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domingo, março 04, 2012

Drag

Folha em branco, janela. Dois.
Sra. Arnoux tinha um marido infiel, uma filha mandona, um amante que tinha um amante, dois empregos estressantes, um sonho frustrado, um pé chato, muitas coisinhas para prender o cabelo, um carro com problema, um livro não lido, um vibrador quebrado, um ódio guardado, um quadro feio que sua mãe lhe dera, um cachorrinho tirano, uma pinta no seio, um cabelo ralo e lindos olhos verdes.
Sr. R. Era um jovem atraente, escritor e preocupado, preso em máquinas, teorias, contas, sistemas, esperanças e passados. Sr. R. Usava um chapéu, carregava canetas de várias cores, tinha uma venda para dormir e meias estranhas. Sonhava e não tinha RG.
Sra. Arnoux pegou uma chuva na frente de um realejo, “O amor vai chegar para você”. Tudo que lembrou foi de uma música. “O demônio é a tarde sem amor”.
Onde sua vida havia morrido? Sem tempo para pensar. Tanta coisa que escondera, se condensara, aranha na caixa.
Tentou se esconder no shopping, grades antigas, passos desesperados, o luxo do teatro, molhado, mendigos chamando Jesus. O vidro.
Ele pensava pela janela e via que havia vivido muito tempo no porão. Porque ele era sim capaz de incendiar um castelo. A razão é rebeldia. O menino em um pé só, revoltado, faz magia para derrubar o bolo batido, quebra os pés de bancos, derruba os reis. 170 bilhões de orçamento no estado. 2.600 favelas na cidade. No espelho, era preciso unir opostos.
Se eu matasse a Sra. Arnoux sairia na rua com uma peruca verde, sapatos vermelhos, um pinto de plástico pendurado, um frango embaixo do braço, um patuá de dedos, um anel e feto morto. Fora do quadrado.
Os atos desmentem as teorias. Se eu for inteligente, serei amada. O que vale é ser produtiva, o mundo é um meio.
Sra. Arnoux olhou os carros lá embaixo. Se eu matasse a Sra. Arnoux.

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O trabalho Drag de Afonso Jr. Ferreira de Lima foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição - NãoComercial - SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

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