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domingo, agosto 01, 2021

Escravocratas de mármore e o futuro da paz

"Sim, as estátuas de Gaio Calígula foram derrubadas e desfiguradas, mas isso conferiu algum benefício a Roma? Tornamo-nos menos brutais e mais justos? Podeis pôr abaixo estátuas, mas não podeis eliminar vosso passado. A única coisa que podeis em relação ao passado é com ele aprender." 
(https://aldodinucci.blogspot.com/)

"Fatia do 1% mais rico no Brasil tem 50% de toda riqueza do país". (Bloomberg. 22/06/2021)


A paz necessita da prosperidade mínima geral. A verdadeira harmonia tem relação com a justiça. Queimar em nome do bem nunca é legal, mas civilização é prevenção. Que canais nós criamos para aceitar e refletir a discordância? Qual a pré-história do fogo? Que fazer para evitar que uma parte se sinta agredida pela agressão ao agressor?

Antes de mais nada, é preciso lembrar que tudo que está consolidado foi criado, que há escolhas e planos em tudo que nós herdamos. Quando não há decisões coletivas e debate público, o que há é a imposição dos valores dos poderosos de ontem. O cidadão universitário branco pouco informado se vê na imagem do caçador de gente. A estátua é o apagamento da caça, da dor que a história esconde. 

Óbvio que, politicamente, é sempre mais fácil colher os louros da ignorância e embarcar no senso comum. 

Paulo César Garcez Marins, professor do Museu Paulista da Universidade de São Paulo (USP) - "Os sertanistas, vistos como bárbaros por grande parte dos membros do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, sediado no Rio de Janeiro, e por artistas cariocas, foram progressivamente enaltecidos nos círculos literários e intelectuais paulistas como líderes do processo de construção territorial do Brasil". (BBC)

Nenhuma sociedade deseja a guerra. É preciso ver além do medo, como um sintoma social, e perguntar que impediu o debate. Porque vemos muito o "discurso do monumento", que lembra muito o discurso de que "protestos atrapalham o trânsito", ou mesmo aquilo que se dizia há poucos anos sobre ser impossível fechar a Avenida Paulista aos domingos por questões de "saúde pública", dado o número de hospitais na região (era apenas para a classe média poder circular de carro). Como não haverá fogo se as vias de representações políticas e a comunicação - mesmo antes da ascensão do fascismo de Estado - parecem totalmente controladas? 

Também não precisamos de gente nos dizendo que o bandeirante em questão não era tão mau (mais do mesmo: livros servindo de narcótico, vide eugenia belle époque em jornais e universidades). Não se trata de uma figura em si, mas do que esse grupo representa. Representa o uso da terra e a objetificação dos povos originários por sertanistas dispostos a tudo. Significa a dissolução de disputas tribais endogâmicas por um massacre baseado em hierarquias de raça. "Chega de louvarmos assassinos do povo" é a mensagem. A sociedade brasileira mudou: mais pessoas têm acesso à livros, universidades e debates que circulam no mundo. 

Dr Shawn Sobers, University of the West of England - "At the same time, the anti-racist movement isn't about statues. It's trying to eradicate racism from society and bring equality where there's racial disparity which cuts across economic divides... But statues are a symbol of how seriously our cities in Britain are actually taking these issues." (BBC)

Prefeita Nikuyah Walker - “ Derrubar a estátua é um pequeno passo em direção ao objetivo de ajudar Charlottesville, na Virgínia e nos Estados Unidos, a lutar contra o pecado de estar disposto a destruir os negros para obter ganhos econômicos”. (Democracy Now!)

Suzane Jardim, historiadora - “A memória negra foi varrida, como a memória indígena foi varrida e ninguém questionou (...) A gente sabe que não tem uma estátua de Zeferina do Quilombo do Urubu, por exemplo.” (Brasil de Fato )

Por que a República não conseguiu revisar nossos valores - por que ainda pensamos como nos anos 1970? Existe todo um trabalho de identificação com a nobreza promovido pelos meios de comunicação. A dor e o sofrimento do homem branco rico são exaltados até que toda a classe média se desfaça em prantos. São nossos líderes, não podem ser criticados. A imagem do fogo é disseminada como pânico. Criamos uma sociedade disposta a perdoar tudo, a paz como violência. O uso do medo como fator de silenciamento. O resultado de uma opressão contínua sempre é o pior. 

Quem defende esses "heróis da pátria" não sabe quem são - ou, pior, acha que a eugenia é natural. O espanto nasce numa auto-percepção como continuador de nobres empreendedores? A narrativa histórica é sempre viva, é sempre posição política. No seu melhor momento, é a revelação de uma realidade sufocada, a correção de uma mitologia opressora, a complexa rede de contradições no lugar de uma serena falsidade. Esse monumento não poderia estar aí porque o que ele está dizendo é que a república é dos opressores. É a mesma lógica que impede que tenhamos ruas com nomes de nazistas - seus valores dividem a sociedade entre pessoas dignas e objetos descartáveis, e não podem ser tolerados. Precisamos falar do monopólio do discurso e do ódio racial que foi naturalizado em nossas estruturas. 

Precisamos pensar como um governador diz, como Geraldo Alckmin (PSDB), que projetos de sociologia seriam “pesquisa inútil”. E como pode ter falado em “máfia das universidades sugando dinheiro público”.

Porque pouco tem sido feito para impedir que o trabalhador sem escolaridade seja alvo do pânico. O projeto de destruição da universidade é um plano para acabar com a reflexão pública e o confronto de argumentos, o que sustenta a república, porque assim fica mais fácil a massa perseguir opositores e votar contra os imigrantes:

"Atualmente fixadas na mira estão as disciplinas de humanidades - artes, línguas e ciências sociais - que sofreram cortes drásticos de financiamento e foram ignoradas por um governo empenhado em promover o que é moderno e gerador de receitas (ciência, tecnologia, engenharia, matemática)." (The Guardian)

A estátua sofre porque as opressões continuam. A discussão não é "quem foi ele" (apenas), mas quem somos nós. O que aceitamos que é o país. Um fascista é alguém incapaz de mudar. Por que nossos governantes ainda se enxergam em assassinos de não-brancos? Por que os eleitos escolhem o racismo colonial e não o efetivar da Constituição? 

O fundamental é termos espaços nos quais as discussões possam ocorrer: não apenas através de "representantes" alimentados por caras campanhas, não apenas com o acionar da Justiça. 

Que o Parque seja marcado por bárbaros é uma sinalização para que o cidadão se veja como parte de um povo glorioso que superou outros povos? Sou à favor de criar o museu das velharias eugenistas. Vamos mudar nosso passado, porque mudamos quando entendemos. Há sempre o perigo do libertador de hoje ser o tirano de amanhã claro. Agora, a rebelião nasce do esquecimento. 

Da incompreensão do nosso erro. Se tivermos sorte, não será olho por olho, não será destruição, mas contextualização, abertura a novos mundos, acordo entre iguais. A forma de acabar com a violência é aceitar a verdade do outro, e só isso pode romper o ciclo de nossa sociedade erguida em sangue. 

Ajr

https://www.bbc.com/news/uk-england-bristol-57350650

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-53116270

https://www.democracynow.org/2021/7/12/headlines/charlottesville_virginia_removes_racist_statues_after_protracted_legal_battle

https://www.brasildefato.com.br/2020/06/15/o-que-significa-retirar-estatuas-de-escravocratas-do-espaco-publico

https://www.theguardian.com/education/2015/mar/29/war-against-humanities-at-britains-universities


sábado, julho 17, 2021

quinta-feira, junho 24, 2021

Laboratório flamenco

sou o vazio

por não saber posso

colecionar quatro lados

suspensão dos juízos 

sólidos isolamento 

e meditação decompor 

as estruturas mística 

do concreto vaso 

de imagens poética 

das moléculas teologia 

negativa buscando o vazio

uma torre oceano 

uma folha vermelha

o ouro e o fogo 

dança que dele nasce 

um caminho de laboratório

não saber como método

coerência imperfeita

o pensar das plantas

aceito a lei divina 

Têmis sigo o código 

filhos da natureza

não sou do mundo

sou o vazio

sou mundo e saem do forno

espíritos bruma luminosa

o novo ouro 

futuro 

*

Afonso Jr Lima 

terça-feira, junho 22, 2021

Alexandre Boer - in memorian

Não é fácil entrar na casa de um gaúcho. De uma palestra, passamos a ser amigos, eu não estava sozinho.

O gaúcho tem fama de ser desconfiado, até mesmo arrogante e inflexível. Então, para qualquer jovem, tentando encontrar seu caminho, é importante esta figura de referência, que, sem segundas intenções, sabe acolher e está disposto a construir junto. Assim era Alexandre Boer.

Podemos dizer que fez parte dessa geração que construiu um espaço democrático, que forçou o país a ter leis e limites, que teve coragem de crer que era possível participação e igualdade. 

Incansável, esteve presente em seu tempo quando a epidemia de AIDS afastou uns dos outros; quando (me mostrava nas fotos) se ia com roupas espaciais recolher os falecidos por puro pânico. O grupo Somos (éramos cinco numa sala) agora pode ser visto como um lugar de acolhimento para os jovens gays que vivem sob a opressão atual. 

Também fez alguns jantares na sua casa nos quais ele, eu e seu marido Cléber, debatíamos política, ativismo, relacionamentos e cachorros. Compartilhamos ideias progressistas, confirmamos suspeitas e insatisfações. Somente com pessoas inteligentes podemos ter esse prazer, essa riqueza, com pessoas sem ilusões banais, com pessoas que afirmam a verdade com decisão. 

Numa praça, respondi a suas pesquisas. Num encontro, numa roda, falei de minha experiência para orientar políticas públicas. Fomos juntos a palestras sobre Direito da Família. Cheio de energia, cheio de alegria, sempre com argumentos perspicázes. 

Lá estava eu quando ele fundou a "ala gay do PT", pego de surpresa, recebendo os Tarsos e Olívios enquanto ele preparava as mesas. 

Anos depois, quando tive uma discussão num relacionamento, sai pela rua em direção... à sua casa. Com ele descobri livros e autores. Havia um universo no qual eu cabia, assim como eu era, havia uma história na qual eu cabia. Havia que estudar. Eu valia a pena. As pessoas valem a pena. Ele dizia que eu era uma "fonte de infinitas ideias".

Não deve ter sido fácil para Alexandre ver a cidade de Porto Alegre abandonada como está; para mim não foi. Mas assim são as ondas da história. Cada geração aprenderá com suas dores. Uma das coisas mais bonitas é ver que o Somos continua, que novas pessoas levam sua bandeira porque puderam deixar ali sua marca. 

Acima de tudo, Alexandre era uma pessoa interessada em planificar a mudança. Mas a política é feita de afeto também, de confiança, de generosidade. Ele sabia o que era preciso fazer, ele tratava de buscar aliados. 

Assim são os homens públicos, e este foi um homem público. Graças a eles, a comunidade prospera, e temos de semear sua memória para que um novo dia nasça. 

Afonso Junio Lima 








domingo, junho 20, 2021

O arauto

O juiz peixe-com pernas de homem apontou para a cidade. O padre com asas de inseto abençoou o arauto. 

Um meteoro atingiu a Terra. 

No cemitério, o arauto tocou sua harpa milagrosa. 

Os mortos saíram da terra. 

O exército foi acionado: fumaça cobrindo o horizonte. 

O arauto tocou seu tamboril em frente ao mar. 

O horizonte escureceu, ventos, fuga, uma onda de dez metros destruiu todas as casas. 

O arauto subiu na torre mais alta. Tocou sua flauta. 

O oxigênio da atmosfera se tornou venenoso por três minutos. Pessoas sufocaram na avenida. 

O arauto subiu até ver os continentes ao longe. 

Crianças nos seus berços tiveram pesadelos com fogo nas cidades e demônios-animais que cantavam. 

O arauto abriu o portal dourado. 

*

Afonso Lima


terça-feira, maio 18, 2021

A ameaça

na jaula do teu povo

os teus não sobraram

queima das oliveiras 

exército de comunicação 

sua irmã o viu crescer

horário de entrada na cidade

a escravidão desejada

humilhação da mãe

para prender o pai 

sua irmã sob as pedras

voa do edifício

os teus não sobraram

*

AJR


segunda-feira, maio 17, 2021

A lei dos animais

Tendo chegado de outro lugar, ele não tinha papéis. Seus papéis não eram válidos. 

Agora sabia o que significava ser um animal. 

Animais não podem alugar imóveis, dizia o manual recebido no desembarque. 

As contas de banco estão vetadas a animais. E demais operações com cartão. 

(Para segurança de todos que buscam ganho automático e sem perturbações).

As profissões não serão acessíveis a animais. Não poderá ser chamado "profissional".

(Tinha duas patas, afinal, tinha dentes, sabia cantar: o que o diferenciava de tantos outros domesticados?)

Animais não podem acessar o sistema de saúde. (Ou podem, mas nunca saberão como fazê-lo). 

Animais não têm linguagem. Seus ruídos não são um sistema. 

Animais não estão proibidos de falar em política. Mas, o silêncio evita o juízo. 

Não se recomenda casamentos entre espécies diferentes. 

Apesar disso, animais são bem-vindos e podem trabalhar.

Em caso de parada pela polícia, use a expressão "senhor". As sirenes de polícia sempre procuram animais. 

*

Afonso Jr Lima



sexta-feira, maio 14, 2021

domingo, maio 09, 2021

J. Estripador

 A rainha pisa o tapete dourado colocado no chão da Zona Leste - usa uma capa negra, véu e apenas quatro seguranças para disfarçar-se. 

- Mas o que essas mulheres faziam na rua essa hora?

- Elas estavam trabalhando, majestade - falou o chefe da polícia. 

- Alguma relação com irlandeses ou judeus?

- Não sabemos. Não sabemos nada. Só sabemos que temos inúmeros bordéis e marinheiros.

O duque resolve interromper:

- Majestade, acho que já é o suficiente. 

- Não perguntei sua opinião, Duque Albany. É verdade que receberam cartas?

- Sim. Assina J. Estripador. Achamos que pode ser um açougueiro, médico ou marinheiro que transporta carnes. 

- Que ridículo. Por que um açougueiro mataria cortesãs? 

- Encontramos um avental sujo de sangue e um grafite: "Os Juwes são os homens que querem não ser culpado por nada". 

- Quero o general Jackson no meu gabinete. 

Os homens pareciam nervosos. Ela havia dito que não ia mais permitir ser excluída assim, pois isso lhe impedia de defender o bem comum e "expandir o Império". 

- Fale, doutor. 

O cirurgião policial Thomas Bond respondeu:

- Um homem de hábitos solitários, condição mental vingativa ou taciturna, mania religiosa.

- General Jackson, o senhor sabe que temos um homem assim. Um homem que o senhor promoveu recentemente justamente por ter sangue frio. Fomos criados para achar que essas pessoas são animais. Nossa polícia foi treinada para controlar estrangeiros e miseráveis. Algum deles devem ter saído do controle. Esse bairro deve melhorar. Vamos ocultar os resultados e promover a educação das mulheres. 

Os senhores saíram do gabinete de cabeça baixa. 

Afonso Jr. Lima 

sábado, maio 08, 2021

quinta-feira, maio 06, 2021

viva a pátria

à Fernando Cabrera

*

a última vez em que amou

o beijo no único

em morte pura máquina na rua 


o espelho e amor de sofia

desde outra vida o fundador 

canibal verso inaugural 


do império vem rainha

nunca se cala pisa devagar

eu te chamo dona da canção


a montanha que se sobe 

em rendas de lua e pura altura

a solidão da sombra cecília 


senhor do tempo heroi 

tratado de demolição 

roubando rosas rasgando a pátria 


não segundo a prosa oficial

a duplicação da língua

minha ilha solta e a verdade


gata no teto carne fúria

espuma na boca e faca

da lama sereia a voz 


olhar fúnebre de vertigens 

o morcego observa a cama

pantera em mão sombria 


careta limpo não viu

o profeta vermelha boca 

ia chuva desesperada 


os pés de menino

fantasmas amigos

a casa vazia risos 


procissão das raças 

no latim o quanta e o alho

flor de marfim e mel 


pequeno deus esse medo

esses rostos nosso livro língua

a metafísica da primavera 


passos na calçada desarmar

a criatura sal e ânsia 

o destino de uma brotação 


dentro da casca aquele som

areia violão você entardece

o caminho das águas a noite 


uma só vista

ilumina desde dentro

na minha língua

tudo se compartilha

 

*

Afonso Lima





sábado, maio 01, 2021

Live: Harold Pinter - Arte, Verdade e Política


 

Beckett, Pinter, Foucault - aproximações na paisagem do desmoronamento do eu

II Colóquio Samuel Beckett do GP Estudos sobre Samuel Beckett

Agosto - 2017 
[10:00 – 12:30] MESA 5: Página e palco


- Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin
USP - Cidade Universitária - São Paulo, SP


sexta-feira, abril 30, 2021

El castillo (ESP)

Siempre me gustó el campo. 

Ese juego de viento, sentir la hierba húmeda, pelota con el perro. No siempre igual.

Todo era tan diferente de mi noche oscura y fría. 

Empecé a pensar que me faltaba una compañía.

Sí, la hija de la criada, yo mismo creé esta situación. 

Podría haber atraído la mayor, pero la más pequeña era más risueña, más dócil, le gustaba más correr con el perro. 

No es fácil vivir así, o sol e o verde me revivem, este viaje sin fin, la angustia del trabajo técnico, mi camino solitario por el vacío. 

Ella se estaba volviendo cada vez más infantil mientras jugaba en el campo. 

Yo, cada día más paternal, protector, más cercano a la protección y al placer. 

Y cómo sonreí jugando a la pelota. 

Tenía una forma de girar la cabeza un poco rápida, un gesto de insecto, un gesto de juguete. 

Mi soledad era un abismo. Soy embarcación sin vento.

Estaba en un sueño, el castillo estaba muy lejos, por fin quise convertir el abrazo en un beso y el beso... 

Fue entonces cuando la máquina se detuvo. Esa noche no pude dormir, mientras la nave atravesaba el espacio oscuro.

*

AJR

quinta-feira, abril 22, 2021

segunda-feira, abril 19, 2021

Um assassino em série

O primeiro caso ocorreu numa rua mal iluminada, era uma garota de 14 anos que chegava da escola. 

A polícia trabalhou com a hipótese de estupro seguido de morte, era um bairro no qual o desemprego era grande. 

Um mês depois uma mulher foi encontrada morta num parque ao lado de um hospital. A imprensa passou a cobrir o caso, tratava-se de uma professora. 

Os policiais tinham várias linhas de investigação - tentavam criar uma personalidade para o assassino, tentavam criar algum nexo entre as vítimas.

Um homem foi assassinado em seu apartamento num bairro nobre da cidade - as mesmas características, o mesmo golpe, as marcas de violência no pescoço. 

Surgiram múltiplas denúncias de ataques semelhantes - mas a polícia trabalhava com a hipótese de um assassino em série com compulsão sexual, ia eliminando as informações indesejáveis. 

Passaram a fazer reuniões todas as manhãs, cada dia surgiam mais e mais teorias, suspeitos, interrogatórios, arquivos. 

Um policial entrou na sala de reunião cortando a fala do inspetor-chefe:

- Mais dois casos, senhor! 

Logo, estavam surgindo dez casos por dia. 

Havia muito trabalho, mas caminhavam num pântano de discussões.   

O prefeito passou a fazer reuniões todas as manhãs, logo, o governador, logo, a presidenta. 

- É invisível? É um serial killer ou um fantasma? - ela dizia observando as centenas de pontos no mapa da cidade. 

Novas áreas foram redirecionadas para o trabalho noturno dos coveiros. 

Em um ano, mais de três mil pessoas estavam morrendo por dia. 

*

Afonso Jr Lima. 

terça-feira, abril 06, 2021

A queda do tirano

Meu amigo recebeu hoje seus implantes auriculares. 

O sinal é emitindo no tímpano e a orelha é envolvida para não haver perda.

O que faz com que a única comunicação seja através da voz interna.

Haviam proibido conjugar os verbos no passado. 

- Um cão da raça pura podia matar um cão da raça impura sem que o dono pudesse fazer nada. 

São pessoas que só conseguem trabalhar e relaxar. 

Tudo isso para receber programação exclusiva. E uma Tela Humana. 

Vou fazer pela terceira vez a prova de seleção para me tornar Humano. 

Meus livros sempre receberam críticas terríveis. 

- Um soldado para a raça pura podia enforcar um músico da raça impura sem que a Justiça pudesse fazer nada. 

O valor do que alguém faz depende de estar no Livro dos Humanos.

Trabalho e terror. Quase não humanos vistos com um livro são incinerados. 

O Sacerdote diz que, apesar do corpo padecer, o Espírito da Nação está sendo Libertado. 

Os subversivos perdem pontos e podem ficar sem trabalho. As pessoas são incentivadas a viver o agora.

- Um governador da raça pura podia jogar uma bomba sobre o bairro da raça impura e construir em cima a cidade pura. 

Queimamos o Livro dos Humanos.

A multidão saiu para a rua e derrubou o tirano. 

*

AJR

segunda-feira, abril 05, 2021

sábado, março 27, 2021

sexta-feira, março 26, 2021

Live: Machismo Estrutural


 

Três bombas

 A primeira bomba matou mais de 100 mil. 

Eles haviam criado um julgamento controlado, submetendo o líder do Movimento a tipos sutis de tortura. 

Os ossos radioativos foram enterrados numa vala comum sem direito a reconhecimento. 

 A segunda bomba matou pouco menos de 150 mil. 

Algo estava operando nas sombras. Ninguém sabia a origem das bombas. A eleição se aproximava. Usei meus poderes para evocar os espíritos que poderiam me dar Visão.

Era uma entidade poderosa a que controlava o processo. Usava uma horrenda máscara amarelada e um manto escuro. Eu vi como planejava espalhar uma infecção, a enfermidade ia deformando o corpo humano, era como um exército de porcos. 

Ninguém acreditava em minhas profecias. Eles elegeram o Rei Armado. Quem operava o país parecia ser a própria Morte. Resolvi sair da cidade. 

O terceiro impacto matou mais de 200 mil. 

*

Afonso Jr. 





domingo, março 21, 2021

terça-feira, março 16, 2021

Uma lua

Um exército e uma aurora caminham juntos. 

Os Cânticos 


- Se hoje fosse antes... - disse o juiz. 

O escrivão fez o que pode para me defender. 

- Vou contar uma parábola - disse o juiz. Era um planeta cuja atmosfera era verde e animais coloridos circulavam pela terra. 

- E? - eu perguntei. 

- Você nunca leu a Bíblia? - perguntou o juiz.

Eu tentava lembrar do que havia acontecido. Perguntei:

- O senhor sabe quem foi que me interrogou?

- O mesmo que interrogou o homem dos fornos.

- Os fornos que quebravam todo dia. Demorou a melhorar - disse o promotor. 

- Se pelo menos você pudesse ver o quadro maior - disse o juiz. 

- O homem que me interrogou sabia algo sobre meu passado? 

Parecia lembrar que eles me haviam levado até a máquina. O cheiro me fez desmaiar. 

O promotor olhou pela janela, como que pensando não ser fácil acusar o sistema.  

- Eu era um escritor! 

 - Culpado!

- Mas por quê? - perguntei.

- Hoje é quarta-feira. 

E já chegara o azul do crepúsculo.

O promotor me disse baixinho enquanto eu saía algemado:

- Logo vem a lua nova. 

*

Afonso Jr. Lima 


quarta-feira, fevereiro 24, 2021

O dia em que Branca de Neve saiu para caçar

É hora da história. 

A rainha não percebera que o espelho estava sem o pano negro. 

O reflexo saiu com a luz da lua. 

Branca de Neve senta na floresta e canta sua canção. Os animais a rodeiam. Percebem tarde demais que não podem se mover. 

Ela volta para casa mais corada. Naquele dia, decide que vai mudar: uma criança?

Por que os pequenos sugavam seu sangue?

Ela acabara por se acostumar. 

O monstro-rainha havia perseguido Branca na floresta. 

Ele sente o cheiro. 

Agora, Branca aproxima-se da pequena que acordou com seu canto do lado de fora da janela. O monstro-rainha aponta sua flecha. 

*

Afonso Jr. Lima 




segunda-feira, fevereiro 15, 2021

Filhos da noite - dramaturgia

Filhos da noite

dramaturgia - 2017

Sofia

Eu li aquele livro. As casas de madeira cheias de ratos e pulgas. As chamas se espalham. A peste toma conta da cidade. Os viciados são internados em hospitais macabros e submetidos a todas as humilhações.


domingo, fevereiro 07, 2021

Peça: VNCNT - 2012

Dramaturgia sobre Vincent van Gogh (1853 - 1890)

VNCNT 

sexta-feira, fevereiro 05, 2021

A bala e o pássaro

vozes na minha janela

desperto e sol e disputa

mas não é de verdade disputa

é alimento, divisão


algo distrai e chama

o barulho é grande demais

nem silêncio poético sobrou 

despertar com letra impura 

a consciência quebrada 


vozes na minha janela

um debate em torno do pão

queria contar de pico e pena

alimentando o irmão


falar de bala e de pele

de vermelho e sonho quebrado

de um país e seu medo

ao poeta é ofertado


assim me quebro e viajo

por homens, serpentes e pastos

crescendo no úmido verde 

falando por todos os seres


humanidade, suas metades 

e assim segue a esperança

quando morre outra criança

vozes na minha janela


Afonso Lima 

quinta-feira, fevereiro 04, 2021

Basta

O que saber desse mundo?

O que posso, o que junto?

Cada povo tem seu culto

Não sei ler, sou oculto

Uma rápida olhada já diz tudo

Passado presente e futuro 


Afonso Jr.


quinta-feira, janeiro 28, 2021

O monstro

A dona de loja no shopping estava atendendo uma senhora porque era horário de almoço da funcionária. Subitamente, parou e ficou imóvel. A cliente a chamou duas vezes, até que ela respondesse. 

O jovem olhava a paisagem diária pela janela do ônibus, o mesmo horizonte dia após dia para chegar no trabalho. Seu colega não o conseguiu acordar quando chegou o ponto e desceu. 

A senhora idosa parou no equipamento de ginástica e o instrutor não a pode mover. Era preciso sair. Os seguranças foram chamados. 

Na escola, ela era chamada de monstro. Seus pais foram chamados.

A dona de loja do shopping parou na pequena faixa de sol que caía do teto de vidro. Tirou os sapatos. 

O jovem deitou na grama do parque depois de sua namorada pedir dois sorvetes ao vendedor. Ele não respondeu mais. 

A senhora idosa ficou sentada ao lado da janela na churrascaria perto do pequeno jardim. Precisavam fechar o restaurante. 

Seus pais foram chamados. Disseram que ele se vestia como menina. 

- Sim, isso é o que ele quer. 

- Mas não podemos evitar que seja hostilizada - disse a diretora. 

A dona de loja do shopping passava o dia todo no jardim de sua casa em pé, sem sapatos, olhando para cima. 

O jovem deitava o dia todo na grama do parque ao lado da fonte de cerâmica árabe. Sua namorada não ligava mais. 

A senhora idosa deitada na cama recebendo a luz do sol. Já não comia. 

- São as árvores, disse a menina na escola. As árvores estão mandando um sonho acordado para transformar as pessoas em coisas verdes. 

Os meninos a cercaram com pedaços de pau. Quando a professorra chegou, já estava morta. 

Afonso Jr. Lima


quarta-feira, janeiro 27, 2021

O testamento de Zaborovna

A prostituta Zaborovna havia sido sacrificada na casa de carnes na terça-feira. Ela fora usada por um AN-sapiens para alimentar os novos répteis do Laboratório Beta. Ela vivera durante dois anos trabalhando para o exército no círculo Polar.

Sua irmã Zhueya vivia no planeta M2, casada com o comandante "Gigante" Gall, havia sido elevada à aristocracia quando casou, permitindo que sua pele fosse despigmentada. Ela retornava para uma cerimônia oficial, o recebimento dos dentes, sempre recolhidos pelos AN-sapiens. A escravidão sexual fazia parte da vida de muitas mulheres humanas. 

Zhueya pesquisava de forma secreta os "esquadrões do genocídio", quando os animais aperfeiçoados no laboratório começaram a pagar para exterminar humanos: de 7 bilhões, a população caiu a 1 bilhão em poucas décadas. 

Eles queriam as terras para seus próprios negócios. Os filhos produzidos nos bordéis do Exército serviam para alimentar famílias AN-sapiens na Califórnia. 

Ela entrou numa das ruas degradadas de livreiros humanos à busca de documentos. Na livraria do seu amigo Monkey, foi abordada por um sujeito sujo chamado Mick D. Seu último trabalho tinha sido violar sepulturas abandonadas em busca de tesouros. 

"Gigante" Gall veio buscar Zhueya, que parecia abatida na Estação do Norte. No bolso, ela levava uma carta do túmulo de um cientista escrita numa antiga grafia. Era possível acabar com os AN-sapiens. 

Afonso Jr Lima 





Live: Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto


 

domingo, janeiro 10, 2021

quinta-feira, dezembro 24, 2020

domingo, dezembro 20, 2020

Dramaturgia - Estado de emergência

Dramaturgia: Afonso Junior Ferreira de Lima e Sandra Vilchez

Carro.

Prólogo

Notícias do dia, coladas nas janelas. Do lado de dentro e do lado de fora.

- Deputada que falar contra o machismo vai ser morta! Anuncia partido do presidente.

- Último povo indígena exterminado com sucesso na floresta amazônica.

- Campo de trabalho forçado para professores foi inaugurado na última sexta-feira.

- Conselho de Direitos Humanos distribui uniformes azuis nas escolas prometendo que os

meninos nunca virarão meninas.

- Policiais recebem “licença para matar” todas as 24 cores de pele do Brasil, menos uma.


Cena 1

Mulher 2, de moleton e tênis, entra no carro. Olha as notícias coladas nas janelas.

Batidas na janela. Mulher 2 abre a porta. Entra Mulher 1, de salto alto, chapéu, frasqueira.


Mulher 1- Pára o carro!


Mulher 2- A gente nem saiu.


Mulher 1- Eu sei. Mas pára. Não to mais agüentando tudo isso.


Mulher 2- Isso o quê?


Mulher 1- Você. Sei lá. O trânsito.


Mulher 2- A gente não saiu.


Mulher 1- Por isso mesmo. É muito sufocante aqui dentro.


Mulher 2- Eu tenho pastilhas. As que refrescam.


Mulher 1- Eu não consigo respirar.




Mulher 2- Quando eu saio com o MEU carro, aquele incrível possante, eu me sinto muito bem.


Mulher 1- Eu não consigo respirar.


Mulher 2- Eu ligo o ar no talo. E o som. Liga o rádio no último volume.


Mulher 1 abaixa o som.


Mulher 2- Por que você abaixou o volume na melhor parte? Ela ia dizer que ama e que vai voltar.


Mulher 1- Eu não consigo respirar nesse trânsito com música.


Mulher 2- Nós estamos paradas.


Mulher 1- Mas há uma expectativa. Duas pessoas sentadas num carro. O arranque.


Tempo


Mulher 2- (Tira a chave da frasqueira) Então lá vai!


Mulher 1- Espera! Pra onde a gente vai?


Mulher 2- Dentro da frasqueira tem um envelope.


Mulher 1- Dentro do envelope há um endereço.


Mulher 2- Temos um alvo.


Mulher 1- E um GPS.


Mulher 1 abre o envelope.


Mulher 1- Por isso que eu não gosto de sair com você. Não tem nada escrito dentro do envelope.


Mulher 2- É feriado! Abre a frasqueira. Vasculha. Pega óculos escuros. Pronto. No feriado as pessoas se divertem. Vamos nos divertir! Liga o som.


Mulher 1- (Desliga) De que pessoas você está falando? Eu nunca me divirto em feriados. Fico entediada. Não tenho dinheiro. Eu quero sair daqui.


Mulher 2- Pois é. Todos querem sair deste lugar. Ainda mais agora.



Mulher 1- Agora o quê?


Mulher 2 – Nada. (Tira o moleton. Fica só de camiseta).


Mulher 1- Dá a partida! Você tem a chave.


Mulher 2- Eu?


Mulher 1- É. Você tem a chave o volante a embreagem o freio a buzina.


Mulher 2- Mas o carro é seu!


Mulher 1- Por favor! Eu não consigo.


As duas se olham. Mulher 2 não se mexe. Mulher 1 vai pra cima de Mulher 2. Embate. Elas trocam de lugar. As duas se olham.


Mulher 2- Se eu me sento aqui preciso do seu chapéu.


Mulher 1- Eu quero seus óculos de sol.



Cena 2


Mulher 1 com óculos de sol. Mulher 2 de chapéu. Mulher 2 tira da frasqueira folhas de papel com paisagens maravilhosas. Praia. Montanha. Deserto. Cola as paisagens nas janelas do carro.


Mulher 1- O que é que isso vai mudar?


Mulher 2- (Colando) A gente precisa se livrar do peso das notícias iniciais. Na vida real sempre existem janelas. E paisagens.


Mulher 1- Na vida real tem sempre uma janela aberta pra se jogar um pedaço de pão ou um abajur. Um cachorrinho ou carrinho de bebê.


Mulher 2- Ahn?


Silencio.


Mulher 2- Há um lugar! Aquele que todo mundo quer ir. Onde se contam carneiros

pulando acima de um arco-íris. Arranca!





Mulher 1- (Vendo o celular que tirou da frasqueira) Não posso. Acabei de ler mais uma. A bala atravessou a menina no trânsito. Ainda bem que não saímos daqui. Me parece mais seguro.


Mulher 2- Sim. Do lado de dentro.


Mulher 1- Ou do lado de fora? Ela estava do lado de dentro e...


Mulher 2- Me dá um medo de sair.


Mulher 1- Eles conseguiram. Me dá um medo de ficar.


Mulher 2- Dividiram a gente.


Mulher 1- Escolhem quem fica vivo e quem fica morto.


Mulher 2- Eu me recuso. Arranca!


Mulher 1- (Chave nas mãos) Você não ouve a imobilidade do ar. As folhas não dançam de um lado para o outro.


Mulher 2- Então?


Mulher 1- Eu vou! Tem um cigarro? Me dá mais coragem. Cinto de segurança, ok. Janelas fechadas, ok. Eu posso fumar?


Mulher 2- Se eles não se importarem?


As duas olham para o público no banco de trás.


Mulher 1- Ela, a menina de oito anos, do lado de dentro da Kombi, voltava pra casa com a sua mãe.


Mulher 2- Cheiro de fumaça no banco. Será que já somos o alvo?


Epílogo


Mulher 1 liga o carro. Tempo. O carro não sai.




Fim.




quinta-feira, dezembro 17, 2020

Live: William Blake e o gnosticismo


 

O Evangelho de Josefo

O livro do deserto dizia:

- O primo profeta do Rio, percebe a verdadeira natureza de Yeshua. Ele lhe protege com sua magia para que tenha uma nova chance. 

Angustiado, Yeshua parte pelo deserto. Ouve uma voz. Quer atirar-se do templo.

Ele começa a fazer perguntas. Juntam-se para ouvi-lo. Ele ensina a expulsar os demônios.

Condenado, Yeshua amaldiçoa o Céu, e é deixado para ser devorado pelas aves e feras.

Josefo sonha com um demônio, que o faz ir até o Palácio de Pilatos.

O Pai envia o Anjo da Presença, chamado Kristo, para conversar com Yeshua.

Eles viajam até o passado.

A Emanação viu que era Luz e queria ser o governante do mundo sombra.

O Pai o joga desde cima, e ele cai em um corpo de virgem. 

Yeshua recebe a tocha do Portador da Luz, que desaparece.

Josefo de Arimathea vigia o corpo na caverna, Kristo acorda, seu corpo brilha - Josefo engole a Tocha. 

Josefo é preso, tem visões, mas escreve suas memórias. 

Viaja ao Norte. 

*

Afonso Jr. Lima 

quarta-feira, dezembro 16, 2020

Traduzindo William Blake - A voz do antigo bardo

A voz do antigo bardo - de Songs of Experience - 1818


The Voice of the Ancient Bard

Youth of delight, come hither

And see the opening morn,

Image of truth new born.

Doubt is fled, & clouds of reason,

Dark disputes & artful teasing.

Folly is an endless maze,

Tangled roots perplex her ways.

How many have fallen there!

They stumble all night over bones of the dead,

And feel they know not what but care,

And wish to lead others, when they should be led.


*

Jovem em flor, vem cá

Veja a manhã que brilha 

Imagem da verdade agora-nascida


A dúvida fugiu, e as nuvens da razão,

Disputas sombrias e astuta provocação

A loucura, labirinto sem fim,

Raízes enredadas nos caminhos.

Quantos caíram nesse vão! 

Eles tropeçam a noite toda em ossos putrefatos

E sentem que nada sabem senão preocupação

E desejam liderar, quando deviam ser guiados. 


Versão: Afonso Jr. Lima 

sexta-feira, dezembro 11, 2020

quinta-feira, dezembro 10, 2020

quarta-feira, dezembro 09, 2020

Catalepsia

O primeiro golpe foi nos trabalhadores e minorias, tirando os representantes do povo com o voto da Assembleia dos oligarcas.

Segundo golpe foi na elite cosmopolita-banqueira para eleição do militarismo-religioso.

Assim, rapidamente, as mulheres foram subjugadas e estabeleceu-se uma sociedade de castas.

Ela, herdeira de uma família aristocrática, foi designada para acompanhar a expedição como cronista e tradutora.

O general era um homem atraente, melancólico, dado a explosões de fúria. Mas sabia agradar a seus homens. O que prometiam era acabar com a “cidade dos molestadores de crianças”, um reino do deserto.

Ela viu que alguém entrou em sua tenda na primeira noite no deserto. Sacou sua espada, mas foi dominada por dois outros homens.

O general a estuprou, deixando sobre a cama uma joia.

Ela tomou banho e não derramou nenhuma lágrima.

*

À medida que avançavam, ela ia se tornando mais e mais respeitada. Ela passara a buscar a companhia do general, o instruíra em saberes que só uma mulher rica podia chegar a conhecer.

- Não é, como em geral se traduz, apenas verdade. Catalepsia é a capacidade de unir o fantasma dos sentidos e o juízo correto, unindo os modelos prévios, a particularidade dos objetos e as regras lógicas de aceitação do real.

- Nós, homens da guerra, precisamos estimular aversão e evitar união, disse o general.

Por fim, chegaram próximos à cidade, os mensageiros enviaram uma flecha inteligente e deram dois dias para a cidade se render. Ajudava muito as imagens da destruição de Hubes. As mulheres foram vendidas como escravas, e os soldados que resistiram foram obrigados a mergulhar em água fervente.

Ela observava a cidade ao longe. Torres douradas. Parecia estranhamente calma. Era como se não houvesse mais ninguém.

- Onde estarão eles, ela perguntou a sua serva.

- Não sei senhora, mas podem estar em túneis subterrâneos.

- Que queres dizer?

- Sabemos que esse é o povo que tem o ouro, respondeu a mulher idosa.

- Eu nunca soube disso.

- Não são molestadores de crianças, disse a mulher. Quando eu era pequena, minha babá foi um deles. Foram os sacerdotes que criaram isso.

Ela não deixou transparecer sua emoção. Sabia que era um tipo de opinião que podia matar. Manteve o olhar firme e disse que precisava de um banho perfumado.

*

Ela deitou ao lado do general derramando seu perfume sobre a cama. Ela lhe fez uma massagem.

Fizeram amor, e ele dormiu. Luas finas iluminavam a madrugada.

Ela aqueceu o óleo quente.

Quando o homem gritou, ela enfiou um pano em sua boca.

Bolas de fogo começam a cair sobre o acampamento, gritos.
Ela saiu em meio ao tumulto com sua bagagem nas costas.

Afonso Junior Ferreira de Lima 

domingo, dezembro 06, 2020

A peste e as lentes

As setas de Apolo. Agora na mão do Pai de Cristo.

As pessoas abandonadas nas ruas.

Os religiosos no exército de vanguarda. As pulgas que habitam as ruas.

Eles estão na torre de sua casa.

O monge cientista e o médico. 

Famílias inteiras desaparecem nas cidades. 

O rei já solicitou aos professores da universidade uma explicação.

São os astros influindo na atmosfera, nada se pode fazer.

As lentes mostram que há germes. 

O monge cientista promete defender o amigo.

Um monge está inflamando a cidade com sermões sobre a penitência, sobre lembrar-se da morte e fugir do pecado.

A feira de domingo no cemitério traz os palhaços vestidos de Morte, bispos e reis com máscaras de caveira. 

- Compre tabaco! Uma boa nuvem ao seu redor pode afastar a praga!

O médico tenta convencer a multidão de que a doença veio em navios, de que é preciso fugir da gente, de que Galeno sabia menos que os modernos.

- Os astros que se cruzaram em 1345 não são a causa da pestilência no ar. Nem Deus quer nos punir.

As autoridades o levam até uma cela.

Ele desaparece sem deixar vestígios. 

O monge é punido com a transferência para as montanhas do Norte. 

Leva as lentes do amigo. 

Os aristocratas começam a culpar os judeus por envenenar a água.


Afonso Jr. Lima

Xenofobia en la calle Europa

Siempre me he enfrentado a los prejuicios contra los que tienen cabeza de escarabajo. Afortunadamente, la ley está de nuestro lado. Pero nadie puede evitar al dueño de una tienda de telas en una calle con casas antiguas del centro de Montevideo.

Mi solicitud fue extraña. Respondió algo más.

La anciana que apareció me gritó.

Intenté seguir mi compra. Dejé caer accidentalmente la tela del dispositivo colgante.

Gritando, el hombre se me acercó y me empujó. Olvidan que tenemos poderes psíquicos.

Salí de la tienda para evitar a la policía y llamé a mi amigo de cola oscura.

Se suponía que ese animal lo paralizaría durante días y bebería su sangre poco a poco hasta la muerte, a menos que el agujero que haría en su techo ayudara a que le cayera un poco de agua.

*

Afonso Jr. Lima



A xenofobia na rua Europa

Sempre enfrentei o preconceito das pessoas com os que têm cabeça de besouro. Por sorte, a lei está de nosso lado. Mas ninguém pode evitar um dono de loja de tecidos numa rua de casas antigas no centro de Montevidéu. 

Meu pedido era estranho. Ele respondeu outra coisa. 

A mulher idosa que apareceu gritou comigo. 

Tentei seguir minha compra. Sem querer, deixei cair o pano do mostrador no qual estava pendurado. 

Aos gritos, o homem veio para cima de mim e me empurrou. Eles esquecem que temos poderes psíquicos. 

Eu saí da loja para evitar a polícia, chamando meu amigo de cauda escura. 

Aquele animal iria paralisá-lo por dias e beber seu sangue aos poucos até a morte, a não ser que o furo que eu faria no seu teto ajudasse a cair um pouco de água. 

*

Afonso Jr. Lima



sábado, dezembro 05, 2020

Live: O Homem da Areia - de Ernst T. A. Hoffmann - 1817


 

Cartas de Teatro e Peste - SATYRIANAS 2020 - Episódio 1

Cartas de teatro e peste é um projeto lusófono transatlântico que junta dramaturgos vindos de Portugal, Brasil e Cabo Verde, em múltiplas histórias e palavras, para fazer e pensar o teatro em tempos de doença.

Dramaturgia/Vozes: Lisa Reis (Cabo Verde), Jorge Palinhos (Portugal), Armando Nascimento Rosa (Portugal) e Afonso Junior Ferreira de Lima (Brasil/Uruguai).

Direção: Mario Sergio Medeiros (Brasil).

Duração: 3 episódios de aproximadamente 7 min.
 


sexta-feira, dezembro 04, 2020

sábado, novembro 28, 2020

quinta-feira, novembro 26, 2020

quarta-feira, novembro 25, 2020

A sociedade sem reflexão

Goethe pensou numa literatura universal e escreveu seu "Divã ocidento-oriental". Uma coletânea do escritor persa Hafez, criada no século XIV, lhe trouxe essa ideia. Evitar o sentimento mecânico. 

Esse é o papel dos pensadores, colaborar com a necessidade de expansão do ser humano, enquanto os sistemas de dominação querem reprimir a percepção - visando exploração, expropriação e expulsão.

 A corporificação torna pouco criativo o sujeito portanto, pouco resistente. O não entender acaba criando a ab-reação violenta contra o estranho. Lembro de uma psicóloga dizendo nas redes que eu era "sonhador"; o mesmo que uma importante jornalista disse a um candidato progressita numa entrevista; a realidade seria apenas o valor naturalizado da elite branca. 

Isso chega ao ponto em que se quer policiais na política - sem pensar que a liberdade absoluta (o poder de matar e ameaçar) cria o crime. 

Como podemos ter tantas pessoas cumprindo tantas metas de produção - econômicas/acadêmicas - com tão pouca flexibilidade, tolerância e sabedoria? Nosso sistema produziu o tecnogênio - não só valorizou os saberes capazes de aumentar o capital imediatamente, como ocultou os saberes de convivência e do bem comum. 

E disse às Ciências Humanas que o mais importante é seu autor, seu artigo, sua tradução de um europeu. A mais perigosa ambição e reiteração é a intelectual. 

 A Academia é fundamental como centro de trocas e organização de disciplinas de estudo, justamente criando diálogos e quebrando o senso comum. O foco é o que permite a ampliação de um tema. Nenhuma vantagem se tem da ignorância, que apenas mantém preconceitos conservadores. 

Mas no modelo atual, a Academia também supervaloriza seu própio saber - a doença do quem sabe mais pode servir a uma guerra de status; sem uma reflexão constante, acaba-se reforçando a ideia de que aqueles que não detém esse saber oficializado seriam "inferiores", porque os mecanismos acadêmicos criam a sensação contínua de que "eu sei" e a legitimação de que "esse saber é válido", podendo enevoar o saber do outro. Você sabe, portanto você é importante. Como você é importante, você sabe...

Um especialista com completa alienação fora de sua área vale mais que uma pessoa capaz de compreender mil problemas do mundo ou criar relações com mil saberes simplesmente porque seu grupo fechado valoriza isso. Não estamos num momento em que o todo precisa ser entendido de forma urgente? 

A hiper-especialização também impossibilita a renovação das áreas - pois questões de outros lugares do saber trazem novas perspectivas. 

Também criamos com isso o endeuzamento "cortem-as-cabeças". 
Eu posso agredir porque importam meus problemas, e o sistema ao meu redor reforça meus valores (o livro europeu da moda é o centro do mundo, e quem não o leu está perdido). Erramos muito em não perceber outros problemas fora das nossas pesquisas. 

Apesar de núcleos que relacionam sociedade, psique e hábito coletivo, os psi brasileiros, em geral, acabam levados pela onda do conservadorismo e individualismo. Um exemplo contrário é como, no Uruguai, o estudante de Psicologia aprende sobre História da nação. É uma tentativa de fugir ao "positivismo darwinista". 

Claro que ajudou a deformação neoliberal da universidade - com corrida por pontos, cobrança por publicações e orçamento cada vez menor. Observo o mal tomar conta de acadêmicos iniciantes. Usando seu poder para dizer ao outro o quanto não é bom o suficiente - não é válido. 

Incorporando um sistema de dominação e aplicando aos outros. Não precisamos usar a Academia para criar uma nova elite produtora de desigualdades. Mas, se a universidade é tão atacada, é porque é uma barreira contra a dominação completa; a troca de experiências é fundamental para a inovação e a formação do ser coletivo. 

Precisamos da Academia para sermos mais - mais generosos, esforçados e inteligentes. E pensarmos em conjunto, lembando que o capitalismo é sem limites, e nós temos limites. 

Nosso sistema tornou invisível o que não gera lucro. Isso significa por exemplo, que inclusive a gestão pública obedece a ideia de ampliação contínua do lucro - o que levou à descoordenação do sistema de saúde privatizado na Itália contra o vírus mortal. A mídia no Brasil funciona também como uma ocultadora de problemas de gestão, e não como crítica das falhas. 

No Brasil, recentemente percebemos que o foco em saber técnico abstrato e o pouco saber sobre a sociedade a História levou à mecanização da personalidade que ajudou num linchamento político de massa e à negação da realidade, ao ódio à mudança, à colaboração na destruição do sistema político.

Como formamos essa massa educada e confortável capaz de votar tão mal? São questões complexas, mas vemos alguns pontos. A informação foi reduzida e manipulada em um nível extremo. Formamos castas e bolhas que nunca são questionadas em seus valores e crenças. 

A publicidade do modo de vida "eu" e a competição foram incentivadas - ao mesmo tempo focando em "crescer" e na "culpa individual" do que fracassa. Quando minha vida está em risco, não me preocupo com a vida do outro. 

Quando meu "lugar social" depende do meu corpo e do meu consumo, eu sou a beleza externa e a educação quantitativa que compra, o problema do outro perde importância. Assim surge uma parte da classe média que não quer mudar nada e acha incômodo e perigoso o movimento contra a desigualdade, não se importando se a Justiça criminaliza um inocente. 

E prejudica a economia queimando a Amazônia. Aos trabalhadores foi permitido ficar no conservadorismo mais brutal, para evitar contatos e rebeldias. Aos jovens é mostrado o quanto precisam de uma academia para o corpo perfeito e para serem técnicos perfeitos.

E tudo isso começa com a necessidade de expansão sendo abafada pela mecanização do pensar. 

Afonso Jr.

sábado, novembro 21, 2020

sexta-feira, novembro 13, 2020

quinta-feira, novembro 12, 2020

quarta-feira, outubro 28, 2020

O veneno

O governo tinha um programa especial de migração voluntária, no começo.

Seu pai era policial. Sua função era não deixar que as pessoas negras chegassem nas áreas brancas. 

Alguns animais apareciam caminhando à esmo, pássaros morriam batendo contra os vidros dos altos edifícios.

Não aconteceu no útero, seus neurônios não foram envenenados por sua mãe. Mas enzimas foram afetadas. 

Ela tinha seis anos quando comeu aquilo enquanto sua célula se dividia. 


Desde então, a menina começou perder a visão. 

Por fim, seus ossos se quebraram enquanto subia numa árvore, ela morreu em seguida. 

"Algumas pessoas estão com medo da própria sombra, estão pensando em queimar livros" - disse 

um artista.  


Sua mãe ouvira falar em espíritos que tomam cadáveres e os fazem caminhar. 

Buscou auxílio nas forças infernais.

A mulher atendia vários colegas do seu marido, políticos e homens de negócios, mas nunca haviam ido tão longe. 


Um espírito pediu que o pai trouxesse carne fresca para alimentar os seres sedentos. 

Ela retornou. 

A menina passou a viver no cemitério, onde a mãe ia todas as noites contar-lhe histórias. 

O espírito falou por sua boca e pediu que seu pai se tornasse político. 

- Vamos nos livrar das raças inferiores e cobrir de ouro nossos herdeiros. 

Precisavam de espaço. Animais. 

Eliminariam grande quantidade de pessoas. 

*

Afonso Juior Fereia de Lima

sábado, outubro 10, 2020

sexta-feira, outubro 09, 2020

sábado, outubro 03, 2020

pensar diferente

a humanidade não é só isso

confusão e 

viver no trilho

estende a mão

corre risco


não é só essa 

a humanidade quer mais

recusa a mentira

gente é conversa 


a humanidade será melhor

a dominação não permanece

a semente, pensar diferente

uma esperança nasce sempre 


Afonso Jr

sexta-feira, outubro 02, 2020

quinta-feira, outubro 01, 2020

Live: Epicuro / Epicteto

 


A família real

A menina não sabia que poderes eram aqueles. 

A família real do Brasil detêm os jornais e os sinais de satélite, censura as universidades e a internet. 

Ela foi eleita no mesmo ano que mataram o principal jornalista que denunciava o sistema paramilitar na política.

A menina descobriu um baú com fotos, mapas e manuscritos de sua família. 

O filho do presidente, pastor Américo, tornou-se presidente da Fundação Nacional para a Alegria.

Sua mãe desaparecera quando era tinha três anos. 

Primeiro, o jornalista havia perdido sua coluna no jornal, depois foi banido do Twitter, depois programas de TV e acadêmicos começaram a falar mal dele no jornal da noite. 

Os Meninos Brancos começaram uma série de explosões em jornais depois que o presidente lhes homenageou no Palácio Presidencial.

Juízes e jornalistas começam uma campanha contra os movimentos antiterroristas. 

A família real do Brasil é investigada pela sua ligação na morte do jornalista. 

A menina observava o mar à noite e treinava a capacidade de mover as bolas de fogo. 


Afonso Lima


domingo, setembro 27, 2020

Live: Judith Butler e a Teoria Queer

 


Dramaturgia - Coleção W Benjamin

 Coleção W Benjamin - 2013

(Baseado em relato de Hannah Arendt) 

O dizer e o ser na epistemologia grega - Mestrado em Filosofia (2002)

Afonso Junior Ferreira de Lima

Michel Foucault: A morte do sujeito e a arbitrariedade do saber como condição ética; 2002; 418 f; Dissertação (Mestrado em Filosofia) - Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior; Orientador: Pergentino Stefano Pivatto;

 O dizer e o ser na epistemologia grega 


Ciência, verdade, poder: um diálogo com Michael Foucault - Mestrado em Filosofia (2002)

 Afonso Junior Ferreira de Lima

Michel Foucault: A morte do sujeito e a arbitrariedade do saber como condição ética; 2002; 418 f; Dissertação (Mestrado em Filosofia) - Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior; Orientador: Pergentino Stefano Pivatto;

  

Volume 1 – Cap. 3

Ciência, verdade, poder: um diálogo com Michael Foucault 

Foucault contra o humanismo - Mestrado em Filosofia (2002)

 Afonso Junior Ferreira de Lima

Michel Foucault: A morte do sujeito e a arbitrariedade do saber como condição ética; 2002; 418 f; Dissertação (Mestrado em Filosofia) - Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior; Orientador: Pergentino Stefano Pivatto;

Foucault contra o humanismo - vol. 1 - Cap. 2 


quarta-feira, setembro 23, 2020

Palavra

A palavra mente

o discurso abuso 

vergonhosamente

a palavra gira

a hieraquia 


Em melhores dias

palavra linda

que carrega água 

ainda que espelho

do espelho, cantada

quanta coisa puxa

de ser gente e soltar a mente

combinar o real 

com ela desfaço (a machado)

me acho, louvada seja

porque entrega

palavra é carta 

não palavra é fatal

palavra amiga 

nunca uma só

meu cipó de ser junto

para ser singular e 

inegual 


Afonso Jr. 

terça-feira, setembro 22, 2020

O filho de Sei

Um quarto com paredes de papel pintado com pinheiros e flores vermelhas. O vento traz o perfume das cerejeias em flor, o som do rio correndo próximo. A luz da lua entra através das cortinas de tecido azul translúcido e ilumina as almofadas coloridas ao redor do leito de Sei. Ela está sentada no chão, escrevendo poemas na sua mesa baixa, ao lado da lamparina à óleo. Ouve os grilos da noite e isso lhe traz uma alegria sutil. Ouve um barulho como se alguém tivesse pisado no degrau da entrada, depois pensa ter se enganado. Sei sente seus longos e negros cabelos arrepiarem-se, mas decide controlar seu coração. Vemos a sombra de um ser que caminha com dificuldade, longos dedos de ossos que abrem a cortina azul. A cabeça alaranjada de um morto, a mandíbula e o alto do crânio de um laranja mais forte, como vários tons de carne podre, o branco dos olhos com nervuras vermelhas, órbitas negras. Um vapor fétido toma o lugar do aroma das cerejeiras.

O filho do demônio é um senhor cruel. 
Os demônios estão com ele nas batalhas. 

Afonso Lima 


domingo, setembro 20, 2020

O despertar

O quarto meu. A casa com a qual viajo pelo universo. 

Ninguém sabia que - quando o Senhor falou as palavras que despertaram o pobre Lázaro - João as havia anotado. 

E João as escondeu da melhor forma possível, dentro de um pergaminho. 

E eu descobri a verdade. Eu criei meu grupo de Amazonas. 

E, agora que meu quarto está em chamas, eu consegui usar o que sei. 

Elas recitam os versos sagrados. 

As ruínas dos templos queimam ao lado dos ossos dos animais. 

As covas se movem, tantos buracos com cruzes agora vivos. 

E eles saíram na noite maldita para visitar seus queridos. Eles entraram nas casas e comeram o que havia na geladeia.

Eles comeram os gatos e os cachorros. 

Eles seguiram até encontrar os pastores com as Bíblias abertas, os vereadores nos prostíbulos. 

Eles acenderam o fogo com os corações ainda frescos. 

Quero um futuro para minha casa. O próprio inferno abriu sua boca, porque os demônios gostam da luta, e não do silêncio. 

Eu despertei 140 mil que dormiam, eles ouviram os gritos das Amazonas que voavam sobre a fumaça. 

Agora, elas avançam para o Palácio com as vísceras na ponta das lanças. 

*

Afonso Lima


sábado, setembro 19, 2020

sexta-feira, setembro 04, 2020

quinta-feira, setembro 03, 2020

terça-feira, agosto 25, 2020

O rosto sujo

O livro, resultado da conferência de antropólogos, acaba de ser publicado.
São manuscritos de várias épocas, analisados em artigos fantásticos.

*

O robô bateu na porta. Ela abriu.
- Daqui a dois dias, a senhora vai querer comprar esse produto - ele disse.
Se quiser devolver, entre em contato.

*

A primeira-dama matou a jovem com extrema perícia. Os tambores abafavam o ritual.
O presidente colocou sobre o altar um ramo de flores e sorriu para a foto.
Serviam os pedaços ensanguentados em vasos decorados como nos tempos antigos.
Era um pouco constrangedor, sempre, e a primeira dama tentava sujar o queixo o mínimo possível.

*

O agressor com seu chapéu para proteger a pele muito branca. O filho do presidente, deputado,  entrega a lista de inimigos do estado. O diplomata toma sua caipirinha.
- É um pouco deprimente as raças inferiores espionarem a si mesmas - diz.

*
Como bom religioso, ele lavou suas mãos, fez o sinal e fez suas orações. Aparece no vídeo.
Começou com jornalistas perseguindo o grupo político que contrariava seus financiadores. Os próprios foram perseguidos por uma máquina policial e de propaganda. "O debate racional foi perdido, é preciso desviar a atenção", era a frase que vazou da reunião presidencial.


*
As máquinas permitiam que as pessoas vivessem para sempre. Mas elas iam se tornando cada dia mais desidratadas, penduradas em seus casulos. O programa recebeu o apelido de "vidas secas" pela internet. Logo, todos os alvos preferenciais recebiam milhões de mensagens sobre a "beleza das vidas secas imortais".

*
Ela abria a Bíblia. Sobre ela, seus filho adotivo derramava o líquido. Sua ex-namorada, agora irmã, bebia o sangue. Foram elas que criaram os ritos da nova dinastia.

*
Serviam os pedaços ensanguentados na festa de aniversário.
O presidente queria exterminar o maior número de cidadãos possível.
República exportadora. Sacos pretos, em todas as cidades, carregados nas celebrações de domingo.
A primeira dama seguia sua conselheira bíblica, devia descobrir sua paixão mais profunda; talvez fosse a carne feminina, tentava sujar o mínimo possível.

Afonso Jr. Lima 

domingo, agosto 23, 2020

quinta-feira, agosto 20, 2020

geografia da cidade

nada existe do que não persiste
a luz também é acalentada
mortais e imortais devem amar-se
a casa escura deixa o pó nascer
e enlouquece, filho trágico da
doença e ruína
capricho e maldade
todos os tipos de bichos

nada fica do que não reafirma
a canção também é união
as graças perfumam a deusa
as horas lhe cobrem de ouro
a paixão pelo dia bom
a democracia nasce de cada dia

nada existe do que não respira
a luz também é revisão
seguir no mar das paixões
o desejo e a luta pintados em moldura
as origens são a guerra evitada
o poder vigia o poder
a cidade nasce do amor

a narração é sempre uma luta
os ventos novos
a bela música
nada fica do que não pacifica
a força também é carnaval
a palavra mágica
faz a igualdade

AJr

segunda-feira, agosto 17, 2020

el fuego

Fue una nube que cayó sobre Montevideo
Los huesos se vuelven grises
Una niebla se elevó por las calles
Los edificios observan, se han vuelto más de piedra
Él desapareció, ella desapareció
La tierra esta mas fria

Nos callamos
nos escondemos y no soñamos
la gente piensa que es pequeña
no hablamos de eso

Se equivocan
- descubre en ti mismo
otro ser no deseado -

el fuego
mis líneas de silêncio
cativo na dura piel
musica memoria

los primeros señores del río
mi canción de honor
apesar blanca flor
el verbo libera

Afonso Jr Ferreira de Lima

Soul

não sou um robô
minha mãe suou
no parto

não sou um robô
preciso de frutas

não sou um robô
aprendo as letras

desmonto as letras
não sou um só

sou de quebrar
adoro suspense

sou de ser tudo que der
sou de poder mais que imaginas

não sou um robô
beijo a sereia
coisa de rolar na areia
roubar certezas

sou potente
vivo de sonho

não é só luar
preciso casa pra morar

não sou um robô
minha unha cresce
na lua cheia

não sou um robô
meu coração se parte

não sou um desses
como arte
sou de amar coisas malucas

sou uma serpente
o que não se repete
sou gérmen de gente

não sou um robô
eu trituro fronteiras
não sou um robô
sei quem não sou

preciso abraço que me alimente


Afonso Jr Ferreira de Lima


paródia

a língua subverte
cortem a língua
enquanto conto
me torno outro
enquanto passo
jogo o todo
recorto as coisas
revivo os ossos

a língua absorve
cortem a língua
movo os ossos
enquanto conto
balanço as coisas
a língua é outro
música do todo
enquanto passo

a língua come
cortem a poesia
cadáveres em passos
cavaleiros de ossos
romances todos
na nudez do conto
vira outro
monto as coisas

existem as coisas
no passo do verso
mundo outro
de ossos leves
conto na música
todo o outro
a língua floresce
vivam a língua

Afonso Jr Lima

quinta-feira, agosto 06, 2020

corpos sem nome

liberdade liberdade esse poema é para ser poemático nada faz sentido e nem deixa de dançar o amor do significado pela música e o desimportante observa o desimportante minha janela quem criou esse mundo? nós que não servimos humanidades livres descalculadas névoa de cores traduzindo o buraco liberdade liberdade *** Afonso Jr