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quarta-feira, fevereiro 22, 2012

Universos

Eu estava pesquisando um dispositivo capaz de, implantado no meu cérebro, criar uma imagem holográfica de uma paisagem distante. Assim, o cérebro estaria sempre visualizando dois momentos e, para evitar o estresse sobre o sistema, decidi que a captação do fluxo distante se daria em blocos.

O que eu queria era um pedaço do outro espaço-tempo e não todos os frames.
Ocorreu que a máquina conseguia captar a variação entre os elementos subatômicos e enviar-me alguns desses arranjos. Ela, surpreendentemente, passou a prever arranjos e enviou-me imagens com microssegundos de antecedência. Meu professor sempre disse que o tempo e o espaço vieram a existir juntos, que o tempo é a forma como interagem as partículas. Já haviam transmitido informação para trás no tempo com raios gama.

Eu decidi aprimorar isso, tentando auxiliar a máquina a variar as vibrações intrínsecas através da gravidade atômica, que altera a forma da geometria local. Depois de meses de frustrante pesquisa, um acaso, a proximidade de um objeto magnetizado, fez com que eu visse uma mosca pousar na clepsidra e, logo em seguida, a cena se repetir.

Em uma noite de intensa busca eu, exausto, caí sobre o sofá no meu laboratório; uma sirene de polícia me acordou e, logo em seguida, ouvi o mesmo ruído; acordava ao raiar do sol e percebi que eu vi a cortina balançar e, no mesmo instante, a janela sem cortina. Um minuto depois, ela estava novamente balançando. Sai da sala e chamei minha assistente. A cortina iria ser lavada em seguida.

E se eu pudesse voltar a uma época onde ela não tivesse ido embora, mudar meus gritos, meu cíúme? Teria iniciado aquilo tudo, sem notar, por esse motivo?
Um Deus fora do universo era o tempo de Newton. Agora poderíamos controlar isso, o eu-lugar afeta o tempo, que é onde ocorreu. São pontos locais na matriz multidimensional, e pontos no passado e no futuro são reais, tem uma existência física. Não há um relógio absoluto.

Desde Einstein sabe-se que dois seres em lugares diferentes percebem a passagem do tempo de forma diferente, para A dois eventos foram simultâneos e para B não foram. Dizer “quando” depende de seu ponto de refência, só podemos comparar eventos dentro de estruturas. Os relógios em campos gravitacionais fortes andam mais devagar. Um observador, pela dilatação temporal, percebe um relógio igual ao seu com outro observador com um tempo lento. Se criarmos uma ligação intrínseca entre duas partes do universo, um túnel, e acelerarmos um das pontas, a outra ficará no passado. Assim como é difícil ver a temperatura de uma molécula isolada, mas apenas do sistema e seus movimentos, seria possível ver o tempo de uma unidade fundamental? É uma qualidade emergente? Os efeitos podem mesmo anteceder as causas, o tempo está apenas em nossas mentes, segundo o universo (a solução) de Gödel. Cada partícula desenharia uma linha de universo tipo-tempo e a gravitação pode fazer a linha fechar-se sobre si mesma. Como diz um amigo, “na verdade, o tempo está lá fora”.

Comecei a acordar antes de dormir. Pude manter meu trabalho, entretanto, aprimorando o chip com estatísticas sobre os efeitos quânticos. Em um momento de exaustão, na tarde abafada, vi minha esposa com outro homem na nossa casa. Comprei uma arma e decidi matar a nós dois.
No momento em que cheguei na sua casa, eu a vi com aquele homem. E, em seguida, vi meu corpo estendido no chão, sangrando.
Corri pela noite.


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