uma isca fácil pra um suposto ibope que não veio...

Disse a musa da TV: "a opção narrativa é tão pobre, paupérrima mesmo, que mina as duas pretensões do folhetim – a dramaturgia e o merchandising social."
http://zapeatrix.blig.ig.com.br/

Infelizmente, apesar do respeito que se tem pela equipe técnica, o resultado foi um país das maravilhas do estereótipo com fios (reciclados) que não se encontram...

Bem, voltei a ler Agatha Christie e Sherlock para relaxar...
Nós que recebemos a cultura das corporações ás toneladas, ficamos na esperança de que possamos ganhar na mega sena ou ver um programa de qualidade. Às Lotéricas, gente!

ajr

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Mega-mensalão FHC

O Conversa Afiada de PHA está se destacando como um dos blogs mais bem contextualizados e informados sobre política. franco, claro, dando sempre dois lados... Um alívio ao mar de "dinheirismo" que toma conta até da boa velha mídia...

***
PRIVATIZAÇÃO DE FHC PODE DAR 12 ANOS DE CADEIA


Paulo Henrique Amorim

http://conversa-afiada.ig.com.br/materias/413001-413500/413345/413345_1.html

"O jornal Folha de S. Paulo, de sábado, pagina B4, “escondeu” uma reportagem de Janaina Leite...
....

Quem lê a reportagem assim, rapidinho, pode achar que isso se tenha passado no Governo Rodrigues Alves. Não, foi no Governo FHC...

A irregularidade foi na concessão de financiamento sem a análise adequada das garantias concedidas. Posteriormente à concessão do empréstimo foram realizadas outras operações, e renegociação e transferência de ações – tudo isso com prejuízo para o patrimônio público, no caso, o BNDES.

A operação original foi com a Light Gás – foi ela quem deu as garantias ao BNDES para privatizar a Eletropaulo. Depois, a americana AES adquiriu a Eletropaulo da Light Gás.
Quem lê a reportagem assim, rapidinho, pode achar que isso se tenha passado no Governo Rodrigues Alves. Não, foi no Governo FHC.

. Os réus são: Luiz Carlos Mendonça de Barros, Jose Pio Borges, Andréa Calabi, Francisco Gros, e Eleazar de Carvalho Filho.

Paulo Henrique Amorim – E o mesmo padrão de irregularidades, ou seja, conceder empréstimos sem as respectivas garantias se reproduziu mais tarde, depois da compra original, pela Light?

Exatamente. Foi mantido o mesmo padrão de irregularidade. Nas renegociações, o BNDES poderia ter exigido novas garantias. E não exigiu: continuou com aquele padrão inicial. Por isso, várias diretorias do BNDES foram denunciadas, porque tiveram novas oportunidades para exigir novas garantias na renegociação das dividas e não fizeram isso.

Paulo Henrique Amorim – Foi possível calcular os prejuízos que o BNDES teve?

Na época que foi feito o relatório o prejuízo chegava a R$ 3 bilhões. Além disso, por um longo período houve inadimplência. E porque esse dinheiro não entrava, o BNDES ficava sem esse dinheiro para financiar outros projetos. "