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terça-feira, fevereiro 21, 2012

As sombras

Sempre houve lendas sobre Botucatu, "Vento Bom", antiga rota para o Peru, sobre um frei franciscano com poderes paranormais, que realizaria estranhos rituais em três pedras altas como megálitos (existem muitos dolmens na região, com inscrições de óxidos de ferro e caulim), sobre fantasmas de escravos que querem vingar-se de seus donos - inclusive um moleque negro, fantasma malévolo, que teria morrido por ter dado um golpe de capoeira no seu dono, o qual deixou, quando o apanhou, que morresse da gangrena, tendo sido pendurado por uma perna – histórias sobre sociedades secretas e até mesmo OVNIs.

Em 1943, o prefeito amanheceu misteriosamente morto em sua cama. Nenhum médico pode diagnosticar a causa da morte.
O prefeito estava planejando uma série de reformas na cidade – obras faraônicas para pagar seus doadores de campanha, o “império do cimento”. O povo se sentia alienado, muitos eram despejados para dar lugar a túneis, estradas, pontes e parques. Além disso, ele acabara com as comissões de saúde e segurança, onde o povo opinava.
Alguns jovens estudantes haviam sido expulsos dos prédios que ocuparam no campus– em protesto contra a falta de vagas e de habitação popular. (Centenas de pessoas haviam sido despejadas com fogo e tiros numa desocupação recente). Houve confrontos e dois jovens morreram.

Um vereador desapareceu misteriosamente quando seu carro parou em uma ponte. As portas abertas, a chave na ignição, um presente para a filha no banco de trás. Seu corpo nunca mais foi encontrado.

Foi quando primeiro se ouviu falar deles. Pregaram um manifesto na porta da Igreja onde exigiam que cada vereador fosse pautado por um grupo de moradores, que debateriam seu voto nas sessões da Câmara. Sessões estas que deviam ser transmitidas ao vivo no rádio nas várias praças da cidade. Os cidadãos deveriam se reunir todo o mês em assembleias de bairro e debater as leis aprovadas. Cada região receberia um orçamento calculado com base no número de pessoas e na arrecadação, e o povo decidiria onde seria aplicado o dinheiro.
A imprensa começou a chamá-los de "1848".

Quando o vice-prefeito tomou posse, disse que a democracia ia muito bem e que não se precisava de nenhuma participação além do voto. A violência deveria ser perseguida. “Não se deve evitar o diálogo”.
“Não há diálogo há muito tempo – há absolutismo” - foi escrito com seu sangue na parede de sua mansão.

Bombas começaram a explodir onde os vereadores iam. Três foram abatidos em um bordel, aparentemente com veneno.
A polícia, atordoada, começou a investigar – falava-se em uma seita satânica, em comunistas e em psicose de massa - e prendeu dois homens, acusados de conspiração.

Um médium foi chamado pelo presidente da Câmara para ajudar os policiais,
mas acordou com uma cobra em sua cama e foi embora.

Um incêndio criminoso destruiu a Prefeitura na madrugada – multidões vagavam nervosas nas ruas, homens disparavam tiros para cima, cavalos corriam, mulheres choravam, brigas, lojas foram depredadas, ateava-se fogo no que havia nas ruas. A fogueira imensa ardeu dois dias - sem que se tenha podido descobrir a causa.

Um prazo foi estabelecido para as mudanças – um bilhete achado no corpo do presidente da Câmara. Não foi cumprido.

O exército mandou reforços da capital. Os soldados começaram a sofrer de uma estranha febre, alguns se enforcaram nos arcos das pontes, outros atiravam contra os chefes tomados de estranha hipnose. Alguns juram que um deles desenhou um frade na parede da cela onde se esvaiu em sangue.

Os vereadores foram morrendo um a um, vitimados das formas mais incríveis, em acidentes, emboscadas, pelo suicídio ou pela loucura. Apenas dois deles escaparam, fugindo sem deixar rastro.
Por fim, o governador cedeu. As novas regras foram implementadas.
Decidiu-se fazer uma missa para o escravo supliciado.

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O trabalho As sombras de Afonso Jr. Ferreira de Lima foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição - NãoComercial - SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

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