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quarta-feira, fevereiro 15, 2012

Um tipo de sol


Eles foram falar com o Secretário Geral. O homem tinha abotoaduras de ouro e usava medalhas.

- Veja bem, senhor – disse Elisa, bela, jovem, com seus olhos negros faiscando e os cabelos longos caindo pelo vestido de seda malva – a participação da população nas decisões do conselho de saúde é algo tradicional. Desde que meu avô chegou à Redução...

- Minha senhora – o nobre interrompeu – A senhora deve saber que a participação acaba no momento do voto. Não queremos rebeldes, anarquia, mas gente que trabalha, luta e ajuda o desenvolvimento. Temos especilistas, pessoas que dedicaram toda a sua vida a estudar. Por que motivo um bando de mulheres ou velhos deveriam interferir em temas tão fundamentais?

Elisa segurou sua raiva e sua irmã apertou sua mão.

- Esse aristocrata, esse hipócrita! - gritava pela rua.

- Acalme-se – Vanessa disse. Que se pode fazer? Além do mais, com esses bombardeios, esses ataques, a guerra é iminente. Não se fala de democracia em tempos de guerra.

Elisa lembrou-se imediatamente do irmão, falecido em um ataque à base avançada de V2. Fora a primeira vez que tivera uma séria melancolia, ficara na cama, sem comer por mais de um mês.

Quanta sorte de ter uma irmã tão inteligente e bondosa como Vanessa. Além de tudo, era uma pintora talentosa. Reuniam em torno de si um grupo de poetas, filósofos e reformadores, interessados em mudar a vida na Redução.

Foram passear no boulevard. Observava os seres marinhos dos dois lados do caminho, um polvo gigante pareceu mirar-lhe nos olhos, tocando o vidro. Havia um tempo, se dizia, que as mulheres haviam trabalhado fora, podiam estudar, podiam votar como os homens. Agora, somente na física teórica a mulher era admitida – diziam que sua criatividade ajudava esse campo. Mais um preconceito.

“Nora, temo entrar novamente em colapso” - ela pensava em escrever à sua amiga de infância- “é, talvez, covarde, ridículo e sem sentido, claro”. Mas desistiu, com medo de assustar a outra inutilmente. Nora e Elisa, ou, como as chamavam na escola, a rocha e o coral. Estudaram juntas a vida antes do Colapso, a vida animal, os Pioneiros, mitologias antigas e literatura. Ajudaram na restauração dos livros na Biblioteca Nacional, livros que sobreviveram. Nora era forte, corajosa, mas também sensível e tolerante e sempre incentivara a amiga a escrever. Elisa tinha dois livros de poesia, um deles dedicado à ela.

E, se a invasão se confirmasse? O que restava da civilização desapareceria. Ela e o marido – amado Leon – já imaginavam tomar pílulas fatais, pois seriam perseguidos por sua postura arrojada.

Elas agora entravam no jardim, anêmonas gigantes coloriam todo o mirante. Ela pensava que sua vida não tinha sido fácil. As mulheres podiam estudar caso pagassem o próprio estudo, e ela teve de desistir no meio da faculdade. Além disso... Preferiu fugir das lembranças.

- Que corais maravilhosos, como buquês roxos e lilases! Se tem algo que considero correto nessa mundo é termos adotado o nome desses bichinhos, Anthozoa.

Essa era Vanessa. Porosa a toda a luz, cor e alegria do mundo. Há muito o costume aceitara relacionamentos abertos. Mas somente ela podia conviver com o amante de seu marido como se fosse um irmão. Também, quem poderia resistir ao encanto do Cérebro?

Ao chegarem am casa, o choque. Sua mãe estava caída ao lado da banheira, um infarto. Elisa parecia em estado de choque, não conseguiu falar uma palavra em dois dias. Depois da cerimônia – os corpos eram colocados em urnas de cristal na rocha – o marido de Elisa sugeriu que ela fosse para o Campo, com Nora. Ele sabia que haviam tido um relacionamento íntimo há muito tempo, mas desejava antes de tudo ver a mulher feliz.

Nora morava em uma das 4 colônias ao redor da Redução, onde se plantava hortaliças e se cultivava frutos do mar. Tinha dois filhos, Haji, de 12 anos, e Mika, de 9, uma garota sorridente de lindas tranças azuis. Seu marido, militar, havia morrido deixando-lhe boa herança.

Elisa ficava brincando com as crianças – o jogo “que tipo”, onde alguém descreve uma cena, por exemplo, “hoje eu acordei cansado”, e o outro pergunta, “que tipo de cansado?”, até que o maior número de camadas, tons de percepção e emoções sejam decifrados. Depois, ajudava a arrumar a casa, enquanto Nora estudava física.

Adorava caminhar pelos campos com as crianças, vendo a vida animal nas piscinas, lagos e fontes. Um golfinho - Utah, parecia consolá-la toda vez que nadava com ele. Tinha de fugir do sedutor Treinador, que usava os elefantes marinhos como isca. Havia grandes plantações de flores modificadas e plantas ornamentais inteligentes e um bosque vigiado por medusas terrestres robóticas (MTR). Um grupo de teatro animava as tardes no parque central. Vez por outra entravam na região resguardada do mar vestidos com suas roupas com sonar.

Ela e Nora liam poemas no fim do dia, quando a luz era reduzida, e Elisa transcrevia trechos inteiros de livros, para se distrair. Tocava harpa.

- Por que você não começa um romance? Sempre achei que tens muitas coisas pra contar – dizia Nora.

Leon mandou uma carta. “O governo está aproveitando a ameaça de guerra para cortar os salários pela metade. Quer reduzir a educação pública – já pagamos caro pela luz, água, transporte, até quando poderemos resistir? Temo que haja distúrbios na cidade. Acho que seria bom ficares na Colônia um pouco mais”.

Elisa sentiu-se feliz até certo ponto, por ficar longe das neuroses da cidade. Mas acabou melancólica, perdeu todo o apetite, não se sentia forte para sair da cama. Nora passou mais tempo com ela, lendo longos trechos de romances e diversos poemas. Elisa pediu que dormissem juntas.

Vanessa estava procupada com ela: “Busque aquilo que gosta de fazer, minha irmã. Escreva. Sei que os pesadelos do passado, aquela terrível humilhação causada por nosso tio, ainda perfuram seu coração. Mas é um coração muito bonito, há beleza nele. Transforme sua dor em cores e sons.”

Mika veio na sua cama numa linda manhã. “Que tipo de sol?” - perguntava. Elisa beijou-lhe as faces morenas e a menininha sorriu. “Você e a mamãe se amam, não é?” - ela disse.

Depois saiu correndo com sua boneca nas mãos.

Nora estava na porta, havia ouvido. Elas sorriram. Podiam ser felizes.


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O trabalho Um tipo de sol de Afonso Jr. Ferreira de Lima foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição - NãoComercial - SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

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