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segunda-feira, fevereiro 20, 2012

O viajante noturno

Nessa época, os campos ainda não haviam sido cercados. Eu estava na fazenda de meu avô, havia muito gado, um tanto solto, as charqueadas não se importavam com a qualidade. Uma noite, acordei com a correria de peões falando alto, meu avô dando ordens e minha avó choramingando. Eles me mandaram para cama, mas fiquei espiando pela fresta da janela. Alguém vira o “homem de preto” e meu avô dava ordens para vasculharem os arredores.

No outro dia, minha avó, um tanto contrariada, cedeu à minha impertinência: quem era afinal essa assombração?

“Dizem que um gaúcho que viajava solitário à noite, encontrou um menino índio com olhos vermelhos fazendo uma trança no seu cavalo enquanto ele dormia ao lado do fogo. Pensou tratar-se de alguma feitiçaria, mas o menino ria alto, dizendo que era uma brincadeira e perguntando se podia dormir alí para se aquecer. Como o homem não acreditava em assombração, deixou que o menino ficasse. Mas, enquanto ele dormia, aproximou-se e pôde perceber que, dentro da calça, logo no fim da coluna, o índio tinha uma coisa parecida com um rabo. Assim, não pregou o olho nem um segundo, até que o sono lhe venceu logo antes de surgir a manhã. Quando acordou, percebeu que estava no meio de um mato cerrado, e uma mati-pereira gritava nas árvores, parecendo ecoar de todos os lados. Ele ficou perdido assim um dia inteiro e, quando veio a lua, adormeceu. O menino de olhos vermelhos voltou e lhe acordou, oferecendo-lhe algumas ervas e frutos. Como estava com fome, comeu e acabou dormindo de novo. No outro dia achou a saída da mata e bateu numa tapera onde moravam dois velhos. Tentou contar-lhes o que lhe sucedera, mas sua voz não saía, apenas urros horripilantes. Os velhos o expulsaram e ele começou a vagar pelos campos à procura do menino, tornando-se uma assombração.”

Nesta noite, eu não pude dormir. Saí da cama na ponta dos pés. Resolvi ficar na grama do lado de fora da casa, com meu estilingue, fingindo olhar as estrelas, mas com a secreta ânsia de ver alguma coisa. Eu me cobri com um pelego e deitei sobre minha grossa capa de lã.

Acabei adormecendo. Sonhei que um homem barbudo me estrangulava e acordei em meio a tais gritos que a casa inteira veio me acudir.

Nunca mais consegui falar.


Afonso Jr. Lima

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O trabalho O viajante noturno de Afonso Jr. Ferreira de Lima foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição - NãoComercial - SemDerivados 3.0 Não Adaptada.


O Saci-Pererê é um dos personagens mais conhecidos do folclore brasileiro. Possuí até um dia em sua homenagem: 31 de outubro. Provavelmente, surgiu entre povos indígenas da região Sul do Brasil, ainda durante o período colonial (possivelmente no final do século XVIII). Nesta época, era representado por um menino indígena de cor morena e com um rabo, que vivia aprontando travessuras na floresta.

http://www.suapesquisa.com/musicacultura/saci-perere.html

domingo, fevereiro 19, 2012

Outro

Conversávamos pela manhã. Ele era simpático no início. Um pouco imaturo. Um dia, resolveu sair comigo. Pouco importa que fosse alucinação ou outro fenômeno.

Queria atacar as pessoas, não sabia se comportar. Foi criando situações impossíveis.

Não suportava calado as injustiças, queria ser igual a todo mundo, desafiava os arrogantes, queria mudar o mundo.

No fundo, quem precisa de todas aquelas coisas? Transtornava-o sobretudo a obrigatorieade de saber tudo para ser alguém, de nunca estar pronto. E o fato de tanta gente saber tanto sobre você, estar disposta a julgar e condenar. Você é esses outros que cada um cria.

Tive de começar a ficar em casa. A rua, a chuva, o calor, o trânsito, a multidão, o barulho, miseráveis nas calçadas do século XIX, tudo o perturbava.

Para fazê-lo parar, falava eu mesmo, de modo que comecei a descrever em voz alta o maior número de detalhes externos e internos que se podia imaginar. O guarda-roupa estava com um pequeno arranhão, o cartaz de filme caíra da parede, os vizinhos, janela fechada, foram viajar, a parede branca está com uma mancha, quando acordei pensei nas frases “rainha do infinito”, minha garganta doía, senti-me feliz, devo começar a empilhar os jornais que se acumulam (corrupção e assassinatos), tirei o pó do pássaro verde no cactus, se conseguisse aquele emprego poderia viver mais calmo, e mais cansado, os sinos tocam, os vizinhos já ouvem uma música irritante, o cão, preso, late, aviões, o sol entra pela janela. A banalidade era um antídoto. Meu amigo observava-me com ódio e começava a me assustar. Devia dar um fim a tudo isso?

Por que motivo aquela imagem tomara forma? O que senti eu quando um vulto passou no meu apartamento? Quando estava sozinho? Às duas da manhã, ele caminha pelo quarto.

"Tudo está certo" - tentava dizer a mim mesmo. Cantava um poema de Whitman:

"Da terrível dúvida das aparências,

da incerteza afinal de que possamos estar iludidos,

de que talvez a identidade para além do túmulo seja apenas uma linda fábula".

Olhava no espelho e podia vê-lo.


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O trabalho Outro de Afonso Jr. Ferreira de Lima foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição - NãoComercial - SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

quarta-feira, fevereiro 15, 2012

Condutor da noite

Não conseguia parar de lembrar. Os trilhos, meu amigo no líquido vermelho, a forma desesperada como seus braços se moviam, como tentava se mover, os gritos.

Por que motivo eu deveria ser o condutor que vinha depois, por quê?

Comecei a sonhar todas as noites. Ora ele gritava do seu lago de sangue, ora eu conversava com ele sobre o que poderia ter evitado aquilo.

- Mas por que motivo nós temos de vistoriar os trilhos com os trens em funcionamento, ele perguntava.

Eu acordava banhado em suor. Meus gritos despertavam minha minha, que mulher começou a se preocupar comigo. Passei a dormir na sala.

Agora já nem mais dormia, com medo dos pesadelos. Caminhava como um fantasma pela casa com um copo de água ou uma cerveja.

Tomava alguns remédios para ir ao trabalho.

- O cara que vinha dirigindo não teve muita opção. Não se pode ver a não ser coisas bem distantes. Ele abaixou os olhos para ler alguma coisa – era o que se comentava.

Uma noite, depois de vagar pela casa até o momento mais frio e escuro, decidi pegar o carro e dirigir até o local.

Eu poderia ficar observando os trilhos no resto de luar, o vento, qualquer coisa que apontasse para um significado. Poderia sofrer um assalto também, mas qualquer coisa, até o silêncio, eu imaginava, poderia aliviar minha mente enlouquecida.

Observava a pedra branca do céu e seus véus negros. Por incrível que pareça, acabei dormindo no carro.

Passei a fazer isso noite após noite. Fiquei até amigo do guarda noturno.

- Sabe o que eu não entendo, eu dizia – Por que motivo não se faz essa coisa toda de madrugada?

Ele foi gentil deixando que eu caminhasse pelos trilhos, horas e horas, sozinho, pensando em que deveria eu me apoiar para seguir em frente, como acordar num dia radiante se tudo era tão absurdo, até que eu retornava para casa e conseguia dormir um pouco.

Em uma dessas jornadas de notívago, eu estava saindo de um túnel, pareci ouvir um gemido. Fiz força para controlar meus nervos, mas meus passos começaram a acelerar.

Fiquei duas noites sem voltar lá. Ao mesmo tempo, uma curiosidade cega me afligia. Que som seria aquele, sinistro e misterioso?

Passei a andar em busca de algo sobrenatural, até passei a dormir na plataforma, esperando o dia amanhacer. Sentia minha mente se esfacelar – o sangue, os gemidos a escuridão, e agora os ratos e os uivos dos cães ocultos, tudo me transtornava.

Por fim, desisti de meu emprego, abandonei minha mulher – assustada e resignada - e passei a dormir durante o dia dentro do túnel, atrás de uma coluna e, o sol derrotado, saía com os morcegos para minha vida. O guarda me alimentava.

De alguma forma, a minha consciência é que fazia a madrugada, era eu que a conduzia.

Uma vez, já no meio dessa marcha de silêncio que tudo esconde, após uma tempestade, ouvi uma voz que parecia me chamar. Vi meu amigo caminhando nos trilhos. Seu torso era cinzento, seu rosto, sem olhos, suas pernas, de substância volátil.

-Venha comigo – ele disse.

Não sei mais que lugar é esse em que tenho vivido.

Um tipo de sol


Eles foram falar com o Secretário Geral. O homem tinha abotoaduras de ouro e usava medalhas.

- Veja bem, senhor – disse Elisa, bela, jovem, com seus olhos negros faiscando e os cabelos longos caindo pelo vestido de seda malva – a participação da população nas decisões do conselho de saúde é algo tradicional. Desde que meu avô chegou à Redução...

- Minha senhora – o nobre interrompeu – A senhora deve saber que a participação acaba no momento do voto. Não queremos rebeldes, anarquia, mas gente que trabalha, luta e ajuda o desenvolvimento. Temos especilistas, pessoas que dedicaram toda a sua vida a estudar. Por que motivo um bando de mulheres ou velhos deveriam interferir em temas tão fundamentais?

Elisa segurou sua raiva e sua irmã apertou sua mão.

- Esse aristocrata, esse hipócrita! - gritava pela rua.

- Acalme-se – Vanessa disse. Que se pode fazer? Além do mais, com esses bombardeios, esses ataques, a guerra é iminente. Não se fala de democracia em tempos de guerra.

Elisa lembrou-se imediatamente do irmão, falecido em um ataque à base avançada de V2. Fora a primeira vez que tivera uma séria melancolia, ficara na cama, sem comer por mais de um mês.

Quanta sorte de ter uma irmã tão inteligente e bondosa como Vanessa. Além de tudo, era uma pintora talentosa. Reuniam em torno de si um grupo de poetas, filósofos e reformadores, interessados em mudar a vida na Redução.

Foram passear no boulevard. Observava os seres marinhos dos dois lados do caminho, um polvo gigante pareceu mirar-lhe nos olhos, tocando o vidro. Havia um tempo, se dizia, que as mulheres haviam trabalhado fora, podiam estudar, podiam votar como os homens. Agora, somente na física teórica a mulher era admitida – diziam que sua criatividade ajudava esse campo. Mais um preconceito.

“Nora, temo entrar novamente em colapso” - ela pensava em escrever à sua amiga de infância- “é, talvez, covarde, ridículo e sem sentido, claro”. Mas desistiu, com medo de assustar a outra inutilmente. Nora e Elisa, ou, como as chamavam na escola, a rocha e o coral. Estudaram juntas a vida antes do Colapso, a vida animal, os Pioneiros, mitologias antigas e literatura. Ajudaram na restauração dos livros na Biblioteca Nacional, livros que sobreviveram. Nora era forte, corajosa, mas também sensível e tolerante e sempre incentivara a amiga a escrever. Elisa tinha dois livros de poesia, um deles dedicado à ela.

E, se a invasão se confirmasse? O que restava da civilização desapareceria. Ela e o marido – amado Leon – já imaginavam tomar pílulas fatais, pois seriam perseguidos por sua postura arrojada.

Elas agora entravam no jardim, anêmonas gigantes coloriam todo o mirante. Ela pensava que sua vida não tinha sido fácil. As mulheres podiam estudar caso pagassem o próprio estudo, e ela teve de desistir no meio da faculdade. Além disso... Preferiu fugir das lembranças.

- Que corais maravilhosos, como buquês roxos e lilases! Se tem algo que considero correto nessa mundo é termos adotado o nome desses bichinhos, Anthozoa.

Essa era Vanessa. Porosa a toda a luz, cor e alegria do mundo. Há muito o costume aceitara relacionamentos abertos. Mas somente ela podia conviver com o amante de seu marido como se fosse um irmão. Também, quem poderia resistir ao encanto do Cérebro?

Ao chegarem am casa, o choque. Sua mãe estava caída ao lado da banheira, um infarto. Elisa parecia em estado de choque, não conseguiu falar uma palavra em dois dias. Depois da cerimônia – os corpos eram colocados em urnas de cristal na rocha – o marido de Elisa sugeriu que ela fosse para o Campo, com Nora. Ele sabia que haviam tido um relacionamento íntimo há muito tempo, mas desejava antes de tudo ver a mulher feliz.

Nora morava em uma das 4 colônias ao redor da Redução, onde se plantava hortaliças e se cultivava frutos do mar. Tinha dois filhos, Haji, de 12 anos, e Mika, de 9, uma garota sorridente de lindas tranças azuis. Seu marido, militar, havia morrido deixando-lhe boa herança.

Elisa ficava brincando com as crianças – o jogo “que tipo”, onde alguém descreve uma cena, por exemplo, “hoje eu acordei cansado”, e o outro pergunta, “que tipo de cansado?”, até que o maior número de camadas, tons de percepção e emoções sejam decifrados. Depois, ajudava a arrumar a casa, enquanto Nora estudava física.

Adorava caminhar pelos campos com as crianças, vendo a vida animal nas piscinas, lagos e fontes. Um golfinho - Utah, parecia consolá-la toda vez que nadava com ele. Tinha de fugir do sedutor Treinador, que usava os elefantes marinhos como isca. Havia grandes plantações de flores modificadas e plantas ornamentais inteligentes e um bosque vigiado por medusas terrestres robóticas (MTR). Um grupo de teatro animava as tardes no parque central. Vez por outra entravam na região resguardada do mar vestidos com suas roupas com sonar.

Ela e Nora liam poemas no fim do dia, quando a luz era reduzida, e Elisa transcrevia trechos inteiros de livros, para se distrair. Tocava harpa.

- Por que você não começa um romance? Sempre achei que tens muitas coisas pra contar – dizia Nora.

Leon mandou uma carta. “O governo está aproveitando a ameaça de guerra para cortar os salários pela metade. Quer reduzir a educação pública – já pagamos caro pela luz, água, transporte, até quando poderemos resistir? Temo que haja distúrbios na cidade. Acho que seria bom ficares na Colônia um pouco mais”.

Elisa sentiu-se feliz até certo ponto, por ficar longe das neuroses da cidade. Mas acabou melancólica, perdeu todo o apetite, não se sentia forte para sair da cama. Nora passou mais tempo com ela, lendo longos trechos de romances e diversos poemas. Elisa pediu que dormissem juntas.

Vanessa estava procupada com ela: “Busque aquilo que gosta de fazer, minha irmã. Escreva. Sei que os pesadelos do passado, aquela terrível humilhação causada por nosso tio, ainda perfuram seu coração. Mas é um coração muito bonito, há beleza nele. Transforme sua dor em cores e sons.”

Mika veio na sua cama numa linda manhã. “Que tipo de sol?” - perguntava. Elisa beijou-lhe as faces morenas e a menininha sorriu. “Você e a mamãe se amam, não é?” - ela disse.

Depois saiu correndo com sua boneca nas mãos.

Nora estava na porta, havia ouvido. Elas sorriram. Podiam ser felizes.


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O trabalho Um tipo de sol de Afonso Jr. Ferreira de Lima foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição - NãoComercial - SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

segunda-feira, fevereiro 13, 2012

Na madrugada

Aquela noite eu estava um pouco agitado – comera demais, estava um pouco gripado e não conseguia ficar na cama, ora com frio, ora com calor. Por volta das duas da manhã, levantei. Na cozinha, abri a porta da área; percebi que a janela que dava para o corredor do prédio tinha luz. Quem estaria chegando essa hora? Com toda essa chuva?

Tomei meu copo de água, estava indo dormir, quando percebi que a luz do corredor acendeu novamente. Instintivamente fui até o olho mágico da porta observar.
Uma moça de camiseta branca, cabelo negro e tranças passou pela porta – recuei. Não tinha podido ver seu rosto, estava de cabeça baixa?
Quando eu mudara para um prédio antigo no centro de São Paulo, um mês antes, muitos amigos me consideraram louco. A região estivera muito violenta por um tempo, e os preços baixaram. Dizem que a Prefeitura havia parado de recolher o lixo e prover segurança com o objetivo de degradar a região – surgiam assim planos de “revitalização”, entregando à exploradores privados o direito de desapropiar, demolir, contruir e obter lucro.

Aquela visão despertou algum sentimento estranho em mim. O silêncio do prédio fazia tudo parecer mais esquisito. Ficaria ela no corredor, com todo esse frio? Deitei-me. Percebi que as luzes acenderam algumas vezes, como se alguém estivesse caminhando lá fora. Finalmente, dormi.
Eu acordei com um choro, ou talvez fosse a tosse de alguém. Dormi novamente e, dessa vez despertei com batidas em uma porta, seguidas de soluços, estes sim, de desespero.

O mundo dormia. O sono misturava-se com lembranças de casos terríveis: um ex-namorado matara uma moça por ciúmes; um policial fora baleado e sua namorada estuprada. Eu estava perturbado, talvez pela ideia de só eu estar consciente na escuridão, e tentava me convencer que, simplesmente, uma pessoa esquecera as chaves. Que houvera alguma briga dias antes, uma separação. Que o homem condenara a mulher a vagar por alguma traição. Onde teria ela ido morar?

Como não cessavam as batidas, cheguei a pensar em abrir a porta e chamar por ela. Mas quem seria aquela mulher? Poderia simplesmente lhe servir um chá? E se fosse realmente uma maluca, que houvesse ameaçado o próprio marido ou namorado? De repente, lebro que a vizinha havia comentado sobre uma briga violenta meses atrás. Preferi desistir. Por fim, dormi profundamente.

Aquela foi uma semana agitada. Trabalhando bastante até tarde da noite, esqueci completamente do ocorrido. Mas, uma noite, quando uma tempestade parecia querer varrer todo o cimento de sobre a terra, com um frio lúgubre, ouvi novamente as pancadas fortes em uma porta. Quem seria tão grosseiro de fazer isso depois da uma da manhã?

Abri instintivamente minha porta e olhei pelo corredor. Uma mulher estava de costas para mim, com suas tranças negras, encostada na parede. Eu dei um passo em sua direção, e algo me fez parar, meu sangue gelou. Ela estava virando e, por algum motivo, eu também olhei por cima do ombro, para a escada, como se algo estivesse atrás de mim; e quando mirei novamente, o corredor estava vazio. Desaparecera. Fechei minha porta com um estrondo.

Procurei minha vizinha no outro dia. No prédio, vivera uma moça presa pelo marido dentro de casa. Há mais ou menos seis meses, ela conseguira fugir. Voltara para a casa da mãe. O marido, inconformado, tentara ameaçá-la. Foi morta num suposto assalto quando voltava sozinha por uma estrada de terra.
Passei a dormir muito pouco, assolado por pesadelos. Uma semana depois, fui morar com um amigo.

A. Jr. Lima


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domingo, fevereiro 12, 2012

Matéria escura

Coloque seu protetor amiax – gritava sua mãe.
Ele queria desobedecer, mas lembrou de seu amigo, que ficou com queimaduras de segundo grau ao sair no sol sem roupa de proteção. Cada vez menos gente saía à rua. Pensou que, em algum tempo próximo, todos viveriam dentro de suas casas.

As construtoras globais haviam posto abaixo todos os antigos prédios, casas e áreas públicas, desaparecera a multiplicidade de atividades de outrora, restanto filas de altíssimos condomínios fechados que eram continuamente destruídos para se dar espaço a outros ainda maiores, com a possível expulsão dos moradores para zonas periféricas.

A namorada estava radiante, seus cabelos negros e seu sorriso muito branco, sereno.
Fez boa viagem? - e queria beijá-la antes que respondesse.

Para seu aborrecimento, o marido da irmã teria de dormir novamente em seu quarto. Lembrava do cara falando de matéria escura, algo que é 90% de tudo, mas ninguém explica, seria matéria diferenciada, energia intrínseca, transbordamento quântico, campo dinâmico de energia? E se, de fato, a maioria de tudo fosse o desconhecido?

Eles partiriam para a praia no dia seguinte.

Eu adoro ver a água, apesar de ser tão escura. No museu podemos ver como havia seres vivos lá dentro – dizia o editor de hologramas entusiasmado.
Sabe o que eu teria gostado? - de ouvir aquilo que chamavam pássaros ou dinossauros aéreos. Dizem que nas cidades havia aquelas madeiras com verde, que alí também eles faziam saudações ao sol! Por que fui eu viver nos dias de hoje – a moça sorria tristemente.

Para poderes comer salex em barras multi-vitaminadas – Fred-I tentou ser simpático, mas parece ter sido uma péssima ideia.

O homem ficava muito à vontade, com protetor de sexo, caminhando e roendo sua água destilada. Olhos negros, nervosos, profundos. Ele só queria desaparecer dentro de seu holomundo, quantas coisas para fazer – jogar na Bolsa, amantes, corridas, óperas, estava vivendo um amor com uma cortesã na França de Luís Filipe, onde jantava com Flaubert, e participava do movimento ecológico no século XX, contra as usinas nucleares, muito engraçado.

Augush simplesmente saiu pelado do banheiro. Gostava de conversar, o chato. Não tinha podido conhecê-lo muito, mas o fato de invadir seu espaço era suficiente. A irmã há muito havia cansado dele, parecia, e ficava quieta quando a mãe perguntava como ia o casamento. “Não sei, é como se não se conhecessem” - dizia depois para Fred-I. “Ele é um homem sensível” - ela dizia - “tenho certeza de que teria vivido bem em uma época menos exigente que a nossa”.

Na praia, entraram num holograma de mar, brincaram com um jogo infantil de passar por debaixo das pernas um do outro. A namorada não gostava daquilo. Sentiu-se péssimo quando sentiu reações involuntárias, saiu do programa alegando dor de cabeça. Os médicos vinham recomendando “tempos mortos”, ficar alguns minutos por dia com os olhos vendados para desacelerar o cérebro.
Foi com a namorada na casa de um amigo - como combinado, o outro deixou-os sozinhos - e lá fizeram amor.
Sabe, fui convidada para trabalhar no museu.
O quê?
É, viver o dia todo dentro da exposição, guiando os visitantes.
Fred-I estava tonto.
Vai aceitar uma vida sem corpo?
Eu sempre amei a arte. Você sabe, sempre quis descobrir novos mundos. Não aguento mais minha mãe, com essa mania de falar. O que será que ela quer de mim? Eu tentei ficar dentro do meu C, lembra, mas ela ficou histérica, chamou o neurex, achou que eu tinha uma disfunção.
E nosso amor?
Não seja idiota! Podemos gozar sempre que quisermos. Posso beijá-lo, tocar seu corpo, tudo, roboticamente.
Não sei.
Você se acostuma. O mundo não se acostumou? Quero dizer, antes havia madeira, animais, inverno, verão... E daí? A gente muda.

Nessa noite, Augush parecia dormir tão profundamente que praticamente abraçou seu companheiro de cama. Seria de propósito? O filho da puta seria transgozável? Por outro lado, podia-se jurar que dormia como uma criança. Sentiu nojo, depois tristeza. Depois seu pau cresceu. Seria a hora de tomar hormônios zero e acabar com essas forças primitivas?

Sonhou com música. Não a música pós-sonora feita de ruídos, música antiga, com voz e notas. Acordou enjoado, vomitou. Olhou pela janela, o frio da noite, o barulho da água escura. Comeu um tablete de água.
No outro dia, sua irmã havia desaparecido. Um bilhete estranho, “compromissos na cidade”, fez sua mãe comentar baixo: “Eles devem ter tido alguma discussão”.

O homem parecia não perceber nada disso e convidou o cunhado a visitar as rochas, onde se podia ver alguns cadáveres de madeira e ossos de baleias.

Augush não parava de falar sobre uma coleção de arte que havia visto, o artista conseguira representar todos os pontos de vista possíveis de uma tempestade. Como teria sido o tempo em que as tempestades eram pouco violentas e os furações raros? O outro não conseguia conter-se, deveria fazer como muitos, simplesmente pedir que desligassem as sinapses de emoção no cérebro? Viver entre remédios para ansiedade, para dormir, para acordar, para comer... Começou a chorar. O homem ficou perplexo, e o outro encostou sua cabeça nele. Timidamente, Augush abraçou-o.

Fred-I estava constrangido e passou os dois dias seguintes fugindo do cunhado, que parecia olhá-lo com simpática condescendência.
À noite, o homem gemia ao sonhar e gritou. Fred-I o acordou. Suava. Teve pena dele.
Vou viajar. Vou deixar tudo. Não posso mais viver assim – ele disse ao acordar pela manhã.
Para onde vai? - Fred-I sentiu o coração apertar.
É como se minha alma tivesse se perdido por corredores de chumbo, como se eu andasse sobre águas geladas e meu coração... - não podia falar mais.

Fred-I achou seus lábios e sentiu que queria algo que fosse belo. Sentiu um tremor por todo o corpo, como se uma multidão corresse na escuridão de seus nervos, algo novo, um animal com impulsos, olhos assustados, surgiam nas pálpebras relâmpagos - flores, plumas, rendas vinham à sua mente, caía num mar agitado. Era diferente.
Dormiram profundamente.
Quando acordou, o homem havia partido. Um holograma representava uma rosa.


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sábado, fevereiro 11, 2012

A Música Segundo Tom Jobim

Dorothy e Ella, remetendo ao belo filme de Nelson Pereira dos Santos sobre Tom!
Orgulho BR ;)





E tem ainda a mais melhor super de todas (fora Elis :)

Les Eaux de Mars - Georges Moustaki

sexta-feira, fevereiro 10, 2012

Paisagens

Afonso Lima – 2011



Acordo. Os pássaros me dão esperança. Ainda, tantos.

Os helicópteros me dão pânico e têm sons estranhamente confortantes.

O verde me puxa do fio invisível que desejo usar ao pular do prédio mais alto da cidade.

As hélices conversam entre si, olhando em lugar de Deus, conversam com o concreto, o horizonte levemente alaranjado, eu tento largar o sonho um tanto angustiado.

Pensar - e hoje, por quê?

Como continuar vivendo com traquéia e olhos úmidos no oceano de metal e pedra?

Mas a máquina também é vida. Ou são apenas homens poderosos que nos arrastam e as máquinas nos caem das maõs?

Conhecimento é poder e eu posso querer não saber.

Eu tenho de estar atualizada ou perderei alguma coisa.

A vida.

*

Somos tão sofisticados que perdemos o contato com as coisas mais evidentes.

Uma velha dorme na porta da minha casa com seu edredon vermelho. Frio.

Então somos movimentos mas as coisas pedem água.

Sofrimento em forma de pássaro atravessado por flexa. Qual é a moda agora, qual o dogma?

Os insetos magnetizados sobem a escada rolante, nova, brilhando. Imaginar vida para aquela pessoa, era como se ela realmente tivesse uma.

E não apenas uma blusa amarela com listas brancas, uma bengala, um fone de ouvido redondo com cara de anos 80, um livro grosso e sedução mexendo no saco.

*

Avassalador. Depois de ouvir os ruídos sua mente se amplifica, a geladeira do outro lado da casa esmaga infinitamente.

E, de repente, alguém fala ao meu lado. Estou cansada demais para entender. Para responder.

Pode ser meu amor, possível bom pai, trabalhador, que eu conheço de algum lugar. Pode ser eu, que não conheço e nem quero.

Meu desejo foi se afastando de mim e eu dele. Deveria foi pouco.

*

Eu produzo música a partir do ruído. Esse hoje foi o dia em que decidi subir no prédio mais alto da cidade e abrir a janela.

Só posso ver o monstro branco de uma imensa onda arrastar uma cidade é isso que eu vejo.

Cair passo a passo do 101º ruído do Itália - num mar de gente, que grita.

Então eu abria a janela.

Não era a voz cósmica desumana que engole - e sua poesia harmônica da eficiência - como o metrô.

Eu só sentia os pelos arrepiarem e as gotas frias excitarem meus nervos de mamífero.

Vários pedaços não faz uma vida.

Era apenas que para que se veja a realidade entender isso e sentir isso preciso de representação.

A soma das perspectivas de um bar nos dá o que a fotografia perfeita não dá. Nossa paisagem está escrita em ficção.

E, conforme eu caía, ouvia os movimentos da massa, algo de instintivo e gigantesco, intensidade que reconstrói as moléculas do cimento.

*

Eu sempre tive uma atração estranha por aquelas máquinas que trituram o lixo. 13 mil toneladas diárias e nenhum sistema digno de separação.

Então é isso, mistura tudo e vemos o que gera.

E esses homens sempre felizes, correndo e gritando, sempre vencendo e limpando nossas culpas, nosso virar mecanismo.

E um deles, na minha rua, era sambista. A rua está amarela da chuva da tarde.

Ele fundou a Escola e de vez em quando fazia barulho com a lata, entre o vidro e a xícara quebrada que aquela mulher deixou cair ao procurar desesperada um bilhete de amor ou uma conta a pagar.

E, de repente, eu transformava aquele triturar diário em sentido.

Quase um naipe, um sentimento mesmo de organizar.

E os sons mais diversos estão brincando de famílias, estão em combustão pelo espaço, dispersos, flamejantes, como uma partícula metafísica qualquer com seu emaranhamento intrínseco com outras - que está e não está pronta em relação em criação.

Fogo no Brás. Um ônibus foi incendiado por homens que passam fome. O governo favoreceu aqueles que lhe deram milhões em campanha. 2.600 favelas em São Paulo, que cresce.

E os pássaros cantam. Lata.

E tudo que eu posso ver é uma onda gigantesca que arrasta todos os meus sentidos, com sol, chuva, no amarelo, deuses helicópteros, o cachorro e paisagens de barulho e cimento.

Eu quero querer transformar tudo. E o que eu quero é apenas um silêncio aqui dentro.



Afonso Lima, SP Escola de Teatro - Experimento Módulo Amarelo - 2011 - produzido por Ailton Jose dos Santos, Andréa Fu e Alexandre de Matos

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sábado, fevereiro 04, 2012


Viktor Vasnetso e o tapete

Por algum motivo os russos quase empatam com os brasileiros nas estatísticas desse blog.
Se alguém tiver uma teoria, me avise ;)

(Ou pode ser um blogueiro russo clicando 100x nessa semana e deixando os irmãos sozinhos com -20 graus na manifestação contra Putin, hoje; ou pode ser que eles saibam que eu li "Memórias da casa dos mortos" nas férias e estou pronto a comprar uma casa na Sibéria - com minha própria usina termelétrica- com todo o Dostoiévski).


Então, uma pintura de Viktor Vasnetso, pintor russo. Talvez "apenas isso" seja pouco...


Viva a democracia de verdade, e não o que fizeram depois da URSS!

Eu sei, eu sei, os outros tiranos que vocês enfrentaram não conheciam o marketing!

Ou será que eles também eram fortões da "nova economia", "salvavam de crises"?


Se há uma coisa que sei, é que o 1% adora uma crise. Quando as pessoas estão desesperadas e em pânico, e ninguém parece saber o que fazer: eis aí o momento ideal para nos empurrar goela abaixo a lista de políticas pró-corporações: privatizar a educação e a seguridade social, cortar os serviços públicos, livrar-se dos últimos controles sobre o poder corporativo. Com a crise econômica, isso está acontecendo no mundo todo. Klein, Naomi)


Força amigos, nem o frio nem o enxofre de Mr. D. pode derrotar vocês!



Aleksei Navalny convocou milhares de russos para manifestações contra supostas irregularidades nas eleições parlamentares


"Eu gostaria de agradecer Aleksei Navalny. Foi ele quem nos uniu com a ideia: todos contra o Partido dos Trapaceiros e Ladrões".

A jovem usou a expressão que Navalny, bloqueiro mais famoso do país, criou para se referir ao partido Rússia Unida, do premiê Vladimir Putin. Preso e agora longe da internet, Navalny, 35 anos, ficou famoso na limitada blogosfera russa. Depois das eleições parlamentares de domingo, ele usou seu Twitter e seu blog para chamar "nacionalistas, liberais, esquerdistas, verdes, vegetarianos, marcianos" para protestar contra irregularidades na votação.


Mais trabalhos de Vasnetso:







sábado, janeiro 28, 2012

Veja a entrevista concedida à Folha de São Paulo na edição de hoje sobre o Pinheirinho e a questão das remoções no Brasil.

Ação no Pinheirinho viola direitos, diz relatora da ONU

Eleonora de Lucena
São Paulo

(...)

Estamos numa situação em que um projeto urbanístico, que é o da Nova Luz, tem como principal instrumento a concessão dessa área integralmente para a iniciativa privada. A viabilização para a concessão dessa área é entregar essa área “limpinha”. “Limpinha” significa sem nenhuma população vulnerável, marginal, ambígua sobre ela. E, no máximo possível, com imóveis demolidos, para permitir que se faça um desenvolvimento imobiliário com coeficiente de aproveitamento muito maior, prédios mais altos etc. E, portanto, com muito mais potencial de valor no mercado. Isso está diretamente relacionado ao modelo da concessão urbanística.

No plano urbanístico da Nova Luz, um dos principais princípios é liberar áreas dos imóveis e das pessoas que ocupam hoje, para permitir que essas áreas sejam incorporadas pelo mercado imobiliário com potenciais de aproveitamento maiores.

Tenho uma crítica do ponto de vista dos direitos humanos, da forma como tem sido feito. Como no caso do Pinheirinho: uso da violência policial e incapacidade de diálogo com a população. Mas também como urbanista tenho uma enorme crítica a esse plano da Nova Luz, que desrespeita o patrimônio material e imaterial ali presente. O bairro da Santa Ifigênia é o bairro mais antigo de São Paulo. É o único que ainda tem uma morfologia do século 18. Uma parte dos imóveis que está sendo demolida, supostamente interditada, deveria ser restaurada e reocupada. A ação é duplamente equivocada –do ponto de vista urbanístico e dos diretos humanos.

Como a sra. resume toda essa situação? É um processo de expulsão dos mais pobres?

Exatamente. Eu me recuso a chamar aquele local de cracolândia, porque foi um termo forjado pela Prefeitura de São Paulo. O fato de essa área estar ocupada por pessoas viciadas, que estão no limite da inumanidade, foi produto da ação da prefeitura, que entrou nessa área demolindo, largando a área, não cuidando da área, deixando acumular lixo e transformando essa área em terra de ninguém.

Isso é fruto da ação da prefeitura e não da falta de ação da prefeitura. Para depois chamar de cracolândia e depois constituir um motivo para entrar dentro dessa área derrubando tudo, prendendo todo mundo e limpando aquela área como terra arrasada para que uma ação no mercado imobiliário possa acontecer.

Estamos caminhando perigosamente no sentido da hegemonia do valor econômico da terra como único valor, desconstituindo avanços importantes que a sociedade brasileira fez no reconhecimento do direito de cidadania. Isso é muito perigoso para o país. Espero sinceramente que a partir da comoção do debate gerado sobre o Pinheirinho se possa reverter esse caminho.

O Brasil tem a faca e queijo na mão para poder mudar radicalmente de atitude. O Brasil tem recursos econômicos. Tem um ordenamento jurídico que permite respeitar os direitos.

O Judiciário tem que acordar para aplicar não apenas o direito de propriedade nos processos que envolvam conflitos de propriedade, mas também o resto do ordenamento jurídico que temos.

Os Executivos municipais, estaduais e federais também têm que rever a sua ação no sentido de obedecer isso. Temos recursos e temos uma base jurídica para poder recuperar esse caminho.

O modelo hoje beneficia os mais ricos?

É muito genérico falar dos mais ricos. É preciso ver quais são os interesses beneficiados e que não estão sendo beneficiados. Qual é a coalizão de interesses que está promovendo esse tipo de ação.

Temos que entender que sempre existiram forças conservadoras no país. Por que hoje elas têm mais força, mais poder? As forças progressistas abandonaram essa pauta e essa agenda e precisam retomá-las. Existem forças progressistas no Brasil.

http://raquelrolnik.wordpress.com/


quinta-feira, janeiro 26, 2012



Manifesto em defesa do Cine Belas Artes - atualizado - 122 assinaturas!

(PS: tiraram o "Desde 1952 da fachada - parece algo que já foi visto?)

Manifesto em defesa do Cine Belas Artes, patrimônio cultural, artístico e afetivo de São Paulo e do Brasil

Amparados na Constituição Federal, que inclui as “edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais” entre os bens que “constituem o patrimônio cultural brasileiro” (inciso IV do Artigo 126), defendemos o imediato tombamento do prédio da Rua da Consolação, 2.423, esquina com a avenida Paulista, onde funcionava o mítico Cine Belas Artes. Também demandamos das autoridades que lancem mão de todos os instrumentos necessários para reabrir o cinema, inaugurado em 1967 pela Sociedade Amigos da Cinemateca (SAC) e Companhia Serrador no mesmo prédio que antes abrigara o Cine Trianon, aberto em 1952.

Desde sua inauguração, o Cine Belas Artes manteve as características que demarcaram sua singularidade no circuito exibidor e tornaram-no fundamental para a cultura cinematográfica no Brasil. Ao longo de 44 anos, operou mais como um centro cultural formador de público do que mera sala exibidora, como atestam dois de seus aclamados projetos, o Cineclube e o Noitão, que, diferentemente das salas de shopping, promoviam uma atmosfera propícia à interação. Contou para isso com a preciosa contribuição de Ancona López, reconhecido internacionalmente como um dos melhores programadores de cinema e que teve Leon Cakoff como seu assistente.

Soube, também, adaptar-se à nova tendência de complexos com salas pequenas e médias ao transformar seu espaço no mais significativo multiplex de rua do país.

O Cine Belas Artes promovia a diversidade cultural e a reflexão sobre dramas humanos, história, política e arte por meio de uma programação com filmes de alto padrão, brasileiros e estrangeiros, inclusive com elevado número de obras-primas procedentes de países pouco presentes no nosso mercado exibidor. Desempenhava papel fundamental no circuito cultural das ruas da Consolação e Augusta e Avenida Paulista. Nos fins de semana e feriados, recebia, em média, 1.800 frequentadores por dia.

As filas se repetiam e lotavam suas salas também às segundas e quartas-feiras nas tradicionais promoções com ingressos mais baratos. Esse sucesso era favorecido igualmente pela facilidade de acesso a pé e por transporte público.
Entretanto, pressões do mercado imobiliário provocaram a suspensão das atividades do cinema em março deste ano. O fato recebeu ampla divulgação na mídia.

Frequentadores realizaram protestos na internet e na rua contra o fechamento e organizaram o Movimento pelo Cine Belas Artes (MBA). Centenas de depoimentos pró-Belas Artes, um abaixo-assinado com cerca de 20 mil assinaturas e adesões de quase 90 mil pessoas no aplicativo Causes no Facebook são apenas alguns exemplos do que é visto como uma das maiores mobilizações em defesa de um patrimônio cultural no Brasil.

Destacamos que este uníssono de vozes em São Paulo coincide com o movimento de resgate histórico dos cinemas de rua em curso no Rio de Janeiro, que contempla a reabertura do igualmente mítico Cine Paissandú (tombado em 2008), anunciada para julho de 2012.

Garantir o cinema de rua é valorizar um modo de vivenciar a cidade com seus bares, restaurantes, livrarias, as pipocas e as pizzas e os encontros com amores, amigos e conhecidos. É, acima de tudo, um exercício de cidadania – lugar de comunhão entre memória, cultura e afeto – que deve ser protegido e fomentado pelo Poder Público.

Movimento pelo Cine Belas Artes (MBA)

LISTA PRELIMINAR DE ADESÕES AO MANIFESTO PELO CINE BELAS ARTES



Alberto Bandone - cineasta 
Alexandre Stockler - cineasta
Aline Elisabeth Bronkhorst - estudante de Arquitetura e Urbanismo na FAU/USP 
André F.G. Neves - cineasta 
André Fischer – jornalista
André Luís Kakuta – estudante de Engenharia e Arquitetura
Ângela Beatriz de Oliveira Roman - jornalista
Anna Marcondes - presidente do Via Cultural - Instituto de Pesquisa e Ação pela Cultura  
Antônio Moura Reis - jornalista
Antônio de Souza Neto - síndico da Galeria do Rock (São Paulo capital)
Antunes Filho - diretor do Centro de Pesquisa Teatral (CPT) do Sesc
Benjamin Seroussi - curador e produtor 
Caio Plessmann - cineasta e diretor da seção paulista da Associação Brasileira de Documentaristas e Curta-Metragistas (ABD)
Cândido Malta Campos Filho - arquiteto e urbanista e professor da FAU/USP
Cao Hamburger - cineasta 
Carlos Guilherme Mota - historiador e professor emérito da FFLCH/USP
Carlos Reichenbach - cineasta
Caru Alves de Souza - cineasta
Celso Antonio Bandeira de Mello - jurista
Celso Gonçalves - cineasta e vice-presidente da Associação Brasileira de Documentaristas e Curta-Metragistas (ABD)
Célia Marcondes - presidente da Sociedade Amigos e Moradores do Bairro
Celso Luiz Lasarim - jornalista
Clarice Bagrichevsky - professora universitária
Cláudia Leal - diretora da Cia Daqui “Teatro para Todos na Capital Federal”
Cláudia Mogadouro - coordenadora do Grupo Cinema Paradiso e pesquisadora do Núcleo de Comunicação e Educação da USP (NCE)  
Cleo de Paris - atriz do grupo “Os Satyros”
Cunha Júnior - jornalista e apresentador de TV
Dalberto Adulis - coordenador da Associação Brasileira de Desenvolvimento de Liderança (ABDL)
Daniela Thomas - cenógrafa e cineasta
Danilo Miranda - diretor do Sesc/SP
Débora Castro - socióloga
Debora Duboc - atriz 
Denise Carreira - coordenadora de educação da Ação Educativa e Relatora Nacional para o Direito Humano à Educação
Edgard Carvalho - professor titular do departamento de antropologia da PUC/SP, representante no Brasil da cátedra itinerante Unesco “Edgard Morin” e ex-presidente do Condephaat
Eduardo Suplicy - senador (PT/SP)
Eduardo Tolentino - diretor do Grupo Tapa de teatro
Eleonora Figueiredo de Souza - consultora ambiental
Eliseu Gabriel - vereador (PSB/São Paulo capital)
Evaldo Mocarzel - cineasta e dramaturgo 
Eva Wilma - atriz
Fábio César Delmório - publicitário
Fábio Yamaji - diretor de animação
Fernanda Pereira de Souza - arquiteta e urbanista
Fernando Alves Pinto - ator
Fernando Henrique Cardoso - ex-presidente da República e professor emérito da FFLCH/USP
Fred Ghedini - ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo e diretor da Associação de Proteção dos Direitos Autorais dos Jornalistas Brasileiros (Apijor) 
Gerardo Fontenelle - cineasta 
Gero Camilo - ator e dramaturgo 
Gina Rizpah Besen - psicóloga, consultoria ambiental e doutora em saúde pública
Hélio Goldstejn - diretor de TV 
Henrique Costa – jornalista
Ivan Valente - deputado federal e presidente nacional do PSOL
Jane Casella - assistente social
Jeferson De - cineasta 
João Federici - produtor
João Signorelli - ator 
Jorge Rubies - presidente da Associação Preserva São Paulo
Jorge Mautner - cantor e compositor
José Osório de Azevedo - desembargador
José Otávio Lotufo - arquiteto e urbanista, doutorando na FAU/USP
Juliano de Fiore - sociólogo
Junia Sirqueira Soares - assistente de audio-visual 
Kiko Goifman - cineasta 
Laerte - cartunista
Laerte Késsimos - ator 
Laís Bodanzky - cineasta 
Laura Wie - apresentadora de TV 
Leandro Marques - radialista e cineasta
Lee Taylor - ator
Leonardo Castriota - arquiteto e urbanista, professor titular da UFMG
Lia Acona de Faria - arquiteta e urbanista, filha de Dante Ancona Lopez, lendário programador do Belas Artes
Lucia Helena Vitalli Rangel - diretora adjunta da Faculdade de Ciências Sociais da PUC/SP
Lucila Lacreta - diretora do Movimento Defenda São Paulo  
Luiz Paulo Gerbassi Ramos - arquiteto
Luiz Carlos Merten - jornalista
Maisa Moura - guia de turismo
Márcio Debellian - documentarista 
Maria Margarida Cavalcanti Limena - diretora da Faculdade de Ciências Sociais da PUC/SP
Maria Zulmira de Souza (“Zuzu”) - jornalista, idealizadora do programa Repórter Eco da TV Cultura e diretora da Planetária Soluções Sustentáveis
Mario Monzoni - coordenador do Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV
Maysa Blay - bióloga e ambientalista
Mouzar Benedito - escritor e jornalista
Nabil Bonduki - arquiteto e urbanista e professor da FAU/USP
Natália Santucci - designer
Newton Moreno - dramaturgo 
Olgária Matos - professora do Departamento de Filosofia da FFLCH/USP
Paula Arantes - consultora em turismo sustentável e fellow do programa Lead
Paul Heritage - produtor cultural e diretor de teatro
Paul Singer - economista, ex-professor titular da FEA/USP e Secretário Nacional de Economia Solidária
Paula C. Ferraz - assessora de imprensa
Paulo Cannabrava Filho - jornalista e presidente da Associação Brasileira da Propriedade Intelectual dos Jornalistas (Apijor)
Paulo de Tarso Chamon Schmidt - publicitário e jornalista 
Pedro Roberto Jacobi - sociólogo e presidente do Procam/USP
Rachel Biderman - consultora sênior no Brasil do World Resources Institute (WRI), de Washington D.C.
Raquel Rolnik - arquiteta e urbanista, professora da FAU/USP e relatora da ONU para o direito à moradia
Raul Teixeira - sonoplasta e coordenador do curso de Sonoplastia da SP Escola de Teatro
Regina Drummond - escritora
Regina Porto - compositora, designer de som, produtora e curadora de concerto 
Ricardo Ohtake - arquiteto e urbanista, diretor geral do Instituto Tomie Ohtake e ex-secretário de Estado da Cultura de São Paulo
Rodolfo Sant’Ana Gomes Álvares de Abreu - funcionário público
Rodrigo Faria - produtor cultural e cofundador do Movimento Ilha da Paulista (MIP)
Romeu Mizuguchi - estudante universitário
Rubem Barros - jornalista e diretor edtorial da Editora Segmento
Rubens Rewald - cineasta e vice-presidente da Associação Paulista de Cineastas (Apaci)
Sandra Maria Nunes - professora
Sandra Regina Cutar - socióloga e coordenadora cultural do Colégio Oswald de Andrade
Sara Silveira - produtora de cinema
Sebastião Milaré - escritor 
Sérgio Haddad - diretor-presidente do Fundo Brasil Direitos Humanos e socio-fundador da organização Ação Educativa
Sonia Barros - escritora infanto-juvenil 
Soninha Francine - apresentadora e ex-vereadora em São Paulo capital
Tania Ribeiro - jornalista
Tadeu Jungle - cineasta
Tatiana Theodoro Gasparini - estudante de Direito
Thunderbird - VJ, apresentador de TV, radialista e vocalista da banda Devotos de Nossa Senhora
Toni Venturi - cineasta
Vera Masagão - coordenadora geral da Ação Educativa e integrante da coordenação executiva da Abong - Associação Brasileira de ONGs
Vilmar Pellisson - designer e mestre em Desenvolvimento de Marcas
Vinícius Romanini - jornalista e professor de semiótica da ECA e FAU/USP 
Virgínia Murad - arquiteta e coordenadora da Fundação Centro de Defesa de Direitos Humanos bento Rubião 
Zé Celso Martinez Corrêa - ator, autor, diretor e líder do Teatro Oficina
Zuenir Ventura - jornalista 

terça-feira, janeiro 24, 2012

4.4.8
Para Raquel Rolnik, defensora da cidade viva.


Sampa você me espanta
Eu pulo aquela enxurrada
O pagode tá me enloucando
Um tiro contra o contrabando
A madrugada me chama

E tudo vibra, tudo inflama
Tem gente jogada na lama
Essa cidade se reconta
Nas barbas da ditadura
Nas dobras, muita gente ama

Nós somos daqui
Desse meio de tudo
A gente veio antes
(fugindo) da morte
A gente quer o mundo
Acreditamos na sorte

Querem te derrubar
Querem meter a mão em você
Entupir de cimento
Tem sempre uma boa conversa
Para a maldade construir
Para te esquecer

Mas que força esse canto
Do pássaro no verde e da Luz
Que deseja e nunca deixa
Esse ódio santo

Agora, ergue a cabeça
Multiplux_idade
Com noite, alegria, com passado
Derruba a tirania
Do fato acabado
Abre as asas e recria
O viver em igualdade


Afonso Lima, 2012

sexta-feira, janeiro 20, 2012

São Paulo, Cidade sem prefeito

Até o Augusto Nunes já sabe, meu Deus!



A Luíza está no Canadá- e quem mais?

O bizarro "novo endereço da sociedade paraibana" com "quatro suítes" apresentado por um colunista em um tom tão "familiar" que levou à mistura hilariante de "comentário" e "publicidade" diz algo sobre o Brasil, claro, e lembra outros "brizarros".

(Uma amiga diz no Facebook que ela cansou disso aqui, também quer ir pro Canadá - esse quase deboche da alta sociedade ajudou a bombar o tema :) O sucesso do bordão -até no Jornal Hoje - talvez se deva a essa sensação de que todo mundo ficou no Brasil - menos a Luíza. E os nobres. Vide Programa Brasil sem miséria.

Ainda: ouvi comentários sobre o programa Mulheres Ricas da Band. Uma delas quer ser a Barbie e leva a boneca na mão, numa cópia fiel da Bruxa Malvada da novela (o que era chamado de, antes de virar "barraco do dia"). Assisti cenas onde duas socialites querem ser alguma coisa sem fazer nada para isso. São também excluídas: elas também não chegaram lá!

Mas quem mais está com a cabeça no Canadá?
Todo mundo? Os políticos paulistanos limpando a St. Ifigênia e mandando os moradores de cortiços pra rua para entregar a área às construtoras? Resolvendo saúde pública com cavalos e agora fechando lojinhas e paredes?

Nosso Secretário da Cultura do estado (que iniciou o projeto "Nova Luz") e disse, no Estadão, sobre um cinema que recebia 1.800 pessoas por dia, "os cinemas de rua estão acabando em todo o mundo"?

Tem muita gente "no Canadá", talvez até com boas intenções, que acaba tendo péssimas decisões.
-
Melhores Imagens da Luíza!

http://www.paraiba.com.br/2012/01/13/20155-veja-as-imagens-mais-engracadas-falando-de-luiza-que-esta-no-canada-internautas-organizam-recepcao

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..." é preciso lembrar que a chamada “cracolândia” é produto da política municipal e estadual para o bairro da Luz. Onde existia um bairro, o poder público construiu uma terra de ninguém, demolindo uma parte e degradando a área. A Luz foi simplesmente abandonada pela prefeitura, que parou de recolher o lixo, de cuidar das ruas, da iluminação, fechou o shopping Fashion Luz, que gerava um grande movimento comercial, e com isso essa área, que ficou semi-abandonada, passou a atrair pessoas semi-abandonadas".
http://raquelrolnik.wordpress.com/2011/11/28/depois-de-degradar-a-regiao-da-luz-governo-de-sao-paulo-quer-se-livrar-dos-viciados-em-crack-da-area/

OAB SP PROMOVE MESA REDONDA SOBRE A CRACOLÂNDIA
Ações do documento
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17/01/2012

No próximo dia 26 de janeiro, às 10 horas, em sua sede ( Praça da Sé, 385), a OAB SP realiza uma Mesa Redonda sobre o crack e a cracolândia, com representantes do Tribunal de Justiça de São Paulo, Ministério Público, Governo do Estado, Prefeitura e Polícias Civil e Militar.


O evento é promovido pela Comissão de Estudos sobre Educação e Prevenção das Drogas e Afins da OAB SP e pretende analisar com profundidade as soluções e abordagens adotadas para vencer a preocupante e complexa questão da crack em São Paulo.

http://www.oabsp.org.br/noticias/2012/01/17/7606

quarta-feira, janeiro 11, 2012

Interessante.
Há um tempo atrás, ouvi do presidente da ONG Valentes de Davi algo como: ele chegava com dez dependentes por mês e o órgão da Prefeitura dizia que só podia internar 2. Sendo em média 700 o números de pessoas na dita Cracolândia...
Agora o governo anuncia uma operação no local: logo depois que os desmandos da Nova Luz (a velha corrupção estrutural) foram definitivamente aprovados liberando espaço para empreendimentos privados (sem estudar-se as sugestões dos moradores).
Ou seja, agora que o mercado imobiliário ganhou o processo, não precisamos mais de viciados para degradar a área e "tornar urgente" a "revitalização", como disse a urbanista Raquel Rolnik em evento no ano passado na CDL da Santa Ifigênia.
Vide:
http://amsi.org.br/site/a-batalha-pelo-centro
http://raquelrolnik.wordpress.com/2011/12/07/nova-luz-reflexoes-e-alternativas-ao-projeto-da-prefeitura/

- atualizando...

ESTADÃO ONLINE DE HOJE



Você está em Opinião

Fórum dos Leitores

19 de janeiro de 2012 | 3h 08
O Estado de S.Paulo


*
DEGRADAÇÃO URBANÍSTICA PLANEJADA

É muito suspeito o tal do adiantamento da operação policial contra os dependentes do crack, já que a data é a mesma em que a prefeitura espera licitar a concessão urbanística da Nova Luz para os agentes imobiliários lucrar com terrenos por valores irrisórios. Se haverá qualquer atendimento em março aos dependentes na amplitude necessária, veremos na data.

De fato, tal ação médica, assistencial e policial deveria ter sido feita desde que começou o problema de drogas no centro há uns 20 anos - e de forma continuada. Da mesma forma que existe a obsolescência planejada da vida útil de algumas linhas de produtos, nasce em São Paulo a nefasta Degradação Urbanística Planejada praticada pelos políticos em prol da especulação imobiliária e em detrimento aos direitos à propriedade e ao trabalho.

A dispersão dos dependentes de crack para a porta das casas e dos negócios nos bairros próximos significa a próxima etapa da degradação urbanística planejada que se desenvolve em São Paulo, através da omissão das administrações? Logo teremos novas concessões urbanísticas justificadas em sanar novas cracolândias – a exemplo do projeto Nova Luz? Logo teremos novas concessões urbanísticas para desapropriar outros bairros para os agentes imobiliários continuar a maximizar seus lucros?

O paulistano de outros bairros que equivocadamente festeja o projeto Nova Luz também terá, logo, logo, sua casa e seu trabalho desapropriados; e, aí, entenderá, talvez tarde demais, a necessidade de barrar as ações de Kassab e de Police Neto já. Paulistano, temos que clamar em uníssono os malfeitos deste executivo e deste Legislativo paulistanos que só agem em favor do mercado imobiliário, em detrimento dos direitos de toda a população da cidade.

Suely Mandelbaum, urbanista suely.m@terra.com.br
São Paulo

segunda-feira, dezembro 26, 2011

Um conto Steam-punk - Afonso Jr. Lima

PARTE 1

A ira

Aqui eu criei uma fábula steam-punk, de um mundo onde os vampiros dominam. Eu tenho um sonho.
Lorde Kevin

Eles haviam me colocado no cargo de primeiro-ministro de Gondal. Era assim que chamavam agora o Império. (As pessoas votavam essas coisas insignificantes... Compras, máquinas, shows... é a liberdade!) Também me chamaram de Azazel, aquele que ensina a lutar.

Com certeza o mito do vampiro romântico nos ajudou a criar nossa identidade. O Conde, Vlad Tepes, foi morto por um de nós para evitar que continuasse sua linhagem mostruosa e algo selvagem: percebemos antes de todos, a importância da sedução.
Se nossa história começara a ser divulgada no século XVIII com os relatórios dos médicos enviados pelo imperador austríaco às vilas próximas ao Danúbio e ao Morava, que confirmavam a suposta onda de ataques vampíricos, e mais tarde pelo padre Calmet, que, tentando criar um método crítico para analisar o assunto, fez, na verdade, um best-seller detalhado, coube a mim a maravilhosa missão de manipular um jovem médico vaidoso, em disputa com seu famoso empregador, Lorde Byron, e fazer com que ele usasse o homem para criar um modelo aristocrático, lascivo, de acordo com o desejo oculto dessa sociedade hedonista em vias de abandonar a carolice. Eu criei minha lenda.

Agora um novo Azazel (porque este era também o nome do “bode expiatório” do Levítico) parecia estar surgindo. Era um rapaz inteligente, que adorava latim e grego e começava a reunir membros da sua comunidade. O governo havia decidido “revitalizar” uma área da cidade. Ficava fora do cinturão das ferrovias, que embelezavam o centro com colunas de bronze galvanizado e arcadas transversais. Mas era próxima o bastante para atiçar a cobiça. Na verdade, ela havia sido degradada (foram mesmo fechados alguns bares e festas) de modo que, deserta, se tornasse morada dos viciados. Assim o governo pretendia remover os moradores do local e dar direito a empresas amigas de ganhar com as novas construções.

Nosso Azazel foi procurado uma noite pela Condessa Z. Ela tinha a mesma idade de Vlad e havia se mantido afastada, considerada até mesmo louca pela nova geração de não-mortos. Ninguém poderia acabar com a Condessa sem levantar de suas tumbas Os Anciãos, que ficaram quietos até mesmo com o fim de Drácula. Eu enviara um espião obour para ouvi-los, através do qual eu via a cena.

- Não tema. Sou uma vampira decidida a ajudá-lo. Isso já foi longe demais. Eles o chamam de Azazel. Eu conheci o verdadeiro demônio Azazel e posso assegular-lhe: ele não é parecido com você.
O rapaz tremia na rua deserta.
- Você já deve ter ouvido falar da lendária cidade de Angria. Ela não é história para assustar crianças, nem, como dizem, uma cidade-manicômio. O povo está já insatisfeito, pois lá a dominação foi mais implacável.
O rapaz olhava para a bela vampira, que aparentava quarenta anos, com misto de pânico e atração.
- Ouça. Esse poder que eles defendem, a hegemonia da burguesia, o império, o patriarcado, está apodrecendo. Eles culpam os judeus, os artistas, os homossexuais e as mulheres liberadas por isso, mas o que eles não podem entender é que as pessoas estão cansadas da metafísica cientificista do universo mecânico. Que a magia quer ressurgir. Que, desde os gregos, a natureza é chamada “divina”. Como queria Plotino, um ser belo que se espalha por tudo, do qual participam todos os seres sensíveis. Eles insistem em dizer que a sífilis, a depravação sexual e a revolta política vêm dos estrangeiros...

Ele parecia estar imaginando que a vampira era realmente louca.
- O que a senhora quer de mim? - ele pode por fim dizer.
- Eles contratarão os maiores especialistas do país para justificar os projetos de demolição e as expulsões. Um informante me contou que eles pretendem iniciar uma onda de assassinatos misteriosos, de prostitutas, vagabundos, imigrantes, e acharão uma forma de incriminá-lo. Usarão a imaginação fervilhante das pessoas, reprimidas por uma vida de produtividade exaustiva, para falar do seu bairro como antro de homens-monstro e sugadores cheios de luxúria, seres das catacumbas a céu aberto, labirintos negros e canais putrefatos.
- Quem são “eles”?
- Plano antigo. Começou com alguns assassinatos. Em 1872, desapareceram, em circunstâncias desconhecidas, os dois censores do Estado russo, os quais haviam censurado "Ética" de Spinoza, o "Leviatã" de Hobbes, o "Ensaio sobre a história geral" de Voltaire, mas que pretendiam aprovar a publicação de um livro de 674 páginas, que consideravam inofensivo por ser difícil, falar do muito diverso “sistema capitalista inglês” e ser estritamente “científico”: O Capital. Os novos censores vetaram o livro. Logo em seguida foi assassinado, nas mesmas circunstâncias, o nobre de ideias liberais Ilia Ulyanov, que deixou um filho, o pequeno Lenin, o qual nunca ouviu suas histórias sobre a negra exploração dos servos nos campos. Sem um “terror demoníaco”, não haveria porque pensar em mudanças.

Tendo descoberto algumas das revoluções científicas em curso, assassinaram seus pesquisadores e decidiram restringir o conhecimento humano ao vapor, à "eletricidade animal", ao eletrofluído dos carros, aos balões e à transmissão sem fios, porque perceberam que a tecnologia, democratizada, faria ruir a sociedade aristocrática. Evitaram também grupos fascistas, percebendo que uma grande guerra, com a destruição dos antigos valores e falta de mão-de-obra, faria refluir o evolucionismo que dava legitimidade à competição desenfreada.
(...)