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quarta-feira, fevereiro 22, 2012

Mãe e filho

A senhora, longo vestido azul – sempre o mesmo - cabelo preso, leva uma bandeja para o quarto do filho. O rapaz, olhando para a janela, sente o cheiro da mãe.
É você -pergunta.

Ela o mantém preso. O odor do cômodo fechado era o de uma câmara mortuária. Na parede oposta à janela, uma sombria cidade em miniatura, completa, com montanhas, igreja, trem e lago. Muitos habitantes sem rosto. O cemitério tem covas abertas, que vão se preenchendo dia a dia.

Há muitos anos atrás, no primeiro dia do jardim de infância, a mãe se afastou um momento e o deixou conversando com outras crianças. Quando retornou e tentou levá-lo para casa, ele gritou como se ela fosse uma estranha. Tentou cheirar as mulheres próximas.

Na realidade, ela percebeu desde cedo. Foi amamentá-lo, um dia, logo após ter cortado o cabelo. A criança rejeitou-a com terror.

Na aula, ficava olhando para as paredes, mas atento aos som. Nunca olhava para os olhos de ninguém, o que o deixava isolado. Não podia participar dos jogos.
Aos doze anos se apaixonara por uma garota. Eles se beijaram, mas no outro dia não a encontrou mais.
Eu vou cuidar de você – dizia a mãe. Quem sabe o que pode acontecer se você sair pela rua?
Ele calava. Lia dia e noite obras de Lamartine, Stendhal e Balzac.

Dos sonhos um grito me arrancou
A cova esperava meu amor
Ao túmulo eu fui consolar meu coração
Acordei com marfim nas mãos

A mulher abaixou os olhos. Teria de agir antes?

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O trabalho Mãe e filho de Afonso Jr. Ferreira de Lima foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição - NãoComercial - SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

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