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sexta-feira, fevereiro 10, 2012

Paisagens

Afonso Lima – 2011



Acordo. Os pássaros me dão esperança. Ainda, tantos.

Os helicópteros me dão pânico e têm sons estranhamente confortantes.

O verde me puxa do fio invisível que desejo usar ao pular do prédio mais alto da cidade.

As hélices conversam entre si, olhando em lugar de Deus, conversam com o concreto, o horizonte levemente alaranjado, eu tento largar o sonho um tanto angustiado.

Pensar - e hoje, por quê?

Como continuar vivendo com traquéia e olhos úmidos no oceano de metal e pedra?

Mas a máquina também é vida. Ou são apenas homens poderosos que nos arrastam e as máquinas nos caem das maõs?

Conhecimento é poder e eu posso querer não saber.

Eu tenho de estar atualizada ou perderei alguma coisa.

A vida.

*

Somos tão sofisticados que perdemos o contato com as coisas mais evidentes.

Uma velha dorme na porta da minha casa com seu edredon vermelho. Frio.

Então somos movimentos mas as coisas pedem água.

Sofrimento em forma de pássaro atravessado por flexa. Qual é a moda agora, qual o dogma?

Os insetos magnetizados sobem a escada rolante, nova, brilhando. Imaginar vida para aquela pessoa, era como se ela realmente tivesse uma.

E não apenas uma blusa amarela com listas brancas, uma bengala, um fone de ouvido redondo com cara de anos 80, um livro grosso e sedução mexendo no saco.

*

Avassalador. Depois de ouvir os ruídos sua mente se amplifica, a geladeira do outro lado da casa esmaga infinitamente.

E, de repente, alguém fala ao meu lado. Estou cansada demais para entender. Para responder.

Pode ser meu amor, possível bom pai, trabalhador, que eu conheço de algum lugar. Pode ser eu, que não conheço e nem quero.

Meu desejo foi se afastando de mim e eu dele. Deveria foi pouco.

*

Eu produzo música a partir do ruído. Esse hoje foi o dia em que decidi subir no prédio mais alto da cidade e abrir a janela.

Só posso ver o monstro branco de uma imensa onda arrastar uma cidade é isso que eu vejo.

Cair passo a passo do 101º ruído do Itália - num mar de gente, que grita.

Então eu abria a janela.

Não era a voz cósmica desumana que engole - e sua poesia harmônica da eficiência - como o metrô.

Eu só sentia os pelos arrepiarem e as gotas frias excitarem meus nervos de mamífero.

Vários pedaços não faz uma vida.

Era apenas que para que se veja a realidade entender isso e sentir isso preciso de representação.

A soma das perspectivas de um bar nos dá o que a fotografia perfeita não dá. Nossa paisagem está escrita em ficção.

E, conforme eu caía, ouvia os movimentos da massa, algo de instintivo e gigantesco, intensidade que reconstrói as moléculas do cimento.

*

Eu sempre tive uma atração estranha por aquelas máquinas que trituram o lixo. 13 mil toneladas diárias e nenhum sistema digno de separação.

Então é isso, mistura tudo e vemos o que gera.

E esses homens sempre felizes, correndo e gritando, sempre vencendo e limpando nossas culpas, nosso virar mecanismo.

E um deles, na minha rua, era sambista. A rua está amarela da chuva da tarde.

Ele fundou a Escola e de vez em quando fazia barulho com a lata, entre o vidro e a xícara quebrada que aquela mulher deixou cair ao procurar desesperada um bilhete de amor ou uma conta a pagar.

E, de repente, eu transformava aquele triturar diário em sentido.

Quase um naipe, um sentimento mesmo de organizar.

E os sons mais diversos estão brincando de famílias, estão em combustão pelo espaço, dispersos, flamejantes, como uma partícula metafísica qualquer com seu emaranhamento intrínseco com outras - que está e não está pronta em relação em criação.

Fogo no Brás. Um ônibus foi incendiado por homens que passam fome. O governo favoreceu aqueles que lhe deram milhões em campanha. 2.600 favelas em São Paulo, que cresce.

E os pássaros cantam. Lata.

E tudo que eu posso ver é uma onda gigantesca que arrasta todos os meus sentidos, com sol, chuva, no amarelo, deuses helicópteros, o cachorro e paisagens de barulho e cimento.

Eu quero querer transformar tudo. E o que eu quero é apenas um silêncio aqui dentro.



Afonso Lima, SP Escola de Teatro - Experimento Módulo Amarelo - 2011 - produzido por Ailton Jose dos Santos, Andréa Fu e Alexandre de Matos

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