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quinta-feira, agosto 07, 2014

“Murphy” e o conceito de ironia no primeiro Beckett

O Beckett de “Murphy” (1938) é um crítico do século XIX, um modernista semelhante à Joyce que torce os eixos da prosa, mas ainda não os tritura. Para que o autor fosse visto apenas como um “Beckett inciante”, seria preciso um olhar teleológico, assim como a ideia de que o modernismo é uma única linha em direção ao império da forma; importa saber quais questões guiam cada momento, os recursos usados, os achados que tornam o material rico e potente.
Murphy é um “solipcista exausto”, que pretende “o mínimo para sobreviver”, que vive de “pequenas somas de caridade” e deseja apenas “o sonho franco da criança, do espermário ao crematório”.
O que o texto nos apresenta não é um enredo, apesar dos movimentos de um “agregado complexo reunido sob a unidade de um nome” como quer Anne Ubersfeld (p. 73), também não é um caráter ao qual possamos nos apegar, com o qual possamos nos preocupar dentro do manter da crença, na consciência do artifício, com o destino do ficcional personagem.
Antes, são contínuos jogos de linguagem, paródias e inusitadas apresentações de personagens e situações, que causam contínua surpresa e atenção. 

Que recursos são usados se não a identificação com o personagem, a causalidade e o suspense oriundo da coerência?
Um dos mais interessantes é o uso de imagens atratoras, carregadas de simbologia, figuras que se destacam do fundo opaco distanciado de experimentalismo – tão bem expressos na descrição em tabela da personagem Célia e na irônica referência da relação entre silogismos na escolástica – BAR/BA/RA (“como Murphy tinha tantas vezes demonstrado a ela em Barbara, Baccardi e Baroko”).

Como imagens atratoras funcionam o tetraktys pitagórico, o livro "A cidade do Sol", de Tommaso Campanella e as referências astrológicas. O que sustenta a ironia fria é um calor buscado nos clássicos e na antiguidade. De certa forma, o passado é usado pela sua ressonância emocional, enquanto o contexto mágico-religioso que o constituía é dado como morto.
As qualidades que surgem são o ritmo, o contraponto, a síntese-surpresa (“- Não consigo entender o que as mulheres veem em Murphy... - É a sua... - Sua qualidade cirúrgica – disse Wylie”). Esses recursos incluem o jogo entre presente de uma narração e presente do ouvinte-personagem, criando choques de percepção – como no trecho em que Célia, a amada, descreve seu primeiro encontro com o enamorado Murphy ao amigo Sr. Kelly: “Célia acostou-se a ele da melhor forma – Menina infeliz! - disse o senhor Kelly – de modo que dali saíram caminhando...”

Aqui começa a transformação do sujeito autônomo em camadas de pontos de vista, personagens-valise nos quais o centro está em toda a parte e não há circunferência.
Vejamos como Balzac apresenta a Sra. Grandet no seu livro de 1833: “Uma docura angélica, uma resignação de inseto judiado pelas crianças, uma piedade rara, um inalterável equilíbrio de gênio, um bom coração, faziam-na universalmente lastimada e respeitada”.
Na peça “Casa”, de Richard Maxwell, de 1998, o personagem “Mãe” diz, depois da metade do texto, quando ainda quase nada sabemos sobre os personagens:

MÃE – Meu Deus. Meu Deus. Meu marido está morto. O que vai acontecer com a casa? E com a pensão dele? Eu sei que ele tinha uma pensão, acho que nós temos direito a ela. Tenho que olhar os documentos. Eu sei que deixei em algum lugar, preciso procurar. Isto é bom, porque nós vamos precisar, e você ainda é menor. Trabalhar para o governo traz algumas vantagens. Apesar do fato de que você precisar se representar. Você tem que dizer a eles quem você é. Eu acho que posso dizer a eles quem eu sou. Você precisa dizer a eles. Quem você é. Senão você não tem existe. Eu acho.

Dificilmente, aqui vamos encontrar os temas do conflito, da ação e da causalidade que dão estrutura ao drama tradicional. Nesta mímese bizarra, se mantém um traço de realismo na indicação de “personagens” (Mãe, Filho, Pai, Mike) e no simulacro de ambiente (“PAI – Gosto de onde vivemos. A casa.”)
É o estranhamento de um universo aparentemente familiar que cria o suspense. O interesse da peça se dá mais pelo relevo da linguagem, seu absurdo, e pelo fato mesmo de que seus diálogos são opacos a qualquer caracterização holística, revelando antes traços de neuroses e manias. (Também aqui há intertextualidade com um clássico, Hamlet). Algo desse modo de uso do texto está em Murphy, no qual não é ainda absoluta a descrença na capacidade expressiva da palavra (os “meios” para os “fins”). 

Supomos que a tensão clássica do romance se dá pelo mecanismo da emoção correndo pela lógica da unidade – na psicologia, na consequência, na relação entre narrador e leitor. Grosso modo, o suspense se dá pela fórmula - “o que vai ocorrer ao personagem?” ou, mais modernamente, “o que mais saberei sobre essa personagem?” Propusemos que, em “Murphy”, o interesse ou a tensão se dá pela curiosidade sobre a linguagem, seu modo de operação, os recursos usados para operar esse personagem, marionete e autor singular do próprio absurdo. ("Cedo ou tarde, todas as marionetes deste livro choramingam, menos Murphy, que não é uma marionete").

De certa forma o que se está mostrando é mais o processo (os “bastidores”), a exposição da teatralidade, e, portanto, o fenômeno do pensar. Isso nos lembra as operações de Piscator e Brecht. ("A passagem acima foi cuidadosamente calculada para perverter o leitor cultivado").

Erwin Piscator (1893 – 1966) foi um diretor que influenciou profundamente a dramaturgia por meio de suas encenações e por tratar as causas sociais como tema. Afirma, no seu texto Teatro político, de 1918, realizar “o seu labor a serviço da luta do proletariado”. Ele pesquisa os “efeitos prejudiciais do capitalismo para a alma do homem”. (idem; grifo meu) Não busca mais uma dramaturgia do “eu - representação dos conflitos entre indivíduos e ambiente e indivíduo - mas mostrar diretamente as engrenagens e estruturas (a lógica subjacente) de problemas novos em todas as esferas: na vida social, na justiça, nos conhecimentos científicos e filosóficos...

Brecht, nos seus “experimentos sociológicos”, propunha uma espécie de análise científica do objeto personagem, observando os modos de operação, “uma superposição entre o que se chamava caráter 'culinário' do teatro e a crítica desse mesmo caráter. (Pasta, p. 92)
Ao sujeito descentrado, corresponde uma estrutura estranha, ela mesma, pelo menos montagem:
Contra a “peça bem feita”, último avatar do “belo animal“ aristotélico, o devir rapsódico do teatro contemporâneo coloca em questão a própria ideia de composição: transformada em montagem de arquivos de documentário em Weiss, justaposição de fragmentos narrativos e dramáticos em A missão de Müller, a escrita teatral obedece a uma lógica de decomposição. (Sarrazac , p. 42).

Podemos imaginar que o tipo ideal do século XIX era o indivíduo empreendedor, imaginário alimentado pela economia de Malthus – poucos recursos para muitos indivíduos, de modo que a vida seria uma forma de competição. No caso do teatro, ainda o “belo animal” aristotélico obedece a um encadeamento lógico, “tornada unidade de ação na época clássica” (p.42)

Nietzsche vai atacar o darwinismo justamente por ver nele um produto da moral cristã, e propor a natureza como abundância e absurdo desperdício, e a ideia de evolução e teleologia como sintomas. Em seu lugar, ele vê o contínuo declínio das formas de vida, o “orgânico como degeneração”. (Barrenechea, p. 61-64)
O ideal do sujeito estável, confiante nas leis da ciência moderna e na religião, que dão unidade de percepção e parâmetros para a ação, o sujeito que vive a culpa e o conflito e alimenta a autoreflexão, bucando seu lugar na sociedade, começa a declinar.
Como afirma Italo Calvino: “A realidade do mundo se apresenta a nossos olhos múltipla, espinhosa, com estratos densamente sobrepostos”. (Calvino, 2007, p. 210) Nessa situação, tanto a unidade de percepção, quanto os parâmetros para a ação não são claros, e uma posição solipsista pode ser um sintoma, uma reação lógica, uma criação (a “autodestruição” criadora de Nietzsche).

Impossível não lembrar dos exemplos de Barteleby, de Heman Melville, que, em meio ao trabalho que “urgia”, toma distância, transforma o outro em “estátuas de sal” pelo estranhamento - “prevalecia com ele alguma suprema consideração que o obrigava a responder como fazia”. Allan Poe, no seu conto “A carta roubada”, mostra uma polícia “perseverante, engenhosa, astuta, e perfeitamente versada nos conhecimentos do seu ofício” que, no entanto, não consegue avaliar o raciocínio do “oponente”. O fazer não é o bastante; o como e o por que surgem novamente, a ciência não pode ser o único modelo da sociedade: “Os axiomas da matemática não são axiomas de verdade geral. O que é uma verdade de relação, de forma e quantidade, é muitas vezes enormemente falso com respeito à moral”.
Da mesma forma a clínica do olhar de Charcot, esse “fotógrafo da histeria” como o chama Saurí, em Salpetrière, será desafiada pelo recuo ao ouvir de Freud. Charcot afirmava que não se ligava às teorias preconcebidas, e sim “àquilo que surge da experiência, como se pudesse existir um olhar neutro e objetivo, e como se a sua fosse uma mirada ingênua”. (Alonso e Fucks, p. 34) Com Freud a histérica deixa de fornecer “quadros vivos” e obedecer à leis da ação e reação, da exposição num mecanismo habitual (movimentos epileptiformes, alucinações, etc) e passa a ser analista de si mesma, a elaborar situações de grande carga afetiva, nas quais a descarga era impossível de acordo com os códigos vigentes.

Agora interessa no personagem seu modo particular, sua filosofia de vida, sua avaliação do mundo (espelhado no fato de Neary, amigo e rival de Murphy, ser um “pitagórico”, que estuda a “harmonia” ou o “acorde”). Ele prega a não ação (é impossível “deduzir o que você é a partir do que você faz”), ele nem imagina “lutar”, ele prefere “não mudar”. Interessa interrogar o “real” (até mesmo através do olhar periscópico joyciano, que adota as mais variadas formas) e saber que densidades pode criar a arte para questionar os hábitos de percepção.
Em “Murphy”, não há a unidade da identificação, o narrador-personagem que leva o leitor-personagem a pensar como o personagem, mas há o narrador, o vazio e o objeto. Talvez esse seja o conceito de ironia no primeiro Beckett. “Pois o problema da ciência não pode ser reconhecido no terreno da ciência” - diria Nietzsche no “Nascimento da tragédia”.

Afonso Lima


Alonso, Silvia e Fucks, Pablo. Histeria. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2004.
Barrenechea, Miguel [et. al.] Nietzsche e as ciências. Rio de Janeiro: 7Letras, 2011.
Beckett, Samuel. Murphy. Tradução, texto e notas: Fábio de Souza Andrade. São Paulo: Cosac Naify, 2013.
Pasta, José Antônio. Trabalho de Brecht: breve introdução ao estudo de uma classicidade contemporânea. São Paulo: Duas Cidades/Ed. 34, 2010.
Sarrazac, Jean-Pierre (org) Léxico do drama moderno e contemporâneo. São Paulo: Cosac Naify, 2012.

Ubersfeld, Anne. Para ler o teatro. São Paulo: Perspectiva, 2010.

domingo, agosto 03, 2014

um dia de ulisses

1.
Precisamos de um herdeiro, ele dissera.
A luz já incomoda, sono.
Enquanto prepara o café – da direita claridade invade a cozinha - quebra um ovo na caixa, a gema fica intacta no formato ovalado do recipiente. Um segundo cai na frigideira. É branco e dourado, resolve misturá-los. Começa a pensar no Grande Livro Pé-de-Sofá.
Mas por que cargas d´água deveria pensar nesse livro? Algo que lera há...
E, de repente, haviam-se passado vinte anos.
O zelador grita algo com alguém, sobe ao terraço. Como pode? Gritos às 8h da manhã, sempre achou.
Estava pesquisando a Trindade. Mistério para o Ocidente. Três que são um, sem hierarquia, várias tentativas de representar. A rebeldia contra as redes da tradição, da família e da religião parecia mais tênue, já que nenhuma delas sobrevivera.
Lembrava do encantamento com o livro - como se toda luz de um mar branco invadisse o ambiente. As palavras rolando, as palavras na renda branca, o límpido fluir dos movimentos do princípio do dia.
Precisamos de um herdeiro, ele dissera. Agora, o pai reduzia seus sonhos à carne e sangue.
2.
Ele deve gabar-se de tudo que fez.
Toca o sinal para começar a aula. Estão falando de D. Pedro I.
Queria andar pela cidade o dia todo. Mas como, é preciso mais que coragem para vencer cimento, moradores de rua, lixo, sirene, motos, acúmulo de ausências. 
Os alunos debatem sobre o texto. Ajusta sua meia. Lembra.
Daquele livro todo casa, dia, farol, que me derrubou. Como a pata do cavalo no outro, saio em disparada. Esses, sempre largo porque me inspiram. Parte dois dez anos depois.
Precisa orientar o rapazinho. Ele precisa de um guia. Eu gosto de estender a mão. E sei que a terra está rachada. Passo creme nas mãos.

3.
Na sala dos professores olho o jardim, a palmeira brilha, faíscas cor-de-rosa. Um professor conta que os nazistas inverteram o significado da palavra "fanático" na Alemanha para algo positivo.
Quero dizer o que fiz nesse tempo, aventuras, monstros, metamorfoses, ou seja, os livros que li.
Observo como a luz muda, algo se destaca, emerge, passa uma borboleta. O que andei fazendo nesses vinte anos de barquinho na tempestade?
Nós precisamos apenas cumprir as ordens, dar comida ao mecanismo, precisamos apenas mais do mesmo.

4.
Será que existe mesmo algo como destino? Coisas externas contra as quais é inútil lutar.
Algo enredou nos meus pés, não posso avançar. Caminho pelo parque.
Tenho contas à pagar. Cortaram a internet por um dia, uma tragédia.
Corto as laranjas, esmago com a mão, tenho pressa. Deito na minha cama.
Amigo antigo, transformou tudo aquilo em espaços de luz azulada, janelas que dão para ruas onde heróis caminharam, um adolescente com seu livro aberto no jardim e um amigo falando de arte.
Eu li isso tudo em pleno fracasso, deitado, olhando para o chão, enquanto minha família agonizava e minha mãe contava moedas, sem ter entrado na faculdade.
Talvez o segredo seja filtrar as experiências, expelindo tudo que foi tóxico. Vou ao banheiro.

5.
Água.
Do que será feito? Proteína, claro. Pelo menos foi o que eu disse a um amigo que tinha asco.
Crescer. Penso nos nós das árvores, será isso, essas coisas que brotam, mas não são tão delicadas, uma árvores parece ter um rasgo pelo qual saiu a raiz, outra como um arco pelo qual se vê um tronco em expansão.
Eu gostaria de beijar a mim mesmo, reproduzir-me, uróboro bípede, comer sem sal a pura carne e o sangue tão brancos.
"Você não é uma criança como as outras", "Você sempre foi adulto","Sente-se no seu lugar porque os coleguinhas não conseguiram fazer ainda", "Eu não tenho inveja dele, invejo coisa melhor".
Eu não quero abandonar a infância.

6.
O email diz que meu avô sofreu um infarto mas está se recuperando bem.
Penso em Luz, Noite, Zeus, Maria, Odin ou Krisna, que a Natureza seja boa para ele.
Deitado, olho o teto. O administrador do parque disse, estavam fazendo compostagem naquele lado escondido. Eu vi um saco preto em meio a terra e folhas. Pensei que jamais se decomporia. Queria pegar, resisti ao impulso, sempre tão antisocial.
E nada de polícia, estão ocupados.
Mais acima no caminho, um fruto escurece no chão.
Eu sinto um peso no peito, alguém está em cima de mim, quero gritar. Abro os olhos com prazer.
Eu liguei algumas vezes para ele.

7.

Ele me observa. Grosso, capa azul. Um frio germânico, um amigo me diz. É apenas isso? Instinto reprimido na ilha de Calipso, onde todos estão de fato mortos e a paixão se torna morbidez.
Quero gritar à plenos pulmões que Thomas Mann precisava de mais sangue. Thomas Mann eu.
Ligo a TV recolhendo a roupa do varal. São notícias de ontem.
Sou de fato, um vago jornalista. O que eu faço é olhar coisas que estão na sombra, não sou original nem inovador. Tanta novidade criou um caldo branco de sono, vidro e metal.
Abre o livro. "A matéria viva sem estrutura", "organismos não-organizados", "protoplasma primevo das profundesas do mar".
Um vento frio entra pela janela.

8.
O vigia conta. Um rapaz caiu no chão. Pedem ajuda a um policial militar, disse que não pode fazer nada porque o parque está à cargo da prefeitura.
Lavo os pratos pensando nisso.
O policial do meio dia. Particular. Dois metros, sempre lembro-me de A.
"Você viu? Prenderam o chefe de onze morros no Rio, comandava sessões de tortura". Lembro do filósofo falando da boa ambição à TV. "Estou me mudando. Condomínio fechado três quartos. Onde eu morava estava virando uma zona, pobre, funk e crack."
Tenho que ler textos para o grupo da tarde. A Prefeitura disse que não pode ter um guarda no parque porque estão acabando com o crack na região.
Quando paramos?
"Os sem-teto bloquearam uma avenida, você viu?"
A ideologia está nos detalhes.

9.
Entre a cruz e a espada.
O novo plano diretor. Tenho que ler o substitutivo. Como fazer o mercado imobiliário mais amigável?
Colocando as pessoas perto do transporte, mas não seria preciso começar com mais metrô ("mantenha-se à direita"; avisos altos para evitar comunicação) e melhorias nos bairros?
Os sem-teto.
Tenho que assistir. Como os ingleses conseguem? Um drama histórico, uma luta.
Penso nos “a serem lidos”. Busco e busco, pilhas no chão. Aqui, Hammett. Em cima da mesa, com seu corte seco.
Volto para os anos 1920 na tela, o Ulysses é de 1920?

10.

Chave em cima, chave em baixo, dezesseis degraus até o outro andar, porta de ferro. Confiro o cartão, 30 reais. Entro no metrô, escada, uma velhinha lenta, fecha a porta, chega, saio, espero um pouco o fluxo que sobe. Cruzo com o fluxo da outra linha, desço mais rápido pela esquerda, mas sou obrigado a parar, porra, até a porta mais vazia do metrô, espero entrarem os afobados, está frio, abro um livro. Facebook, alguém pediu um texto, tenho uma aula desmarcada, meu irmão, uma amiga convida para uma peça, um amigo conta um caso bizarro. Ele traz um rapaz para casa, o cara começa a pedir pra bater, ele se assusta, pede mais e mais, recusa abraço, o cara bate nele, ele ficou mal. As pessoas querem se destruir? As unhas chegaram a fazer um corte, o cara dormiu no sofá, ele não pregou o olho, foi embora sem tomar café. Logo eu, que gosto tanto de dar carinho, ele disse. Estou estranho desde esse dia.
11.
Tempo fechado, nebuloso. Cidade limpa, bosques, ordem. Uma massa alegre, discussão. O professor é estrangeiro, precisamos ensiná-lo. As moças bonitas da direita falam da dificuldade da tradução do russo, os rapazes malhados do meio falam da dificuldade de produção, os dois homens gays mais velhos falam de como o financiamento público está acabando com a iniciativa no teatro. Imagino alguém semeando sementes de intelectuais, para o bem da nação, mas algumas cabeças simplesmente começam a devorar tudo. Saio para um café. A faxineira perdeu um sobrinho no tráfico, a secretária consola. Começa uma chuva e o dia está no meio.

12.
Vou ao toalete, paredes brancas, um mundo perfeito, luz, dois operários entram, Como você vai ver o filho, se você e sai às seis da manhã e volta às onze da noite, eu penso que no outro ano cheguei, acordando seis horas, metrô, ônibus, como estrangeiro numa disciplina, um mês atrasado, pedi ao professor para observar, não fui aceito, São as regras, ele disse, já somos um grupo fechado, eu andei pelo verde no sol, tomei café, chamei Dionísio, o transformador, Como mudar as regras, eu pensei, eu viajei para o dia em que comprei comida atrás do Mercado, casas decadentes, homens carregando carrinhos de caixas, estoques da alho, eu vejo uma pobre Catedral oprimida entre torres cinzentas, o verde de suas torres petrificado entre carros e pichações em cimento, eu penso na audiência pública sobre o Plano Diretor da Cidade, somos cenário aqui, disse meu amigo urbanista, Somos a falsa democracia, ele disse, e sabemos que antes foi pior, o último prefeito, robótico, nem falsa democracia, e as pessoas excluídas gritam no microfone que querem mais casas, praças, saúde, mas não é o momento, e também nunca é o momento, sento na minha classe.
13.

Ah a arte, uma mandala cheia de manchas, um círculo em movimento, algo entre feto, folha de outono, raios de sangue, pedras, eu gostaria de pintar como essa mulher aos cem anos, e tudo se transforma, eupenso, por algum motivo lembro disso, no ônibus com um milhão de estudantes enlatados, a escravidão infinita, um jovem negro cobertor sob os braços e chinelos velhos e calça dobrada com fundilho marrom e ombros escuros caminhando sem rumo entre lojas, bancos, carros, novidades eletrônicas, e eu, fazer arte, “na pintura interessa o que não é pintura, no concretismo interessa o que não é concretismo”, novamente vejo as mandalas em flor, as rosas bloom do parque, lilases crespas, de laranja à amarelo, de rosa intenso, eu daria roupas e flores para esse homem, talvez ele tocasse jazz ou amasse uma garota, talvez sua voz trouxesse novidades, eu chego no metrô.

14.
“o heroísmo é uma baita mentira e não há subtituto para a paixão individual como motriz de tudo”, eu pensava que o idealismo foi o grande inimigo do século XIX, ter uma visão mais realista, deixar emergir, desamarrar-se dos costumes, ter uma visão pessoal foram as lutas, jogo, jazz, Jung e nós nos dissolvemos, não somos valorizados, não somos vistos, liberdade formal, sopa de democracia, nos convida e nos segrega, um rapaz expulso do Congresso pela Liberdade por fazer uma pergunta imprópria, sabemos tudo sobre tolerância, aceitação, diversidade, só não no mundo concreto. Estamos emagrecendo, temos cada vez mais músculos, o pensamento é lento, o consumo é rápido, quem vencerá, são 4 milhões de óvulos, 100 milhões de espermatozóides, diria seu parente liberal, só os melhores ganham. Tirésias vê algo que nós não vemos, nas faces da Lua?, mas seguimos em frente com lanças de bronze, lanças em punho.

15.

blues no ar da moça com dreads, eu espero na plataforma, chega o metrô, nem um milímetro livre, micropânico, percebo que estou no sentido errado, eu chego na estação Marechal Deodoro, por sorte contra o fluxo, qual o som dessa gente amontoada como animais? que sons produzem pessoas sem casa? qual o ritmo dos meninos vivendo na rua? qual a batida da fome? qual a canção silenciosa do coração de uma mãe que se vende? qual o som de um bairro abandonado? os sons dos meus vizinhos fazendo sexo, música sertaneja, sim pegadores, macho, bêbado bruto, ou 50 Reais a chupeta?, ouço a senhora do parque, lembro de você, out of the blue here´s you and how you care about me you cure me you save me much more I can see, no frio da noite eu te vigio, tuas nádegas redondas, teu abraço, aconchego de lado, boca vermelha, surpresa na madrugada, eu sobre, o calor leve, amanhece, quero mais sono, encosto a cabeça, no mundo do sexo eletrônico, fast-food, sistemas nervosinhos, macromachos nanopsíquicos, mercados financeiros andantes, investidores de anabolizantes, sons do reino mágico do dinheiro, demônios de vidro e aço, um mundo de destroços.

16.
nada está decidido, entro na sala todos sentados meu texto será o primeiro, a roda, eu estou pensando sobre Ulysses, e como a crítica falava sobre uma androginia do protagonista, e como o livro me pareceu poético na adolescência, devora-me, a torre, a mente como mar claro, conversas em pontes preto e branco, sim, sim, arte vera maior mesmo com tudo sobre ela vence, eu lembro de como minha irmã disse sobre obras de arte que parecem absurdas, e ficam com você (ninguém entende nada do que escrevi, não tem ação, não consigo me agarrar em nada, quem fala) e penso que os homens bêbados e rudes já não sabem o que fazer com as mulheres ousadas e ativas, e que o crítico parece falar de uma homossexualidade mental porque a física o repugna, eu perco o tema, será isso, apenas clichês, mas o que impede de ele ser um mulherengo e querer as nádegas-melão de Stephen, assim como a prosa, era vida habituada, e lembro da mulher testemunha relatando 50 anos depois sobre sua vagina fios e levar choques dos policiais, camponeses nus com mel na pele até as vacas lamberem em carne viva, a boca dos estudantes no escapamento acelerando o carro, é uma guerra eles disseram, a empresa ensina demitindo quem protesta, o fazendeiro ensina a ensinar quem manda, o pobre tem sede de comando, o muro caiu, cercas e tropas pela rua, a liberdade triste, estou impaciente, tenho que ficar mudo enquanto a roda roda, o que está acontecendo, procuro um abrigo, marinheiro na tempestade, minha mente em velhas histórias, escreveria eu tudo em detalhes como P ou J quem leria?

17.

“O que realmente eu represento pra você nesse tempo em que nos conhecemos?” Eu leio do e-mail, quase duas horas, “você se esconde”, será que eu me tornei realmente frio e medroso, esqueleto bem científico, proto-humanista matemático? Se algo sabemos depois do século XX, diz o cientista, é que nada é o que parece, mas todas as questões parecem decididas, mundo é máquina, só resta um mais, desde o amor por império de Igreja, ou parte do real é a teoria, e somente a imanência pode, o quê?, ainda, talvez, o aqui e agora, salvo, brilhante, a beleza, como?, intrínseca, e se diz que existe uma quantidade de energia inerente ao próprio espaço, talvez infinitos mundos. Estamos todos nesse barco, a pressa nos cega, o mercado levou tudo que eu acreditava, a luta toda foi apagada, o chão secou, pouca tolerância, de repente os centauros estão voltados para si mesmos, em formação de gueto, violência fria. Uma mensagem – estou namorando; eu também fiz uma escolha, aquele abraço, a casa.

18.

Acorda a carne na cama por terra e canto. Você chegará. Permanecer. Polifonia por favor. Intensidade, improviso, flexibilidade para encaixe. Perguntar. O mundo clichê. Sim.


Afonso Lima, 2014







domingo, julho 27, 2014

O que (não) acontece com o cinema brasileiro?


Tudo bem, "cinema brasileiro" é amplo e talvez exagerado. Sim, estamos muito bem, numa nova explosão de títulos. Pode ser apenas o impacto a um filme (nosso), depois de outros filmes (de fora). Por um lado é um pouco a nossa ansiedade de que, já que nossa produção não é tão grande, querer sempre um filme inovador. O que quero propor aqui é, não sem uma certa megalomania crítica, unir essa questão à de uma sociedade onde há pouco debate: um aluno de faculdade de cinema me diz que "tapinha nas costas" é tudo que os alunos trocam uns com os outros; por outro lado, uma rebeldia histérica, antitudo, uma alienação pela revolta algo psicótica, é o que sinto em muitos indivíduos de classe média, que tampouco fazem uma crítica produtiva aos sistemas de dominação.

No 9º Festival Latino-Americano temos tido a oportunidade de ver uma série de filmes argentinos. Dia, 26/7,depois de assistir "Os insólitos peixes-gatos", de Claudia Sainte-Luce, era a vez de "Corte Seco", de Renato Tapajós. (Fila quilométrica; clima de estréia em Cannes; deve ser o último grito). 

O homem vai ser torturado. Vê seu amigo sendo torturado. Close no rosto de medo. Cenas de tortura. Chega na cela: "E aí, foi forte o pau?" Ele não mexe as pernas. "Eu não posso mexer as pernas". Ele se arrasta até a parede. Chega outro preso. "Eu não posso mexer as pernas". Chegam mais presos. O homem vai ser torturado e assim por diante. 

Em "Os insólitos"... temos uma moça esquisita, que trabalha como promotora de salsichas no supermercado. Uma relação interessante se estabelece entre ela e uma mulher com HIV, mãe de 4 filhos, depois que ela tem uma apendicite e tem de ir ao hospital. Os primeiros 15 minutos de filme são silenciosos. Muita gente chorando no final. 

Esse, e outros, são filmes argentinos que focam em personagens, sem grandes inovações formais, mas com interesse, roteiros incríveis, mostrando a complexidade das relações humanas, sua ambiguidade. "Até o último momento você não sabe o que vai acontecer", disse uma amiga sobre um filme que tinha tudo para ser a velha história de "homem faz justiça com as próprias mãos", "Matar um Homem", de Alejandro Almendras. 

Até mesmo filmes sem pretensões experimentais, como "O chaveiro", de Natália Smirnoff, e "O crítico", de Hernán Guerschuny, delimitam bem uma vida, mostram aspectos vários de um personagem, fazem referência à outros filmes e usam o humor de forma inteligente. No primeiro, uma névoa misteriosa cai sobre Buenos Aires, fazendo com que um chaveiro tenha sintomas extra-sensoriais (diálogo com o surreal da tradição). No segundo, um crítico de cinema cético, que odeia comédias românticas, se apaixona. Hilária a cena em que ele corre na chuva e é parado pelo pessoal da produção de um filme, que fez uma chuva artificial. 

O filme "Reimon", de Rodrigo Moreno, mostra a vida de uma empregada doméstica. (Lembra o ótimo "Domésticas"). Apesar das longas (e talvez "demais") leituras de Marx, por um grupo de universitários, um dos quais é o dono da casa onde ela trabalha, o filme chega a parecer um documentário e foi aplaudido no fim. 

Uma primeira reflexão, bem básica: muitos de nossos filmes falam demais. Não confiam na imagem. Além disso, mesmo quando o tema é bom, como "Os ventos que virão", de Hermanno Pena, de repente surgem falas que sintetizam um mundo, mas nunca ocorreriam na vida real, como "os nordestinos são irracionais". (Um dos truques da filmagem de "Hoje eu quero voltar sozinho", é o ensaio das falas com os atores, diz o diretor Daniel Ribeiro, de forma que fiquem muito naturais).

Algumas vezes, o problema é a filmagem. Não há ruído, não há distanciamento para que a cena seja "preenchida". Um ataque de skinheads pode virar uma cena cômica se não temos o realismo necessário ("Do lado de fora", de Alexandre Carvalho). Nas cenas de tortura de "Corte Seco", por exemplo, experimentei fechar os olhos. Tudo foi muito mais interessante. Alguém me diz que as cenas são fortes: justamente porque já viraram lugar comum, acabam sendo insossas. É a velha questão da revolução pela forma.

Outro caso interessante é "Super Nada", do meu amigo Rubens Rewald. O protagonista é um ator que vive os dramas de ser artista no Brasil; ele é carismático e te conquista (assim como Marat Descartes, o Quiquito de melhor ator em Gramado). Ele conhece um ator de comédia da TV (Jair Rodrigues); ele deixa o comediante com sua namorada e vai comprar cerveja; volta, ela está sambando para o outro, ele lhe dá uns socos. Talvez o comediante tenha morrido, eles o colocam na rua, chamam uma ambulância.

A partir daí o protagonista afunda em culpa e desespero e... Alguma coisa na forma como se dá a sedução do comediante me afasta. Da mesma forma a queda do protagonista não me afeta tanto. (Lembremos que na série "Breaking Bad", nos primeiros episódios, os personagens principais derretem um homem em ácido e o protagonista enforca outro). No meio do filme, você imagina mil e uma coisas que vão acontecer quando o ator entrar na TV, mas fico com a impressão de que pouca coisa acontece.

Temos também o caso de "Flores Raras", de Bruno Barreto, mais ligado a uma ideia de filme para grande público, mas no qual o personagem de Lota Soares torna-se logo um estereótipo de "latifundiário brasileiro", impulsivo, mandão e insensível. A passagem rápida pelo motivo da depressão (uma frase, "a ditadura me tirou a obra") mostra o quanto a abordagem novelesca do drama familiar impede a compreensão das emoções envolvidas.

No Festival, outro exemplo é o impacto, dia 28, de "Romance Policial", de Jorge Durán, depois de "Refugiado", de Diego Lerman (o mesmo de "Olhar Invisível"). O primeiro tem situações artificiais de sobra: um diálogo explicativo ("Atacama!"), o mesmo problema de mostrar toda a vida do sujeito para explicar o que ele está fazendo no Chile (por que não começar na cena em que o protagonista descobre um corpo?), e pior, uma cena de "tortura" quase cômica. (Um simples recurso de idas e vindas no tempo já teria um resultado muito melhor).

O segundo, com imensa delicadeza, mostra o tema da violência contra a mulher pelo olhar de uma criança: é assim, nenhuma sinopse pode contá-lo. E não adianta saber que Jorge Durán escreveu os roteiros de "Lúcio Flávio", "Pixote" e "Mulher Aranha", todos filmes incríveis. 

Será o "novelismo" de nossa cultura? Será que filmamos pouco, temos poucas críticas? Será que na cultura dos guetos que criamos (classes, universidades, especialidades...), pega mal criticar amigos? Será que a sociedade argentina se posiciona mais? Será que seus universitários tem mais ligação com sua cidade? O cinema argentino tem o INCAA, que financia muito (ninguém fica mais de 2 anos com um roteiro na gaveta, me diz uma diretora argentina; aqui, a média é 4 ou 5 anos), tem salas públicas pelo país e exterior (salve SP Cine, recém criada), tem uma ligação forte com os novos autores que são publicados por pequenas editoras, tudo isso deve ter influência. Sei lá. Só sei que depois de 5 filmes argentinos bons, você cai de 10 andares com uma primeira cena explicativa. 

Claro que muitos filmes passaram por cima disso. Exemplos recentes são "O som ao redor", cheio de buracos, "Hoje eu quero voltar sozinho", com seu roteiro sem pretensões, por isso comovente, "Avanti populo", escuro, lento, com muito Super 8, que aborda a ditadura sob um ponto de vista novo e tem até humor - um pai (Carlos Reichenbach, premiado) que viu o filho sumir; não morrer, sumir. (No filme argentino "O olhar invisível", uma jovem responsável pela disciplina de um colégio, em 1982 vive a repressão sexual apresentando quase sintomas histéricos).

Por sorte, outros brasileiros, como "Tatuagem", "Praia do Futuro", também nos convidam à ambiguidade, contradições, surpresas...

Como eu digo, um filme começa pelo cartaz. O último cartaz que não me deu a ideia de "menino e menina se amam em São Paulo" foi Dzi Croquetes, com seu homem de cílios postiços.

Vivemos um catolicismo provinciano até muito recentemente, depois uma censura real, e acabamos com uma redemocratização que vetou a crítica e entregou um modelo de mundo novo, com Estado ausente e pouca democracia real nas cidades. A elite se fechou em si mesma, o isolamento nas cidades aumentou, o marketing da vida-malhação nos transformou todos em atletas frustrados.

Até hoje é comum falarmos de "politização" e "polêmica" como algo ruim; mesmo onde há debate (por exemplo, em meios universitários), o papel da opinião pública parece afetar pouco os 55 vereadores da cidade, dependentes de doações de campanha; recentemente vemos uma onda conservadora criticando o "politicamente correto" ou mesmo os "direitos humanos" (numa sociedade que viveu da escravidão durante 400 anos). 

Mas houve melhora no nível de educação (investimento da classe C em ensino), a internet criou mais circulação de ideias, a era do monopólio já era.

O público brasileiro não quer mais ser ensinado, levado pela mão, doutrinado, mesmo que em nome de uma boa causa. Será que isso reflete uma sociedade autoritária, onde não existem dúvidas? Claro, vocês dirão, isso é uma generalização em cima de dois ou três casos - mas o que conta aqui é a concepção de arte: um simples meio transparente para a luz da doutrina? Temos dificuldade em achar o âmago da contradição, numa sociedade (como a paulistana) onde a inércia do capital apaga o desejo por e as esperanças de mudança? Onde "reintegração de posse" virou uma forma de esconder a humilhação da falta de casas?

Ou talvez nos falte ainda a ideia de que a arte é criação de densidades, perguntas, uma forma de revelar o difícil que é o simples, e vivamos numa cultura que jamais saiu da certeza.  





domingo, julho 06, 2014

Como escrever um clássico

Senhoras e senhores:
Com grande prazer, venho hoje receber o prêmio que foi profetizado pelo meu professor.
Esse professor dizia: “cuidado para não virar um clássico”. E, ao mesmo tempo, profetizava que, com uma bela redação, eu iria “longe”. E longe, quem sabe, era dentro. O mundo, tão disperso, gosta de evitar sínteses, novas leituras. Ele havia sido palhaço na corte, perdera a razão, ele foi ao inferno atrás de sua alma. E quando os senhores me propõem esse tema, o que é o clássico, eu lembro dele.
No seu curso, “Como escrever um clássico”, aprendemos muitas coisas, em especial a deixar de lado tudo que não é vivo para nós. É disso que os clássicos são feitos. Um clássico é aquele lugar onde podemos mergulhar e encontrar o que precisamos; como um mito, é a imagem-síntese que faz a mente trabalhar, narrar.
Os clássicos, todo mundo ouviu, nunca acabam, sempre têm sede de dizer. Os clássicos despertam nossa curiosidade (como o amor), porque não os sabemos, cães estranhos, porque são livres das convenções, dos medos de não agradar, são si mesmos profundamente. Como Sócrates, dizem: “Tantas coisas de que não preciso”.
Os clássicos surpreendem sim, mas porque interessam. Interessam, fazem prosseguir. Portanto nunca dizem mais que o necessário, ou dizem de uma forma tão desnecessária que causam prazer. Um clássico é seco como um detetive. E as coisas explodem quando aparecem sem moldura.
Os clássicos interessam à muitos porque todo mundo têm um pé no seu tema – portanto ele gera leitura; e é metafórico, abstrato e estranho o bastante para dar espaço à criação individual, várias épocas podem debater com ele seus problemas. Um dia, todos achavam que o romance era grande e a ciência perfeita, e cada clássico tinha um jeito de operar a mesma regra; depois, os clássicos passaram s ser sistemas, pesquisas pessoais e visões libertas; não importa, ele sempre nos leva como nos livros do maior escritor policial de todos os tempos, Freud.
Nós, criadores de clássicos, operamos a linguagem, a maior alma coletiva do mundo e fazemos pensar com a emoção. Fazemos rituais de compartilhamento, e permitimos que se troque de alma, libertando as pessoas das normas ao redor e dando-lhes novas regras para jogar. 
Uma história propõe ideias que amarram, são fios condutores; podemos até pensar sobre ideias do mundo. Porque coisas complexas nos fazem questionar o hábito, o mundo se torna possível de estranho, gera enigma, monstro, crime. No mundo onde faltam ideias reguladoras (o marxismo condenado, e Nietzsche como democrata maior falhando), ideias e métodos evitam impulso, medo, repetição. Aqueles conteúdos isolados, coisas-em-si-mesmas, saem do sujeito para atacar os outros e voltam como ataques em fogo sem mediação.
O clássico nos dá medo. De descobrir todas as formas da imaginação de Dante. De tudo que Proust viu e pensou. Existe a resistência ao mergulho no mar absoluto. Os clássicos sempre propõe modelos (mas cheios de imagens emocionais), porque, como os mitos, exemplificam muito uma situação, de modo que podemos unir os particulares em categorias, já que todo pensar deve ter algo de generalização.
Como escrever um clássico? Não pensando demais como os críticos, a tradição, mas ligando-se àquela alma vegetal de todo ser, úmida, germinativa; à sua memória, à força impulsiva que raciocina emocionalmente. Mas o passado gera impulso. Os críticos despertam paixão. O crítico junta sua narrativa-guia com uma das em potencia no texto e elas se alimentam, atraindo amantes.
Em um mundo onde não se trata de debater temas, mas de quem está falando, onde temos de “ser alguém” para sermos vistos, e, portanto, não gostamos de processos longos, o clássico entra em contato, abraça, dialoga. Diverte e não diverge, escolhe, concentra, possibilita a unificação do eu.
O pobre consciente com luvas de boxe tenta lutar contra a lei inflexível do superego (de smoking, mas agora talvez burguês-consumista) e com Isso (com roupa de tigre e um tridente). E, é claro, um clássico calouro promete status intelectual a quem seduz e dá diversão para ser um veterano.
Um clássico é como um estrangeiro que chega em uma cidade, trazendo novos modos de fazer, novos modos de organizar, estando fora das classes. Como um sábio árabe, busca regras ocultas dentro das coisas, traduz estudos antigos e acredita que simplificações ideais geram aproximações úteis. Um clássico é rebelde.
Um clássico é uma escolha cirúrgica. Tudo que diz é a matéria, não a doutrina. Ele nunca permanece.
Um clássico mostra que o central é o significado, por isso tudo que foi feito precisa estar dentro de um livro.
No nosso mundo onde os donos do poder sabem o que devem fazer, já criaram todos os modos, os objetivos e as formas de falar, todos os esquemas de organização e categorização do real, tudo deve ficar imóvel, como as propriedades e as leis, o clássico traz a lógica do jogo, onde todos podem participar, o absurdo das rígidas tabelas, a filosofia por trás do método mais empírico.
Um clássico deixou de lado toda multiplicação e pretensão. Ele não quer mudar o mundo, mas muda. Um clássico é uma sensação nova. Não cabe nas gavetas. Mesmo tendo sido contado, não perde seu interesse, diz que tudo é diferente. Os clássicos são os descendentes dos sacerdotes que decapitavam drasticamente os animais em ritual.
Na verdade existia um animal que era de manhã algo, depois o oposto e de tarde outra coisa. Édipo foi condenado por dar uma explicação simples. Ao mesmo tempo, ele foi rei porque conseguiu ler um símbolo, o homem relaciona. Os valores mais sagrados e os mistérios mais profundos viraram piada para o clássico.
Como dizer a verdade sem ser hipócrita?
Como escrever um clássico? Começa com: sem todo o resto.

Afonso Lima

segunda-feira, junho 02, 2014

H.C.E.

- Vou lhes contar a história do guerreiro sem cabeça - disse Sr. Porter, cujo nome de batismo era Humbert Cimber Earwicker, algo bêbado no balcão da taverna. Eu sonho muita coisa, vocês mesmos são coisas dentro do meu sonho.
- Grande urso falador, nosso homem-macaco! - disse o velho do correio. Herói Comezinho Embriagado, é como lhe chamam - bradou.
- Era uma vez a cidade envolta em névoa, cercada de água, cheia de monges, fervilhante de mercadores que vendiam prata, escravos e porcos - disse Sr. Porter.
- Ele é plano como a planície do Horrível Castelo Earredores, é o que eu digo - o filho do coletor de impostos bradou, dançando.
- Ah, a ira divina, a vingança divina! Pensar que o Senhor criou um fogo negro que nunca apaga para torturar e punir Homens Como Esse - alguém falou do fundo. 
- Um inseto, sim, com essas mãos brancas e peludas, perseguindo moças da idade de sua filha! Não sente um peso enorme nas costas? Hein, senhor Porter? - o comerciante de longas barbas ruivas bradava, acendendo o cachimbo. 
- O barco dos vikings chegou e cabeças rolaram de monges pela praia. 
- Hereto Cidadão Endublinado, eu diria. Ele terá um exército de demônios só seu quando chegar ao inferno! Não haverá carvão suficiente para o fogo que merece! - o estudante adolescente dizia, batendo a caneca na mesa. 
- Mas so a sombra do crepúsculo surge um guerreiro sem cabeça, com espada de bronze, que vai fazendo cair filas de vikings sanguinários!
- Quando Cristo gritar: "Afastai-vos de mim, oh! malditos" e os nove coros de anjos taparem os ouvidos enquanto os demônios arrastarem o senhor Porter - agora era o gordo contador que dizia, enquanto uma jovem prostituta abraçava seu pescoço. 
- E logo eles têm que recuar para seus navios e fugir, e os monges vem velar os seus mortos. 
- Mas ah! Hera Como Estraviado, Hehas Crianças Espalhadas! Ah!Ah!Ah! - alguém dizia. 
- E o guerreiro levanta a espada contra o horizonte moribundo. Ele vai embora montanha acima e nunca mais ninguém o viu. 
- Ah! espere pelo fogo, a fumaça e o abraço dos diabos! - outro gritava.
Mas o taberneiro Porter não se importava, saiu detrás do balcão, começou a dançar com a moça e cantar antigas canções. 

Afonso Lima

quinta-feira, maio 22, 2014

Na praia

"Quanto mais correta for uma pessoa, maior o número de coisas que não revelará sequer para si mesma. Eu, porém, decidi lembrar-me, falar sobre elas, ousar trazê-las á luz"- diz ele sobre a alma do grande escritor. Foi no processo de pesquisa para meu artigo sobre "O sósia" de D., que acabei deparando-me com uma história bizarra sobre ele - e o ensaísta. Algo constrangedor, imoral, mas que lhe colocava em sintonia com esse desejo de ir contra o mundo burguês e analisar as "profundesas criminosas da consciência". Ele fala do grande homem que tem uma culpa trágica e identificação com o crime, fantasias mórbidas, que tem uma doença que se assemelha ao êxtase sexual e sua posterior depressão. 

Passei a buscar então a base dessa personagem, "figura viva" como queria Schiller, misto de conceito e sensibilidade e as camadas sobrepostas daquele que representa e do que inspira. "Que precisão de pensamento, expresso nesse belo corpo" - ele fala sobre o rapaz. Dizem que A., neto de um nobre industrial polonês, de férias com a mãe e os irmãos no hotel à beira do Lido, chamava a atenção de outros cavalheiros, inclusive de um outro escritor que chegou a colocá-lo no colo. "Ele era mais bonito do que as palavras podiam exprimir" – diz o livro. O outro, tinha três anos à mais, ainda assim grupos católicos protestaram contra o filme inspirado no texto. Um deles foi preso pelos nazistas, perdeu sua herança na Polônia comunista, e viveu pobremente durante anos. O outro diz que era sempre visto como homossexual, desde a época que o diretor e a equipe o levavam a bares gays e se sentia constrangido, começou a negar isso ostensivamente, inclusive dizendo que o filme foi “uma maldição” para ele, e passou a ser descrito como preconceituoso. "Será que serei apenas esse rapaz?" – ele dizia. O primeiro era um aristocrata jovem quando recebeu da prima, que o reconheceu, o livro, ao qual não deu muita bola. "Perfeitamente belo, com uma seriedade divina, como as esculturas dos mais nobres tempos" – diz o livro. O jovem ficou muito tempo sem atuar, dizia que os diretores não tinham lugar para quem foi a representação da perfeição, chegou a declarar: "Não pedi para nascer com esse rosto. Não vejo a hora de envelhecer". Um morreu em 1989, tendo sido obrigado a permanecer na Polônia pelo regime comunista, pois sua fuga poria em risco a vida de familiares próximos. O outro, acabou casando, teve filhos e, na meia idade, passa a ter conflitos de consciência. Um deles, tendo perdido tudo, teve de ganhar a vida como tradutor na embaixada inglesa. O conde ficou profundamente ofendido quando o diretor do filme não quis visitá-lo em uma visita ao seu país. Deu entrevistas para o tradutor polonês do livro confirmando que era ele que brincava na areia com um amigo, e que isso pouco indicava sua vida como voluntário de guerra e depois prisioneiro quando os nazistas invadiram a Polônia. O outro acaba morrendo em pleno estúdio quando, no intervalo de uma filmagem, põem uma arma na cabeça e faz uma brincadeira - a pressão é suficiente para deslocar um osso do crânio. O primeiro lembrava-se da imagem de um homem “velho” (tinha 35 anos) observando ele e seu amigo, dois garotos jogando bola na praia. Ele lembra de entrar no elevador e quase ser devorado por um olhar apaixonado. Na embaixada, o homem descobre uma entrevista com a esposa do escritor, na qual conta que, quando esteve com seu marido nessa praia, ele ficou transtornado com a beleza de uma criança. 

O livro diz que ele tinha algo de “rico e mimado”, com seus cachos e terno de marinheiro inglês; o sósia (tão perfeita verdade) foi dublado por não ser polonês e dizem que o primeiro ator convidado a contracenar com ele apenas exclamou: “Não posso me apaixonar por alguém que existe”; a esposa do escritor diz que ele hesitou em fazer do personagem um escritor, mas acabou preferindo “dizer toda a verdade” - e, no entanto, era outro. Não existiria Tadzio se não houvesse ideia. 

Mas como dizia, acabei deparando-me com uma história bizarra sobre o grande escritor comentado. Na casa de uma família amiga, cercado de moças e crianças, ele conta sua intenção de escrever um romance sobre um senhor feudal que, entre amigos bêbados de uma noite de excessos, conta sobre o estupro de uma menina vinte anos antes. A dona da casa fica chocada e manda-lhe embora. Eu mesmo recordei que, quando adolescente, ouvi relatos cruéis, narrados de modo frio por outros bêbados. Um amigo conta da trágica ocorrência com sua filha dentro de sua casa num condomínio fechado. De fato, essa análise vem à tona na obra de um escritor que, também ele, se apaixonou, ainda que de forma idealizada, numa cidade úmida, sombria e pestilenta. E é ele quem fala do grande homem que tem uma culpa trágica e identificação com o crime, fantasias mórbidas.

Afonso Lima

segunda-feira, maio 19, 2014

Thomas Mann no Brasil

para Willi Bolle

- Dizem que o deus Hermes, quando cruza o caminho de um homem, lhe inspira o desejo da distância - o senhor Mann bebia seu chá no terraço do hotel, com seus óculos escuros pelos quais olhava com visível satisfação o clima límpido e ameno. Ele viera para o Brasil para uma viagem "secreta" de um mês, pensando em manter a disciplina na criação de seu novo livro, já que no sul da Califórnia ele era "tragado constantemente para as atividades solares" - palestras, homenagens oficiais, entrevistas, talvez porque provava que a América era o que todos sabiam. (Além disso, fizera uma cirurgia grave no pulmão). Roosevelt havia dito que ele seria um ótimo presidente para a Alemanha. Parecia simplesmente mórbida a forma como queriam separá-lo da cotidiana humanidade. "A viagem é o maior estudo - dizia meu professor, mas eu viajei para parar o tempo" - ele disse bem humorado, pedindo outra fatia de torta de limão. "Eu sempre desejei ver as coisas de longe" - ele disse, parecendo olhar para mim, protegido pelo óculos. Eu não tinha coragem de retribuir o olhar. Preferia a água da piscina. Bebia mais uma xícara, mesmo com o calor de 25 graus.

Ele falava bem devagar, todos os seus movimentos pareciam estudados, como se fossem parte de uma ópera, mas eu pensava que isso nada tinha a ver com arrogância ou pedantismo, mas com uma cultura europeia que eu jamais entenderia completamente. E, ao mesmo tempo, fazia parte de mim constantemente a sensação de também estar atuando, de precisar saber fazer as coisas no tempo certo, de que existia uma certa medida para tudo. Em especial para "aquilo". "Diga tudo, mas nunca diga 'eu", dizem que Proust afirmou. 

Nada "disso" era falado às claras, naquela época. Quando eu vi a senhora Mann pela primeira vez, em Nova Iorque, fiquei surpreso com sua aparência masculina. Meu pai, que a conhecera muitos anos antes, tinha por ela a maior admiração e justamente a achava feminina, de olhar "forte e sensual". A primeira coisa que me ocorreu, que pode ser mesmo estúpido, era que ela não era feliz. Hoje, penso que era uma espécie de serenidade, um orgulho e um despojamento extremos, por ser o pilar da casa. Ele, ao contrário, parecia-me um pássaro frágil, tinha uma pele branca, olhar terno e um bigode levemente cômico. De alguma forma, nada nele me fazia ver o "deus da filosofia literária", a "Alemanha encarnada", a "saudade de Platão" com que geralmente o descreviam. Ele se sentia livre porque viera sozinho? 

Eu era um jovem jornalista recém formado, filho de um concertista brasileiro amigo da sua esposa. Fora escalado para ser seu acompanhante, principalmente nessa primeira apresentação, por falar alemão e porque, creio eu, meu pai supunha que seria um "trabalho de formação" para mim. Eu tinha lido seu livro sobre Veneza, claro. Queria falar sobre ele, mas minha timidez não me permitia. De alguma forma, ele percebeu?

Fomos ao Jardim Botânico. A vitória-régia, essa flor sexual, lhe inspirou um pensamento lânguido: "A maior parte do meu trabalho, eu devo ao espírito de minha mãe, essa brasileira. 'Oh volúpia, oh inferno - insaciáveis, invencíveis - diz o filósofo." Ele pareceu estudar atentamente uma travesti elegante que passeava por entre as orquídeas. E, entre as altas palmeiras, que parecem querer crescer até o céu: "No centro de tudo está a vontade de viver, o desejo". Lembrei de ter lido sobre o fato de seu irmão ter lhe recomendado a terapia do sono para "tratar" sua "condição".

- Andre Gide publicou em 1924 seu "Coridon", no qual expõe sua vida íntima. Dizem que o filósofo católico Charles Maurras, foi visitá-lo um ano antes para evitar a publicação. Pediu que ele se ajoelhasse e pedisse ao Cristo orientação, e Gide se negou a fazê-lo. "Não se trata de ser ou não rebelde, mas de ser ou não verdadeiro", ele teria dito.

Eu tentava lutar contra o pensamento de que um homem assim amável pertencia a um mundo passado; pensava que o peso que tinha no fundo da alma, deveria ser por ter sofrido ao ver o que considerava a civilização ser devorado pela loucura, que ameaçava queimar tudo. Mas ele seguia em frente. E gostava de falar.

Subimos a serra. No carro, eu tive coragem de perguntar alguma coisa sobre o livro. "Você já leu o Fausto - do Goethe" - ele perguntou. "Lembra-se que o homem vende a alma para conquistar o mundo? Isso o faz crescer, ele é perdoado. Eu acreditava que o que nos salvava de toda a mesquinhez burguesa, a banalidade do comércio acumulador e da burocracia calculadora, era a arte. Eu achava que a arte era essa passagem, essa ligação entre o vir à ser e o atemporal, o real e o abstrato, o sensual e o universal. Pensamento em sentimento, sentir-pensar. Mas depois do horror, eu tenho medo do que pode ser a arte, a ciência, a filosofia. Medo dos faustos fechados em seu mundo". 

Jantamos cedo, caminhamos pelo jardim da casa que nos hospedava. Estava muito animado sobre seu novo livro. Falava em "abismo", "pacto com o demônio", "destino alemão", e eu, mesmo sabendo estar diante da história, começava a sentir um cansaço crescente. "Um intelectual seduzido pelo sono da felicidade, afundado na água suja e parada do pensamento conservador".

Esfriava. Acendemos a lareira. "Minha mãe não era burguesa. Ela nos contava lindas histórias, brincava conosco. Um dia, meu pai mandou embora minha babá brasileira porque achava que ela estava me tornando mole" - ele estaria falando comigo? novamente hesitava - "A paixão é a morte, todo desejo é sofrimento - dizia um pastor amigo de meu pai. Esse ambiente gerou a revolta romântica". 

A segunda garrafa nos deixava meio bêbados. "Um dia eu fui à ópera e lá encontrei um jovem que havia sido meu colega. Vestido com as últimas novidades da moda, cercado de amigos, passava, como sempre por íntimo das artes e ousado pensador. Várias vezes, em público, criticara meus trabalhos, opiniões e até mesmo comportamento, de maneira que eu sabia que, por detrás dessa alegre simpatia, vivia um ainda mais frio ódio ao novo e inveja. Ele tentava fazer com que eu me envergonhasse de ser um pensador, e livre, tentando convencer-me que eu é que era o beijo da morte, já que as pessoas rebeldes, nessa ambiente romântico, eram apenas as que faziam tudo que o costume mandava. Eu simplesmente saí do teatro. Esse Hades convidando à repetição eterna". Ele parou. Nossos olhos se encontraram. Eu o vi poucas vezes depois disso, e não saberia dizer nem sequer se aprendi algo desse homem, a sensação que tenho é de que observei a vida passando com liberdade.

Afonso Jr. Lima

domingo, maio 18, 2014

O romance

"O sol trazia à sua alma a dor de sentimentos complexos, a grandiosidade e o mistério da neve mergulhada em silêncio", eu começo. Quando fui para o norte da África finalizar minha dissertação tinha como objetivos o isolamento, claro, e também estar no ambiente onde o "Teoria do romance" foi escrito. De modo algum sua vida pessoal me interessava, mas era inevitável pensar nisso caminhando por mercados e observando dunas na luz alaranjada. Meu interesse surgira na medida em que eu, jornalista, mau poeta, havia tido notícia de que um de seus livros começara a partir de recortes de jornais, descritos em seu diário. 

Eu ouvia a estranha música árabe no terraço da minha casa e, claro, pensava no personagem do jovem Hans, que vinha ao Marrocos acompanhar o famoso cineasta Jean Cochin despertando ciúme no autor, personagem central do seu livro, que o acompanha com a desculpa de buscar vinhos raros. E, de fato, o seu namorado cineasta fez um filme com um cineasta famoso. Minha pesquisa não avançava. Constantemente queria vasculhar os lugares mencionados pelo autor, passei a caçar pessoas que conviveram com ele, queria ter os diversos pontos-de-vista sobre a história filmada. Um livreiro contou-me que o livro foi escrito quando o escritor encontrou seu jovem amigo lendo seu diário sobre suas aventuras amorosas na juventude no norte da África. Um comerciante inglês, importador de vinho, contou-me a lenda segundo a qual o jovem passara a buscar o primeiro amor do autor, tendo ele mesmo o traído por ciúmes. 

O jovem Hans, justamente, começa a perseguir os pontos nos quais o autor havia vivido sua paixão - "monstruoso mistério" - e decide escrever um texto intitulado "Teoria do romance" para falar da dificuldade em encontrar a verdade. Ele também encontra, por acaso, o primeiro amor do escritor, o que faz com que o cineasta use o tema no roteiro, que fazem juntos. Por fim, eu mesmo me apaixonei, "o terror piedoso frente ao que tem grandiosidade e silêncio". Vivendo na incerteza, ciumento, abandonei a África e meu jovem amigo, voltei ao Brasil e me dediquei a importação de vinhos e a escrever esse romance. 

Afonso Jr. Lima

sábado, maio 17, 2014

O cair da tarde

O fim está próximo. Fumam, bebem. Aguardam o contato, não sabem quem. O inimigo acabara de matar vinte e três jovens franceses inocentes, em represália pela morte de um oficial pelo grupo.  
- Não haverá perdão. Depois dos massacres da Polônia, quem...
- Depois do 6 de fevereiro. Repressão imediata dos criminosos. 
- Não haverá perdão. Quem são esses pensadores que...
- Lembro de um artigo na NRF, depois que Hitler restabeleceu o serviço militar obrigatório. "A guerra é a suprema catástrofe. Todo antifascismo deve odiar a guerra".
- Apenas Suarès. Só lembro dele. Ele discutiu em público com Alain. Disse que o livro de Hitler baseava-se na ideia de raça. 
- Raça, um século inteiro, essa imbecilidade. 
-  "Pensam que uma raça superior em contato com uma inferior se degenera", lembro-me de ouvi-lo dizer. 
- Depois de 6 de fevereiro. Só com dez ou doze cadáveres... Se o parlamento fosse invadido pela direita... 
- Tudo já estava claro ali. 
- Mesmo assim, os intelectuais ou são pacifistas ou... Acham que o inimigo do comunismo é a democracia. A democracia parlamentar "capitalista". 
Um pássaro grita. Acende um cigarro.

E um silêncio se bateu sobre eles enquanto a luz diminuía de um azul ofuscante para azul. Max morrera na prisão. Um amigo teve sua casa invadida por soldados embriagados, violentaram sua filha, foi assassinado. Dois escritores foram executados depois de julgamento sumário. 
Desnos está incomunicável na prisão. Muitos estão escondidos. Paul foi deportado para a Alemanha. 

- Eu enforcaria o Sr. Claudel. "Bolchevismo contra a civilização cristã" - eu li em um jornal na época da guerra da Espanha. 
- Parece que ele falou contra o fuzilamento de Nantes. Precisamos criar uma lista de expurgo. Dizem que alguns já fugiram, outros se mataram, outros ainda foram presos pela Resistência e aguardam execução. "Judeus, franco-maçons, bolchevistas - cosmopolitas decrépitos" - gritava um desses panfletistas. 
- Será uma caça às bruxas. Eu serei um deles. Condenaremos a morte tudo traidor? Não haveria tribunal suficiente.
Esperam. A tarde vai caindo com um rosa desbotado que se mistura ao cinza do céu. 

Afonso Lima

sexta-feira, maio 16, 2014

"Memórias de um jovem solitário"

O que é o manuscrito nós não sabemos. Uma ficção do jovem suicida? Um diário? Uma crítica literária embrionária? Em alguns momentos ouvimos a voz do pai, por exemplo: "A governanta me dizia que ele, com dez anos, passava as tardes deitado olhando o teto". Em seguida o jovem é descrito em terceira pessoa como um bom aluno, alguém que jogava futebol com o motorista. "Depois parou de me contar. Eu achava que meu trabalho estava mudando o mundo e não era fácil sair de Brasília" - aqui temos novamente a voz do pai. A governanta é apresentada em uma reunião de escola onde o menino é elogiado por suas notas, mas contam-lhe como ele ficava solitário no pátio todo o recreio. 
Logo depois temos uma extensa nota onde se apresentam os livros que o jovem autor lê, com uma nota para cada livro (Hesse - 8,00 - reprovado). Poemas sobre a solidão, descrição detalhada sobre os cabelos de uma aluna, cartas falsas para a mãe em Paris. "Julio queria estudar ciências, mas nunca vai, porque quer morrer cedo. Eu sou tão pequeno, ele dizia. Não tenho um amor." O motorista o levara para assistir uma sinfonia de Mahler aos 11 anos. Temos, então, duas páginas de estudo sobre as sinfonias. "Julio poderia ter sido músico, mas seu pai não deixou". A crítica tem divergido sobre o valor da obra nesses últimos 20 anos, mas parece retratar uma crise na narrativa contemporânea e descreve a vida sofisticada da classe alta, uma bela casa em frente à lagoa, conforto e presentes vindos de todas as partes. Infelizmente, o rapaz morreu com 20 anos. Seus pais deixaram para a governanta o manuscrito, que foi publicado. 
Afonso Lima

quinta-feira, maio 15, 2014

Acordando à meia-noite

A neve cai sobre o pátio, onde as estátuas estão sendo encobertas. Um cheiro podre chega do pântano. É o hotel no qual se hospedava no inverno com seus pais. Mensageiros da morte parecem os pássaros negros, ele entra no cemitério. Tadeu estava nu na brancura, inclina a cabeça. Estou sozinho, meu amor me abandonou, quer dizer. Suando. Recomeça sua tradução, febril, o germanista falando que, na modernidade, vale mais o processo que o real. Um chá quente, depois do almoço. A diretora quer expulsá-lo da escola. Você estava com as mãos nos bolsos. O professor descreve longamente seus erros, as calúnias, tudo que pode denunciá-lo. Palmatória erguida para bater. Fechou os olhos, as mãos trêmulas. Um grito saiu-lhe da boca. Caminhando no entardecer, as folhas avermelhadas ficam mais douradas pela luz lateral, algumas árvores se destacam, amareladas. Um velho musculoso entre os jovens que fazem ginástica, um tremor. O germanista falaria de Fedro, Wagner, Nietzsche. "À vida repugna uma precisão tão exata". Frio, banho quente. O nada brumoso. Ele beija a beleza de Tadeu, que se torna branca pedra. A imprensa antissemita o persegue, ele se esconde na casa da velha atriz em cadeira de rodas. Uma foto de uma gôndola. Chove no seu quarto, são obrigados a trocar os quartos. Ele não pode se mexer porque tirará do lugar suas cobertas. Morangos na mesa. Ventos quentes trazem um cheiro podre. Roupa molhada. Corta o cabelo. Morrendo na praia. Vai cuidar do sobrinho, ópera. Rejuvenesce olhando aquele bebê. A água quente. Ele pintou seu rosto, ele entra no cemitério. O cemitério dá nos fundos de uma casa, ele observa na janela da frente os colegas que saem da escola. A diretora não os expulsou. Ele senta ao lado do piano, Tadeu está pintado em um quadro. Ele se desespera. O barulho do mar o faz olhar pela janela. 

Afonso Lima

quarta-feira, maio 14, 2014

Com as próprias mãos

       Eu estava no trem, acompanhado de um jovem conhecido, Olímpio Dias, estudante de direito, que havia por acaso encontrado, mas minha mente estava nela, em seus hábitos misteriosos e reclusos. Eu tinha imaginado coisas horríveis sobre ela, eu a vi sorrindo com meu escravo liberto Josias e queria imediatamente revogar sua liberdade, mas me contive. O jovem, por fim, desistiu de me ler sua nova peça, pareceu irritado, e permanecemos calados até chegar à estação. Quando descemos, lá estava ela me aguardando, muito bem vestida, talvez um pouco sem propósito, e um sorriso se esboçou em seu rosto. Seria timidez, amor recatado, interesse no meu jovem amigo? Os olhos dele brilharam ao vê-la. Tomamos um café juntos, e ela me perguntou sobre nossa viagem à Petrópolis. Por gentileza, tive de convidá-lo a tomar a barca conosco. Aceitou. Eu os vi conversando longamente sobre música, ele parecia especialista em árias, polcas e tangos, e eu já não sabia se seu olhar era de delicada resignação ou de curiosidade astuciosamente encoberta. Fomos à ópera mais tarde. A mesma cumplicidade. Quando lhe falei sobre isso, ela riu discretamente e disse: - Você não entenderia, querido. Ele não é esse tipo. 

       Ele ficou hospedado em nossa casa, a seu pedido. Dona Glória, a governanta, pareceu sorrir como que dizendo: como ele é inocente. Eu vi quando, em nosso jardim, próximo à fonte, ela pareceu entregar ao Josias um bilhete. Seria um encontro? Eu a inquiri tentando manter a calma. Ela desviou-se. Fiquei carrancudo o resto do dia. Por fim ela disse, quando voltávamos na carruagem: - Você não me deixa ser uma boa mãe. ele é apenas um adolescente e precisa desafogar o coração. Eu farei com que sua felicidade floresça. Um adolescente! Estaria comparando-o a mim, um velho de 42 anos? Eu vira umas duas vezes ele trocar conversas sorrateiras com Josias. Uma conspiração. 

Dona Glória me disse um dia, certamente lembrando o cuidado que me tinha desde criança, enquanto dávamos ordens ao jardineiro: - Não é certo um casal jovem trazer um outro homem para a casa. As pessoas podem falar. Nenhuma amizade vale a dúvida. Tomávamos chá, no jardim e ela disse que iria pegar um xale, porque esfriava. Por um momento, desviei o olhar do livro e vi o magro jovem sumir por detrás das árvores que davam no pequeno lago. Não pude me deter e segui-o. Eu vi quando conversava com Josias, e logo veio pelo mesmo caminho minha mulher, à passos ligeiros. Os dois homens estavam enrubescidos como dois personagens do Ginásio Dramático e eu perguntei, irritado, o que era aquilo. Alice disse que havia combinado com Olímpio um encontro para prepararem uma surpresa para mim, mas eu saí com as faces tremendo de ódio. Resolvi voltar ao Rio de Janeiro, deixando-os na casa, alegando compromissos com meu contador. Dona Glória tentou me dissuadir, mas o silêncio de Alice era uma confissão para mim.

       Acabei passando mais de um mês na capital, e não respondia suas cartas, dizendo a mim mesmo que não tinha tempo. Tentava me distrair de minhas agitações. Encontrei no Campo da Aclimação um colega advogado que, sorrateiramente, me deu a entender que ouvira boatos sobre minha mulher e o rapaz. Foi então que uma ideia começou a surgir em minha mente. Eu tinha que fazer justiça com minhas próprias mãos. Não sei como descrever o turbilhão que tomou conta de minha alma depois que retornei a Petrópolis. Mesmo sabendo que o rapaz fora embora, ao ouvir como estava triste na estação, ao perceber olhares de viscondes e condessas quando eu ia às festas da Corte, até mesmo na forma como Alice tentava me agradar e propunha passeios inusitados, eu só via a traição. Voltamos, por fim, quando o ar pestilento amainou. Eu mal falava com ela. 

Um dia, propôs subirmos no Pão de Açúcar, fatigante jornada. Lá encontramos Olímpio, todo aprumado com colete e chapéu de feltro, ao lado de um amigo, Diretor Geral de Ministério, com aspirações de romancista, como nos disse. A forma como seus olhos se encontraram foi demais para mim. O que ocorreu, como ocorreu, prefiro omitir. Só posso lhes dizer que, em casa, no cair do dia, o ciúme me levou ao desespero e o desespero à loucura. Nunca saiu da minha mente o modo como ela se ajoelhou e pediu misericórdia à Virgem. Por fim, após o ato cometido, jantei bem e fui ao teatro. Na minha ausência, Dona Glória, em pânico, chamou um médico amigo da família, que, usando das ligações com a Corte, fez o caso desaparecer dos registros policiais e da imprensa. É por isso que deixo essa nota, tendo vivido recluso, sem mulheres, até essa idade avançada. Já é demais. Volto a fazer justiça, agora com um cálice de vinho. 

Afonso Lima

terça-feira, maio 13, 2014

A colônia

A colonização de Marte foi um fracasso. Os homens e mulheres levados para lá foram, depois de uma década, explorados como escravos pelas Concessionárias: preços altos para importações, instalações sofríveis, jornadas de trabalho excessivas, e, logo, esforço braças desumano, punições cruéis. As crianças passaram a trabalhar das sete da manhã até às cinco da tarde logo depois que foram liberadas da escola, cujos custos foram considerados impossíveis pelo Parlamento. A chamada Revolta dos Meninos explodiu duas semanas depois. 

Muitas famílias, condenadas à miséria devido à crise econômica, abandonaram seus filhos e formaram-se hordas de jovens que circulavam pelas grandes cidades e viviam de crimes ou amontoavam-se em condições de imundície dos becos da capital. 832-NL perdeu o pai em um beco de Niobe K12 muito cedo e passou a trabalhar nas fábricas de extração aos 12 anos. Ele e 945-MN fumavam juntos depois do trabalho, caminhavam pelas margens do rio, descobriam sua sexualidade e assistiram os Circos de Horrores na periferia da cidade com as multidões de curiosos. Mas 945-MN foi demitido por ter dormido no trabalho, depois de uma semana em que não tiraram folga. Adoeceu e acabou morrendo em decorrência da subnutrição.

832-NL reuniu um grupo de quinze garotos em sua casa (viviam em grupos de até vinte jovens em quartos coletivos nos becos) e planejaram incendiar os carros dos principais gerentes da fábrica. O tumulto tomou conta da fábrica, espalhou-se pela cidade, casas de políticos foram apedrejadas, um vereador teve seu carro  cercado e escapou por pouco do linchamento, policiais usaram gás venenoso, e mais de cem corpos foram retirados das ruas. 832-NL foi enforcado em praça pública e seu cadáver foi decaptado. Um jornalista da Terra estava de passagem pelo planeta e acabou publicando as fotos, fazendo com que um parlamentar questionasse o Ministro das Colônias. Uma investigação foi aberta e o contrato com a Concessionária foi rompido. Escolas tornaram-se obrigatórias em todas as cidades marcianas. Ao mesmo tempo, leis mais duras contra atos de vandalismo foram criadas, incluindo pena de morte, e os grupos terroristas, aqui tratados, passaram a agir. 

Afonso Lima

segunda-feira, maio 12, 2014

Outro caso

Ele ficara responsável pela cobertura do julgamento. O réu era um farrapo humano. "Que seja culpado de traição eu deduzo de sua raça. Judeus, estrangeiros, naturalizados, desprovidos dos belos traços da raça indo-europeia, ligam-se aos 'intelectuais', que se arvoram acima do povo e não passam de anarquistas metafísicos". O presidente havia sido atacado no hipódromo, um dia depois de se anunciar um novo julgamento. Nas ruas, a violência antissemita. Uma tentativa de golpe foi abortada. Nos salões, debates acalorados. Ele a conheceu na casa de Mariéton. A nobreza romena se ligara a uma rica família judia, através do casamento de sua bisavó com um grande senhor. 

Apesar de tudo, uma história de amor. Novo governo, o golpista é cercado pela polícia em sua casa, na qual resiste por duas semanas com defensores armados. Cabe a ele fazer a defesa do nacionalismo diariamente em seu jornal. "Somos o prolongamento de nossos mortos. A alma comum da França tem que resistir contra a humilhação do Exército, contra os intelectuais que abandonaram a raça rural de sua origem, contra os judeus, protestantes e maçons".

Mas na luz do luar, Anna o enfeitiça com seus versos, sua voz, seus gestos elegantes. "O senhor realmente acha que não é relevante se esse homem em particular é inocente ou não" - ela disse servindo-lhe chá. "A espécie e a nação deveriam estar acima do individualismo de 1789" ele poderia dizer, mas calou-se. Percebe que jamais poderia escrever com a mesma paixão de antes.

Afonso Lima

sábado, maio 10, 2014

Grande amor

A dama elegante sentara em minha mesa:

- O senhor já leu Isaac Singer?
- O judeu? 
- Ele tem uma frase: todo grande amor tem algo de telepatia. 
- Na escola. Acho macabro demais. A senhora acredita em telepata?
- O que aconteceu entre eu e essa jovem. Se é que posso chamá-la assim agora. 
- A senhora quer se livrar dela?
- Nós nos conhecemos quando eu era professora na universidade. Ela estava quase se formando, uma jovem de vinte e três anos. Nesses treze anos eu a traí e ela me traiu, mas nossa alma era uma só. Entende?
- Preferiria pular os detalhes. Sou antiquado. 
- Nesses anos todos, não saberia descrever quantas vezes vivemons situações estranhas. No início, era apenas uma coincidência divertida. Eu ligava de uma cidade onde estava dando conferência, e descrevia a roupa que ela estava usando. Ou ela adivinhava o que eu iria perguntar. Depois as coisas ficaram mais estranhas. Eu largava meu trabalho subitamente para chegar em casa e encontrá-la desmaiada, com a cabeça machucada. Ela descrevia um sonho que tivera com uma mulher idêntida à qual eu cometera uma traição. Eu sentia enjoo e dor de cabeça quando saía com outras. Eu podia até mesmo dar comandos ao seu corpo quando não queria estar com ela. Ela sentia-se mal ou pegava uma gripe. Para o senhor pode não parecer nada, mas para quem vive isso dia após dia por anos...
- Mas por que quer...
- Nos separamos há três meses. Durante um tempo ela ligava todos os dias, batia na minha porta. Eu sempre fui uma mulher forte e decidida. Sou uma rocha. Mas recentemente tenho estado assustada. Cada dia me sinto mais fraca, nervosa, triste. Minha namorada recente escapou por pouco de um grave acidente. Ouço ruídos na casa à noite,  percorro a casa e não acho nada. Objetos quebram na minha casa sem motivo aparente. Pior de tudo, sinto enxaqueca constante, sua imagem não sai de minha mente. Em uma de suas crises de ciúme, ela ameaçou me envenenar. Passei mal esses dias e fui ao médico. Ele examinou meu sangue e encontrou substâncias tóxicas, mas em baixa quantidade. Mas eu mudei de cidade. E, pior que tudo, acordo no meio da noite tendo a impressão de que ela está em meu quarto. 
- A senhora já pensou em procurar um psiquiatra?
- O senhor será bem recompensado. 
- A senhora pode estar apenas abalada, será que ela cometeria um crime tão grave?
- Ela vai me matar com seu pensamento. 

Afonso Lima

sexta-feira, maio 09, 2014

A decisão

- Você entende?
- O caso das maçãs.
- Sim.
- Uma pena.
- Ele quer receber seus 150 mil. E acha que essa é a forma mais rápida.
- Não imagina. Coitado.
- Mas vou dizer. Foi uma vacilada sua. Como ele ficou sabendo?
- Do Conselho?
- É.
- Ele estava trazendo as notas naquele dia.
- Você não tem uma secretária ou algo assim, seu merda?
- Ele viu o conselheiro chegar. Pensei que não...
- Aí você dá uma mala de dinheiro. Seu merda.
- Faz anos que ele. Ora, afinal. O esquema das escolas. Ele é que deveria ter medo de nós.
- Agora teremos que acabar com ele. Pobre homem, começou vendendo limão nas ruas, foi dono de uma distribuidora, agora... A cidade está mesmo muito violenta. Trate de encobrir na imprensa.
- Você sabe. Todos votaram contra o projeto. Ninguém questionou.
- Pobre homem. Se tivesse me trazido 50 mil resolveria o caso.

domingo, maio 04, 2014

Profetiza

[2013] Cremação coletiva. Era alugado. Estamos fazendo esse apelo. A gente não preferia. Podem tirar ela do jazigo. Ela trabalhou mais de vinte anos lá. Os ossos da mamãe. Queimar como indigente. 
[1888] Liberdade? Minha propriedade.
[2011] Queremos processar. Esperou quase dois dias inteiros. Depois de terem diagnosticado. Se estava generalizado. Foram muitos anos naquela ambiente. Nem bicho merece. Maca no corredor. 
[1889] Gente bicho. Vão comer lixo. 
[2006] Urubu. O cheiro. É chuva e lama, todo dia. Ela canta, cata, a mãe. 

Afonso Lima

sábado, maio 03, 2014

New old

Também em meu tempo cartas 
Vem ossudo vento oeste
Anjos de chuva e trovão 

malandro cosmopolita
consciente, independente
letrado sem preconceito 
de não ter jeito

cavaleiro solitário na terra antiga
a pedra do rei com o rei na barriga
vasta areia e cabeça quebrada
canta a cantiga, ao redor, o nada

triste jeito
o bando do seu joão
gente nem é propriedade
gente irregular 
se matam sem explicação

minha avó costureira
minha mãe engenheira
eu estrangeiro

eu sou um astro acelerado
eu não vou ao supermercado
algo está errado 
política do baseado

meu terno apertado
ouvindo pesado
a grama domingo
estou perdido 

malandro cosmopolita
roda mas não cai
homem negro super carro
homem negro vende água
o ladrão pegou 
a polícia matou
casa não
teto não
Chanel quebrada 
rum com coca-cola
consertar a madrugada 

está tudo confuso 
se os prédios fossem felizes em vidro
por que expor imagens fluídas?
duas taças 
quem sabe o amanhã?

gente pode viver no chão
cantando na chuva
gente impensável 
nasce

em meu tempo 
ossudo vento 
anjos de raio e trovão 
a gente rega a planta
a gente viu coutinho
a gente fala de carinho

o traficante atirou
a cola pegou
superfície plana
acelero reto
meu vento 
o futuro já passou

sou bacana
um ano até a consulta
morreu com 19 anos
na favela, por engano
luta pelo perigo
profeta do já sabido

desculpe drummond
mas não dá
a noite a rua
a hora melancólica?
desumana

sob a cidade existe grama 
puras águas sob o asfalto
redes de insetos
as tempestades 
as pontes caídas 
apagando homens cinzentos

cavaleiro solitário balada antiga
a lei comprada o rei na barriga
pedaços de pop na luz escondida
canta a cantiga, ao redor, o nada

Afonso Lima

sábado, abril 26, 2014

No gueto de Varsóvia
homens pelo chão
hoje não
No gueto de Varsóvia
A morte discreta paira cinzenta
exílio e ruínas em pé
o silêncio
hoje não
No gueto de Varsóvia
a máquina não vê nada
olho que se olha
de um mal mil vezes montado
hoje não
No gueto de Varsóvia
existe o gueto
hoje não
No gueto
uns não são
hoje não
No gueto de Varsóvia
não há caminhos e nada pode ser feito
hoje não
eles sabem mais que nós
aceitamos o absurdo
a gramática do esquecimento
podemos festejar
tudo avança quase bem
hoje não
as crianças caem mortas
e homens como pedras agonizam
hoje não
eles têm fome
o calor de um abraço
não
a sede
humana
hoje não
a ruína longe de nossos olhos
hoje não

Afonso Lima