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domingo, agosto 31, 2014

Pai

carola pai e filho no campinho correta

moderna





a festa
desaparecido o carro



pai e filho comemoram a lista  financiamento
direito

PIB
suspeito o fio



pai no cemitério o silêncio
a bola

operação
a indústria escolhe uma pedra flores comércio mundial
intriga a nação



a queda



Afonso Lima

Do ócio

Haverá por certo um começo
possível um escutar para o coração
combate de fogo e rumo incerto
crescer na tradição e ousar no verso

Na minha aldeia não há tempo
poesia luar e relva pouca
cansado novo, estrelas sabidas
linha ilegível
o pão de cada dia
não sei como sinto

Afonso Lima

sábado, agosto 30, 2014

Cinzas

Caro Pe. Lobato:
A senhorita M., que acaba de falecer em nossa casa aos 45 anos, de modo terrível, era parte da família. Ela foi abusada por seu padrasto e viveu quase um ano na rua, até que um primo a descobriu e a enviou para uma casa de caridade católica, onde foi treinada para ser empregada. Infelizmente, com 13 anos, sem que seus parentes soubessem, foi entregue a uma família e viveu dez anos sem poder sair de sua propriedade, sem contato com nenhum conhecido. Sua irmã depois de casada, contou o caso para o marido, que iniciou uma longa busca e finalmente ela foi resgatada pela segunda vez. Veio trabalhar conosco quando eu era criança e permaneceu comigo quando minha mãe faleceu e eu mesma tive filhos; nunca se casou. Seu ato contra si mesma pode ter sido causado por uma secreta depressão, minha filha tinha dito achar que ela estava mais silenciosa e ensimesmada recentemente. Nos alivia o coração pensar que sempre a tratamos bem e que ela teve mais sorte do que a maioria das crianças desprivilegiadas, contando com todo o conforto e respeito que uma família pode dar. Sem mais, Elizabete.

Afonso Lima

sexta-feira, agosto 29, 2014

adolescência

Um no outro encontramos o sol
deitados no barco, pelo verde
nosso corpo acredita e compreendemos
a inutilidade fundamental

Para sempre do perfeito
a memória será desses dias
surpresos de que no mundo
tudo pode ser refeito

Vogais e as consoantes que virão
apagar não podem a verdade
lábios sabem o segredo
o fluxo vai nos transformar

Então o puro silêncio mais profundo
do mar nunca achado será vivido
eterna brilha a frágil glória
no fundo de nossa alma

Afonso Lima

Caeiro


Antes eu fosse a pedra do rio que nunca
Que folhas soltas olham com desprezo...

Quem me der eu fosse a calma ovelha
Comendo alface na solidão terrena...

Quem dera eu fosse o negro inseto
Que entre água e céu coça sua antena...

Eu sou o ser que nunca dorme
E que rumina e molha sua pena...

Afonso Lima

Traduzindo Antonio Cícero

Segundo a tradição*

O grande bem não nos é nunca dado
e foste já furtado do segundo:
O resto é afogar-se com o amado
na líquida volúpia de um segundo.

Antonio Cícero

The greatest good never in the pocket
Already far from the second
So, to drown with the loved
In the liquid lust of a second

versão Afonso Lima


Voz*

Orelha, ouvido, labirinto:
perdida em mim a voz de outro ecoa.
Minto:
perversamente, sou-a.

Antonio Cícero

Ear, labyrinth, the eye
Lost in echoes, a voice I see
I lie
Perversely, that's me

versão Afonso Lima

Caixa

Dentro do osso, labirinto
parte solta: a conversa
dispersa o corpo
De mim eu minto
a outra
voz ecoa

Afonso Lima

*Outras praias, Iluminuras, 1998.

quarta-feira, agosto 27, 2014

comédia

Estudos de Costumes
Vida Privada  - Pq vc naum transa comigo? Naum gostou do meu k*? A lorena gosta kkk Naum vem com essa. Já era chata. Oi sou o pedro, vamos teclar?
Vida Rural - A colheira sofreu, o teto caiu. Ele faliu. O governo mudou, novo motor, filha letrada, chove na estrada.
Vida Política - Árvore já era. A Nova Era. Dois um casal lado a lado baleado. Se me apagam verão dizia o condenado. Associado. A polícia olha o sol se por.
Vida Militar -  Moço pedindo favor a imprensa tá aqui precisa de ofício impresso nada de no celular o funcionário tem ordem. Entra, senta, quer chá? PM.
Vida na Província - Ele caminha subindo a ladeira em direção à Matriz. Não é ninguém com um nome, um pouco sem rumo, mas ele vê um raio de sol na torre. A lua.
Vida na Metrópole - Um cavalo corre em meio aos carros rush do fim da tarde. Motoqueiros cowboys, polícia, socorro. O cavalo some.
Estudos Filosóficos - Filósofo na nuvem, observa a multidão, nem empresa nem governo te olham, meu irmão. Na rua na noite descobre a verdade: a teoria basta.
Estudos Analíticos - Dois viajantes estranhos na casa do militar. Vieram para o estudo de teologia milenar. Os anjos vivem em meio aos homens, diz o orador.

Afonso Lima

domingo, agosto 24, 2014

O jovem Schopenhauer

Notas -
1 - Ele preferia escalar montanhas na alvorada, para ver o sol nascer e chegar até as aldeias do vale. Ali, com certeza, seu medo com relação ao futuro sombrio que o aguardava - negação total de si mesmo ou a negação do mundo - se abrandava, e podia esquecer a figura opressora e protetora do pai.

2 - Sua mãe, Johanna Schopenhauer vai apontar sempre seu modo de "criticar a tudo e a todos sem perdão". Ele, por sua vez, mais tarde, vai praticamente acusá-la de levar o pai, muito mais velho do que ela e doente, ao suicídio.

3 - As três montanhas que escalou foram: O Cume do Chapeu, em Chamonix; o Monte Pilatus, na Suíça; o Pico da Neve, em Riesengebirge.

4 - Ele primeiro se imagina, depois de  matriculado na universidade de Göttingen, dedicando-se às ciências físicas e biológicas, ao "concreto" - os médicos, nessa época, eram também continuadores de Kant e já era um passo além do cálculo pelo lucro e do conforto material como fim do mundo paterno. Para o amigo de sua mãe, o filósofo Wieland, que o advertira sobre o esforço e a solidão quando decidiu finalmente dedicar-se à filosofia, ele respondeu: "A vida é precária, vou refletir sobre ela".

5 - Ele usará esse exemplo mais tarde comparando o imperativo categórico de Kant com a estabilização autoregulada da sociedade burguesa de Adam Smith, ambas utopias.

6 - Essa triste descrição do diário de viagem também reflete sua própria situação em direção à uma vida não desejada. Em Toulon, as pesadas correntes dos condenados, presos dois a dois, que caminham pelo arsenal; os condenados que jamais levantam do seu assento nas galeras que apenas circulam pelo porto - tudo isso despertou nele um horror tremendo, ainda mais quando soube que há seis mil desses infelizes que aguardam a libertação pela morte.

7 - Quando seu pai lhe colocou a escolha incontornável - a viagem ao redor do mundo e depois um aprendizado de comerciante numa firma de negócios ou a matrícula num curso de humanidades para seguir a carreira filosófica que desejava - pode ter despertado no adolescente um desejo de vingança, que se transformaria em culpa, ele continuando a viver como o pai imaginara até anos depois de sua morte.


Afonso Lima

sábado, agosto 23, 2014

A batalha de San Romano

Dizem que Picasso, ao ver, no Salão de 1907, o quadro "As Banhistas" de Cézanne, exclamou: "Aqui acaba a natureza e começa a arte!" Ele havia trabalhado até poucas semanas antes de sua morte na tela. Paul decidiu pintar de uma forma que mostrasse sua própria percepção porque achava que Manet já tinha dado o passo decisivo, nem guerreiros gregos, nem mercados turcos imaginários, não havia nada para contar. O jardim da burguesia, com moças elegantes, poetas e pintores sob as árvores, sua pincelada fria, deformante, foi duramente criticada em 1863. Manet foi grosseiro com o traço porque não gostava das damas rígidas e ricas, da minúcia de joias, o veludo e as flores nos panos dobrados de Ingres, com poses copiadas de Rafael e Herculano, soterrada há tempo. Ingres pintava para agradar os banqueiros, mas também porque achava que era preciso voltar às coisas em si, ao concreto do fato, numa época de ciência. Ele amava os espelhos e a fotografia e, acima de tudo, a Itália. Dizia que Tintoretto já usara metade de todo o vermelho e azul do mundo para deuses e estrelas, túnicas ao vento, seios e coxas, cupidos e pavões, suas narrativas fluídas, verdade da mentira, penduradas nos quartos de imperadores. Tintoretto - que disputava com Veronese o título de maior pintor europeu e as encomendas das cortes principescas depois da morte de Ticiano, em 1576 - não gostava nem um pouco das narrativas sólidas demais de Paolo Uccello, como a batalha que representara em 1438, onde cada coisa encontra seu lugar sob a luz, nada flui, tudo permanece onde Deus o colocou no Sétimo Dia: lanças fantásticas, cavalos de mármore, tecidos cor de sangue, metais pintados à ouro e prata. Picasso adorava o painel com a batalha entre florentinos e sienenses porque é imagem de uma ideia, cada coisa conservava sua individualidade e brutalidade, nada de harmonia cósmica, porque em nada parecia com a natureza.

Afonso Lima

segunda-feira, agosto 11, 2014

Metzengerstein 2

"Era evidente que o cavaleiro não conseguia mais dominar a carreira do animal. A angústia de sua fisionomia, os movimentos convulsivos, mostravam o esforço sobre-humano no que fazia; mas som algum, a não ser um grito isolado, escapava de seus lábios lacerados, que ele mordia cada vez mais, no paroxismo do terror.

O acontecimento da entrada de posse de uma fortuna tão incomparável por um proprietário tão jovem poucas conjeturas trouxera à tona referente ao curso provável de sua conduta. No espaço de três dias, a conduta do herdeiro sobrepujara a do próprio Herodes. Ultrapassou, de longe, as expectativas de seus admiradores mais entusiastas.

Orgias vergonhosas, flagrantes perfídias, atrocidades inauditas deram logo a compreender a seus apavorados vassalos que nenhum escrúpulo de consciência da parte dele lhe poderia de ora em diante garantir a segurança. Eram implacáveis as garras daquele mesquinho Calígula. Palavras de fogo, suntuosos ambientes, a arte como beleza obscena tudo fervia na sua mente escura e tempestuosa. Na noite do quarto dia, pegaram fogo as estribarias do castelo de Berlifitzing. A opinião unânime da vizinhança acrescentou mais este crime à já horrenda lista dos delitos e atrocidades do barão.

As pessoas caridosas, no entanto, haviam atribuído a alteração de procedimento do jovem fidalgo à tristeza natural de um filho que abandona para sempre seus pais. Alguns havia, de fato, que a atribuíam a uma ideia demasiado exagerada de sua própria importância e dignidade. Outros ainda (entre os quais pode ser mencionado o médico da família) não hesitavam em falar numa melancolia mórbida e num mal hereditário. Tenebrosas insinuações de natureza mais equivocas corriam entre o povo.

Na verdade, o apego depravado do barão à sua montaria recentemente adquirida – apego que seguia o aumentar das inclinações ferozes e demoníacas do animal – tornara-se, por fim, aos olhos de todos os homens de bom-senso, um fervor nojento e contra a natureza. No esplendor do meio-dia, a horas mortas da noite, doente ou com saúde, na calma ou na tempestade, o jovem Metzengerstein havia se fundido com o cavalo colossal, cujas ousadias intratáveis tão bem se adequavam ao próprio espírito do dono.

Havia, além disso, circunstâncias que, ligadas aos recentes acontecimentos, davam um caráter sobrenatural e monstruoso à mania do cavaleiro e às capacidades do corcel. O espaço que ele transpunha em um simples salto fora cuidadosamente medido. Verificou-se que excedia, por uma diferença espantosa, as mais ousadas expectativas das mais imaginosas criaturas.

Num instante, o tropel dos cascos ressoou forte e áspero acima do bramido das labaredas e dos assobios do vento, um instante ainda e, transpondo dum só salto o portão e o fosso, o corcel lançou-se pelas escadarias oscilantes do palácio e, como o cavaleiro, desapareceu no turbilhão caótico do fogo".

Afonso Lima

Plágio

Tinha já dilacerado sapatos e meias e penetrava- me a carne. De vez em quando, inquieto, esvoaçava à minha volta. Passava por ali um senhor que observou a cena por momentos e me perguntou depois como eu podia suportar o abutre.
- Claro que tentei lutar, estrangulá-lo mesmo, mas é muito forte, um bicho destes! Ia até saltar-me à cara, por isso preferi sacrificar os pés. Como vê, estão quase despedaçados.
-  Basta um tiro e pronto!
- Acha que sim? – disse eu. – Quer o senhor disparar o tiro?
- Certamente – disse o senhor. Meia hora.
- De qualquer modo, vá, peço-lhe.
- Bem – disse o senhor. – Vou o mais depressa possível.
O abutre escutara. Elevou-se com um bater de asas e depois, empinou-se para tomar impulso, como um lançador de dardo. Se engolfava impiedosamente no sangue.

Afonso Lima

quinta-feira, agosto 07, 2014

“Murphy” e o conceito de ironia no primeiro Beckett

O Beckett de “Murphy” (1938) é um crítico do século XIX, um modernista semelhante à Joyce que torce os eixos da prosa, mas ainda não os tritura. Para que o autor fosse visto apenas como um “Beckett inciante”, seria preciso um olhar teleológico, assim como a ideia de que o modernismo é uma única linha em direção ao império da forma; importa saber quais questões guiam cada momento, os recursos usados, os achados que tornam o material rico e potente.
Murphy é um “solipcista exausto”, que pretende “o mínimo para sobreviver”, que vive de “pequenas somas de caridade” e deseja apenas “o sonho franco da criança, do espermário ao crematório”.
O que o texto nos apresenta não é um enredo, apesar dos movimentos de um “agregado complexo reunido sob a unidade de um nome” como quer Anne Ubersfeld (p. 73), também não é um caráter ao qual possamos nos apegar, com o qual possamos nos preocupar dentro do manter da crença, na consciência do artifício, com o destino do ficcional personagem.
Antes, são contínuos jogos de linguagem, paródias e inusitadas apresentações de personagens e situações, que causam contínua surpresa e atenção. 

Que recursos são usados se não a identificação com o personagem, a causalidade e o suspense oriundo da coerência?
Um dos mais interessantes é o uso de imagens atratoras, carregadas de simbologia, figuras que se destacam do fundo opaco distanciado de experimentalismo – tão bem expressos na descrição em tabela da personagem Célia e na irônica referência da relação entre silogismos na escolástica – BAR/BA/RA (“como Murphy tinha tantas vezes demonstrado a ela em Barbara, Baccardi e Baroko”).

Como imagens atratoras funcionam o tetraktys pitagórico, o livro "A cidade do Sol", de Tommaso Campanella e as referências astrológicas. O que sustenta a ironia fria é um calor buscado nos clássicos e na antiguidade. De certa forma, o passado é usado pela sua ressonância emocional, enquanto o contexto mágico-religioso que o constituía é dado como morto.
As qualidades que surgem são o ritmo, o contraponto, a síntese-surpresa (“- Não consigo entender o que as mulheres veem em Murphy... - É a sua... - Sua qualidade cirúrgica – disse Wylie”). Esses recursos incluem o jogo entre presente de uma narração e presente do ouvinte-personagem, criando choques de percepção – como no trecho em que Célia, a amada, descreve seu primeiro encontro com o enamorado Murphy ao amigo Sr. Kelly: “Célia acostou-se a ele da melhor forma – Menina infeliz! - disse o senhor Kelly – de modo que dali saíram caminhando...”

Aqui começa a transformação do sujeito autônomo em camadas de pontos de vista, personagens-valise nos quais o centro está em toda a parte e não há circunferência.
Vejamos como Balzac apresenta a Sra. Grandet no seu livro de 1833: “Uma docura angélica, uma resignação de inseto judiado pelas crianças, uma piedade rara, um inalterável equilíbrio de gênio, um bom coração, faziam-na universalmente lastimada e respeitada”.
Na peça “Casa”, de Richard Maxwell, de 1998, o personagem “Mãe” diz, depois da metade do texto, quando ainda quase nada sabemos sobre os personagens:

MÃE – Meu Deus. Meu Deus. Meu marido está morto. O que vai acontecer com a casa? E com a pensão dele? Eu sei que ele tinha uma pensão, acho que nós temos direito a ela. Tenho que olhar os documentos. Eu sei que deixei em algum lugar, preciso procurar. Isto é bom, porque nós vamos precisar, e você ainda é menor. Trabalhar para o governo traz algumas vantagens. Apesar do fato de que você precisar se representar. Você tem que dizer a eles quem você é. Eu acho que posso dizer a eles quem eu sou. Você precisa dizer a eles. Quem você é. Senão você não tem existe. Eu acho.

Dificilmente, aqui vamos encontrar os temas do conflito, da ação e da causalidade que dão estrutura ao drama tradicional. Nesta mímese bizarra, se mantém um traço de realismo na indicação de “personagens” (Mãe, Filho, Pai, Mike) e no simulacro de ambiente (“PAI – Gosto de onde vivemos. A casa.”)
É o estranhamento de um universo aparentemente familiar que cria o suspense. O interesse da peça se dá mais pelo relevo da linguagem, seu absurdo, e pelo fato mesmo de que seus diálogos são opacos a qualquer caracterização holística, revelando antes traços de neuroses e manias. (Também aqui há intertextualidade com um clássico, Hamlet). Algo desse modo de uso do texto está em Murphy, no qual não é ainda absoluta a descrença na capacidade expressiva da palavra (os “meios” para os “fins”). 

Supomos que a tensão clássica do romance se dá pelo mecanismo da emoção correndo pela lógica da unidade – na psicologia, na consequência, na relação entre narrador e leitor. Grosso modo, o suspense se dá pela fórmula - “o que vai ocorrer ao personagem?” ou, mais modernamente, “o que mais saberei sobre essa personagem?” Propusemos que, em “Murphy”, o interesse ou a tensão se dá pela curiosidade sobre a linguagem, seu modo de operação, os recursos usados para operar esse personagem, marionete e autor singular do próprio absurdo. ("Cedo ou tarde, todas as marionetes deste livro choramingam, menos Murphy, que não é uma marionete").

De certa forma o que se está mostrando é mais o processo (os “bastidores”), a exposição da teatralidade, e, portanto, o fenômeno do pensar. Isso nos lembra as operações de Piscator e Brecht. ("A passagem acima foi cuidadosamente calculada para perverter o leitor cultivado").

Erwin Piscator (1893 – 1966) foi um diretor que influenciou profundamente a dramaturgia por meio de suas encenações e por tratar as causas sociais como tema. Afirma, no seu texto Teatro político, de 1918, realizar “o seu labor a serviço da luta do proletariado”. Ele pesquisa os “efeitos prejudiciais do capitalismo para a alma do homem”. (idem; grifo meu) Não busca mais uma dramaturgia do “eu - representação dos conflitos entre indivíduos e ambiente e indivíduo - mas mostrar diretamente as engrenagens e estruturas (a lógica subjacente) de problemas novos em todas as esferas: na vida social, na justiça, nos conhecimentos científicos e filosóficos...

Brecht, nos seus “experimentos sociológicos”, propunha uma espécie de análise científica do objeto personagem, observando os modos de operação, “uma superposição entre o que se chamava caráter 'culinário' do teatro e a crítica desse mesmo caráter. (Pasta, p. 92)
Ao sujeito descentrado, corresponde uma estrutura estranha, ela mesma, pelo menos montagem:
Contra a “peça bem feita”, último avatar do “belo animal“ aristotélico, o devir rapsódico do teatro contemporâneo coloca em questão a própria ideia de composição: transformada em montagem de arquivos de documentário em Weiss, justaposição de fragmentos narrativos e dramáticos em A missão de Müller, a escrita teatral obedece a uma lógica de decomposição. (Sarrazac , p. 42).

Podemos imaginar que o tipo ideal do século XIX era o indivíduo empreendedor, imaginário alimentado pela economia de Malthus – poucos recursos para muitos indivíduos, de modo que a vida seria uma forma de competição. No caso do teatro, ainda o “belo animal” aristotélico obedece a um encadeamento lógico, “tornada unidade de ação na época clássica” (p.42)

Nietzsche vai atacar o darwinismo justamente por ver nele um produto da moral cristã, e propor a natureza como abundância e absurdo desperdício, e a ideia de evolução e teleologia como sintomas. Em seu lugar, ele vê o contínuo declínio das formas de vida, o “orgânico como degeneração”. (Barrenechea, p. 61-64)
O ideal do sujeito estável, confiante nas leis da ciência moderna e na religião, que dão unidade de percepção e parâmetros para a ação, o sujeito que vive a culpa e o conflito e alimenta a autoreflexão, bucando seu lugar na sociedade, começa a declinar.
Como afirma Italo Calvino: “A realidade do mundo se apresenta a nossos olhos múltipla, espinhosa, com estratos densamente sobrepostos”. (Calvino, 2007, p. 210) Nessa situação, tanto a unidade de percepção, quanto os parâmetros para a ação não são claros, e uma posição solipsista pode ser um sintoma, uma reação lógica, uma criação (a “autodestruição” criadora de Nietzsche).

Impossível não lembrar dos exemplos de Barteleby, de Heman Melville, que, em meio ao trabalho que “urgia”, toma distância, transforma o outro em “estátuas de sal” pelo estranhamento - “prevalecia com ele alguma suprema consideração que o obrigava a responder como fazia”. Allan Poe, no seu conto “A carta roubada”, mostra uma polícia “perseverante, engenhosa, astuta, e perfeitamente versada nos conhecimentos do seu ofício” que, no entanto, não consegue avaliar o raciocínio do “oponente”. O fazer não é o bastante; o como e o por que surgem novamente, a ciência não pode ser o único modelo da sociedade: “Os axiomas da matemática não são axiomas de verdade geral. O que é uma verdade de relação, de forma e quantidade, é muitas vezes enormemente falso com respeito à moral”.
Da mesma forma a clínica do olhar de Charcot, esse “fotógrafo da histeria” como o chama Saurí, em Salpetrière, será desafiada pelo recuo ao ouvir de Freud. Charcot afirmava que não se ligava às teorias preconcebidas, e sim “àquilo que surge da experiência, como se pudesse existir um olhar neutro e objetivo, e como se a sua fosse uma mirada ingênua”. (Alonso e Fucks, p. 34) Com Freud a histérica deixa de fornecer “quadros vivos” e obedecer à leis da ação e reação, da exposição num mecanismo habitual (movimentos epileptiformes, alucinações, etc) e passa a ser analista de si mesma, a elaborar situações de grande carga afetiva, nas quais a descarga era impossível de acordo com os códigos vigentes.

Agora interessa no personagem seu modo particular, sua filosofia de vida, sua avaliação do mundo (espelhado no fato de Neary, amigo e rival de Murphy, ser um “pitagórico”, que estuda a “harmonia” ou o “acorde”). Ele prega a não ação (é impossível “deduzir o que você é a partir do que você faz”), ele nem imagina “lutar”, ele prefere “não mudar”. Interessa interrogar o “real” (até mesmo através do olhar periscópico joyciano, que adota as mais variadas formas) e saber que densidades pode criar a arte para questionar os hábitos de percepção.
Em “Murphy”, não há a unidade da identificação, o narrador-personagem que leva o leitor-personagem a pensar como o personagem, mas há o narrador, o vazio e o objeto. Talvez esse seja o conceito de ironia no primeiro Beckett. “Pois o problema da ciência não pode ser reconhecido no terreno da ciência” - diria Nietzsche no “Nascimento da tragédia”.

Afonso Lima


Alonso, Silvia e Fucks, Pablo. Histeria. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2004.
Barrenechea, Miguel [et. al.] Nietzsche e as ciências. Rio de Janeiro: 7Letras, 2011.
Beckett, Samuel. Murphy. Tradução, texto e notas: Fábio de Souza Andrade. São Paulo: Cosac Naify, 2013.
Pasta, José Antônio. Trabalho de Brecht: breve introdução ao estudo de uma classicidade contemporânea. São Paulo: Duas Cidades/Ed. 34, 2010.
Sarrazac, Jean-Pierre (org) Léxico do drama moderno e contemporâneo. São Paulo: Cosac Naify, 2012.

Ubersfeld, Anne. Para ler o teatro. São Paulo: Perspectiva, 2010.

domingo, agosto 03, 2014

um dia de ulisses

1.
Precisamos de um herdeiro, ele dissera.
A luz já incomoda, sono.
Enquanto prepara o café – da direita claridade invade a cozinha - quebra um ovo na caixa, a gema fica intacta no formato ovalado do recipiente. Um segundo cai na frigideira. É branco e dourado, resolve misturá-los. Começa a pensar no Grande Livro Pé-de-Sofá.
Mas por que cargas d´água deveria pensar nesse livro? Algo que lera há...
E, de repente, haviam-se passado vinte anos.
O zelador grita algo com alguém, sobe ao terraço. Como pode? Gritos às 8h da manhã, sempre achou.
Estava pesquisando a Trindade. Mistério para o Ocidente. Três que são um, sem hierarquia, várias tentativas de representar. A rebeldia contra as redes da tradição, da família e da religião parecia mais tênue, já que nenhuma delas sobrevivera.
Lembrava do encantamento com o livro - como se toda luz de um mar branco invadisse o ambiente. As palavras rolando, as palavras na renda branca, o límpido fluir dos movimentos do princípio do dia.
Precisamos de um herdeiro, ele dissera. Agora, o pai reduzia seus sonhos à carne e sangue.
2.
Ele deve gabar-se de tudo que fez.
Toca o sinal para começar a aula. Estão falando de D. Pedro I.
Queria andar pela cidade o dia todo. Mas como, é preciso mais que coragem para vencer cimento, moradores de rua, lixo, sirene, motos, acúmulo de ausências. 
Os alunos debatem sobre o texto. Ajusta sua meia. Lembra.
Daquele livro todo casa, dia, farol, que me derrubou. Como a pata do cavalo no outro, saio em disparada. Esses, sempre largo porque me inspiram. Parte dois dez anos depois.
Precisa orientar o rapazinho. Ele precisa de um guia. Eu gosto de estender a mão. E sei que a terra está rachada. Passo creme nas mãos.

3.
Na sala dos professores olho o jardim, a palmeira brilha, faíscas cor-de-rosa. Um professor conta que os nazistas inverteram o significado da palavra "fanático" na Alemanha para algo positivo.
Quero dizer o que fiz nesse tempo, aventuras, monstros, metamorfoses, ou seja, os livros que li.
Observo como a luz muda, algo se destaca, emerge, passa uma borboleta. O que andei fazendo nesses vinte anos de barquinho na tempestade?
Nós precisamos apenas cumprir as ordens, dar comida ao mecanismo, precisamos apenas mais do mesmo.

4.
Será que existe mesmo algo como destino? Coisas externas contra as quais é inútil lutar.
Algo enredou nos meus pés, não posso avançar. Caminho pelo parque.
Tenho contas à pagar. Cortaram a internet por um dia, uma tragédia.
Corto as laranjas, esmago com a mão, tenho pressa. Deito na minha cama.
Amigo antigo, transformou tudo aquilo em espaços de luz azulada, janelas que dão para ruas onde heróis caminharam, um adolescente com seu livro aberto no jardim e um amigo falando de arte.
Eu li isso tudo em pleno fracasso, deitado, olhando para o chão, enquanto minha família agonizava e minha mãe contava moedas, sem ter entrado na faculdade.
Talvez o segredo seja filtrar as experiências, expelindo tudo que foi tóxico. Vou ao banheiro.

5.
Água.
Do que será feito? Proteína, claro. Pelo menos foi o que eu disse a um amigo que tinha asco.
Crescer. Penso nos nós das árvores, será isso, essas coisas que brotam, mas não são tão delicadas, uma árvores parece ter um rasgo pelo qual saiu a raiz, outra como um arco pelo qual se vê um tronco em expansão.
Eu gostaria de beijar a mim mesmo, reproduzir-me, uróboro bípede, comer sem sal a pura carne e o sangue tão brancos.
"Você não é uma criança como as outras", "Você sempre foi adulto","Sente-se no seu lugar porque os coleguinhas não conseguiram fazer ainda", "Eu não tenho inveja dele, invejo coisa melhor".
Eu não quero abandonar a infância.

6.
O email diz que meu avô sofreu um infarto mas está se recuperando bem.
Penso em Luz, Noite, Zeus, Maria, Odin ou Krisna, que a Natureza seja boa para ele.
Deitado, olho o teto. O administrador do parque disse, estavam fazendo compostagem naquele lado escondido. Eu vi um saco preto em meio a terra e folhas. Pensei que jamais se decomporia. Queria pegar, resisti ao impulso, sempre tão antisocial.
E nada de polícia, estão ocupados.
Mais acima no caminho, um fruto escurece no chão.
Eu sinto um peso no peito, alguém está em cima de mim, quero gritar. Abro os olhos com prazer.
Eu liguei algumas vezes para ele.

7.

Ele me observa. Grosso, capa azul. Um frio germânico, um amigo me diz. É apenas isso? Instinto reprimido na ilha de Calipso, onde todos estão de fato mortos e a paixão se torna morbidez.
Quero gritar à plenos pulmões que Thomas Mann precisava de mais sangue. Thomas Mann eu.
Ligo a TV recolhendo a roupa do varal. São notícias de ontem.
Sou de fato, um vago jornalista. O que eu faço é olhar coisas que estão na sombra, não sou original nem inovador. Tanta novidade criou um caldo branco de sono, vidro e metal.
Abre o livro. "A matéria viva sem estrutura", "organismos não-organizados", "protoplasma primevo das profundesas do mar".
Um vento frio entra pela janela.

8.
O vigia conta. Um rapaz caiu no chão. Pedem ajuda a um policial militar, disse que não pode fazer nada porque o parque está à cargo da prefeitura.
Lavo os pratos pensando nisso.
O policial do meio dia. Particular. Dois metros, sempre lembro-me de A.
"Você viu? Prenderam o chefe de onze morros no Rio, comandava sessões de tortura". Lembro do filósofo falando da boa ambição à TV. "Estou me mudando. Condomínio fechado três quartos. Onde eu morava estava virando uma zona, pobre, funk e crack."
Tenho que ler textos para o grupo da tarde. A Prefeitura disse que não pode ter um guarda no parque porque estão acabando com o crack na região.
Quando paramos?
"Os sem-teto bloquearam uma avenida, você viu?"
A ideologia está nos detalhes.

9.
Entre a cruz e a espada.
O novo plano diretor. Tenho que ler o substitutivo. Como fazer o mercado imobiliário mais amigável?
Colocando as pessoas perto do transporte, mas não seria preciso começar com mais metrô ("mantenha-se à direita"; avisos altos para evitar comunicação) e melhorias nos bairros?
Os sem-teto.
Tenho que assistir. Como os ingleses conseguem? Um drama histórico, uma luta.
Penso nos “a serem lidos”. Busco e busco, pilhas no chão. Aqui, Hammett. Em cima da mesa, com seu corte seco.
Volto para os anos 1920 na tela, o Ulysses é de 1920?

10.

Chave em cima, chave em baixo, dezesseis degraus até o outro andar, porta de ferro. Confiro o cartão, 30 reais. Entro no metrô, escada, uma velhinha lenta, fecha a porta, chega, saio, espero um pouco o fluxo que sobe. Cruzo com o fluxo da outra linha, desço mais rápido pela esquerda, mas sou obrigado a parar, porra, até a porta mais vazia do metrô, espero entrarem os afobados, está frio, abro um livro. Facebook, alguém pediu um texto, tenho uma aula desmarcada, meu irmão, uma amiga convida para uma peça, um amigo conta um caso bizarro. Ele traz um rapaz para casa, o cara começa a pedir pra bater, ele se assusta, pede mais e mais, recusa abraço, o cara bate nele, ele ficou mal. As pessoas querem se destruir? As unhas chegaram a fazer um corte, o cara dormiu no sofá, ele não pregou o olho, foi embora sem tomar café. Logo eu, que gosto tanto de dar carinho, ele disse. Estou estranho desde esse dia.
11.
Tempo fechado, nebuloso. Cidade limpa, bosques, ordem. Uma massa alegre, discussão. O professor é estrangeiro, precisamos ensiná-lo. As moças bonitas da direita falam da dificuldade da tradução do russo, os rapazes malhados do meio falam da dificuldade de produção, os dois homens gays mais velhos falam de como o financiamento público está acabando com a iniciativa no teatro. Imagino alguém semeando sementes de intelectuais, para o bem da nação, mas algumas cabeças simplesmente começam a devorar tudo. Saio para um café. A faxineira perdeu um sobrinho no tráfico, a secretária consola. Começa uma chuva e o dia está no meio.

12.
Vou ao toalete, paredes brancas, um mundo perfeito, luz, dois operários entram, Como você vai ver o filho, se você e sai às seis da manhã e volta às onze da noite, eu penso que no outro ano cheguei, acordando seis horas, metrô, ônibus, como estrangeiro numa disciplina, um mês atrasado, pedi ao professor para observar, não fui aceito, São as regras, ele disse, já somos um grupo fechado, eu andei pelo verde no sol, tomei café, chamei Dionísio, o transformador, Como mudar as regras, eu pensei, eu viajei para o dia em que comprei comida atrás do Mercado, casas decadentes, homens carregando carrinhos de caixas, estoques da alho, eu vejo uma pobre Catedral oprimida entre torres cinzentas, o verde de suas torres petrificado entre carros e pichações em cimento, eu penso na audiência pública sobre o Plano Diretor da Cidade, somos cenário aqui, disse meu amigo urbanista, Somos a falsa democracia, ele disse, e sabemos que antes foi pior, o último prefeito, robótico, nem falsa democracia, e as pessoas excluídas gritam no microfone que querem mais casas, praças, saúde, mas não é o momento, e também nunca é o momento, sento na minha classe.
13.

Ah a arte, uma mandala cheia de manchas, um círculo em movimento, algo entre feto, folha de outono, raios de sangue, pedras, eu gostaria de pintar como essa mulher aos cem anos, e tudo se transforma, eupenso, por algum motivo lembro disso, no ônibus com um milhão de estudantes enlatados, a escravidão infinita, um jovem negro cobertor sob os braços e chinelos velhos e calça dobrada com fundilho marrom e ombros escuros caminhando sem rumo entre lojas, bancos, carros, novidades eletrônicas, e eu, fazer arte, “na pintura interessa o que não é pintura, no concretismo interessa o que não é concretismo”, novamente vejo as mandalas em flor, as rosas bloom do parque, lilases crespas, de laranja à amarelo, de rosa intenso, eu daria roupas e flores para esse homem, talvez ele tocasse jazz ou amasse uma garota, talvez sua voz trouxesse novidades, eu chego no metrô.

14.
“o heroísmo é uma baita mentira e não há subtituto para a paixão individual como motriz de tudo”, eu pensava que o idealismo foi o grande inimigo do século XIX, ter uma visão mais realista, deixar emergir, desamarrar-se dos costumes, ter uma visão pessoal foram as lutas, jogo, jazz, Jung e nós nos dissolvemos, não somos valorizados, não somos vistos, liberdade formal, sopa de democracia, nos convida e nos segrega, um rapaz expulso do Congresso pela Liberdade por fazer uma pergunta imprópria, sabemos tudo sobre tolerância, aceitação, diversidade, só não no mundo concreto. Estamos emagrecendo, temos cada vez mais músculos, o pensamento é lento, o consumo é rápido, quem vencerá, são 4 milhões de óvulos, 100 milhões de espermatozóides, diria seu parente liberal, só os melhores ganham. Tirésias vê algo que nós não vemos, nas faces da Lua?, mas seguimos em frente com lanças de bronze, lanças em punho.

15.

blues no ar da moça com dreads, eu espero na plataforma, chega o metrô, nem um milímetro livre, micropânico, percebo que estou no sentido errado, eu chego na estação Marechal Deodoro, por sorte contra o fluxo, qual o som dessa gente amontoada como animais? que sons produzem pessoas sem casa? qual o ritmo dos meninos vivendo na rua? qual a batida da fome? qual a canção silenciosa do coração de uma mãe que se vende? qual o som de um bairro abandonado? os sons dos meus vizinhos fazendo sexo, música sertaneja, sim pegadores, macho, bêbado bruto, ou 50 Reais a chupeta?, ouço a senhora do parque, lembro de você, out of the blue here´s you and how you care about me you cure me you save me much more I can see, no frio da noite eu te vigio, tuas nádegas redondas, teu abraço, aconchego de lado, boca vermelha, surpresa na madrugada, eu sobre, o calor leve, amanhece, quero mais sono, encosto a cabeça, no mundo do sexo eletrônico, fast-food, sistemas nervosinhos, macromachos nanopsíquicos, mercados financeiros andantes, investidores de anabolizantes, sons do reino mágico do dinheiro, demônios de vidro e aço, um mundo de destroços.

16.
nada está decidido, entro na sala todos sentados meu texto será o primeiro, a roda, eu estou pensando sobre Ulysses, e como a crítica falava sobre uma androginia do protagonista, e como o livro me pareceu poético na adolescência, devora-me, a torre, a mente como mar claro, conversas em pontes preto e branco, sim, sim, arte vera maior mesmo com tudo sobre ela vence, eu lembro de como minha irmã disse sobre obras de arte que parecem absurdas, e ficam com você (ninguém entende nada do que escrevi, não tem ação, não consigo me agarrar em nada, quem fala) e penso que os homens bêbados e rudes já não sabem o que fazer com as mulheres ousadas e ativas, e que o crítico parece falar de uma homossexualidade mental porque a física o repugna, eu perco o tema, será isso, apenas clichês, mas o que impede de ele ser um mulherengo e querer as nádegas-melão de Stephen, assim como a prosa, era vida habituada, e lembro da mulher testemunha relatando 50 anos depois sobre sua vagina fios e levar choques dos policiais, camponeses nus com mel na pele até as vacas lamberem em carne viva, a boca dos estudantes no escapamento acelerando o carro, é uma guerra eles disseram, a empresa ensina demitindo quem protesta, o fazendeiro ensina a ensinar quem manda, o pobre tem sede de comando, o muro caiu, cercas e tropas pela rua, a liberdade triste, estou impaciente, tenho que ficar mudo enquanto a roda roda, o que está acontecendo, procuro um abrigo, marinheiro na tempestade, minha mente em velhas histórias, escreveria eu tudo em detalhes como P ou J quem leria?

17.

“O que realmente eu represento pra você nesse tempo em que nos conhecemos?” Eu leio do e-mail, quase duas horas, “você se esconde”, será que eu me tornei realmente frio e medroso, esqueleto bem científico, proto-humanista matemático? Se algo sabemos depois do século XX, diz o cientista, é que nada é o que parece, mas todas as questões parecem decididas, mundo é máquina, só resta um mais, desde o amor por império de Igreja, ou parte do real é a teoria, e somente a imanência pode, o quê?, ainda, talvez, o aqui e agora, salvo, brilhante, a beleza, como?, intrínseca, e se diz que existe uma quantidade de energia inerente ao próprio espaço, talvez infinitos mundos. Estamos todos nesse barco, a pressa nos cega, o mercado levou tudo que eu acreditava, a luta toda foi apagada, o chão secou, pouca tolerância, de repente os centauros estão voltados para si mesmos, em formação de gueto, violência fria. Uma mensagem – estou namorando; eu também fiz uma escolha, aquele abraço, a casa.

18.

Acorda a carne na cama por terra e canto. Você chegará. Permanecer. Polifonia por favor. Intensidade, improviso, flexibilidade para encaixe. Perguntar. O mundo clichê. Sim.


Afonso Lima, 2014







domingo, julho 27, 2014

O que (não) acontece com o cinema brasileiro?


Tudo bem, "cinema brasileiro" é amplo e talvez exagerado. Sim, estamos muito bem, numa nova explosão de títulos. Pode ser apenas o impacto a um filme (nosso), depois de outros filmes (de fora). Por um lado é um pouco a nossa ansiedade de que, já que nossa produção não é tão grande, querer sempre um filme inovador. O que quero propor aqui é, não sem uma certa megalomania crítica, unir essa questão à de uma sociedade onde há pouco debate: um aluno de faculdade de cinema me diz que "tapinha nas costas" é tudo que os alunos trocam uns com os outros; por outro lado, uma rebeldia histérica, antitudo, uma alienação pela revolta algo psicótica, é o que sinto em muitos indivíduos de classe média, que tampouco fazem uma crítica produtiva aos sistemas de dominação.

No 9º Festival Latino-Americano temos tido a oportunidade de ver uma série de filmes argentinos. Dia, 26/7,depois de assistir "Os insólitos peixes-gatos", de Claudia Sainte-Luce, era a vez de "Corte Seco", de Renato Tapajós. (Fila quilométrica; clima de estréia em Cannes; deve ser o último grito). 

O homem vai ser torturado. Vê seu amigo sendo torturado. Close no rosto de medo. Cenas de tortura. Chega na cela: "E aí, foi forte o pau?" Ele não mexe as pernas. "Eu não posso mexer as pernas". Ele se arrasta até a parede. Chega outro preso. "Eu não posso mexer as pernas". Chegam mais presos. O homem vai ser torturado e assim por diante. 

Em "Os insólitos"... temos uma moça esquisita, que trabalha como promotora de salsichas no supermercado. Uma relação interessante se estabelece entre ela e uma mulher com HIV, mãe de 4 filhos, depois que ela tem uma apendicite e tem de ir ao hospital. Os primeiros 15 minutos de filme são silenciosos. Muita gente chorando no final. 

Esse, e outros, são filmes argentinos que focam em personagens, sem grandes inovações formais, mas com interesse, roteiros incríveis, mostrando a complexidade das relações humanas, sua ambiguidade. "Até o último momento você não sabe o que vai acontecer", disse uma amiga sobre um filme que tinha tudo para ser a velha história de "homem faz justiça com as próprias mãos", "Matar um Homem", de Alejandro Almendras. 

Até mesmo filmes sem pretensões experimentais, como "O chaveiro", de Natália Smirnoff, e "O crítico", de Hernán Guerschuny, delimitam bem uma vida, mostram aspectos vários de um personagem, fazem referência à outros filmes e usam o humor de forma inteligente. No primeiro, uma névoa misteriosa cai sobre Buenos Aires, fazendo com que um chaveiro tenha sintomas extra-sensoriais (diálogo com o surreal da tradição). No segundo, um crítico de cinema cético, que odeia comédias românticas, se apaixona. Hilária a cena em que ele corre na chuva e é parado pelo pessoal da produção de um filme, que fez uma chuva artificial. 

O filme "Reimon", de Rodrigo Moreno, mostra a vida de uma empregada doméstica. (Lembra o ótimo "Domésticas"). Apesar das longas (e talvez "demais") leituras de Marx, por um grupo de universitários, um dos quais é o dono da casa onde ela trabalha, o filme chega a parecer um documentário e foi aplaudido no fim. 

Uma primeira reflexão, bem básica: muitos de nossos filmes falam demais. Não confiam na imagem. Além disso, mesmo quando o tema é bom, como "Os ventos que virão", de Hermanno Pena, de repente surgem falas que sintetizam um mundo, mas nunca ocorreriam na vida real, como "os nordestinos são irracionais". (Um dos truques da filmagem de "Hoje eu quero voltar sozinho", é o ensaio das falas com os atores, diz o diretor Daniel Ribeiro, de forma que fiquem muito naturais).

Algumas vezes, o problema é a filmagem. Não há ruído, não há distanciamento para que a cena seja "preenchida". Um ataque de skinheads pode virar uma cena cômica se não temos o realismo necessário ("Do lado de fora", de Alexandre Carvalho). Nas cenas de tortura de "Corte Seco", por exemplo, experimentei fechar os olhos. Tudo foi muito mais interessante. Alguém me diz que as cenas são fortes: justamente porque já viraram lugar comum, acabam sendo insossas. É a velha questão da revolução pela forma.

Outro caso interessante é "Super Nada", do meu amigo Rubens Rewald. O protagonista é um ator que vive os dramas de ser artista no Brasil; ele é carismático e te conquista (assim como Marat Descartes, o Quiquito de melhor ator em Gramado). Ele conhece um ator de comédia da TV (Jair Rodrigues); ele deixa o comediante com sua namorada e vai comprar cerveja; volta, ela está sambando para o outro, ele lhe dá uns socos. Talvez o comediante tenha morrido, eles o colocam na rua, chamam uma ambulância.

A partir daí o protagonista afunda em culpa e desespero e... Alguma coisa na forma como se dá a sedução do comediante me afasta. Da mesma forma a queda do protagonista não me afeta tanto. (Lembremos que na série "Breaking Bad", nos primeiros episódios, os personagens principais derretem um homem em ácido e o protagonista enforca outro). No meio do filme, você imagina mil e uma coisas que vão acontecer quando o ator entrar na TV, mas fico com a impressão de que pouca coisa acontece.

Temos também o caso de "Flores Raras", de Bruno Barreto, mais ligado a uma ideia de filme para grande público, mas no qual o personagem de Lota Soares torna-se logo um estereótipo de "latifundiário brasileiro", impulsivo, mandão e insensível. A passagem rápida pelo motivo da depressão (uma frase, "a ditadura me tirou a obra") mostra o quanto a abordagem novelesca do drama familiar impede a compreensão das emoções envolvidas.

No Festival, outro exemplo é o impacto, dia 28, de "Romance Policial", de Jorge Durán, depois de "Refugiado", de Diego Lerman (o mesmo de "Olhar Invisível"). O primeiro tem situações artificiais de sobra: um diálogo explicativo ("Atacama!"), o mesmo problema de mostrar toda a vida do sujeito para explicar o que ele está fazendo no Chile (por que não começar na cena em que o protagonista descobre um corpo?), e pior, uma cena de "tortura" quase cômica. (Um simples recurso de idas e vindas no tempo já teria um resultado muito melhor).

O segundo, com imensa delicadeza, mostra o tema da violência contra a mulher pelo olhar de uma criança: é assim, nenhuma sinopse pode contá-lo. E não adianta saber que Jorge Durán escreveu os roteiros de "Lúcio Flávio", "Pixote" e "Mulher Aranha", todos filmes incríveis. 

Será o "novelismo" de nossa cultura? Será que filmamos pouco, temos poucas críticas? Será que na cultura dos guetos que criamos (classes, universidades, especialidades...), pega mal criticar amigos? Será que a sociedade argentina se posiciona mais? Será que seus universitários tem mais ligação com sua cidade? O cinema argentino tem o INCAA, que financia muito (ninguém fica mais de 2 anos com um roteiro na gaveta, me diz uma diretora argentina; aqui, a média é 4 ou 5 anos), tem salas públicas pelo país e exterior (salve SP Cine, recém criada), tem uma ligação forte com os novos autores que são publicados por pequenas editoras, tudo isso deve ter influência. Sei lá. Só sei que depois de 5 filmes argentinos bons, você cai de 10 andares com uma primeira cena explicativa. 

Claro que muitos filmes passaram por cima disso. Exemplos recentes são "O som ao redor", cheio de buracos, "Hoje eu quero voltar sozinho", com seu roteiro sem pretensões, por isso comovente, "Avanti populo", escuro, lento, com muito Super 8, que aborda a ditadura sob um ponto de vista novo e tem até humor - um pai (Carlos Reichenbach, premiado) que viu o filho sumir; não morrer, sumir. (No filme argentino "O olhar invisível", uma jovem responsável pela disciplina de um colégio, em 1982 vive a repressão sexual apresentando quase sintomas histéricos).

Por sorte, outros brasileiros, como "Tatuagem", "Praia do Futuro", também nos convidam à ambiguidade, contradições, surpresas...

Como eu digo, um filme começa pelo cartaz. O último cartaz que não me deu a ideia de "menino e menina se amam em São Paulo" foi Dzi Croquetes, com seu homem de cílios postiços.

Vivemos um catolicismo provinciano até muito recentemente, depois uma censura real, e acabamos com uma redemocratização que vetou a crítica e entregou um modelo de mundo novo, com Estado ausente e pouca democracia real nas cidades. A elite se fechou em si mesma, o isolamento nas cidades aumentou, o marketing da vida-malhação nos transformou todos em atletas frustrados.

Até hoje é comum falarmos de "politização" e "polêmica" como algo ruim; mesmo onde há debate (por exemplo, em meios universitários), o papel da opinião pública parece afetar pouco os 55 vereadores da cidade, dependentes de doações de campanha; recentemente vemos uma onda conservadora criticando o "politicamente correto" ou mesmo os "direitos humanos" (numa sociedade que viveu da escravidão durante 400 anos). 

Mas houve melhora no nível de educação (investimento da classe C em ensino), a internet criou mais circulação de ideias, a era do monopólio já era.

O público brasileiro não quer mais ser ensinado, levado pela mão, doutrinado, mesmo que em nome de uma boa causa. Será que isso reflete uma sociedade autoritária, onde não existem dúvidas? Claro, vocês dirão, isso é uma generalização em cima de dois ou três casos - mas o que conta aqui é a concepção de arte: um simples meio transparente para a luz da doutrina? Temos dificuldade em achar o âmago da contradição, numa sociedade (como a paulistana) onde a inércia do capital apaga o desejo por e as esperanças de mudança? Onde "reintegração de posse" virou uma forma de esconder a humilhação da falta de casas?

Ou talvez nos falte ainda a ideia de que a arte é criação de densidades, perguntas, uma forma de revelar o difícil que é o simples, e vivamos numa cultura que jamais saiu da certeza.  





domingo, julho 06, 2014

Como escrever um clássico

Senhoras e senhores:
Com grande prazer, venho hoje receber o prêmio que foi profetizado pelo meu professor.
Esse professor dizia: “cuidado para não virar um clássico”. E, ao mesmo tempo, profetizava que, com uma bela redação, eu iria “longe”. E longe, quem sabe, era dentro. O mundo, tão disperso, gosta de evitar sínteses, novas leituras. Ele havia sido palhaço na corte, perdera a razão, ele foi ao inferno atrás de sua alma. E quando os senhores me propõem esse tema, o que é o clássico, eu lembro dele.
No seu curso, “Como escrever um clássico”, aprendemos muitas coisas, em especial a deixar de lado tudo que não é vivo para nós. É disso que os clássicos são feitos. Um clássico é aquele lugar onde podemos mergulhar e encontrar o que precisamos; como um mito, é a imagem-síntese que faz a mente trabalhar, narrar.
Os clássicos, todo mundo ouviu, nunca acabam, sempre têm sede de dizer. Os clássicos despertam nossa curiosidade (como o amor), porque não os sabemos, cães estranhos, porque são livres das convenções, dos medos de não agradar, são si mesmos profundamente. Como Sócrates, dizem: “Tantas coisas de que não preciso”.
Os clássicos surpreendem sim, mas porque interessam. Interessam, fazem prosseguir. Portanto nunca dizem mais que o necessário, ou dizem de uma forma tão desnecessária que causam prazer. Um clássico é seco como um detetive. E as coisas explodem quando aparecem sem moldura.
Os clássicos interessam à muitos porque todo mundo têm um pé no seu tema – portanto ele gera leitura; e é metafórico, abstrato e estranho o bastante para dar espaço à criação individual, várias épocas podem debater com ele seus problemas. Um dia, todos achavam que o romance era grande e a ciência perfeita, e cada clássico tinha um jeito de operar a mesma regra; depois, os clássicos passaram s ser sistemas, pesquisas pessoais e visões libertas; não importa, ele sempre nos leva como nos livros do maior escritor policial de todos os tempos, Freud.
Nós, criadores de clássicos, operamos a linguagem, a maior alma coletiva do mundo e fazemos pensar com a emoção. Fazemos rituais de compartilhamento, e permitimos que se troque de alma, libertando as pessoas das normas ao redor e dando-lhes novas regras para jogar. 
Uma história propõe ideias que amarram, são fios condutores; podemos até pensar sobre ideias do mundo. Porque coisas complexas nos fazem questionar o hábito, o mundo se torna possível de estranho, gera enigma, monstro, crime. No mundo onde faltam ideias reguladoras (o marxismo condenado, e Nietzsche como democrata maior falhando), ideias e métodos evitam impulso, medo, repetição. Aqueles conteúdos isolados, coisas-em-si-mesmas, saem do sujeito para atacar os outros e voltam como ataques em fogo sem mediação.
O clássico nos dá medo. De descobrir todas as formas da imaginação de Dante. De tudo que Proust viu e pensou. Existe a resistência ao mergulho no mar absoluto. Os clássicos sempre propõe modelos (mas cheios de imagens emocionais), porque, como os mitos, exemplificam muito uma situação, de modo que podemos unir os particulares em categorias, já que todo pensar deve ter algo de generalização.
Como escrever um clássico? Não pensando demais como os críticos, a tradição, mas ligando-se àquela alma vegetal de todo ser, úmida, germinativa; à sua memória, à força impulsiva que raciocina emocionalmente. Mas o passado gera impulso. Os críticos despertam paixão. O crítico junta sua narrativa-guia com uma das em potencia no texto e elas se alimentam, atraindo amantes.
Em um mundo onde não se trata de debater temas, mas de quem está falando, onde temos de “ser alguém” para sermos vistos, e, portanto, não gostamos de processos longos, o clássico entra em contato, abraça, dialoga. Diverte e não diverge, escolhe, concentra, possibilita a unificação do eu.
O pobre consciente com luvas de boxe tenta lutar contra a lei inflexível do superego (de smoking, mas agora talvez burguês-consumista) e com Isso (com roupa de tigre e um tridente). E, é claro, um clássico calouro promete status intelectual a quem seduz e dá diversão para ser um veterano.
Um clássico é como um estrangeiro que chega em uma cidade, trazendo novos modos de fazer, novos modos de organizar, estando fora das classes. Como um sábio árabe, busca regras ocultas dentro das coisas, traduz estudos antigos e acredita que simplificações ideais geram aproximações úteis. Um clássico é rebelde.
Um clássico é uma escolha cirúrgica. Tudo que diz é a matéria, não a doutrina. Ele nunca permanece.
Um clássico mostra que o central é o significado, por isso tudo que foi feito precisa estar dentro de um livro.
No nosso mundo onde os donos do poder sabem o que devem fazer, já criaram todos os modos, os objetivos e as formas de falar, todos os esquemas de organização e categorização do real, tudo deve ficar imóvel, como as propriedades e as leis, o clássico traz a lógica do jogo, onde todos podem participar, o absurdo das rígidas tabelas, a filosofia por trás do método mais empírico.
Um clássico deixou de lado toda multiplicação e pretensão. Ele não quer mudar o mundo, mas muda. Um clássico é uma sensação nova. Não cabe nas gavetas. Mesmo tendo sido contado, não perde seu interesse, diz que tudo é diferente. Os clássicos são os descendentes dos sacerdotes que decapitavam drasticamente os animais em ritual.
Na verdade existia um animal que era de manhã algo, depois o oposto e de tarde outra coisa. Édipo foi condenado por dar uma explicação simples. Ao mesmo tempo, ele foi rei porque conseguiu ler um símbolo, o homem relaciona. Os valores mais sagrados e os mistérios mais profundos viraram piada para o clássico.
Como dizer a verdade sem ser hipócrita?
Como escrever um clássico? Começa com: sem todo o resto.

Afonso Lima

segunda-feira, junho 02, 2014

H.C.E.

- Vou lhes contar a história do guerreiro sem cabeça - disse Sr. Porter, cujo nome de batismo era Humbert Cimber Earwicker, algo bêbado no balcão da taverna. Eu sonho muita coisa, vocês mesmos são coisas dentro do meu sonho.
- Grande urso falador, nosso homem-macaco! - disse o velho do correio. Herói Comezinho Embriagado, é como lhe chamam - bradou.
- Era uma vez a cidade envolta em névoa, cercada de água, cheia de monges, fervilhante de mercadores que vendiam prata, escravos e porcos - disse Sr. Porter.
- Ele é plano como a planície do Horrível Castelo Earredores, é o que eu digo - o filho do coletor de impostos bradou, dançando.
- Ah, a ira divina, a vingança divina! Pensar que o Senhor criou um fogo negro que nunca apaga para torturar e punir Homens Como Esse - alguém falou do fundo. 
- Um inseto, sim, com essas mãos brancas e peludas, perseguindo moças da idade de sua filha! Não sente um peso enorme nas costas? Hein, senhor Porter? - o comerciante de longas barbas ruivas bradava, acendendo o cachimbo. 
- O barco dos vikings chegou e cabeças rolaram de monges pela praia. 
- Hereto Cidadão Endublinado, eu diria. Ele terá um exército de demônios só seu quando chegar ao inferno! Não haverá carvão suficiente para o fogo que merece! - o estudante adolescente dizia, batendo a caneca na mesa. 
- Mas so a sombra do crepúsculo surge um guerreiro sem cabeça, com espada de bronze, que vai fazendo cair filas de vikings sanguinários!
- Quando Cristo gritar: "Afastai-vos de mim, oh! malditos" e os nove coros de anjos taparem os ouvidos enquanto os demônios arrastarem o senhor Porter - agora era o gordo contador que dizia, enquanto uma jovem prostituta abraçava seu pescoço. 
- E logo eles têm que recuar para seus navios e fugir, e os monges vem velar os seus mortos. 
- Mas ah! Hera Como Estraviado, Hehas Crianças Espalhadas! Ah!Ah!Ah! - alguém dizia. 
- E o guerreiro levanta a espada contra o horizonte moribundo. Ele vai embora montanha acima e nunca mais ninguém o viu. 
- Ah! espere pelo fogo, a fumaça e o abraço dos diabos! - outro gritava.
Mas o taberneiro Porter não se importava, saiu detrás do balcão, começou a dançar com a moça e cantar antigas canções. 

Afonso Lima

quinta-feira, maio 22, 2014

Na praia

"Quanto mais correta for uma pessoa, maior o número de coisas que não revelará sequer para si mesma. Eu, porém, decidi lembrar-me, falar sobre elas, ousar trazê-las á luz"- diz ele sobre a alma do grande escritor. Foi no processo de pesquisa para meu artigo sobre "O sósia" de D., que acabei deparando-me com uma história bizarra sobre ele - e o ensaísta. Algo constrangedor, imoral, mas que lhe colocava em sintonia com esse desejo de ir contra o mundo burguês e analisar as "profundesas criminosas da consciência". Ele fala do grande homem que tem uma culpa trágica e identificação com o crime, fantasias mórbidas, que tem uma doença que se assemelha ao êxtase sexual e sua posterior depressão. 

Passei a buscar então a base dessa personagem, "figura viva" como queria Schiller, misto de conceito e sensibilidade e as camadas sobrepostas daquele que representa e do que inspira. "Que precisão de pensamento, expresso nesse belo corpo" - ele fala sobre o rapaz. Dizem que A., neto de um nobre industrial polonês, de férias com a mãe e os irmãos no hotel à beira do Lido, chamava a atenção de outros cavalheiros, inclusive de um outro escritor que chegou a colocá-lo no colo. "Ele era mais bonito do que as palavras podiam exprimir" – diz o livro. O outro, tinha três anos à mais, ainda assim grupos católicos protestaram contra o filme inspirado no texto. Um deles foi preso pelos nazistas, perdeu sua herança na Polônia comunista, e viveu pobremente durante anos. O outro diz que era sempre visto como homossexual, desde a época que o diretor e a equipe o levavam a bares gays e se sentia constrangido, começou a negar isso ostensivamente, inclusive dizendo que o filme foi “uma maldição” para ele, e passou a ser descrito como preconceituoso. "Será que serei apenas esse rapaz?" – ele dizia. O primeiro era um aristocrata jovem quando recebeu da prima, que o reconheceu, o livro, ao qual não deu muita bola. "Perfeitamente belo, com uma seriedade divina, como as esculturas dos mais nobres tempos" – diz o livro. O jovem ficou muito tempo sem atuar, dizia que os diretores não tinham lugar para quem foi a representação da perfeição, chegou a declarar: "Não pedi para nascer com esse rosto. Não vejo a hora de envelhecer". Um morreu em 1989, tendo sido obrigado a permanecer na Polônia pelo regime comunista, pois sua fuga poria em risco a vida de familiares próximos. O outro, acabou casando, teve filhos e, na meia idade, passa a ter conflitos de consciência. Um deles, tendo perdido tudo, teve de ganhar a vida como tradutor na embaixada inglesa. O conde ficou profundamente ofendido quando o diretor do filme não quis visitá-lo em uma visita ao seu país. Deu entrevistas para o tradutor polonês do livro confirmando que era ele que brincava na areia com um amigo, e que isso pouco indicava sua vida como voluntário de guerra e depois prisioneiro quando os nazistas invadiram a Polônia. O outro acaba morrendo em pleno estúdio quando, no intervalo de uma filmagem, põem uma arma na cabeça e faz uma brincadeira - a pressão é suficiente para deslocar um osso do crânio. O primeiro lembrava-se da imagem de um homem “velho” (tinha 35 anos) observando ele e seu amigo, dois garotos jogando bola na praia. Ele lembra de entrar no elevador e quase ser devorado por um olhar apaixonado. Na embaixada, o homem descobre uma entrevista com a esposa do escritor, na qual conta que, quando esteve com seu marido nessa praia, ele ficou transtornado com a beleza de uma criança. 

O livro diz que ele tinha algo de “rico e mimado”, com seus cachos e terno de marinheiro inglês; o sósia (tão perfeita verdade) foi dublado por não ser polonês e dizem que o primeiro ator convidado a contracenar com ele apenas exclamou: “Não posso me apaixonar por alguém que existe”; a esposa do escritor diz que ele hesitou em fazer do personagem um escritor, mas acabou preferindo “dizer toda a verdade” - e, no entanto, era outro. Não existiria Tadzio se não houvesse ideia. 

Mas como dizia, acabei deparando-me com uma história bizarra sobre o grande escritor comentado. Na casa de uma família amiga, cercado de moças e crianças, ele conta sua intenção de escrever um romance sobre um senhor feudal que, entre amigos bêbados de uma noite de excessos, conta sobre o estupro de uma menina vinte anos antes. A dona da casa fica chocada e manda-lhe embora. Eu mesmo recordei que, quando adolescente, ouvi relatos cruéis, narrados de modo frio por outros bêbados. Um amigo conta da trágica ocorrência com sua filha dentro de sua casa num condomínio fechado. De fato, essa análise vem à tona na obra de um escritor que, também ele, se apaixonou, ainda que de forma idealizada, numa cidade úmida, sombria e pestilenta. E é ele quem fala do grande homem que tem uma culpa trágica e identificação com o crime, fantasias mórbidas.

Afonso Lima

segunda-feira, maio 19, 2014

Thomas Mann no Brasil

para Willi Bolle

- Dizem que o deus Hermes, quando cruza o caminho de um homem, lhe inspira o desejo da distância - o senhor Mann bebia seu chá no terraço do hotel, com seus óculos escuros pelos quais olhava com visível satisfação o clima límpido e ameno. Ele viera para o Brasil para uma viagem "secreta" de um mês, pensando em manter a disciplina na criação de seu novo livro, já que no sul da Califórnia ele era "tragado constantemente para as atividades solares" - palestras, homenagens oficiais, entrevistas, talvez porque provava que a América era o que todos sabiam. (Além disso, fizera uma cirurgia grave no pulmão). Roosevelt havia dito que ele seria um ótimo presidente para a Alemanha. Parecia simplesmente mórbida a forma como queriam separá-lo da cotidiana humanidade. "A viagem é o maior estudo - dizia meu professor, mas eu viajei para parar o tempo" - ele disse bem humorado, pedindo outra fatia de torta de limão. "Eu sempre desejei ver as coisas de longe" - ele disse, parecendo olhar para mim, protegido pelo óculos. Eu não tinha coragem de retribuir o olhar. Preferia a água da piscina. Bebia mais uma xícara, mesmo com o calor de 25 graus.

Ele falava bem devagar, todos os seus movimentos pareciam estudados, como se fossem parte de uma ópera, mas eu pensava que isso nada tinha a ver com arrogância ou pedantismo, mas com uma cultura europeia que eu jamais entenderia completamente. E, ao mesmo tempo, fazia parte de mim constantemente a sensação de também estar atuando, de precisar saber fazer as coisas no tempo certo, de que existia uma certa medida para tudo. Em especial para "aquilo". "Diga tudo, mas nunca diga 'eu", dizem que Proust afirmou. 

Nada "disso" era falado às claras, naquela época. Quando eu vi a senhora Mann pela primeira vez, em Nova Iorque, fiquei surpreso com sua aparência masculina. Meu pai, que a conhecera muitos anos antes, tinha por ela a maior admiração e justamente a achava feminina, de olhar "forte e sensual". A primeira coisa que me ocorreu, que pode ser mesmo estúpido, era que ela não era feliz. Hoje, penso que era uma espécie de serenidade, um orgulho e um despojamento extremos, por ser o pilar da casa. Ele, ao contrário, parecia-me um pássaro frágil, tinha uma pele branca, olhar terno e um bigode levemente cômico. De alguma forma, nada nele me fazia ver o "deus da filosofia literária", a "Alemanha encarnada", a "saudade de Platão" com que geralmente o descreviam. Ele se sentia livre porque viera sozinho? 

Eu era um jovem jornalista recém formado, filho de um concertista brasileiro amigo da sua esposa. Fora escalado para ser seu acompanhante, principalmente nessa primeira apresentação, por falar alemão e porque, creio eu, meu pai supunha que seria um "trabalho de formação" para mim. Eu tinha lido seu livro sobre Veneza, claro. Queria falar sobre ele, mas minha timidez não me permitia. De alguma forma, ele percebeu?

Fomos ao Jardim Botânico. A vitória-régia, essa flor sexual, lhe inspirou um pensamento lânguido: "A maior parte do meu trabalho, eu devo ao espírito de minha mãe, essa brasileira. 'Oh volúpia, oh inferno - insaciáveis, invencíveis - diz o filósofo." Ele pareceu estudar atentamente uma travesti elegante que passeava por entre as orquídeas. E, entre as altas palmeiras, que parecem querer crescer até o céu: "No centro de tudo está a vontade de viver, o desejo". Lembrei de ter lido sobre o fato de seu irmão ter lhe recomendado a terapia do sono para "tratar" sua "condição".

- Andre Gide publicou em 1924 seu "Coridon", no qual expõe sua vida íntima. Dizem que o filósofo católico Charles Maurras, foi visitá-lo um ano antes para evitar a publicação. Pediu que ele se ajoelhasse e pedisse ao Cristo orientação, e Gide se negou a fazê-lo. "Não se trata de ser ou não rebelde, mas de ser ou não verdadeiro", ele teria dito.

Eu tentava lutar contra o pensamento de que um homem assim amável pertencia a um mundo passado; pensava que o peso que tinha no fundo da alma, deveria ser por ter sofrido ao ver o que considerava a civilização ser devorado pela loucura, que ameaçava queimar tudo. Mas ele seguia em frente. E gostava de falar.

Subimos a serra. No carro, eu tive coragem de perguntar alguma coisa sobre o livro. "Você já leu o Fausto - do Goethe" - ele perguntou. "Lembra-se que o homem vende a alma para conquistar o mundo? Isso o faz crescer, ele é perdoado. Eu acreditava que o que nos salvava de toda a mesquinhez burguesa, a banalidade do comércio acumulador e da burocracia calculadora, era a arte. Eu achava que a arte era essa passagem, essa ligação entre o vir à ser e o atemporal, o real e o abstrato, o sensual e o universal. Pensamento em sentimento, sentir-pensar. Mas depois do horror, eu tenho medo do que pode ser a arte, a ciência, a filosofia. Medo dos faustos fechados em seu mundo". 

Jantamos cedo, caminhamos pelo jardim da casa que nos hospedava. Estava muito animado sobre seu novo livro. Falava em "abismo", "pacto com o demônio", "destino alemão", e eu, mesmo sabendo estar diante da história, começava a sentir um cansaço crescente. "Um intelectual seduzido pelo sono da felicidade, afundado na água suja e parada do pensamento conservador".

Esfriava. Acendemos a lareira. "Minha mãe não era burguesa. Ela nos contava lindas histórias, brincava conosco. Um dia, meu pai mandou embora minha babá brasileira porque achava que ela estava me tornando mole" - ele estaria falando comigo? novamente hesitava - "A paixão é a morte, todo desejo é sofrimento - dizia um pastor amigo de meu pai. Esse ambiente gerou a revolta romântica". 

A segunda garrafa nos deixava meio bêbados. "Um dia eu fui à ópera e lá encontrei um jovem que havia sido meu colega. Vestido com as últimas novidades da moda, cercado de amigos, passava, como sempre por íntimo das artes e ousado pensador. Várias vezes, em público, criticara meus trabalhos, opiniões e até mesmo comportamento, de maneira que eu sabia que, por detrás dessa alegre simpatia, vivia um ainda mais frio ódio ao novo e inveja. Ele tentava fazer com que eu me envergonhasse de ser um pensador, e livre, tentando convencer-me que eu é que era o beijo da morte, já que as pessoas rebeldes, nessa ambiente romântico, eram apenas as que faziam tudo que o costume mandava. Eu simplesmente saí do teatro. Esse Hades convidando à repetição eterna". Ele parou. Nossos olhos se encontraram. Eu o vi poucas vezes depois disso, e não saberia dizer nem sequer se aprendi algo desse homem, a sensação que tenho é de que observei a vida passando com liberdade.

Afonso Jr. Lima

domingo, maio 18, 2014

O romance

"O sol trazia à sua alma a dor de sentimentos complexos, a grandiosidade e o mistério da neve mergulhada em silêncio", eu começo. Quando fui para o norte da África finalizar minha dissertação tinha como objetivos o isolamento, claro, e também estar no ambiente onde o "Teoria do romance" foi escrito. De modo algum sua vida pessoal me interessava, mas era inevitável pensar nisso caminhando por mercados e observando dunas na luz alaranjada. Meu interesse surgira na medida em que eu, jornalista, mau poeta, havia tido notícia de que um de seus livros começara a partir de recortes de jornais, descritos em seu diário. 

Eu ouvia a estranha música árabe no terraço da minha casa e, claro, pensava no personagem do jovem Hans, que vinha ao Marrocos acompanhar o famoso cineasta Jean Cochin despertando ciúme no autor, personagem central do seu livro, que o acompanha com a desculpa de buscar vinhos raros. E, de fato, o seu namorado cineasta fez um filme com um cineasta famoso. Minha pesquisa não avançava. Constantemente queria vasculhar os lugares mencionados pelo autor, passei a caçar pessoas que conviveram com ele, queria ter os diversos pontos-de-vista sobre a história filmada. Um livreiro contou-me que o livro foi escrito quando o escritor encontrou seu jovem amigo lendo seu diário sobre suas aventuras amorosas na juventude no norte da África. Um comerciante inglês, importador de vinho, contou-me a lenda segundo a qual o jovem passara a buscar o primeiro amor do autor, tendo ele mesmo o traído por ciúmes. 

O jovem Hans, justamente, começa a perseguir os pontos nos quais o autor havia vivido sua paixão - "monstruoso mistério" - e decide escrever um texto intitulado "Teoria do romance" para falar da dificuldade em encontrar a verdade. Ele também encontra, por acaso, o primeiro amor do escritor, o que faz com que o cineasta use o tema no roteiro, que fazem juntos. Por fim, eu mesmo me apaixonei, "o terror piedoso frente ao que tem grandiosidade e silêncio". Vivendo na incerteza, ciumento, abandonei a África e meu jovem amigo, voltei ao Brasil e me dediquei a importação de vinhos e a escrever esse romance. 

Afonso Jr. Lima

sábado, maio 17, 2014

O cair da tarde

O fim está próximo. Fumam, bebem. Aguardam o contato, não sabem quem. O inimigo acabara de matar vinte e três jovens franceses inocentes, em represália pela morte de um oficial pelo grupo.  
- Não haverá perdão. Depois dos massacres da Polônia, quem...
- Depois do 6 de fevereiro. Repressão imediata dos criminosos. 
- Não haverá perdão. Quem são esses pensadores que...
- Lembro de um artigo na NRF, depois que Hitler restabeleceu o serviço militar obrigatório. "A guerra é a suprema catástrofe. Todo antifascismo deve odiar a guerra".
- Apenas Suarès. Só lembro dele. Ele discutiu em público com Alain. Disse que o livro de Hitler baseava-se na ideia de raça. 
- Raça, um século inteiro, essa imbecilidade. 
-  "Pensam que uma raça superior em contato com uma inferior se degenera", lembro-me de ouvi-lo dizer. 
- Depois de 6 de fevereiro. Só com dez ou doze cadáveres... Se o parlamento fosse invadido pela direita... 
- Tudo já estava claro ali. 
- Mesmo assim, os intelectuais ou são pacifistas ou... Acham que o inimigo do comunismo é a democracia. A democracia parlamentar "capitalista". 
Um pássaro grita. Acende um cigarro.

E um silêncio se bateu sobre eles enquanto a luz diminuía de um azul ofuscante para azul. Max morrera na prisão. Um amigo teve sua casa invadida por soldados embriagados, violentaram sua filha, foi assassinado. Dois escritores foram executados depois de julgamento sumário. 
Desnos está incomunicável na prisão. Muitos estão escondidos. Paul foi deportado para a Alemanha. 

- Eu enforcaria o Sr. Claudel. "Bolchevismo contra a civilização cristã" - eu li em um jornal na época da guerra da Espanha. 
- Parece que ele falou contra o fuzilamento de Nantes. Precisamos criar uma lista de expurgo. Dizem que alguns já fugiram, outros se mataram, outros ainda foram presos pela Resistência e aguardam execução. "Judeus, franco-maçons, bolchevistas - cosmopolitas decrépitos" - gritava um desses panfletistas. 
- Será uma caça às bruxas. Eu serei um deles. Condenaremos a morte tudo traidor? Não haveria tribunal suficiente.
Esperam. A tarde vai caindo com um rosa desbotado que se mistura ao cinza do céu. 

Afonso Lima