domingo, agosto 01, 2021
Escravocratas de mármore e o futuro da paz
sábado, julho 31, 2021
sexta-feira, julho 30, 2021
sábado, julho 24, 2021
sexta-feira, julho 23, 2021
sábado, julho 17, 2021
sábado, julho 10, 2021
domingo, julho 04, 2021
quinta-feira, junho 24, 2021
Laboratório flamenco
por não saber posso
colecionar quatro lados
suspensão dos juízos
uma torre oceano
uma folha vermelha
o ouro e o fogo
dança que dele nasce
um caminho de laboratório
não saber como método
coerência imperfeita
o pensar das plantas
aceito a lei divina
Têmis sigo o código
filhos da natureza
não sou do mundo
sou o vazio
sou mundo e saem do forno
espíritos bruma luminosa
o novo ouro
futuro
*
Afonso Jr Lima
terça-feira, junho 22, 2021
Alexandre Boer - in memorian
Não é fácil entrar na casa de um gaúcho. De uma palestra, passamos a ser amigos, eu não estava sozinho.
O gaúcho tem fama de ser desconfiado, até mesmo arrogante e inflexível. Então, para qualquer jovem, tentando encontrar seu caminho, é importante esta figura de referência, que, sem segundas intenções, sabe acolher e está disposto a construir junto. Assim era Alexandre Boer.
Podemos dizer que fez parte dessa geração que construiu um espaço democrático, que forçou o país a ter leis e limites, que teve coragem de crer que era possível participação e igualdade.
Incansável, esteve presente em seu tempo quando a epidemia de AIDS afastou uns dos outros; quando (me mostrava nas fotos) se ia com roupas espaciais recolher os falecidos por puro pânico. O grupo Somos (éramos cinco numa sala) agora pode ser visto como um lugar de acolhimento para os jovens gays que vivem sob a opressão atual.
Também fez alguns jantares na sua casa nos quais ele, eu e seu marido Cléber, debatíamos política, ativismo, relacionamentos e cachorros. Compartilhamos ideias progressistas, confirmamos suspeitas e insatisfações. Somente com pessoas inteligentes podemos ter esse prazer, essa riqueza, com pessoas sem ilusões banais, com pessoas que afirmam a verdade com decisão.
Numa praça, respondi a suas pesquisas. Num encontro, numa roda, falei de minha experiência para orientar políticas públicas. Fomos juntos a palestras sobre Direito da Família. Cheio de energia, cheio de alegria, sempre com argumentos perspicázes.
Lá estava eu quando ele fundou a "ala gay do PT", pego de surpresa, recebendo os Tarsos e Olívios enquanto ele preparava as mesas.
Anos depois, quando tive uma discussão num relacionamento, sai pela rua em direção... à sua casa. Com ele descobri livros e autores. Havia um universo no qual eu cabia, assim como eu era, havia uma história na qual eu cabia. Havia que estudar. Eu valia a pena. As pessoas valem a pena. Ele dizia que eu era uma "fonte de infinitas ideias".
Não deve ter sido fácil para Alexandre ver a cidade de Porto Alegre abandonada como está; para mim não foi. Mas assim são as ondas da história. Cada geração aprenderá com suas dores. Uma das coisas mais bonitas é ver que o Somos continua, que novas pessoas levam sua bandeira porque puderam deixar ali sua marca.
Acima de tudo, Alexandre era uma pessoa interessada em planificar a mudança. Mas a política é feita de afeto também, de confiança, de generosidade. Ele sabia o que era preciso fazer, ele tratava de buscar aliados.
Assim são os homens públicos, e este foi um homem público. Graças a eles, a comunidade prospera, e temos de semear sua memória para que um novo dia nasça.
Afonso Junio Lima
domingo, junho 20, 2021
O arauto
O juiz peixe-com pernas de homem apontou para a cidade. O padre com asas de inseto abençoou o arauto.
Um meteoro atingiu a Terra.
No cemitério, o arauto tocou sua harpa milagrosa.
Os mortos saíram da terra.
O exército foi acionado: fumaça cobrindo o horizonte.
O arauto tocou seu tamboril em frente ao mar.
O horizonte escureceu, ventos, fuga, uma onda de dez metros destruiu todas as casas.
O arauto subiu na torre mais alta. Tocou sua flauta.
O oxigênio da atmosfera se tornou venenoso por três minutos. Pessoas sufocaram na avenida.
O arauto subiu até ver os continentes ao longe.
Crianças nos seus berços tiveram pesadelos com fogo nas cidades e demônios-animais que cantavam.
O arauto abriu o portal dourado.
*
Afonso Lima
sábado, junho 19, 2021
sábado, junho 12, 2021
sábado, junho 05, 2021
sábado, maio 29, 2021
sábado, maio 22, 2021
terça-feira, maio 18, 2021
A ameaça
na jaula do teu povo
os teus não sobraram
queima das oliveiras
exército de comunicação
sua irmã o viu crescer
horário de entrada na cidade
a escravidão desejada
humilhação da mãe
para prender o pai
sua irmã sob as pedras
voa do edifício
os teus não sobraram
*
AJR
segunda-feira, maio 17, 2021
A lei dos animais
Tendo chegado de outro lugar, ele não tinha papéis. Seus papéis não eram válidos.
Agora sabia o que significava ser um animal.
Animais não podem alugar imóveis, dizia o manual recebido no desembarque.
As contas de banco estão vetadas a animais. E demais operações com cartão.
(Para segurança de todos que buscam ganho automático e sem perturbações).
As profissões não serão acessíveis a animais. Não poderá ser chamado "profissional".
(Tinha duas patas, afinal, tinha dentes, sabia cantar: o que o diferenciava de tantos outros domesticados?)
Animais não podem acessar o sistema de saúde. (Ou podem, mas nunca saberão como fazê-lo).
Animais não têm linguagem. Seus ruídos não são um sistema.
Animais não estão proibidos de falar em política. Mas, o silêncio evita o juízo.
Não se recomenda casamentos entre espécies diferentes.
Apesar disso, animais são bem-vindos e podem trabalhar.
Em caso de parada pela polícia, use a expressão "senhor". As sirenes de polícia sempre procuram animais.
*
Afonso Jr Lima
domingo, maio 16, 2021
sexta-feira, maio 14, 2021
domingo, maio 09, 2021
J. Estripador
A rainha pisa o tapete dourado colocado no chão da Zona Leste - usa uma capa negra, véu e apenas quatro seguranças para disfarçar-se.
- Mas o que essas mulheres faziam na rua essa hora?
- Elas estavam trabalhando, majestade - falou o chefe da polícia.
- Alguma relação com irlandeses ou judeus?
- Não sabemos. Não sabemos nada. Só sabemos que temos inúmeros bordéis e marinheiros.
O duque resolve interromper:
- Majestade, acho que já é o suficiente.
- Não perguntei sua opinião, Duque Albany. É verdade que receberam cartas?
- Sim. Assina J. Estripador. Achamos que pode ser um açougueiro, médico ou marinheiro que transporta carnes.
- Que ridículo. Por que um açougueiro mataria cortesãs?
- Encontramos um avental sujo de sangue e um grafite: "Os Juwes são os homens que querem não ser culpado por nada".
- Quero o general Jackson no meu gabinete.
Os homens pareciam nervosos. Ela havia dito que não ia mais permitir ser excluída assim, pois isso lhe impedia de defender o bem comum e "expandir o Império".
- Fale, doutor.
O cirurgião policial Thomas Bond respondeu:- Um homem de hábitos solitários, condição mental vingativa ou taciturna, mania religiosa.
sábado, maio 08, 2021
quinta-feira, maio 06, 2021
viva a pátria
*
a última vez em que amou
o beijo no único
em morte pura máquina na rua
o espelho e amor de sofia
desde outra vida o fundador
canibal verso inaugural
do império vem rainha
nunca se cala pisa devagar
eu te chamo dona da canção
a montanha que se sobe
em rendas de lua e pura altura
a solidão da sombra cecília
senhor do tempo heroi
tratado de demolição
roubando rosas rasgando a pátria
não segundo a prosa oficial
a duplicação da língua
minha ilha solta e a verdade
gata no teto carne fúria
espuma na boca e faca
da lama sereia a voz
olhar fúnebre de vertigens
o morcego observa a cama
pantera em mão sombria
careta limpo não viu
o profeta vermelha boca
ia chuva desesperada
os pés de menino
fantasmas amigos
a casa vazia risos
procissão das raças
no latim o quanta e o alho
flor de marfim e mel
pequeno deus esse medo
esses rostos nosso livro língua
a metafísica da primavera
passos na calçada desarmar
a criatura sal e ânsia
o destino de uma brotação
dentro da casca aquele som
areia violão você entardece
o caminho das águas a noite
uma só vista
ilumina desde dentro
na minha língua
tudo se compartilha
*
Afonso Lima
sábado, maio 01, 2021
Beckett, Pinter, Foucault - aproximações na paisagem do desmoronamento do eu
USP - Cidade Universitária - São Paulo, SP
sexta-feira, abril 30, 2021
El castillo (ESP)
Siempre me gustó el campo.
Ese juego de viento, sentir la hierba húmeda, pelota con el perro. No siempre igual.
Todo era tan diferente de mi noche oscura y fría.
Empecé a pensar que me faltaba una compañía.
Sí, la hija de la criada, yo mismo creé esta situación.
Podría haber atraído la mayor, pero la más pequeña era más risueña, más dócil, le gustaba más correr con el perro.
No es fácil vivir así, o sol e o verde me revivem, este viaje sin fin, la angustia del trabajo técnico, mi camino solitario por el vacío.
Ella se estaba volviendo cada vez más infantil mientras jugaba en el campo.
Yo, cada día más paternal, protector, más cercano a la protección y al placer.
Y cómo sonreí jugando a la pelota.
Tenía una forma de girar la cabeza un poco rápida, un gesto de insecto, un gesto de juguete.
Mi soledad era un abismo. Soy embarcación sin vento.
Estaba en un sueño, el castillo estaba muy lejos, por fin quise convertir el abrazo en un beso y el beso...
Fue entonces cuando la máquina se detuvo. Esa noche no pude dormir, mientras la nave atravesaba el espacio oscuro.
*
AJR
quinta-feira, abril 22, 2021
segunda-feira, abril 19, 2021
Um assassino em série
O primeiro caso ocorreu numa rua mal iluminada, era uma garota de 14 anos que chegava da escola.
A polícia trabalhou com a hipótese de estupro seguido de morte, era um bairro no qual o desemprego era grande.
Um mês depois uma mulher foi encontrada morta num parque ao lado de um hospital. A imprensa passou a cobrir o caso, tratava-se de uma professora.
Os policiais tinham várias linhas de investigação - tentavam criar uma personalidade para o assassino, tentavam criar algum nexo entre as vítimas.
Um homem foi assassinado em seu apartamento num bairro nobre da cidade - as mesmas características, o mesmo golpe, as marcas de violência no pescoço.
Surgiram múltiplas denúncias de ataques semelhantes - mas a polícia trabalhava com a hipótese de um assassino em série com compulsão sexual, ia eliminando as informações indesejáveis.
Passaram a fazer reuniões todas as manhãs, cada dia surgiam mais e mais teorias, suspeitos, interrogatórios, arquivos.
Um policial entrou na sala de reunião cortando a fala do inspetor-chefe:
- Mais dois casos, senhor!
Logo, estavam surgindo dez casos por dia.
Havia muito trabalho, mas caminhavam num pântano de discussões.
O prefeito passou a fazer reuniões todas as manhãs, logo, o governador, logo, a presidenta.
- É invisível? É um serial killer ou um fantasma? - ela dizia observando as centenas de pontos no mapa da cidade.
Novas áreas foram redirecionadas para o trabalho noturno dos coveiros.
Em um ano, mais de três mil pessoas estavam morrendo por dia.
*
Afonso Jr Lima.
sábado, abril 17, 2021
sexta-feira, abril 16, 2021
sábado, abril 10, 2021
sexta-feira, abril 09, 2021
terça-feira, abril 06, 2021
A queda do tirano
Meu amigo recebeu hoje seus implantes auriculares.
O sinal é emitindo no tímpano e a orelha é envolvida para não haver perda.
O que faz com que a única comunicação seja através da voz interna.
Haviam proibido conjugar os verbos no passado.
- Um cão da raça pura podia matar um cão da raça impura sem que o dono pudesse fazer nada.
São pessoas que só conseguem trabalhar e relaxar.
Tudo isso para receber programação exclusiva. E uma Tela Humana.
Vou fazer pela terceira vez a prova de seleção para me tornar Humano.
Meus livros sempre receberam críticas terríveis.
- Um soldado para a raça pura podia enforcar um músico da raça impura sem que a Justiça pudesse fazer nada.
O valor do que alguém faz depende de estar no Livro dos Humanos.
Trabalho e terror. Quase não humanos vistos com um livro são incinerados.
O Sacerdote diz que, apesar do corpo padecer, o Espírito da Nação está sendo Libertado.
Os subversivos perdem pontos e podem ficar sem trabalho. As pessoas são incentivadas a viver o agora.
- Um governador da raça pura podia jogar uma bomba sobre o bairro da raça impura e construir em cima a cidade pura.
Queimamos o Livro dos Humanos.
A multidão saiu para a rua e derrubou o tirano.
*
AJR
segunda-feira, abril 05, 2021
sábado, março 27, 2021
sexta-feira, março 26, 2021
Três bombas
A primeira bomba matou mais de 100 mil.
Eles haviam criado um julgamento controlado, submetendo o líder do Movimento a tipos sutis de tortura.
Os ossos radioativos foram enterrados numa vala comum sem direito a reconhecimento.
A segunda bomba matou pouco menos de 150 mil.
Algo estava operando nas sombras. Ninguém sabia a origem das bombas. A eleição se aproximava. Usei meus poderes para evocar os espíritos que poderiam me dar Visão.
Era uma entidade poderosa a que controlava o processo. Usava uma horrenda máscara amarelada e um manto escuro. Eu vi como planejava espalhar uma infecção, a enfermidade ia deformando o corpo humano, era como um exército de porcos.
Ninguém acreditava em minhas profecias. Eles elegeram o Rei Armado. Quem operava o país parecia ser a própria Morte. Resolvi sair da cidade.
O terceiro impacto matou mais de 200 mil.
*
Afonso Jr.
domingo, março 21, 2021
terça-feira, março 16, 2021
Uma lua
Um exército e uma aurora caminham juntos.
Os Cânticos
- Se hoje fosse antes... - disse o juiz.
O escrivão fez o que pode para me defender.
- Vou contar uma parábola - disse o juiz. Era um planeta cuja atmosfera era verde e animais coloridos circulavam pela terra.
- E? - eu perguntei.
- Você nunca leu a Bíblia? - perguntou o juiz.
Eu tentava lembrar do que havia acontecido. Perguntei:
- O senhor sabe quem foi que me interrogou?
- O mesmo que interrogou o homem dos fornos.
- Os fornos que quebravam todo dia. Demorou a melhorar - disse o promotor.
- Se pelo menos você pudesse ver o quadro maior - disse o juiz.
- O homem que me interrogou sabia algo sobre meu passado?
Parecia lembrar que eles me haviam levado até a máquina. O cheiro me fez desmaiar.
O promotor olhou pela janela, como que pensando não ser fácil acusar o sistema.
- Eu era um escritor!
- Culpado!
- Mas por quê? - perguntei.
- Hoje é quarta-feira.
E já chegara o azul do crepúsculo.
O promotor me disse baixinho enquanto eu saía algemado:
- Logo vem a lua nova.
*
Afonso Jr. Lima
domingo, março 14, 2021
sábado, março 06, 2021
sexta-feira, março 05, 2021
sábado, fevereiro 27, 2021
quarta-feira, fevereiro 24, 2021
O dia em que Branca de Neve saiu para caçar
É hora da história.
A rainha não percebera que o espelho estava sem o pano negro.
O reflexo saiu com a luz da lua.
Branca de Neve senta na floresta e canta sua canção. Os animais a rodeiam. Percebem tarde demais que não podem se mover.
Ela volta para casa mais corada. Naquele dia, decide que vai mudar: uma criança?
Por que os pequenos sugavam seu sangue?
Ela acabara por se acostumar.
O monstro-rainha havia perseguido Branca na floresta.
Ele sente o cheiro.
Agora, Branca aproxima-se da pequena que acordou com seu canto do lado de fora da janela. O monstro-rainha aponta sua flecha.
*
Afonso Jr. Lima
sábado, fevereiro 20, 2021
segunda-feira, fevereiro 15, 2021
Filhos da noite - dramaturgia
dramaturgia - 2017
Sofia
Eu li aquele livro. As casas de madeira cheias de ratos e pulgas. As chamas se espalham. A peste toma conta da cidade. Os viciados são internados em hospitais macabros e submetidos a todas as humilhações.
sexta-feira, fevereiro 12, 2021
domingo, fevereiro 07, 2021
sexta-feira, fevereiro 05, 2021
A bala e o pássaro
vozes na minha janela
desperto e sol e disputa
mas não é de verdade disputa
é alimento, divisão
algo distrai e chama
o barulho é grande demais
nem silêncio poético sobrou
despertar com letra impura
a consciência quebrada
vozes na minha janela
um debate em torno do pão
queria contar de pico e pena
alimentando o irmão
falar de bala e de pele
de vermelho e sonho quebrado
de um país e seu medo
ao poeta é ofertado
assim me quebro e viajo
por homens, serpentes e pastos
crescendo no úmido verde
falando por todos os seres
humanidade, suas metades
e assim segue a esperança
quando morre outra criança
vozes na minha janela
Afonso Lima
quinta-feira, fevereiro 04, 2021
Basta
O que saber desse mundo?
O que posso, o que junto?
Cada povo tem seu culto
Não sei ler, sou oculto
Uma rápida olhada já diz tudo
Passado presente e futuro
Afonso Jr.
sábado, janeiro 30, 2021
quinta-feira, janeiro 28, 2021
O monstro
A dona de loja no shopping estava atendendo uma senhora porque era horário de almoço da funcionária. Subitamente, parou e ficou imóvel. A cliente a chamou duas vezes, até que ela respondesse.
O jovem olhava a paisagem diária pela janela do ônibus, o mesmo horizonte dia após dia para chegar no trabalho. Seu colega não o conseguiu acordar quando chegou o ponto e desceu.
A senhora idosa parou no equipamento de ginástica e o instrutor não a pode mover. Era preciso sair. Os seguranças foram chamados.
Na escola, ela era chamada de monstro. Seus pais foram chamados.
A dona de loja do shopping parou na pequena faixa de sol que caía do teto de vidro. Tirou os sapatos.
O jovem deitou na grama do parque depois de sua namorada pedir dois sorvetes ao vendedor. Ele não respondeu mais.
A senhora idosa ficou sentada ao lado da janela na churrascaria perto do pequeno jardim. Precisavam fechar o restaurante.
Seus pais foram chamados. Disseram que ele se vestia como menina.
- Sim, isso é o que ele quer.
- Mas não podemos evitar que seja hostilizada - disse a diretora.
A dona de loja do shopping passava o dia todo no jardim de sua casa em pé, sem sapatos, olhando para cima.
O jovem deitava o dia todo na grama do parque ao lado da fonte de cerâmica árabe. Sua namorada não ligava mais.
A senhora idosa deitada na cama recebendo a luz do sol. Já não comia.
- São as árvores, disse a menina na escola. As árvores estão mandando um sonho acordado para transformar as pessoas em coisas verdes.
Os meninos a cercaram com pedaços de pau. Quando a professorra chegou, já estava morta.
Afonso Jr. Lima
quarta-feira, janeiro 27, 2021
O testamento de Zaborovna
Sua irmã Zhueya vivia no planeta M2, casada com o comandante "Gigante" Gall, havia sido elevada à aristocracia quando casou, permitindo que sua pele fosse despigmentada. Ela retornava para uma cerimônia oficial, o recebimento dos dentes, sempre recolhidos pelos AN-sapiens. A escravidão sexual fazia parte da vida de muitas mulheres humanas.
domingo, janeiro 24, 2021
sábado, janeiro 16, 2021
domingo, janeiro 10, 2021
quarta-feira, dezembro 30, 2020
sábado, dezembro 26, 2020
quinta-feira, dezembro 24, 2020
domingo, dezembro 20, 2020
Dramaturgia - Estado de emergência
Carro.
Prólogo
Notícias do dia, coladas nas janelas. Do lado de dentro e do lado de fora.
- Deputada que falar contra o machismo vai ser morta! Anuncia partido do presidente.
- Último povo indígena exterminado com sucesso na floresta amazônica.
- Campo de trabalho forçado para professores foi inaugurado na última sexta-feira.
- Conselho de Direitos Humanos distribui uniformes azuis nas escolas prometendo que os
meninos nunca virarão meninas.
- Policiais recebem “licença para matar” todas as 24 cores de pele do Brasil, menos uma.
Cena 1
Mulher 2, de moleton e tênis, entra no carro. Olha as notícias coladas nas janelas.
Batidas na janela. Mulher 2 abre a porta. Entra Mulher 1, de salto alto, chapéu, frasqueira.
Mulher 1- Pára o carro!
Mulher 2- A gente nem saiu.
Mulher 1- Eu sei. Mas pára. Não to mais agüentando tudo isso.
Mulher 2- Isso o quê?
Mulher 1- Você. Sei lá. O trânsito.
Mulher 2- A gente não saiu.
Mulher 1- Por isso mesmo. É muito sufocante aqui dentro.
Mulher 2- Eu tenho pastilhas. As que refrescam.
Mulher 1- Eu não consigo respirar.
Mulher 2- Quando eu saio com o MEU carro, aquele incrível possante, eu me sinto muito bem.
Mulher 1- Eu não consigo respirar.
Mulher 2- Eu ligo o ar no talo. E o som. Liga o rádio no último volume.
Mulher 1 abaixa o som.
Mulher 2- Por que você abaixou o volume na melhor parte? Ela ia dizer que ama e que vai voltar.
Mulher 1- Eu não consigo respirar nesse trânsito com música.
Mulher 2- Nós estamos paradas.
Mulher 1- Mas há uma expectativa. Duas pessoas sentadas num carro. O arranque.
Tempo
Mulher 2- (Tira a chave da frasqueira) Então lá vai!
Mulher 1- Espera! Pra onde a gente vai?
Mulher 2- Dentro da frasqueira tem um envelope.
Mulher 1- Dentro do envelope há um endereço.
Mulher 2- Temos um alvo.
Mulher 1- E um GPS.
Mulher 1 abre o envelope.
Mulher 1- Por isso que eu não gosto de sair com você. Não tem nada escrito dentro do envelope.
Mulher 2- É feriado! Abre a frasqueira. Vasculha. Pega óculos escuros. Pronto. No feriado as pessoas se divertem. Vamos nos divertir! Liga o som.
Mulher 1- (Desliga) De que pessoas você está falando? Eu nunca me divirto em feriados. Fico entediada. Não tenho dinheiro. Eu quero sair daqui.
Mulher 2- Pois é. Todos querem sair deste lugar. Ainda mais agora.
Mulher 1- Agora o quê?
Mulher 2 – Nada. (Tira o moleton. Fica só de camiseta).
Mulher 1- Dá a partida! Você tem a chave.
Mulher 2- Eu?
Mulher 1- É. Você tem a chave o volante a embreagem o freio a buzina.
Mulher 2- Mas o carro é seu!
Mulher 1- Por favor! Eu não consigo.
As duas se olham. Mulher 2 não se mexe. Mulher 1 vai pra cima de Mulher 2. Embate. Elas trocam de lugar. As duas se olham.
Mulher 2- Se eu me sento aqui preciso do seu chapéu.
Mulher 1- Eu quero seus óculos de sol.
Cena 2
Mulher 1 com óculos de sol. Mulher 2 de chapéu. Mulher 2 tira da frasqueira folhas de papel com paisagens maravilhosas. Praia. Montanha. Deserto. Cola as paisagens nas janelas do carro.
Mulher 1- O que é que isso vai mudar?
Mulher 2- (Colando) A gente precisa se livrar do peso das notícias iniciais. Na vida real sempre existem janelas. E paisagens.
Mulher 1- Na vida real tem sempre uma janela aberta pra se jogar um pedaço de pão ou um abajur. Um cachorrinho ou carrinho de bebê.
Mulher 2- Ahn?
Silencio.
Mulher 2- Há um lugar! Aquele que todo mundo quer ir. Onde se contam carneiros
pulando acima de um arco-íris. Arranca!
Mulher 1- (Vendo o celular que tirou da frasqueira) Não posso. Acabei de ler mais uma. A bala atravessou a menina no trânsito. Ainda bem que não saímos daqui. Me parece mais seguro.
Mulher 2- Sim. Do lado de dentro.
Mulher 1- Ou do lado de fora? Ela estava do lado de dentro e...
Mulher 2- Me dá um medo de sair.
Mulher 1- Eles conseguiram. Me dá um medo de ficar.
Mulher 2- Dividiram a gente.
Mulher 1- Escolhem quem fica vivo e quem fica morto.
Mulher 2- Eu me recuso. Arranca!
Mulher 1- (Chave nas mãos) Você não ouve a imobilidade do ar. As folhas não dançam de um lado para o outro.
Mulher 2- Então?
Mulher 1- Eu vou! Tem um cigarro? Me dá mais coragem. Cinto de segurança, ok. Janelas fechadas, ok. Eu posso fumar?
Mulher 2- Se eles não se importarem?
As duas olham para o público no banco de trás.
Mulher 1- Ela, a menina de oito anos, do lado de dentro da Kombi, voltava pra casa com a sua mãe.
Mulher 2- Cheiro de fumaça no banco. Será que já somos o alvo?
Epílogo
Mulher 1 liga o carro. Tempo. O carro não sai.
Fim.
sábado, dezembro 19, 2020
quinta-feira, dezembro 17, 2020
O Evangelho de Josefo
- O primo profeta do Rio, percebe a verdadeira natureza de Yeshua. Ele lhe protege com sua magia para que tenha uma nova chance.
Angustiado, Yeshua parte pelo deserto. Ouve uma voz. Quer atirar-se do templo.
Ele começa a fazer perguntas. Juntam-se para ouvi-lo. Ele ensina a expulsar os demônios.
Condenado, Yeshua amaldiçoa o Céu, e é deixado para ser devorado pelas aves e feras.
Josefo sonha com um demônio, que o faz ir até o Palácio de Pilatos.
O Pai envia o Anjo da Presença, chamado Kristo, para conversar com Yeshua.
Eles viajam até o passado.
A Emanação viu que era Luz e queria ser o governante do mundo sombra.
O Pai o joga desde cima, e ele cai em um corpo de virgem.
Yeshua recebe a tocha do Portador da Luz, que desaparece.
Josefo de Arimathea vigia o corpo na caverna, Kristo acorda, seu corpo brilha - Josefo engole a Tocha.
quarta-feira, dezembro 16, 2020
Traduzindo William Blake - A voz do antigo bardo
A voz do antigo bardo - de Songs of Experience - 1818
The Voice of the Ancient Bard
Youth of delight, come hither
And see the opening morn,
Image of truth new born.
Doubt is fled, & clouds of reason,
Dark disputes & artful teasing.
Folly is an endless maze,
Tangled roots perplex her ways.
How many have fallen there!
They stumble all night over bones of the dead,
And feel they know not what but care,
And wish to lead others, when they should be led.
*
Jovem em flor, vem cá
Veja a manhã que brilha
Imagem da verdade agora-nascida
A dúvida fugiu, e as nuvens da razão,
Disputas sombrias e astuta provocação
A loucura, labirinto sem fim,
Raízes enredadas nos caminhos.
Quantos caíram nesse vão!
Eles tropeçam a noite toda em ossos putrefatos
E sentem que nada sabem senão preocupação
E desejam liderar, quando deviam ser guiados.
Versão: Afonso Jr. Lima
sábado, dezembro 12, 2020
sexta-feira, dezembro 11, 2020
quinta-feira, dezembro 10, 2020
quarta-feira, dezembro 09, 2020
Catalepsia
Segundo golpe foi na elite cosmopolita-banqueira para eleição do militarismo-religioso.
Assim, rapidamente, as mulheres foram subjugadas e estabeleceu-se uma sociedade de castas.
Ela, herdeira de uma família aristocrática, foi designada para acompanhar a expedição como cronista e tradutora.
O general era um homem atraente, melancólico, dado a explosões de fúria. Mas sabia agradar a seus homens. O que prometiam era acabar com a “cidade dos molestadores de crianças”, um reino do deserto.
Ela viu que alguém entrou em sua tenda na primeira noite no deserto. Sacou sua espada, mas foi dominada por dois outros homens.
O general a estuprou, deixando sobre a cama uma joia.
Ela tomou banho e não derramou nenhuma lágrima.
*
À medida que avançavam, ela ia se tornando mais e mais respeitada. Ela passara a buscar a companhia do general, o instruíra em saberes que só uma mulher rica podia chegar a conhecer.
- Não é, como em geral se traduz, apenas verdade. Catalepsia é a capacidade de unir o fantasma dos sentidos e o juízo correto, unindo os modelos prévios, a particularidade dos objetos e as regras lógicas de aceitação do real.
- Nós, homens da guerra, precisamos estimular aversão e evitar união, disse o general.
Por fim, chegaram próximos à cidade, os mensageiros enviaram uma flecha inteligente e deram dois dias para a cidade se render. Ajudava muito as imagens da destruição de Hubes. As mulheres foram vendidas como escravas, e os soldados que resistiram foram obrigados a mergulhar em água fervente.
Ela observava a cidade ao longe. Torres douradas. Parecia estranhamente calma. Era como se não houvesse mais ninguém.
- Onde estarão eles, ela perguntou a sua serva.
- Não sei senhora, mas podem estar em túneis subterrâneos.
- Que queres dizer?
- Sabemos que esse é o povo que tem o ouro, respondeu a mulher idosa.
- Eu nunca soube disso.
- Não são molestadores de crianças, disse a mulher. Quando eu era pequena, minha babá foi um deles. Foram os sacerdotes que criaram isso.
Ela não deixou transparecer sua emoção. Sabia que era um tipo de opinião que podia matar. Manteve o olhar firme e disse que precisava de um banho perfumado.
*
Ela deitou ao lado do general derramando seu perfume sobre a cama. Ela lhe fez uma massagem.
Fizeram amor, e ele dormiu. Luas finas iluminavam a madrugada.
Ela aqueceu o óleo quente.
Quando o homem gritou, ela enfiou um pano em sua boca.
Bolas de fogo começam a cair sobre o acampamento, gritos.
Ela saiu em meio ao tumulto com sua bagagem nas costas.
domingo, dezembro 06, 2020
A peste e as lentes
As pessoas abandonadas nas ruas.
Os religiosos no exército de vanguarda. As pulgas que habitam as ruas.
Eles estão na torre de sua casa.
O monge cientista e o médico.
O rei já solicitou aos professores da universidade uma explicação.
São os astros influindo na atmosfera, nada se pode fazer.
As lentes mostram que há germes.
Um monge está inflamando a cidade com sermões sobre a penitência, sobre lembrar-se da morte e fugir do pecado.
A feira de domingo no cemitério traz os palhaços vestidos de Morte, bispos e reis com máscaras de caveira.
O médico tenta convencer a multidão de que a doença veio em navios, de que é preciso fugir da gente, de que Galeno sabia menos que os modernos.
- Os astros que se cruzaram em 1345 não são a causa da pestilência no ar. Nem Deus quer nos punir.
As autoridades o levam até uma cela.
O monge é punido com a transferência para as montanhas do Norte.
Os aristocratas começam a culpar os judeus por envenenar a água.
Afonso Jr. Lima
Xenofobia en la calle Europa
Siempre me he enfrentado a los prejuicios contra los que tienen cabeza de escarabajo. Afortunadamente, la ley está de nuestro lado. Pero nadie puede evitar al dueño de una tienda de telas en una calle con casas antiguas del centro de Montevideo.
Mi solicitud fue extraña. Respondió algo más.
La anciana que apareció me gritó.
Intenté seguir mi compra. Dejé caer accidentalmente la tela del dispositivo colgante.
Gritando, el hombre se me acercó y me empujó. Olvidan que tenemos poderes psíquicos.
Salí de la tienda para evitar a la policía y llamé a mi amigo de cola oscura.
Se suponía que ese animal lo paralizaría durante días y bebería su sangre poco a poco hasta la muerte, a menos que el agujero que haría en su techo ayudara a que le cayera un poco de agua.
*
Afonso Jr. Lima
A xenofobia na rua Europa
Sempre enfrentei o preconceito das pessoas com os que têm cabeça de besouro. Por sorte, a lei está de nosso lado. Mas ninguém pode evitar um dono de loja de tecidos numa rua de casas antigas no centro de Montevidéu.
Meu pedido era estranho. Ele respondeu outra coisa.
A mulher idosa que apareceu gritou comigo.
Tentei seguir minha compra. Sem querer, deixei cair o pano do mostrador no qual estava pendurado.
Aos gritos, o homem veio para cima de mim e me empurrou. Eles esquecem que temos poderes psíquicos.
Eu saí da loja para evitar a polícia, chamando meu amigo de cauda escura.
Aquele animal iria paralisá-lo por dias e beber seu sangue aos poucos até a morte, a não ser que o furo que eu faria no seu teto ajudasse a cair um pouco de água.
*
Afonso Jr. Lima
sábado, dezembro 05, 2020
Cartas de Teatro e Peste - SATYRIANAS 2020 - Episódio 1
Dramaturgia/Vozes: Lisa Reis (Cabo Verde), Jorge Palinhos (Portugal), Armando Nascimento Rosa (Portugal) e Afonso Junior Ferreira de Lima (Brasil/Uruguai).
Direção: Mario Sergio Medeiros (Brasil).
Duração: 3 episódios de aproximadamente 7 min.
sexta-feira, dezembro 04, 2020
quinta-feira, dezembro 03, 2020
sábado, novembro 28, 2020
sexta-feira, novembro 27, 2020
quinta-feira, novembro 26, 2020
quarta-feira, novembro 25, 2020
A sociedade sem reflexão
sábado, novembro 21, 2020
sexta-feira, novembro 20, 2020
sábado, novembro 14, 2020
sexta-feira, novembro 13, 2020
quinta-feira, novembro 12, 2020
sábado, novembro 07, 2020
sexta-feira, novembro 06, 2020
terça-feira, novembro 03, 2020
sexta-feira, outubro 30, 2020
quarta-feira, outubro 28, 2020
O veneno
O governo tinha um programa especial de migração voluntária, no começo.
Seu pai era policial. Sua função era não deixar que as pessoas negras chegassem nas áreas brancas.
Alguns animais apareciam caminhando à esmo, pássaros morriam batendo contra os vidros dos altos edifícios.
Não aconteceu no útero, seus neurônios não foram envenenados por sua mãe. Mas enzimas foram afetadas.
Ela tinha seis anos quando comeu aquilo enquanto sua célula se dividia.
Desde então, a menina começou perder a visão.
Por fim, seus ossos se quebraram enquanto subia numa árvore, ela morreu em seguida.
"Algumas pessoas estão com medo da própria sombra, estão pensando em queimar livros" - disse
um artista.
Sua mãe ouvira falar em espíritos que tomam cadáveres e os fazem caminhar.
Buscou auxílio nas forças infernais.
A mulher atendia vários colegas do seu marido, políticos e homens de negócios, mas nunca haviam ido tão longe.
Um espírito pediu que o pai trouxesse carne fresca para alimentar os seres sedentos.
Ela retornou.
A menina passou a viver no cemitério, onde a mãe ia todas as noites contar-lhe histórias.
O espírito falou por sua boca e pediu que seu pai se tornasse político.
- Vamos nos livrar das raças inferiores e cobrir de ouro nossos herdeiros.
Precisavam de espaço. Animais.
Eliminariam grande quantidade de pessoas.
*
Afonso Juior Fereia de Lima
sábado, outubro 24, 2020
sexta-feira, outubro 23, 2020
sábado, outubro 17, 2020
sexta-feira, outubro 16, 2020
sábado, outubro 10, 2020
sexta-feira, outubro 09, 2020
domingo, outubro 04, 2020
sábado, outubro 03, 2020
pensar diferente
a humanidade não é só isso
confusão e
viver no trilho
estende a mão
corre risco
não é só essa
a humanidade quer mais
recusa a mentira
gente é conversa
a humanidade será melhor
a dominação não permanece
a semente, pensar diferente
uma esperança nasce sempre
Afonso Jr
sexta-feira, outubro 02, 2020
quinta-feira, outubro 01, 2020
A família real
A menina não sabia que poderes eram aqueles.
A família real do Brasil detêm os jornais e os sinais de satélite, censura as universidades e a internet.
Ela foi eleita no mesmo ano que mataram o principal jornalista que denunciava o sistema paramilitar na política.
A menina descobriu um baú com fotos, mapas e manuscritos de sua família.
O filho do presidente, pastor Américo, tornou-se presidente da Fundação Nacional para a Alegria.
Sua mãe desaparecera quando era tinha três anos.
Primeiro, o jornalista havia perdido sua coluna no jornal, depois foi banido do Twitter, depois programas de TV e acadêmicos começaram a falar mal dele no jornal da noite.
Os Meninos Brancos começaram uma série de explosões em jornais depois que o presidente lhes homenageou no Palácio Presidencial.
Juízes e jornalistas começam uma campanha contra os movimentos antiterroristas.
A família real do Brasil é investigada pela sua ligação na morte do jornalista.
A menina observava o mar à noite e treinava a capacidade de mover as bolas de fogo.
Afonso Lima
domingo, setembro 27, 2020
O dizer e o ser na epistemologia grega - Mestrado em Filosofia (2002)
Afonso Junior Ferreira de Lima
Michel Foucault: A morte do sujeito e a arbitrariedade do
saber como condição ética; 2002; 418 f; Dissertação (Mestrado em Filosofia) -
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Coordenação de
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior; Orientador: Pergentino Stefano
Pivatto;
Ciência, verdade, poder: um diálogo com Michael Foucault - Mestrado em Filosofia (2002)
Afonso Junior Ferreira de Lima
Michel Foucault: A morte do sujeito e a arbitrariedade do
saber como condição ética; 2002; 418 f; Dissertação (Mestrado em Filosofia) -
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Coordenação de
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior; Orientador: Pergentino Stefano
Pivatto;
Volume 1 – Cap. 3
Ciência, verdade, poder: um diálogo com Michael Foucault
Foucault contra o humanismo - Mestrado em Filosofia (2002)
Afonso Junior Ferreira de Lima
Michel Foucault: A morte do sujeito e a arbitrariedade do saber como condição ética; 2002; 418 f; Dissertação (Mestrado em Filosofia) - Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior; Orientador: Pergentino Stefano Pivatto;
Foucault contra o humanismo - vol. 1 - Cap. 2
sexta-feira, setembro 25, 2020
quarta-feira, setembro 23, 2020
Palavra
A palavra mente
o discurso abuso
vergonhosamente
a palavra gira
a hieraquia
Em melhores dias
palavra linda
que carrega água
ainda que espelho
do espelho, cantada
quanta coisa puxa
de ser gente e soltar a mente
combinar o real
com ela desfaço (a machado)
me acho, louvada seja
porque entrega
palavra é carta
não palavra é fatal
palavra amiga
nunca uma só
meu cipó de ser junto
para ser singular e
inegual
Afonso Jr.
terça-feira, setembro 22, 2020
O filho de Sei
Um quarto com paredes de papel pintado com pinheiros e flores vermelhas. O vento traz o perfume das cerejeias em flor, o som do rio correndo próximo. A luz da lua entra através das cortinas de tecido azul translúcido e ilumina as almofadas coloridas ao redor do leito de Sei. Ela está sentada no chão, escrevendo poemas na sua mesa baixa, ao lado da lamparina à óleo. Ouve os grilos da noite e isso lhe traz uma alegria sutil. Ouve um barulho como se alguém tivesse pisado no degrau da entrada, depois pensa ter se enganado. Sei sente seus longos e negros cabelos arrepiarem-se, mas decide controlar seu coração. Vemos a sombra de um ser que caminha com dificuldade, longos dedos de ossos que abrem a cortina azul. A cabeça alaranjada de um morto, a mandíbula e o alto do crânio de um laranja mais forte, como vários tons de carne podre, o branco dos olhos com nervuras vermelhas, órbitas negras. Um vapor fétido toma o lugar do aroma das cerejeiras.
O filho do demônio é um senhor cruel.
Os demônios estão com ele nas batalhas.
Afonso Lima
domingo, setembro 20, 2020
O despertar
O quarto meu. A casa com a qual viajo pelo universo.
Ninguém sabia que - quando o Senhor falou as palavras que despertaram o pobre Lázaro - João as havia anotado.
E João as escondeu da melhor forma possível, dentro de um pergaminho.
E eu descobri a verdade. Eu criei meu grupo de Amazonas.
E, agora que meu quarto está em chamas, eu consegui usar o que sei.
Elas recitam os versos sagrados.
As ruínas dos templos queimam ao lado dos ossos dos animais.
As covas se movem, tantos buracos com cruzes agora vivos.
E eles saíram na noite maldita para visitar seus queridos. Eles entraram nas casas e comeram o que havia na geladeia.
Eles comeram os gatos e os cachorros.
Eles seguiram até encontrar os pastores com as Bíblias abertas, os vereadores nos prostíbulos.
Eles acenderam o fogo com os corações ainda frescos.
Quero um futuro para minha casa. O próprio inferno abriu sua boca, porque os demônios gostam da luta, e não do silêncio.
Eu despertei 140 mil que dormiam, eles ouviram os gritos das Amazonas que voavam sobre a fumaça.
Agora, elas avançam para o Palácio com as vísceras na ponta das lanças.
*
Afonso Lima
sábado, setembro 19, 2020
sexta-feira, setembro 18, 2020
quinta-feira, setembro 17, 2020
terça-feira, setembro 15, 2020
sábado, setembro 05, 2020
sexta-feira, setembro 04, 2020
quinta-feira, setembro 03, 2020
domingo, agosto 30, 2020
terça-feira, agosto 25, 2020
O rosto sujo
São manuscritos de várias épocas, analisados em artigos fantásticos.
*
O robô bateu na porta. Ela abriu.
- Daqui a dois dias, a senhora vai querer comprar esse produto - ele disse.
Se quiser devolver, entre em contato.
*
A primeira-dama matou a jovem com extrema perícia. Os tambores abafavam o ritual.
O presidente colocou sobre o altar um ramo de flores e sorriu para a foto.
Serviam os pedaços ensanguentados em vasos decorados como nos tempos antigos.
Era um pouco constrangedor, sempre, e a primeira dama tentava sujar o queixo o mínimo possível.
*
O agressor com seu chapéu para proteger a pele muito branca. O filho do presidente, deputado, entrega a lista de inimigos do estado. O diplomata toma sua caipirinha.
- É um pouco deprimente as raças inferiores espionarem a si mesmas - diz.
*
Como bom religioso, ele lavou suas mãos, fez o sinal e fez suas orações. Aparece no vídeo.
Começou com jornalistas perseguindo o grupo político que contrariava seus financiadores. Os próprios foram perseguidos por uma máquina policial e de propaganda. "O debate racional foi perdido, é preciso desviar a atenção", era a frase que vazou da reunião presidencial.
*
As máquinas permitiam que as pessoas vivessem para sempre. Mas elas iam se tornando cada dia mais desidratadas, penduradas em seus casulos. O programa recebeu o apelido de "vidas secas" pela internet. Logo, todos os alvos preferenciais recebiam milhões de mensagens sobre a "beleza das vidas secas imortais".
*
Ela abria a Bíblia. Sobre ela, seus filho adotivo derramava o líquido. Sua ex-namorada, agora irmã, bebia o sangue. Foram elas que criaram os ritos da nova dinastia.
*
Serviam os pedaços ensanguentados na festa de aniversário.
O presidente queria exterminar o maior número de cidadãos possível.
República exportadora. Sacos pretos, em todas as cidades, carregados nas celebrações de domingo.
A primeira dama seguia sua conselheira bíblica, devia descobrir sua paixão mais profunda; talvez fosse a carne feminina, tentava sujar o mínimo possível.
Afonso Jr. Lima
domingo, agosto 23, 2020
sexta-feira, agosto 21, 2020
quinta-feira, agosto 20, 2020
geografia da cidade
a luz também é acalentada
mortais e imortais devem amar-se
a casa escura deixa o pó nascer
e enlouquece, filho trágico da
doença e ruína
capricho e maldade
todos os tipos de bichos
nada fica do que não reafirma
a canção também é união
as graças perfumam a deusa
as horas lhe cobrem de ouro
a paixão pelo dia bom
a democracia nasce de cada dia
nada existe do que não respira
a luz também é revisão
seguir no mar das paixões
o desejo e a luta pintados em moldura
as origens são a guerra evitada
o poder vigia o poder
a cidade nasce do amor
a narração é sempre uma luta
os ventos novos
a bela música
nada fica do que não pacifica
a força também é carnaval
a palavra mágica
faz a igualdade
AJr
segunda-feira, agosto 17, 2020
el fuego
Los huesos se vuelven grises
Una niebla se elevó por las calles
Los edificios observan, se han vuelto más de piedra
Él desapareció, ella desapareció
La tierra esta mas fria
Nos callamos
nos escondemos y no soñamos
la gente piensa que es pequeña
no hablamos de eso
Se equivocan
- descubre en ti mismo
otro ser no deseado -
el fuego
mis líneas de silêncio
cativo na dura piel
musica memoria
los primeros señores del río
mi canción de honor
apesar blanca flor
el verbo libera
Afonso Jr Ferreira de Lima
Soul
minha mãe suou
no parto
não sou um robô
preciso de frutas
não sou um robô
aprendo as letras
desmonto as letras
não sou um só
sou de quebrar
adoro suspense
sou de ser tudo que der
sou de poder mais que imaginas
não sou um robô
beijo a sereia
coisa de rolar na areia
roubar certezas
sou potente
vivo de sonho
não é só luar
preciso casa pra morar
não sou um robô
minha unha cresce
na lua cheia
não sou um robô
meu coração se parte
não sou um desses
como arte
sou de amar coisas malucas
sou uma serpente
o que não se repete
sou gérmen de gente
não sou um robô
eu trituro fronteiras
não sou um robô
sei quem não sou
preciso abraço que me alimente
Afonso Jr Ferreira de Lima
paródia
cortem a língua
enquanto conto
me torno outro
enquanto passo
jogo o todo
recorto as coisas
revivo os ossos
a língua absorve
cortem a língua
movo os ossos
enquanto conto
balanço as coisas
a língua é outro
música do todo
enquanto passo
a língua come
cortem a poesia
cadáveres em passos
cavaleiros de ossos
romances todos
na nudez do conto
vira outro
monto as coisas
existem as coisas
no passo do verso
mundo outro
de ossos leves
conto na música
todo o outro
a língua floresce
vivam a língua
Afonso Jr Lima