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quinta-feira, maio 03, 2012


Pronunciamento na Audiência Pública pela declaração de utilidade pública do Cine Belas Artes – Assembleia Legislativa de SP – 25 de abril de 2012

Nobres deputados, representantes.
Nobres cidadãos, representados.

Começo com uma citação:
“Dante (Ancona Lopez- um dos sócios fundadores do Belas Artes) foi nosso melhor exibidor. Sem seu exemplo São Paulo não se teria tornado uma capital do cinema, uma Cinecittà”.
Augusto Calil – Secretário Municipal de Cultura

Meu nome é Afonso Jr. Lima, historiador, Mestre em filosofia pela PUC, escritor.
Sou gaúcho e moro em SP desde 2007, quando me tornei sócio do Cineclube Belas Artes, assistindo dezenas de clássicos praticamente de graça.
Hoje eu falo em nome de uma população inteira.
A cultura nos ajuda a criar uma sociedade mais tolerante, uma consciência coletiva e a recriar o mundo, através da imaginação. Sem cultura – a nossa tradição local e a herança universal - nós nos desumanizamos.
Poucas vezes se viu um tema com uma unanimidade semelhante: todas as classes sociais, todas as idades.
Se estamos aqui hoje é porque a cidade foi abandonada por seus representantes à nível municipal, porque a vontade da população foi ignorada.

Alguns números:

  • 90 mil apoiadores na página do Facebook criada pelo estudante de direito Thiago Albejante em janeiro de 2011, antes do fechamento.
  • 16 mil assinaturas somente no abaixo-assinado virtual criado pela jornalista Caroline Santos. Há muitos outros.
  • Uma floricultura pediu aos clientes que escrevessem uma mensagem ao Belas Artes. Mais de 450 depoimentos – inclusive de celebridades - foram então pendurados em uma àrvore, na entrada do cinema, e rosas colocadas no mezanino do prédio.
  • O Movimento colocou uma banquinha no Conjunto Nacional recentemente: colhemos em média 800 assinaturas por dia do fim de semana; quase 7 mil assinaturas em sete dias.
  • Esse fechamento foi eleito o maior erro do ano pela enquete da Folha, com quase 4 mil votos.
  • 1.800 pessoas frequentavam o BA em cada dia do fim de semana e dias de promoção. Inúmeros festivais, cursos e palestras se realizaram alí.


Apresentarei agora exemplos do poder público investindo no cidadão e defendendo a identidade cultural.

O jornal Valor Econômico de 20 de maio de 2011 noticiou:
O número de livrarias no Quartier Latin passou de 225 para 124 na última década. (...)
Para estancar esse esvaziamento e evitar a descaracterização do bairro, a prefeitura de Paris decidiu incentivar a abertura de livrarias. O método utilizado é simples: apoio financeiro aos comerciantes, com aluguéis abaixo dos níveis de mercado. 


Na Argentina, atualmente, o cinema mais importante da Aamérica Latina, tendo inclusive ganho um OSCAR, sabe-se que:
Desde os anos 1990, o Instituto de Cinema Argentino (ICAA) investia em algumas salas urbanas para criar um espaço dedicado exclusivamente ao cinema argentino. Mas, em 2003, optou-se por expandir essa prática: além da Sala Tito Merello, o Instituto alugou o Cine Gaumont e o Teatro de La Comedia.
A ideia por trás desses cinemas era a de livrar-se dos caprichos dos exibidores, que, em geral, consideram os filmes nacionais mais arriscados e menos lucrativos que os de Hollywood. Desde 2004, há uma iniciativa para abrir esses cinemas públicos em escala internacional. Em abril de 2004, um foi aberto em Madri, em seguida, foram abertos similares em Roma, Paris e Nova York.



Em 2005, José Serra- então prefeito da cidade de São Paulo, desapropirou um edifício abandonado, no número 210 da Praça Roosevelt ao lado do teatro Espaço dos Satyros 1, a atual SP Escola de Teatro.

A casa da família Buarque de Hollanda, na rua Buri, 35, no bairro do Pacaembu, foi desapropriada e tombada como patrimônio público pela Prefeitura em 2002.



O Rio tem projeto para salvar cinemas de rua. Noticia o site BOL de 9 de outubro de 2011:

Em pouco mais de um ano e meio, seis tradicionais cinemas de rua terão voltado a funcionar no Rio e em Niterói.

O governo do Rio quer reativar o cine Olaria, transformando-o em 2012 em centro cultural, assim como a prefeitura fará com o ex-cine Imperator, no Meier.

"Ali há uma relação artística e mais ampla com o cinema do que nas salas do shopping. (…)
Fazem parte da identidade cultural e memória afetiva da cidade",
diz Professor de cinema da PUC-Rio Hernani Heffner.

Diz a Constituição, no seu artigo 21, sobre o direito à propriedade privada:



 1. Toda pessoa tem direito ao uso e gozo dos seus bens. A lei pode subordinar esse uso ao interesse social.

A urbanista, professora da FAU, Raquel Rolnik, comenta:

"Estes cinemas (de rua) fazem parte do ethos cultural das cidades e bairros, são pontos de encontro, rituais de escape, divertimento, sonho e reflexão que extravasam das salas para as calçadas ao redor. Lutar pela permanência destas salas, portanto, deveria ser objeto de políticas urbanas e culturais das cidades, estados e do governo federal”.

O cinema, assim como a escrita, é uma linguagem que garante acesso à experiências enriquecedoras insubstituíveis. Isso porque acessamos outras consciências, outras lógicas, e despertamos nossas reflexões emocionais.
Atualmente os dois ou três cinemas de arte de São Paulo – como o Unibanco Augusta e o Reserva Cultural (com ingressos entre R$17,00 e R$ 24,00) não dão conta da demanda de filmes e estes ficam pouquíssimo tempo em cartaz ou não são exibidos. O Cine Sesc oferece apenas uma sala de cinema.
Regredimos.

Preço de ingresso de cinema em São Paulo é um dos mais caros do mundo em torno de R$ 25 reais.


O cineasta Nelson Pereira dos Santos afirma:

“O problema é que o cinema saiu da rua foi para o shopping center, para pessoas que podem ir a esses locais”.
Ele credita ao fato o afastamento da população mais simples das salas de cinema.

No Belas Artes, o Cineclube cobrava apenas R$ 60 ao ano.
Era um projeto com sessões diárias sempre às 19h, sempre com quatro filmes ao mês (um por semana), integrando ciclos temáticos, como homenagens a grandes diretores, atores ou atrizes, por vezes realizando debates na sessão de encerramento.

Havia cinco salas – as lendárias MARIO DE ANDRADE, CARMEN MIRANDA, VILLA LOBOS, ALEIJADINHO e OSCAR NIEMEYER.

Tinha meia entrada acessível à aposentados e estudantes. No site antigo temos os valores do ingresso em março de 2011.

“Às segundas-feiras, qualquer pessoa que apresentar carteira de trabalho (mesmo estando desempregado),
ou cartão de aposentado paga R$ 5,00.Quartas-feiras:O valor do ingresso é de R$ 10,00.
Com a apresentação da carteirinha de estudante, será cobrada meia-entrada.
Nos demais dias (terças, quintas, sextas, sábados e domingos)o valor do ingresso é de R$ 18,00.
Com a apresentação da carteirinha de estudante, será cobrada meia-entrada (R$ 9,00).

Além disso, o acesso fácil o diferencia da Cinemateca e MIS – na prática frequentados pelo público que possui carro.
Além de que – e talvez principalmente - o Belas Artes faz parte do charme da Avenida Paulista.
Há que se levar em conta também o impacto de valorização da nova estação Paulista do metrô contruído pelo governo estadual (o que o Estatuto da Cidade obriga avaliar).

Uma das nossas maiores preocupações é com o que eu chamo de "periferização do centro", quando a elite vai para condomínios fechados fora da cidade e os equipamentos culturais (assim como bares, restaurantes, etc.) quebram por causa da supervalorização. É o estilo de vida "prisioneiros do concreto" onde cada um fica na sua casa, sem trocas e sem diversidade. Uma cidade de “guetos”, a era do bloqueio comunicativo, sem comunicação significativa.

Propomos então a declaração de utilidade pública e criação de um Centro Cultural Belas Artes, com salas de exibição para filmes brasileiros, de arte, documentários, animação e curtas-metragens.
Que tenha uma Livraria (a lendária livraria Belas Artes funcionou por 15 anos), um café, como centro de convivência, sala de exposições, auditório para debates e cursos, como previa o projeto original de 1967 dos empresários Florentino Llorente e Dante Ancona-López (de quem Leon Cakoff, criador da Mostra Internacional de São Paulo foi assistente no BA)

Florentino Llorente diz à Folha de São Paulo em 09/04/1967:
“Mais do que um cinema será um centro de cultura inteiramente aberto ao debate, oferecendo, para isso, tudo o que a inquietação intelectual de nossos dias está exigindo”.
Por fim um investimento desse porte não se trata de doação, já que o mercado da cultura em São Paulo movimenta 40 bilhões de reais ao ano. Investir na Economia criativa, além de criar uma sociedade saudável, é lucrativo. As futuras gerações nos agradecerão.

Afonso Lima 

segunda-feira, abril 30, 2012


Mulher de Loth


 (David)

Eu paro em frente aos livros e acho o improvável
Minha mão faz coisas que eu não penso
Eu quero um pouco desse fogo
Que sabe implacável o destino em sal e enxofre
(Confissão, contrição e penitência
Talvez sejam, sim, servas da soberba,
Do seu carro, as rodas que nos levam
Inveja e luxúria sejam)
Não quero o progresso cego
(A destruição com um bom nome)
Que pai ou irmãos fazem e calam
Lembrar é meu, assim como a melancolia
(Não existe ontem, nem amanhã, suspeito -
apenas significado
Perder tempo contando o que corre
É um dom dos humanos)
Quero a chave de ouro e a de prata
Dos segredos da chuva e da ira
(compreender como tudo funciona
também é tedioso)
Um Deus em corpo para mim é pouco
Que mal e inferno alimentam meu dia
(O Deus da espada, e o oculto,
que dá corda no relógio
São bobos e me fazem rir -
rir, esse presente sagrado
o deus primordial, talvez, que criou tudo)
Também um mecanismo de acasos formado
Não explica o que vivo, vejo e toco
Só quero a sabedoria que sinto na pele
Quero as leis secretas e a estrada derivada
É orgulho bom, e sei que não sou tudo.



Licença Creative Commons
O trabalho Mulher de Loth de Afonso Jr. Ferreira de Lima foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição - NãoComercial - SemDerivados 3.0 Não Adaptada.
Podem estar disponíveis autorizações adicionais ao âmbito desta licença em http://afonsojunior.blogspot.com/.

sexta-feira, abril 27, 2012



D i á r i o O fi c i a l
P o d e r L e g is l a t i v o
quinta-feira, 26 de abril de 2012
Monica Ferrero


Educação e Cultura faz audiência pública pela
reabertura do Cine Belas Artes
comissões



A Comissão de Educação e Cultura realizou nesta
quarta-feira, 25/4, audiência pública para debater a
desapropriação e a reabertura do Cine Belas Artes,
existente desde 1943 e considerado um ícone cultural
da capital. 


O cinema foi fechado no dia 27/1/2011, após
perda de patrocínio e de diversas tentativas de acordo
com o proprietário do prédio que pediu aumento do
aluguel ou a entrega do prédio. Há indicações que se
pretende vender o imóvel para instalação de uma loja
de departamentos. Desde então, tem havido diversas
campanhas pela sua reabertura.


A questão do tombamento do Cine Belas Artes
está sendo analisada pelo Conselho Municipal de
Preservação do Patrimônio Histórico (Compresp) e
pelo Conselho Estadual de Proteção do Patrimônio
(Condephaat). 


Também foi instalada, em 2012, na
Câmara de Vereadores de São Paulo, uma CPI, presidida
pelo vereador Eliseu Gabriel, para apurar a regularidade
do processo de tombamento do imóvel, bem como o
atendimento da função social do Cine Belas Artes como
marco cultural da cidade de São Paulo.


Tombamento


A presidente do Condephaat, Fernanda Bandeira de
Mello, disse que o conselho entende que o alcance do
tombamento não resulta na manutenção da programação
do Belas Artes. Por isso, optou-se pela abertura do processo
de registro de memória, o que significa reconhecer o valor
de patrimônio imaterial do cinema como local de cultura.


Essa posição do Condephaat foi questionada
pelos representantes de movimentos civis em favor
da manutenção do cinema, por considerarem não ser
possível separar o tombamento físico do imaterial.
Eles entendem que é preciso preservar o prédio antes
pois, apesar da promessa do proprietário de que não o
demolirá, isso não é garantido.


Participaram do evento diversas entidades, como
Movimento pelo Cine Belas Artes, Via Cultural,
Preserva São Paulo, Conselho Nacional da Juventude,
e representante do vereador Eliseu Gabriel, que
destacaram a importância de sua programação cultural
diferenciada da dos demais cinemas. 


As entidades preocupam-se também com a especulação imobiliária,
que está acabando com espaços culturais. O urbanista
Nabil Bonduki disse que o fechamento de cinemas de
rua é um grave sintoma da desertificação das ruas, o
que é inclusive um problema de segurança pública.


“São Paulo tem desprezado seu patrimônio tombado,
e as referências culturais ficam apagadas da memória
da cidade”, lamentou o deputado Carlos Giannazi
(PSOL), autor do pedido da audiência. Ele anunciou ter
protocolado o Projeto de Lei 160/2012, que autoriza
o governo do Estado a desapropriar o prédio do Cine
Belas Artes. 


Expressaram apoio à reabertura do Cine
Belas Artes os deputados Beto Tricoli (PV), Roberto
Engler e Ary Fossen (ambos do PSDB) e Leci Brandão
(PCdoB). O deputado Simão Pedro (PT), presidente da
comissão, disse que fará gestões para a marcação de
uma audiência com o secretário de Cultura, Marcelo
Araújo, para falar sobre a questão e informou que
levará as demandas ao Ministério da Cultura.



Proposta autoriza Estado a desapropriar prédio do cinema
projetos



Da assessoria do deputado Carlos Giannazi


Apresentado recentemente
na Assembleia, o Projeto de Lei
160/2012, de autoria do professor e
deputado Carlos Giannazi (PSOL),
prevê que o governo do Estado possa
agir em defesa do patrimônio cultural
— no caso, o histórico Cine Belas
Artes — desapropriando o prédio
onde o cinema, localizado muito
próximo da esquina entre a avenida
Paulista e a rua da Consolação,
funcionou por décadas. 


Na opinião
do deputado, o Cine Belas Artes
“é um monumento cultural da
cidade, um espaço símbolo, um
ponto de cultura que não pode
desaparecer sob os argumentos
da propriedade privada e da
ganância pelo lucro, cuja ação
penaliza e ajuda a enter rar
par te impor tante da história
cultural paulistana das últimas
décadas”.


Giannazi entende que o poder
público tem a responsabilidade de
se pronunciar e encaminhar uma
alternativa para o fechamento da sala. O deputado vem
desde o início de 2011 agindo e tentando sensibilizar
as três esferas de governo para salvar a cultura desse
prejuízo. Giannazi encaminhou ofícios às secretarias
de Cultura do Estado e do município de São Paulo,
e também ao Ministério da Cultura, pedindo que
os mesmos desapropriem o espaço do Belas Artes.


Também organizou audiência pública em meados de
2011, que contou com a participação de historiadores,
cineastas e representantes de entidades de defesa do
patrimônio histórico e artístico; na sequência, foram
enviadas cópias deste debate aos governos federal,
estadual e municipal.


carlosgiannazi@uol.com.br



sábado, abril 21, 2012

Rembrandt

Caravaggio



Peter Greenaway!





Com

domingo, abril 01, 2012

Epoché
Está muito frio. As folhas estão tremendo, o som dos carros, o som do pássaro (será um pássaro ou um ser mitológico com voz humanóide?).
Ontem, mais um casarão virou pó. Eu virei pó, de preguiça, de fugir, de alto à baixo, da direita para a esquerda. É a internet, a novela, especulação imobiliária, a mídia, ainda a metafísica ou a razão, os agrotóxicos. Eles fugiram para a cidade de mentira e vivem no campo, eles vivem sozinhos com suas máquinas em rede, nossos funcionários receberam dinheiro e venderam nossas terras, tijolos e janelas.
É preciso tecer o passado com o futuro, lembro dos meus primeiros. Escola. Quando a água pinga na teia de aranha. A neve em pleno verão. Sonhos, fadas, recriando com palavras um mundo vazio. Deuses brigaram por um garoto da Índia, fora dos eixos, um carrossel desgovernado. O amor.
Eu lembrei ontem dessa história na hora da tempestade.
Lembrar tecer sorrir parar permanecer.
Se os olhos estão abertos.
Uns sabem, na dor, mas seu saber é pouco.
Outros, por saber, nas moléculas, se perdem. Floresta do esquecimento.
Está muito frio e eu quero escrever sobre a destruição.
Sentado no jardim entre folhas e cimento.
O passado em ruínas.
A memória faz o questionamento.
Um eu na teia que resiste ao vento do mau progresso.
E como saber ler silêncio.

Afonso Jr. Lima

quarta-feira, março 21, 2012

Currículo

Ele brincou com o pai apostando corrida no corredor do prédio.
Ele subiu em brinquedos vestido de Super-Homem.
Ele ouviu a história de uma senhora que trabalhara na Embaixada Francesa num asilo.
Ele leu a República em um hotel e depois subiu um caminho de terra com a avó.
Ele gostou de ouvir o amigo falar coisas que ele não sabia enquanto o sol caía sobre ramos verdes.
Ele desejou criar algo que desse prazer às pessoas.
Ele disse como vai e olhou com olhar generoso seus irmãos.
Ele olhou dentro de si e tentou ser melhor.
Ele sentou com seu pai à beira da piscina.
Ele comprou o livro que o professor sugeriu.
Ele consolou sua mãe.
Ele disse o mesmo mas na hora certa.
Ele andou com sua tia, até loira de olhos azuis, observando a praia e buscaram comunicação.
Ele ouviu Raul Seixas e acreditou que era possível mudar os mundos.

Afonso Jr.

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O trabalho Currículo de Afonso Jr. Ferreira de Lima foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição - NãoComercial - SemDerivados 3.0 Não Adaptada.
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quarta-feira, março 14, 2012

ATO PÚBLICO E PEDALADA PELA REABERTURA
DO CINE BELAS ARTES

Dia: 17 de março de 2012 (sábado)
Horário: 16h (ato)
Local: em frente ao CINE BELAS ARTES
-18h Pedalada saindo da praça do Ciclista

Realização: Movimento pelo Cine Belas Artes (MBA)

A maior mobilização já ocorrida no Brasil por um patrimônio cultural e histórico conseguiu impedir a demolição do prédio do cinema, proibida desde dezembro por decisão da Justiça.


Compareça e ajude a divulgar a manifestação!

Contato do MBA: vivabelasartes@yahoo.com.br

Compareça e ajude a divulgar a manifestação!


http://www.facebook.com/events/278506855553565/#!/events/278506855553565/

CARTA ABERTA ÀS AUTORIDADES
Sr. Governador/Sr. Prefeito:

Há um ano, a população paulistana perdeu um dos seus grandes centros de irradiação cultural, um patrimônio de 68 anos, que ajudou a tornar São Paulo uma Cinecittà: o cine Belas Artes.

Obras clássicas, cinema de arte, filmes brasileiros, tudo isso era acessível ao público e não foi substituído por nenhuma alternativa (seja pela dificuldade de acesso, pelo valor ou pela menor variedade da programação).

Mais de 1800 pessoas frequentavam esse cinema em cada dia do fim-de-semana. Sua programação variada e de qualidade, e seus preços acessíveis, assim com suas promoções, colaboravam enormemente para a formação da população e para a qualidade de vida em uma metrópole cada vez mais desumanizada (falta de transporte público, violência, escolas em péssimo estado, etc.)

Um patrimônio desse porte, submetido unicamente às leis de mercado, está condenado. Não pode resistir a preço do aluguel - também devido, em parte, ao impacto de valorização da nova estação Paulista do metrô (o que o Estatuto da Cidade obriga avaliar). O efeito disso é restringir o acesso à obras de arte nacionais e internacionais.

Solicitamos ao governo urgente intervenção na questão, seja comprando o imóvel, seja atuando como mediador em parcerias, negociações e possíveis patricínios de empresas estatais. O que é inadmissível é a ausência do poder público em uma questão vital para a cidade e que conta com o apoio de milhares de pessoas, que foram grandemente prejudicadas.

São muitos os exemplos que mostram o sucesso de políticas públicas no setor cultural. O investimento do município de Paulínea em cinema (com editais públicos e incentivos fiscais), a Feira Literária de Paraty, que tem nasce dentro de um plano para a revitalização urbana da cidade e a preservação do patrimônio.

É importante notarmos que o mercado da arte na capital movimenta 40 bilhões por ano, e, portanto qualquer investimento no fomento da circulação e distribuição da arte não é apenas "assistência". Trata-se, sim, de cumprir o papel do governo de prover a educação e dar ao cidadão meios de produzir conhecimento. O que está em jogo é um estilo de vida - a cidade será entregue à especulação imobiliária ou teremos formas de proteger nossos interesses, nossa história e nossa liberdade de escolha?

Queremos ruas vivas, repletas de saudável diversidade, e não uma fileira de altos prédios com pessoas trancadas em suas casas. É dever do estado proteger o seu cidadão: esperamos que o Estado cumpra esse papel.

MBA



Manifesto em defesa do Cine Belas Artes, patrimônio cultural, artístico e afetivo de São Paulo e do Brasil

Amparados na Constituição Federal, que inclui as “edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais” entre os bens que “constituem o patrimônio cultural brasileiro” (inciso IV do Artigo 126), defendemos o imediato tombamento do prédio da Rua da Consolação, 2.423, esquina com a avenida Paulista, onde funcionava o mítico Cine Belas Artes. Também demandamos das autoridades que lancem mão de todos os instrumentos necessários para reabrir o cinema, inaugurado em 1967 pela Sociedade Amigos da Cinemateca (SAC) e Companhia Serrador no mesmo prédio que antes abrigara o Cine Trianon, aberto em 1952.
Desde sua inauguração, o Cine Belas Artes manteve as características que demarcaram sua singularidade no circuito exibidor e tornaram-no fundamental para a cultura cinematográfica no Brasil. Ao longo de 44 anos, operou mais como um centro cultural formador de público do que mera sala exibidora, como atestam dois de seus aclamados projetos, o Cineclube e o Noitão, que, diferentemente das salas de shopping, promoviam uma atmosfera propícia à interação. Contou para isso com a preciosa contribuição de Ancona López, reconhecido internacionalmente como um dos melhores programadores de cinema e que teve Leon Cakoff como seu assistente. Soube, também, adaptar-se à nova tendência de complexos com salas pequenas e médias ao transformar seu espaço no mais significativo multiplex de rua do país.

O Cine Belas Artes promovia a diversidade cultural e a reflexão sobre dramas humanos, história, política e arte por meio de uma programação com filmes de alto padrão, brasileiros e estrangeiros, inclusive com elevado número de obras-primas procedentes de países pouco presentes no nosso mercado exibidor.

Desempenhava papel fundamental no circuito cultural das ruas da Consolação e Augusta e Avenida Paulista. Nos fins de semana e feriados, recebia, em média, 1.800 frequentadores por dia. As filas se repetiam e lotavam suas salas também às segundas e quartas-feiras nas tradicionais promoções com ingressos mais baratos. Esse sucesso era favorecido igualmente pela facilidade de acesso a pé e por transporte público.
Entretanto, pressões do mercado imobiliário provocaram a suspensão das atividades do cinema em março deste ano. O fato recebeu ampla divulgação na mídia. Frequentadores realizaram protestos na internet e na rua contra o fechamento e organizaram o Movimento pelo Cine Belas Artes (MBA).

Centenas de depoimentos pró-Belas Artes, um abaixo-assinado com cerca de 20 mil assinaturas e adesões de quase 90 mil pessoas no aplicativo Causes no Facebook são apenas alguns exemplos do que é visto como uma das maiores mobilizações em defesa de um patrimônio cultural no Brasil. Destacamos que este uníssono de vozes em São Paulo coincide com o movimento de resgate histórico dos cinemas de rua em curso no Rio de Janeiro, que contempla a reabertura do igualmente mítico Cine Paissandú (tombado em 2008), anunciada para julho de 2012.

Garantir o cinema de rua é valorizar um modo de vivenciar a cidade com seus bares, restaurantes, livrarias, as pipocas e as pizzas e os encontros com amores, amigos e conhecidos. É, acima de tudo, um exercício de cidadania – lugar de comunhão entre memória, cultura e afeto – que deve ser protegido e fomentado pelo Poder Público.

Movimento pelo Cine Belas Artes (MBA)

LISTA PRELIMINAR DE APOIOS AO MANIFESTO PELO CINE BELAS ARTES – atualizada até 15/12/2011, às 15h00


Alberto Bandone - cineasta
Alexandre Stockler - cineasta
André F.G. Neves - cineasta
André Fischer - jornalista
Anna Marcondes - presidente do Via Cultural – Instituto de Pesquisa e Ação pela Cultura
Antônio Moura Reis - jornalista
Antônio Souza Neto - síndico da Galeria do Rock (São Paulo capital)
Antunes Filho - diretor do Centro de Pesquisa Teatral (CPT) do Sesc
Benjamin Seroussi - curador e produtor
Caio Plessmann - cineasta
Cândido Malta Campos Filho - arquiteto e urbanista e professor da FAU/USP
Cao Hamburger - cineasta
Carlos Guilherme Mota – historiador e professor emérito da FFLCH/USP
Caru Alves de Souza - cineasta
Celso Antonio Bandeira de Mello - jurista
Celso Gonçalves - cineasta e presidente da seção paulista da Associação Brasileira de Documentaristas e Curta-Metragistas (ABD)
Célia Marcondes - presidente da Sociedade Amigos e Moradores do Bairro
Celso Luiz Lasarim - jornalista
Cleo de Paris - atriz do grupo "Os Satyros"
Cunha Júnior - apresentador de TV
Daniela Thomas - cenógrafa e cineasta
Danilo Miranda - diretor do Sesc/SP
Debora Duboc - atriz
Denise Carreira - coordenadora de educação da Ação Educativa e Relatora Nacional para o Direito Humano à Educação
Edgard Carvalho - professor titular do departamento de antropologia da PUC/SP e representante no Brasil da cátedra itinerante Unesco Edgard Morin
Eduardo Suplicy - senador (PT/SP)
Eliseu Gabriel - vereador (PSB/São Paulo capital)
Evaldo Mocarzel - cineasta e dramaturgo
Eva Wilma - atriz
Fábio Yamaji - diretor de animação
Fernando Alves Pinto - ator
Fernando Henrique Cardoso - ex-presidente da República e professor emérito da FFLCH/USP
Fred Ghedini - ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo e diretor da Associação de Proteção dos Direitos Autorais dos Jornalistas Brasileiros (Apijor)
Gerardo Fontenelle - cineasta
Gero Camilo - ator e dramaturgo
Gina Rizpah Besen - psicóloga, consultoria ambiental e doutora em saúde pública
Hélio Goldstejn - diretor de TV
Jeferson De - cineasta
João Federici - produtor
João Signorelli - ator
Jorge Rubies - presidente da Associação Preserva São Paulo
Jorge Mautner - cantor e compositor
José Osório de Azevedo - desembargador
Junia Sirqueira Soares - assistente de audio-visual
Kiko Goifman - cineasta
Laerte - cartunista
Laerte Késsimos - ator
Laís Bodanzky - cineasta
Laura Wie - apresentadora de TV
Leandro Marques - radialista e cineasta
Lee Taylor - ator
Lucia Helena Vitalli Rangel - diretora adjunta da Faculdade de Ciências Sociais da PUC/SP
Lucila Lacreta - diretora do Movimento Defenda São Paulo
Luiz Carlos Merten - jornalista
Luiz Thunderbird – VJ, apresentador de TV, radialista e vocalista da banda Devotos de Nossa Senhora
Márcio Debellian - documentarista
Maria Margarida Cavalcanti Limena - diretora da Faculdade de Ciências Sociais da PUC/SP
Mouzar Benedito - escritor e jornalista
Nabil Bonduki - arquiteto e urbanista e professor da FAU/USP
Newton Moreno - dramaturgo
Olgária Matos - professora do Departamento de Filosofia da FFLCH/USP
Paul Heritage - produtor cultural e diretor de teatro.
Paula C. Ferraz - assessora de imprensa
Paulo Cannabrava - Associação de Proteção dos Direitos Autorais dos Jornalistas Brasileiros (Apijor)
Paulo de Tarso Chamon Schmidt - publicitário e jornalista
Pedro Roberto Jacobi - sociólogo e presidente do Procam/USP
Raquel Rolnik - arquiteta e urbanista, professora da FAU/USP e relatora da ONU para o direito à moradia
Raul Teixeira - sonoplasta e coordenador do curso de Sonoplastia da SP Escola de Teatro
Regina Drummond - escritora
Regina Porto - sonoplasta, produtora e curadora de música contemporânea
Ricardo Ohtake – arquiteto
Rodrigo Faria - produtor cultural e cofundador do Movimento Ilha da Paulista (MIP)
Rubens Rewald - cineasta e vice-presidente da Associação Paulista de Cineastas (Apaci)
Sara Silveira - produtora de cinema
Sebastião Milaré - escritor
Sérgio Haddad - diretor-presidente do Fundo Brasil Direitos Humanos e socio-fundador da organização Ação Educativa
Sonia Barros - escritora infanto-juvenil
Soninha Francine, apresentadora e ex-vereadora em São Paulo capital
Tadeu Jungle – cineasta
Toni Venturi - cineasta
Vera Masagão - coordenadora geral da Ação Educativa e integrante da coordenação executiva da Abong - Associação Brasileira de ONGs
Vinícius Romanini - jornalista e professor de semiótica da ECA e FAU/USP
Zé Celso Martinez Corrêa - ator, autor, diretor e líder do Teatro Oficina
Zuenir Ventura - jornalista


http://www.causes.com/causes/561939-contra-o-fechamento-do-cine-belas-artes

Documentário

http://www.youtube.com/watch?v=OTjOD0H4LfI&feature=share

História:
http://entretenimento.r7.com/cinema/noticias/relembre-a-historia-do-belas-artes-em-nossa-galeria-20110317.html

domingo, março 04, 2012

Drag

Folha em branco, janela. Dois.
Sra. Arnoux tinha um marido infiel, uma filha mandona, um amante que tinha um amante, dois empregos estressantes, um sonho frustrado, um pé chato, muitas coisinhas para prender o cabelo, um carro com problema, um livro não lido, um vibrador quebrado, um ódio guardado, um quadro feio que sua mãe lhe dera, um cachorrinho tirano, uma pinta no seio, um cabelo ralo e lindos olhos verdes.
Sr. R. Era um jovem atraente, escritor e preocupado, preso em máquinas, teorias, contas, sistemas, esperanças e passados. Sr. R. Usava um chapéu, carregava canetas de várias cores, tinha uma venda para dormir e meias estranhas. Sonhava e não tinha RG.
Sra. Arnoux pegou uma chuva na frente de um realejo, “O amor vai chegar para você”. Tudo que lembrou foi de uma música. “O demônio é a tarde sem amor”.
Onde sua vida havia morrido? Sem tempo para pensar. Tanta coisa que escondera, se condensara, aranha na caixa.
Tentou se esconder no shopping, grades antigas, passos desesperados, o luxo do teatro, molhado, mendigos chamando Jesus. O vidro.
Ele pensava pela janela e via que havia vivido muito tempo no porão. Porque ele era sim capaz de incendiar um castelo. A razão é rebeldia. O menino em um pé só, revoltado, faz magia para derrubar o bolo batido, quebra os pés de bancos, derruba os reis. 170 bilhões de orçamento no estado. 2.600 favelas na cidade. No espelho, era preciso unir opostos.
Se eu matasse a Sra. Arnoux sairia na rua com uma peruca verde, sapatos vermelhos, um pinto de plástico pendurado, um frango embaixo do braço, um patuá de dedos, um anel e feto morto. Fora do quadrado.
Os atos desmentem as teorias. Se eu for inteligente, serei amada. O que vale é ser produtiva, o mundo é um meio.
Sra. Arnoux olhou os carros lá embaixo. Se eu matasse a Sra. Arnoux.

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O trabalho Drag de Afonso Jr. Ferreira de Lima foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição - NãoComercial - SemDerivados 3.0 Não Adaptada.
Performáticos

O que Duchamp queria afinal?

Ele estava farto de uma arte visual, queria uma arte de ideias.

Mas, afinal, é apenas um objeto de louça, não?

Não importa o quê, mas quem e onde.

E Yoko Onno? E aquela cama branca?

Viver a diversidade e não falar sobre ela ou confrontar-se pela paz.

E o neodadaísmo?

Volta ao concreto, ao cru, à indeterminação e ao improviso. A própria vida é arte.

Artaud?

Sim, as pessoas eram basicamente reprimidas – pela Igreja, pelas normas do trabalho e do Logos. Hoje, vivemos de impulsos - compre, compre! Os reprimidos viraram os sádicos! Os impulsos orgânicos – gritos, sangue, suor - dessa santidade secular ritual podem esquecer os problemas lá fora.

Você busca uma certa transcendência secular?

A arte é religião, diz Gerhard Richter: um objeto concreto não tem valor de uso. É espantoso.

Uma de suas obras é um tomate podre. Que isso significa?

Não significa. Eu quero dar às pessoas novas sensações - as pessoas só reconhecem as emoções que já vivenciaram. Só reconhecem as emoções que já vivenciaram: vejo o roxomas como só conheço o vermelho, entendo vermelho.

Ser inteligente não é tudo, ser inteligente não é quase nada. Um computador pode ter toda a informação do mundo. É, claro, cria diversidade, ocupa o tempo.

Agora, se estiver em uma ilha cercado de pessoas inteligentes, jogue-se aos tubarões.

E a lebre dentro do aquário gigante de formol?

Uma lebre é um animal do sangue e da terra- nas lendas, auxilia os humanos com o sangue - transforma o pensamento em algo terrestre e revolucionário.

Antes era o artista copiando um modelo mental - o artista do Timeu de Platão olhando uma Ideia perfeita. Modelo mental.

Quero apenas colocar uma lebre em um líquido e ver o que ocorre. No silêncio, é fácil a harmonia.

Um manifesto contra o intelectualismo?

E o seu oposto. Se o conhecimento não servir para você entender e aceitar o novo, por quê?

Somos democráticos, mas não há tempo para mudar de ideia. Então, ficamos com a nossa. O passado.

Está falando sobre o que leva uma obra a ir parar na parede? Ou - seja onde for no museu?

Ninguém está discutindo o que é isso - trata-se de estar na linha teórica de alguém influente. Você não será ninguém se não for a coisa certa.



Catorze
Ele se sentia culpado de algo. Ou culpa é muito (buraco no estômago?) para um eu conectado o tempo todo, sem conexões. Seu pai o via como seu filho juíz, sua mãe como uma celebridade literária.
Vivia seu próprio mundo, suas próprias regras, já desmaiara na sala de aula por inalar fertilizante, isolamento é felicidade. Devia ser mau por natureza. Um erro, torpe, criminoso, livre, não queria limites, buscava a extinção, ir além. Rápido, novo, grande. Sociedade psicótica.
Um erro. Agiria assim.
Os pais em Nova Iorque, os tios no condomínio, ele andava de jetski na praia. Cansou-se.
Foi conversar com um amigo, o francês barbudo que vendia miau-miau.
“A única forma de purgar a culpa é ser realmente culpado” - ele disse.
Quando abriu o corpo, gostou de sentir o calor nas mãos.

sexta-feira, fevereiro 24, 2012

A lei

1. Seja livre.
2. Não vista vestidos amarelos
3. Abra seu coração
4. Nunca coloque a manga direita antes da esquerda (principalmente com blusões vermelhos)
5. Não sente como passageiro de uma mulher furiosa
6. Use sempre o outro telefone nas quartas à noite
7. Saiba perdoar
8. Fique atento à especulação imobiliária que está derrubando a cidade
9. Seja generoso com os jovens
10. Na escada, ande pela direita
11. Lembre a senha do banco 2
12. Quando for ouvir Elis Regina, esteja com uma roupa azul
13. Grite às quintas feiras às 10h.
14. Ao ler Lucrécio, lembre de uma poesia turca contemporânea
15. Abra seu coração para o lado escuro dos outros
16. Quando uma menininha falar com você, pense em Martin Scorsese
17. Faça um discurso em homenagem à Gandhi no terceiro dia depois da Páscoa.
18. Quando parar na estação, deixe os outros saírem
19. Não fume debaixo de macieiras
20. Ame sem lembrar do passado
21. Mergulhe sempre que ouvir um sino tailandês
22. Atravesse na frente do hotel Rennaicense
23. Sempre que escrever um H, escreva também um O
24. Ao ouvir música indiana, coloque um dedo no nariz
25. Nunca introduza uma Barbie em seu corpo
26. Olhe para cima quando vir uma pedra branca
27. No caso de ver um exército, abra a caixa preta
28. Quando estiver com três mulheres, cante a balada de Dubois
29. Se um coreógrafo falar com você, compre um sorvete
30. Quando escremento estiver em seu caminho, pisque duas vezes
31. Seja espontâneo e nunca minta quando sentar na mesa ao lado de paparazzi
32. Use canetas azuis em dias de tempestade
33. Se um menino estiver na tela do cinema, não use uma arma
34. Quando tocar um ferro quente, lembre de Paulo Freire
35. Não desenhe buracos negros nos banheiros
36. Não fique quatro minutos sem tocar um piano
37. Não olhe sua mão mais de quatro vezes em um minuto
38. Não faça o que Duchamp já fez
39. Não aceite apertar um botão para explodir uma cidade
40. Não bata palmas com apenas mais quatro pessoas
41. Não comece uma guerra sem armas de destruiçõ em massa
42. Não use as cenouras de modo indevido
43. Não sorria quando um prisioneiro lamber suas botas
44. Não grite quando alguém disser que você é sujo
45. Suba quarenta e quatro degraus de três em três
46. Se você desaparecer lembre do dia em que seu carrinho de bebê caiu rua abaixo
47. Não compre subprimes sem lembrar que ninguém se responsabiliza
48. Não mate coelhos em museus
49. Lembre que o segredo da democracia é o silêncio
50. Quando a escuridão chegar, assopre.

Moradores Água Espraiada querem manter suas casas

"A mensagem abaixo foi veiculada pelo movimento de moradores na região da Operação Urbana Água Espraiada, que serão vitimas da desapropriação para a construção de um túnel bilionário.

Eles tem travado uma batalha pelo direito de permanecerem morando no local , que passará por um processo de valorização tremendo e cujos maiores beneficiários não serão os que lá estavam mas, novamente, o setor imobiliário que vai obter imensos lucros reocupando e fazendo especulação imobiliária na área.

Prestem atenção no folheto (cópia abaixo) que está sendo distribuído nas casas e tudo ficará bastante evidente !!!"


Assunto: Abutres do setor imobiliário começam a cercar moradores.

Conforme previsto e alertado durante esses dois anos pelo movimento , a Operação Urbana de Kassab e seus amigos empreiteiros começa a mostrar sua verdadeira face.

"Abutres e chacals" do setor imobiliário representando as próprias empreiteiras que ganharam a obra de presente do Prefeito Kassab , ja começam a cercar as famílias de moradores que tem seus imóveis ao redor da obra , no caso o futuro "parque linear" para arrematar humildes propriedades para a construção de seus arranha-céus que serão erguidos em volta do parque , ganhando bilhões de reais em cima da desgraça daqueles que serão expulsos de suas casas para dar lugar a essa obra nefasta.

As placas colocadas no emboque e desemboque do túnel com prazo de 24 meses para a construção, mostram mais uma vez a prioridade para fazer o túnel , pois é lá que o dinheiro vai rolar.

As poucas moradias populares que constam na licitação, nunca necessitaram de licença ambiental para serem iniciadas, o que mostra mais uma vez a intenção de amarrar essas obras ao túnel.

Lembramos que há 4 ações tramitando contra esse novo projeto, e outras estão sendo elaboradas.

Por fim será uma batalha longa , com muitos prejuízos para os moradores e para o município que terá de pagar imensas multas as empreiteiras.

Mas também haverá muitos lucros para as empreiteiras que vão ganhar essa imensa area para explorar durante anos, vão finalmente conseguir livrar essa area "nobre" dos favelados, jogando alguns deles na Americanópolis e Vila do Encontro e lucrar inclusive com as multas do atraso da obra.
Anormais

Quando L. era pequena, sua mãe a deixara na entrada da sapataria e entrara.
Um homem a levou rua à fora antes que sua mãe percebesse.
A menina foi encontrada dois dias depois numa praça, desorientada, sem calcinha.
Afirmaram que houve "repressão de memória", ela não lembrava de nada.
Os exames foram inconclusivos se houve estupro.

Ela era uma adolescente silenciosa e reservada. Tinha alguns pesadelos. Apesar disso, tinha amigos, estudava, gostava de dançar.
Uma vez, inesperadamente, saiu gritando da sala de aula. Os pais decidiram procurar um médico.

Estavam testando um novo tratamento. Uma enzina era inibida e outras drogas atingiam campos específicos do cérebro. Trata-se de atuar no hipocampo.
Os pesadelos cessaram. Ela começou a namorar. Parecia mais alegre, comprava mais,
estava mais vaidosa.

Passou a se interessar por filmes trash de terror e a colecionar animais empalhados. Formou-se em Direito.
Aos poucos, adquiriu uma estranha e assustadora autoconfiança, uma esfuziante determinação, uma euforia de sólidos raciocínios e um olhar frio e implacável, que lhe fizeram brilhar como uma promessa, uma liderança.

Cobriu as paredes do quarto com casos de crimes violentos. Lia antigos psiquiatras e legisladores interessados em anomalias do espírito e do corpo.

“Quando o governo tentou, sabiamente, capitular frente à Prússia, no ano de 1871, e a Comuna de Paris explodiu, pudemos estudar empiricamente o quanto as tendências impulsivas fomentam a desordem. R., mesmo inteligente, era um indivíduo inadaptado. Tentou entrar sem sucesso na Politécnica, depois cursar Medicina, caindo em seguida em uma vida vã, regada pelo mais execrável ateísmo, materialismo, socialismo e cinismo revolucionário. Complôs, sociedades secretas, orgias, tudo se misturava nesse espírito inflamado. Um olhar doentio, fisionomia arrogante, narinas que exalavam sensualidade, tudo nele apontava uma classe biologicamente desviante. Foi executado neste ano.”

Nos grevistas de Turim esse médico encontrou 41% de tipos fisionômicos criminosos. Ela passou a estudar as fisionomias com uma intensidade anormal.
L. transcrevia madrugada adentro nomes, tipos, casos inteiros de monstros morais, masturbadores, homens bestas, hermafroditas, antropófagos, assassinos.
Passou dois dias acordada ao ler sobre um crime dentro de um condomínio fechado. Parecia cansada.

Começou a falar do perigo da esquerda, do efeito da indisciplina na vida urbana, do vandalismo, da corrupção do Estado “sindicalizado”- entre os colegas de pósgraduação, na mesa de jantar, para desconhecidos. Os pais, preocupados levaram-na ao psiquiatra. Ele tentou induzir a enzina a atuar.
Internada há cinco anos, L. não fala, olha a parede ininterruptamente e parece completamente despersonalizada.

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quarta-feira, fevereiro 22, 2012

Universos

Eu estava pesquisando um dispositivo capaz de, implantado no meu cérebro, criar uma imagem holográfica de uma paisagem distante. Assim, o cérebro estaria sempre visualizando dois momentos e, para evitar o estresse sobre o sistema, decidi que a captação do fluxo distante se daria em blocos.

O que eu queria era um pedaço do outro espaço-tempo e não todos os frames.
Ocorreu que a máquina conseguia captar a variação entre os elementos subatômicos e enviar-me alguns desses arranjos. Ela, surpreendentemente, passou a prever arranjos e enviou-me imagens com microssegundos de antecedência. Meu professor sempre disse que o tempo e o espaço vieram a existir juntos, que o tempo é a forma como interagem as partículas. Já haviam transmitido informação para trás no tempo com raios gama.

Eu decidi aprimorar isso, tentando auxiliar a máquina a variar as vibrações intrínsecas através da gravidade atômica, que altera a forma da geometria local. Depois de meses de frustrante pesquisa, um acaso, a proximidade de um objeto magnetizado, fez com que eu visse uma mosca pousar na clepsidra e, logo em seguida, a cena se repetir.

Em uma noite de intensa busca eu, exausto, caí sobre o sofá no meu laboratório; uma sirene de polícia me acordou e, logo em seguida, ouvi o mesmo ruído; acordava ao raiar do sol e percebi que eu vi a cortina balançar e, no mesmo instante, a janela sem cortina. Um minuto depois, ela estava novamente balançando. Sai da sala e chamei minha assistente. A cortina iria ser lavada em seguida.

E se eu pudesse voltar a uma época onde ela não tivesse ido embora, mudar meus gritos, meu cíúme? Teria iniciado aquilo tudo, sem notar, por esse motivo?
Um Deus fora do universo era o tempo de Newton. Agora poderíamos controlar isso, o eu-lugar afeta o tempo, que é onde ocorreu. São pontos locais na matriz multidimensional, e pontos no passado e no futuro são reais, tem uma existência física. Não há um relógio absoluto.

Desde Einstein sabe-se que dois seres em lugares diferentes percebem a passagem do tempo de forma diferente, para A dois eventos foram simultâneos e para B não foram. Dizer “quando” depende de seu ponto de refência, só podemos comparar eventos dentro de estruturas. Os relógios em campos gravitacionais fortes andam mais devagar. Um observador, pela dilatação temporal, percebe um relógio igual ao seu com outro observador com um tempo lento. Se criarmos uma ligação intrínseca entre duas partes do universo, um túnel, e acelerarmos um das pontas, a outra ficará no passado. Assim como é difícil ver a temperatura de uma molécula isolada, mas apenas do sistema e seus movimentos, seria possível ver o tempo de uma unidade fundamental? É uma qualidade emergente? Os efeitos podem mesmo anteceder as causas, o tempo está apenas em nossas mentes, segundo o universo (a solução) de Gödel. Cada partícula desenharia uma linha de universo tipo-tempo e a gravitação pode fazer a linha fechar-se sobre si mesma. Como diz um amigo, “na verdade, o tempo está lá fora”.

Comecei a acordar antes de dormir. Pude manter meu trabalho, entretanto, aprimorando o chip com estatísticas sobre os efeitos quânticos. Em um momento de exaustão, na tarde abafada, vi minha esposa com outro homem na nossa casa. Comprei uma arma e decidi matar a nós dois.
No momento em que cheguei na sua casa, eu a vi com aquele homem. E, em seguida, vi meu corpo estendido no chão, sangrando.
Corri pela noite.


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Mãe e filho

A senhora, longo vestido azul – sempre o mesmo - cabelo preso, leva uma bandeja para o quarto do filho. O rapaz, olhando para a janela, sente o cheiro da mãe.
É você -pergunta.

Ela o mantém preso. O odor do cômodo fechado era o de uma câmara mortuária. Na parede oposta à janela, uma sombria cidade em miniatura, completa, com montanhas, igreja, trem e lago. Muitos habitantes sem rosto. O cemitério tem covas abertas, que vão se preenchendo dia a dia.

Há muitos anos atrás, no primeiro dia do jardim de infância, a mãe se afastou um momento e o deixou conversando com outras crianças. Quando retornou e tentou levá-lo para casa, ele gritou como se ela fosse uma estranha. Tentou cheirar as mulheres próximas.

Na realidade, ela percebeu desde cedo. Foi amamentá-lo, um dia, logo após ter cortado o cabelo. A criança rejeitou-a com terror.

Na aula, ficava olhando para as paredes, mas atento aos som. Nunca olhava para os olhos de ninguém, o que o deixava isolado. Não podia participar dos jogos.
Aos doze anos se apaixonara por uma garota. Eles se beijaram, mas no outro dia não a encontrou mais.
Eu vou cuidar de você – dizia a mãe. Quem sabe o que pode acontecer se você sair pela rua?
Ele calava. Lia dia e noite obras de Lamartine, Stendhal e Balzac.

Dos sonhos um grito me arrancou
A cova esperava meu amor
Ao túmulo eu fui consolar meu coração
Acordei com marfim nas mãos

A mulher abaixou os olhos. Teria de agir antes?

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terça-feira, fevereiro 21, 2012

As sombras

Sempre houve lendas sobre Botucatu, "Vento Bom", antiga rota para o Peru, sobre um frei franciscano com poderes paranormais, que realizaria estranhos rituais em três pedras altas como megálitos (existem muitos dolmens na região, com inscrições de óxidos de ferro e caulim), sobre fantasmas de escravos que querem vingar-se de seus donos - inclusive um moleque negro, fantasma malévolo, que teria morrido por ter dado um golpe de capoeira no seu dono, o qual deixou, quando o apanhou, que morresse da gangrena, tendo sido pendurado por uma perna – histórias sobre sociedades secretas e até mesmo OVNIs.

Em 1943, o prefeito amanheceu misteriosamente morto em sua cama. Nenhum médico pode diagnosticar a causa da morte.
O prefeito estava planejando uma série de reformas na cidade – obras faraônicas para pagar seus doadores de campanha, o “império do cimento”. O povo se sentia alienado, muitos eram despejados para dar lugar a túneis, estradas, pontes e parques. Além disso, ele acabara com as comissões de saúde e segurança, onde o povo opinava.
Alguns jovens estudantes haviam sido expulsos dos prédios que ocuparam no campus– em protesto contra a falta de vagas e de habitação popular. (Centenas de pessoas haviam sido despejadas com fogo e tiros numa desocupação recente). Houve confrontos e dois jovens morreram.

Um vereador desapareceu misteriosamente quando seu carro parou em uma ponte. As portas abertas, a chave na ignição, um presente para a filha no banco de trás. Seu corpo nunca mais foi encontrado.

Foi quando primeiro se ouviu falar deles. Pregaram um manifesto na porta da Igreja onde exigiam que cada vereador fosse pautado por um grupo de moradores, que debateriam seu voto nas sessões da Câmara. Sessões estas que deviam ser transmitidas ao vivo no rádio nas várias praças da cidade. Os cidadãos deveriam se reunir todo o mês em assembleias de bairro e debater as leis aprovadas. Cada região receberia um orçamento calculado com base no número de pessoas e na arrecadação, e o povo decidiria onde seria aplicado o dinheiro.
A imprensa começou a chamá-los de "1848".

Quando o vice-prefeito tomou posse, disse que a democracia ia muito bem e que não se precisava de nenhuma participação além do voto. A violência deveria ser perseguida. “Não se deve evitar o diálogo”.
“Não há diálogo há muito tempo – há absolutismo” - foi escrito com seu sangue na parede de sua mansão.

Bombas começaram a explodir onde os vereadores iam. Três foram abatidos em um bordel, aparentemente com veneno.
A polícia, atordoada, começou a investigar – falava-se em uma seita satânica, em comunistas e em psicose de massa - e prendeu dois homens, acusados de conspiração.

Um médium foi chamado pelo presidente da Câmara para ajudar os policiais,
mas acordou com uma cobra em sua cama e foi embora.

Um incêndio criminoso destruiu a Prefeitura na madrugada – multidões vagavam nervosas nas ruas, homens disparavam tiros para cima, cavalos corriam, mulheres choravam, brigas, lojas foram depredadas, ateava-se fogo no que havia nas ruas. A fogueira imensa ardeu dois dias - sem que se tenha podido descobrir a causa.

Um prazo foi estabelecido para as mudanças – um bilhete achado no corpo do presidente da Câmara. Não foi cumprido.

O exército mandou reforços da capital. Os soldados começaram a sofrer de uma estranha febre, alguns se enforcaram nos arcos das pontes, outros atiravam contra os chefes tomados de estranha hipnose. Alguns juram que um deles desenhou um frade na parede da cela onde se esvaiu em sangue.

Os vereadores foram morrendo um a um, vitimados das formas mais incríveis, em acidentes, emboscadas, pelo suicídio ou pela loucura. Apenas dois deles escaparam, fugindo sem deixar rastro.
Por fim, o governador cedeu. As novas regras foram implementadas.
Decidiu-se fazer uma missa para o escravo supliciado.

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segunda-feira, fevereiro 20, 2012

O viajante noturno

Nessa época, os campos ainda não haviam sido cercados. Eu estava na fazenda de meu avô, havia muito gado, um tanto solto, as charqueadas não se importavam com a qualidade. Uma noite, acordei com a correria de peões falando alto, meu avô dando ordens e minha avó choramingando. Eles me mandaram para cama, mas fiquei espiando pela fresta da janela. Alguém vira o “homem de preto” e meu avô dava ordens para vasculharem os arredores.

No outro dia, minha avó, um tanto contrariada, cedeu à minha impertinência: quem era afinal essa assombração?

“Dizem que um gaúcho que viajava solitário à noite, encontrou um menino índio com olhos vermelhos fazendo uma trança no seu cavalo enquanto ele dormia ao lado do fogo. Pensou tratar-se de alguma feitiçaria, mas o menino ria alto, dizendo que era uma brincadeira e perguntando se podia dormir alí para se aquecer. Como o homem não acreditava em assombração, deixou que o menino ficasse. Mas, enquanto ele dormia, aproximou-se e pôde perceber que, dentro da calça, logo no fim da coluna, o índio tinha uma coisa parecida com um rabo. Assim, não pregou o olho nem um segundo, até que o sono lhe venceu logo antes de surgir a manhã. Quando acordou, percebeu que estava no meio de um mato cerrado, e uma mati-pereira gritava nas árvores, parecendo ecoar de todos os lados. Ele ficou perdido assim um dia inteiro e, quando veio a lua, adormeceu. O menino de olhos vermelhos voltou e lhe acordou, oferecendo-lhe algumas ervas e frutos. Como estava com fome, comeu e acabou dormindo de novo. No outro dia achou a saída da mata e bateu numa tapera onde moravam dois velhos. Tentou contar-lhes o que lhe sucedera, mas sua voz não saía, apenas urros horripilantes. Os velhos o expulsaram e ele começou a vagar pelos campos à procura do menino, tornando-se uma assombração.”

Nesta noite, eu não pude dormir. Saí da cama na ponta dos pés. Resolvi ficar na grama do lado de fora da casa, com meu estilingue, fingindo olhar as estrelas, mas com a secreta ânsia de ver alguma coisa. Eu me cobri com um pelego e deitei sobre minha grossa capa de lã.

Acabei adormecendo. Sonhei que um homem barbudo me estrangulava e acordei em meio a tais gritos que a casa inteira veio me acudir.

Nunca mais consegui falar.


Afonso Jr. Lima

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O Saci-Pererê é um dos personagens mais conhecidos do folclore brasileiro. Possuí até um dia em sua homenagem: 31 de outubro. Provavelmente, surgiu entre povos indígenas da região Sul do Brasil, ainda durante o período colonial (possivelmente no final do século XVIII). Nesta época, era representado por um menino indígena de cor morena e com um rabo, que vivia aprontando travessuras na floresta.

http://www.suapesquisa.com/musicacultura/saci-perere.html

domingo, fevereiro 19, 2012

Outro

Conversávamos pela manhã. Ele era simpático no início. Um pouco imaturo. Um dia, resolveu sair comigo. Pouco importa que fosse alucinação ou outro fenômeno.

Queria atacar as pessoas, não sabia se comportar. Foi criando situações impossíveis.

Não suportava calado as injustiças, queria ser igual a todo mundo, desafiava os arrogantes, queria mudar o mundo.

No fundo, quem precisa de todas aquelas coisas? Transtornava-o sobretudo a obrigatorieade de saber tudo para ser alguém, de nunca estar pronto. E o fato de tanta gente saber tanto sobre você, estar disposta a julgar e condenar. Você é esses outros que cada um cria.

Tive de começar a ficar em casa. A rua, a chuva, o calor, o trânsito, a multidão, o barulho, miseráveis nas calçadas do século XIX, tudo o perturbava.

Para fazê-lo parar, falava eu mesmo, de modo que comecei a descrever em voz alta o maior número de detalhes externos e internos que se podia imaginar. O guarda-roupa estava com um pequeno arranhão, o cartaz de filme caíra da parede, os vizinhos, janela fechada, foram viajar, a parede branca está com uma mancha, quando acordei pensei nas frases “rainha do infinito”, minha garganta doía, senti-me feliz, devo começar a empilhar os jornais que se acumulam (corrupção e assassinatos), tirei o pó do pássaro verde no cactus, se conseguisse aquele emprego poderia viver mais calmo, e mais cansado, os sinos tocam, os vizinhos já ouvem uma música irritante, o cão, preso, late, aviões, o sol entra pela janela. A banalidade era um antídoto. Meu amigo observava-me com ódio e começava a me assustar. Devia dar um fim a tudo isso?

Por que motivo aquela imagem tomara forma? O que senti eu quando um vulto passou no meu apartamento? Quando estava sozinho? Às duas da manhã, ele caminha pelo quarto.

"Tudo está certo" - tentava dizer a mim mesmo. Cantava um poema de Whitman:

"Da terrível dúvida das aparências,

da incerteza afinal de que possamos estar iludidos,

de que talvez a identidade para além do túmulo seja apenas uma linda fábula".

Olhava no espelho e podia vê-lo.


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quarta-feira, fevereiro 15, 2012

Condutor da noite

Não conseguia parar de lembrar. Os trilhos, meu amigo no líquido vermelho, a forma desesperada como seus braços se moviam, como tentava se mover, os gritos.

Por que motivo eu deveria ser o condutor que vinha depois, por quê?

Comecei a sonhar todas as noites. Ora ele gritava do seu lago de sangue, ora eu conversava com ele sobre o que poderia ter evitado aquilo.

- Mas por que motivo nós temos de vistoriar os trilhos com os trens em funcionamento, ele perguntava.

Eu acordava banhado em suor. Meus gritos despertavam minha minha, que mulher começou a se preocupar comigo. Passei a dormir na sala.

Agora já nem mais dormia, com medo dos pesadelos. Caminhava como um fantasma pela casa com um copo de água ou uma cerveja.

Tomava alguns remédios para ir ao trabalho.

- O cara que vinha dirigindo não teve muita opção. Não se pode ver a não ser coisas bem distantes. Ele abaixou os olhos para ler alguma coisa – era o que se comentava.

Uma noite, depois de vagar pela casa até o momento mais frio e escuro, decidi pegar o carro e dirigir até o local.

Eu poderia ficar observando os trilhos no resto de luar, o vento, qualquer coisa que apontasse para um significado. Poderia sofrer um assalto também, mas qualquer coisa, até o silêncio, eu imaginava, poderia aliviar minha mente enlouquecida.

Observava a pedra branca do céu e seus véus negros. Por incrível que pareça, acabei dormindo no carro.

Passei a fazer isso noite após noite. Fiquei até amigo do guarda noturno.

- Sabe o que eu não entendo, eu dizia – Por que motivo não se faz essa coisa toda de madrugada?

Ele foi gentil deixando que eu caminhasse pelos trilhos, horas e horas, sozinho, pensando em que deveria eu me apoiar para seguir em frente, como acordar num dia radiante se tudo era tão absurdo, até que eu retornava para casa e conseguia dormir um pouco.

Em uma dessas jornadas de notívago, eu estava saindo de um túnel, pareci ouvir um gemido. Fiz força para controlar meus nervos, mas meus passos começaram a acelerar.

Fiquei duas noites sem voltar lá. Ao mesmo tempo, uma curiosidade cega me afligia. Que som seria aquele, sinistro e misterioso?

Passei a andar em busca de algo sobrenatural, até passei a dormir na plataforma, esperando o dia amanhacer. Sentia minha mente se esfacelar – o sangue, os gemidos a escuridão, e agora os ratos e os uivos dos cães ocultos, tudo me transtornava.

Por fim, desisti de meu emprego, abandonei minha mulher – assustada e resignada - e passei a dormir durante o dia dentro do túnel, atrás de uma coluna e, o sol derrotado, saía com os morcegos para minha vida. O guarda me alimentava.

De alguma forma, a minha consciência é que fazia a madrugada, era eu que a conduzia.

Uma vez, já no meio dessa marcha de silêncio que tudo esconde, após uma tempestade, ouvi uma voz que parecia me chamar. Vi meu amigo caminhando nos trilhos. Seu torso era cinzento, seu rosto, sem olhos, suas pernas, de substância volátil.

-Venha comigo – ele disse.

Não sei mais que lugar é esse em que tenho vivido.