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domingo, abril 19, 2015

Casas

São dois tipos de casa. Não é que não doa o coração. Mas tudo bem, tudo tem - um dia, eles serão alguém.
Vê-los comer com a mão.  É assim, ai de mim, se sente - por esses que dormem no colchão.
Se o pássaro não tem ninho. Se a mão do destino - mata na cidade grande. Eu sigo adiante, casa é onde se sente.
Desde sempre, em todo mundo, tudo bem. Não é que não doa o coração, eles não são propriamente, esses que moram no colchão, gente.

Afonso Lima

sábado, abril 04, 2015

Entrevista - trecho do livro "Canções para Dias Difíceis"


- Tudo bem?
- Boa pergunta.
- (rindo) Um estilo punk?
- Punk zen. (risos)
- Vamos começar pelos seus livros queridos.
- Sim. Um deles tinha capa verde, lembro bem, enorme, capa dura.
- Verde como?
- Acho que as coisas mais importantes a dizer sobre os velhos livros... É sobre o prazer intenso, sobre a transformação que provocam. Em certo momento, talvez os escritores perceberam que tudo era unificador, universalizante, eram os sistemas científicos positivistas, o poder absoluto dos reis e depois das corporações, etc. Proust para mim pode ser o surgimento do particular, e, ao mesmo tempo, do fluxo. Esse projeto moderno imagina também o que agora o por que agora: o que pode ser literatura quando tudo tem uma utilidade, quando a linguagem se empobreceu e estagnou... Os Shakespeare, velhos, vermelhos, me mostraram a deliciosa terra da imaginação. Os russos, amarronzados, lembrando uma tradição secular, mostravam um mundo injusto, um sentido ético, uma consciência sobre os sentimentos e hábitos, que é o que nos falta. Só Clarice era luz pura, puro enraizar-se, pura terra úmida, delicada retirada da pele, novinha em folha. Woolf... não lembro. Talvez porque eu seja Woolf.
- Algumas pessoas acham pedante falar desses livros hoje.
- É porque nossa elite se fechou sobre si mesma. O projeto de que nada será de graça, de que vencem as raças superiores, de que aqueles que não tem transporte, nem saúde, nem habitação, merecem isso porque seu trabalho não têm mesmo valor... esse projeto é contrário ao literário, para quem a moça nordestina com olhar perdido, uma flor, uma rua, tudo é parte de uma sinfonia brilhante e fala. Para excluir constantemente os "diferentes" precisamos de uma polícia forte e de pessoas sem identidade, sem reflexão.
– Na adolescência, a biblioteca de sua casa tinha o quê?
- Eu não li muito. Minha mãe trabalhou como funcionária pública, bem na era em que tudo que é público é visto como "obstáculo à competição". O que é competitivo é sempre estrangeiro e não importa se as pessoas ficarão sem emprego, como no Iraque. Mas, retomando... Havia 100 mil livros na biblioteca do banco federal. Depois, para evitar gastos, foi fechada. Adorava caminhar pelos livros e a madeira antiga. Eu, no fundo, era um adolescente solitário, sem muitos amigos de verdade, só que tive oportunidade de mergulhar em oceanos anteriores à tudo, conversar com esses fantasmas sinceros.
- Ainda hoje?
- Você sabe como é São Paulo. É preciso dizer não. De repente você está numa multidão, cercado de prédios decadentes, ou caminhar até o centro num domingo parece passar por um campo de refugiados. Minha imagem de mim mesmo é caminhando, cruzando a cidade, um parque, um campo. E, lutar muito para criar o mapa, com o recolhimento.
- Mas quais...
– Acho que disse isso em outro lugar. Grandes, clássicos, fortes. Se ficamos apenas no jogo exterior, no corpo, nas ações de comer e pegar comida, algo se desfaz. Por que será que, de tempos em tempos, os gregos tinham que por uma máscara, sair das regras sociais, falar com a voz dos outros, acreditar que eram transpassados por vozes e energias do cosmos? A transformação revitaliza a sociedade. Muda as formas de pensar. O mais importante foi a imensa luz na torre, Sodoma, Ana Karenina, o crime da machadinha... Não muito mais. Pelo menos nesse intervalo entre ser reprovado no vestibular e tentar de novo. Mas voltando ao início... Lembro que eu tinha quatorze, estava num hotel perto de uma famosa cascata em Gramado com minha avó. Eu estava lendo a República, minha avó achava que eu era estranho.
- A avó que você diz "aristocrática", fazendeira?
- Digamos que sim. Para mim, era o lar, o cheiro de bolo (era doceira), tinha medo. Herdeira. Da alma melancólica e pesada, digna, altiva. Quando, adolescente, fui para Berlim... Berlim nessa época ainda não era vista como um centro internacional de cultura ou cidade verde, eu, pelo menos tinha a sensação de uma cidade em reflexão, tentando entender o que significava a queda do muro, mesmo um tempo depois. Descobri minha avó um pouco por lá. Estava no Aquarium e encontrei uma senhora parecida com ela. O mesmo coração. Era uma serenidade, uma máscara, mas perfeitamente funcional no mundo. Ouvi na igreja Kaiser-Wilhelm um Monteverdi e lembrei dela também. Eu sou muito mais esparramado, desatento, preguiçoso, mesmo ler precisa do dia certo, em que o sangue dorme, sou pedra e lama; sua ordem e disciplina, luz e força, carinho frio, um oposto complementar. Ela entrou em depressão quando minha tia – uma amidade de quarenta anos – quando ela morreu, anos depois. Sentada em um banco comigo aguardando o corpo, pela primeira vez deixou rachar a superfície: merda de vida, disse. São as pessoas que me conheceram de verdade.
- Pesado, heim?
- É a vida e tudo que fazemos dela. "Ela virou escrita", como disse alguém.
- E no entanto, você sempre reagiu a...
- Gosto da visão grega antiga, onde tudo era mudança. A identidade era importante no século XVIII para fugir da soberania do rei; para que serve uma identidade hoje?
- E o teatro...
- Isso é o que Shakespeare pode fazer a uma pessoa. Quando você lê um texto, não vai julgar como julga no mundo real: não podemos aceitar tudo, mas no texto, sim, e os personagens mais demoníacos são aqueles de quem mais gostamos. Escrevo teatro desde os quinze anos, talvez não seja bom, mas escrevo. Quando cheguei em São Paulo... pareceu-me que tudo é muito realista. Realismo quebrado, mas realista. Eu fui indo para coisas narrativas em 2007, depois estados da mente, foi natural, coisas que eu li, mapas da mente. As pessoas diziam... nada agradava ...que não tinha conflito, não entendiam o lugar, o enredo. Não gostavam, pensava, será que eu perdi a relevância, a varinha de condão? Terrível. Mas depois, percebi que nada tinha a ver comigo.
- Essa é uma autoficção autobiográfica?
- Sim, mas verdadeira.
- Eu li uma crônica sua na qual contava sobre um mago que conheceu na Inglaterra...
- É verdade. Nos conhecemos um uma festa. Ele usava dreads vermelhos, mas já tinha seus 50 anos. Uma capa de couro preto. Ele mal me viu e falou que eu deveria ser astrólogo, dançarino, pintor ou colecionador de antiguidades. Eu poderia mesmo ser qualquer dessas coisas. Como eu conto no texto, atravessamos a cidade em meio a fog, ele falando das mulheres que conquistou e conquistando algumas. Era culto e herdeiro de uma indústria. Ele disse: "Você tem o pensamento cósmico. Parece ter viajado o mundo". Fiquei com isso na cabeça. Nunca tive propriamente a sensação de saber perfeitamente para onde estava indo.
- Seu trabalho já foi dito experimental e, paradoxalmente, classicista e parnasiano. Como vê isso?
- Eu andei namorando Borges, mas estaos na era do clichê, "o que ninguém é é obrigado". Não tenho, nem deveria ter opinião à respeito. Muito ocorreu no século XX, um arcaico que era o contemporâneo. Dizem também que quando Leminski mostrou pela primeira vez seu livro Catatau para os amigos eles disseram: você é um bandido que sabe latim. Eu não sei, mas acho a frase ótima. Veja, se você não tem dinheiro de berço, acaba sendo um observador, luta por palavras estranhas, imcômodos, e tem que achar seu jeito de ser, para não ser levado pelas modas. É o mundo do estado de emergência, calamidade pública, como se disse. É a tensão brasileira em ser totalmente marginal e rebelde e lutar por uma herança que é e não é nossa.
- Vamos falar do conto "Parmênides", onde você fala de psicologia arquetípica.
- Brinco, melhor dizer que eu brinco com. Da modernidade, herdamos uma proposta estética que é "criar as regras pelas quais se cria", ou seja, toda proposta é uma proposta de possiilidade da linguagem, juntar de forma nova as velhas palavras revelando o olho que olha. A teoria de Hillman é provavelmente fantástica e séria, mas pra mim sempre teve um sentido de materializar e racionalizar o movimento junguiano de questionar o positivismo. Não sei se Jung estava certo, mas tem coisas incríveis no fato de você arriscar um salto na metafísica. O que será a realidade? É preciso continuar buscando.
– Por que escrever? Por que a arte?
– Será que é porque é a única coisa que não tem definição? A humanidade está morrendo por falta de aparelho de pensar, de papa para pensar, de pensamentos de igualdade, e por causa de mecanismos econômicos que podem mesmo acabar com a natureza. Sabe, talvez o mergulho numa outra consciência ajude na tolerância para diálogo: a incapacidade de entender outra lógica, a autocomplacência com nossa suposta superioridade, nosso discurso organizador, pode levar ajudar até no que pode ser a lei maior do capitalismo doente, o darwinismo social, a competição histérica e a exclusão do "fraco": a guerra para abrir mercados pode vir de um sentimento: Eles eram uma raça inferior, Eles não entendem a democracia, Eles gostam de empresas públicas ineficientes e corruptas, Eles tinham medo que suas empresas fracassassem diante da competição estrangeira, Vencem os melhores é uma lei biológica.
- Mas isso não seria do campo da filosofia? Você já foi acusado de ser filosófico demais.
- A escrita nada tem de pessoal. Ele, esse sujeito autor, pode ler sobre filosofia do Renascimento e depois passar meses sem vontade de nada, ou lendo romances policiais e vendo filmes. Por isso o trabalho da criação não deve ser visto do ponto de vista comercial, como tudo hoje em dia. A vida de um artista não segue aquela linha comum, um crescendo em direção à carros, viagens e casa, mas pode parecer ociosa até que um texto resume e significa tudo. Não é comum, mas devia ser, talvez, fazer a biografia dos livros lidos, onde se viveu de verdade. Vivemos uma época de empobrecimento extremo do pensar, a ponto de ter de reensinar a ler, pensar freia, e pegamos a primeira coisa que propõe uma lógica, aceitamos os fundamentalismos midiáticos e religiosos sem confronto. Chego a pensar que deveríamos afastar com rigor tudo que nos afasta de uma construção subjetiva - porque é a única riqueza perene, a raiz profunda.
(...)

Afonso Jr. Ferreira de Lima



segunda-feira, março 16, 2015

folhas

somos civilizados não falamos uns com os outros escondemos cipreste e cimento em meio à chuva forte mulher com guarda chuva pega táxi por que tantas palavras a palmeira esfumaçada de água cortada pelo lado a lado do vidro algo de branco nos pingos grossos casados no escuro da avenida um pouco de Cairo e roxo e Kobra o que temos dentro é como se o animal voltasse e surgisse nas copas verdes das árvores o verão e braços longos brotando do chão atrás da janela uma luz lilás dia renovado mulher levanta a saia e as rosas água enche a calçada tudo é passado. 

Afonso Lima

Sol da manhã (verso ao vivo)

Eu mudo de opinião
é primavera
que eu tenha sempre coragem
de não saber
(o contrário do pensamento
é a certeza)
que eu não seja contra
o que é acaso
(porque tudo é inesperado)
que eu pegue em minhas mãos
o objeto
que eu não diga o certo
e o errado
(pisando com cuidado)
todo mundo faz parte do jogo
e como jogar
que eu não seja para ser visto
aceite o limite
(caminho de pedra e mata
a vida)
que eu plante devaneio
no mundo controlado

Afonso Lima

domingo, março 15, 2015

"Senhorita Cristine", de Katie Mitchell

Logo na primeira cena, uma mão toca um jardim de flores em um telão, que sobe e fica acima do cenário, uma casa do século XIX: à direita a mesa onde (vamos entendendo que) se produz o som; a esquerda uma mesa onde (vamos entendendo que) se produz também algo: imagens. O duplo jogo de ver o produto e ver a produção faz seu olhar correr de um lado para outro, o que seria, talvez, uma boa definição de teatro. As imagens são de uma beleza técnica perfeita: um especial da BBC.

Mas minha sensação é de que se perdeu algo de Jean e Julia. Aos poucos lembro que é a "visão de Cristine", a noiva dele. Na cozinha, você vê a luz da manhã, o vidro, a chaleira, tudo a ver com a tradição de sensações e natureza dos britânicos (trabalho anterior: "As Ondas", de Woolf). Cristine produz um ambiente nos gestos de cortar, lavar, limpar, preparar, e você pensa no que seria o cotidiano de um criado, a repetição. Apesar do texto interessante e das imagens poéticas, eu me distraio. Falta aqui o que faz o público "pensar junto", "humm acho que esses dois..." Porque tudo começa como se o absurdo de se passar por cima da classe, um rompimento, não fosse acontecer. No fim é isso, eu sei.

Logo na primeira aparição, Julia é só uma menina fogosa. Já sei o que vai acontecer, perde-se o ar de mistério da peça: Júlia tem um desejo, é reprimida, seguem as convenções, não consegue se segurar, vai sofrer porque assim o mundo quer. E Jean (que fala pouco e cuja cena mais forte é fazendo a barba) é interessante, mas não é o Jean que eu conheço, infantil, sensível, leviano, sem escrúpulos, que fala pela primeira vez talvez como é ser um pobre desgraçado, mas cada vez mais só um homem grosseiro. A própria Cristine, poderia ser mais que uma moça ciumenta: e se as criadas fossem menos presas a convenções sociais ("Você ficou brava comigo"?/"Por uma coisa tão sem importância... Conheço meu lugar"), e se ela se solidarizasse com a outra que, escrava como ela, se destruiu sendo livre? Strindberg, não por acaso, disse que Julia tinha 25 anos e Cristine 35. Como eu já sei onde vai dar, mesmo as belas cenas do quarto de Cristine não me tocam tanto, mas devo dizer que a produção de um sonho, com diversos planos de processo e a imagem surreal que envolve água e fogo, rostos que se misturam e pés no jardim são de uma delicadeza incrível. É a mais bela cena da peça. A montagem, a precisão, o rigor nos fascinam.

É como se o realismo do teatro britânico encontrasse seu lugar natural e extremo (apesar de que um vídeo no Youtube dá a entender que o processo da diretora começa com bastante fisicalidade do ator em workshops, onde propõe bastante). Em palestra na tarde de ontem, Dmitry Krymov, diretor de Opus n.7, falou de seu processo que se contrapõe à tradição russa de trabalho com o texto: quer manter o interesse, não se importa que não seja tudo entendido, quer que a imaginação percorra um caminho para que "uma coisa fale de outra coisa", para que os objetos falem. Talvez seja um pouco isso, mas a imagem como metáfora parece me tocar mais.

Katie Mitchell por fim me capta novamente pela forma mesma do ato: a traição. Cristine ouve a discussão na cozinha, olha atrás da porta, Julia tem uma a mala, Jean está furioso e ela prepara sua navalha para... fazer a barba. Ele a afasta para a missa, quando ela retorna, enxerga sangue. É um final bem impactante.

A discussão na saída girava em torno da questão: "vale a pena ver um filme no palco"? Em "Ozzz", do grupo português que ocupa o Sesc Belenzinho, eu assisti praticamente um filme, gostei muito, não é o caso. Eu sei que refazer um clássico requer que se pense sobre ele, que se tenha um ponto-de-vista que responda à questão: "por que mais um..." A diretora diz num vídeo estar cansada de tantas palavras. Todos nós estamos, mas é preciso lembrar que o que é dito deveria esconder o que não é dito. Não dá tempo para amar Julia, mesmo que ela se mostre boba e sonhadora no final.

Katie Mitchell nos oferece um banquete para os olhos, é contemporânea na sua forma de expor o processo, entendo e me envolvo com Cristine, mas eu gosto muito mais de Jean e Julia e da forma como vão devagar e rápido. Por outro lado, o produto me comove, com sua luz suave atrás das janelas. No fim, a peça deveria ser "Senhorita Cristine" - Strindberg é um pretexto, o que é uma pena por que é complexo. Um casal ao meu lado diz, antes da peça: "Parece que é a história de uma moça rica que se apaixona pelo jardineiro". E, apesar da poesia, é.

Afonso Lima

sexta-feira, março 13, 2015

Terra de ninguém

quem são vocês?
viajo pelo nunca antes
numa cidade feia
quero passar

círculo cinza e reta
não circulo
o imigrante o muro
dentro do carro a chuva
aqui eu não posso ir
melodrama

A idosa ganhando
o pão no Parque da Luz
o pé sujo sentado na escada
os brotos de feijão brotam
de uma artista de algodão

O policial: no meu batalhão
mulher mata mulher
homem mata homem
(será piada?)
o menino na casa furada
cinco no ninho miserável
o pensador habituado
olha através do vidro

não circulo
a chuva esse Brasil
seco e frio duro
toda a dor do condenado
preso à ferros no chão gelado
e eu já sou grande o bastante
para o melodrama

não há movimento
bebendo champanhe o pensador
(refugiado)
engorda dentro do carro
aqui eu não posso ir
cria o melodrama
(devolvam-me os sentidos
uma mulher abre o algodão)

Afonso Lima

quinta-feira, março 12, 2015

Ficção científica

(Para Samir Yazbek)

O horizonte anuncia
tempos fora do tempo
já as flores lilases se escondem
a velha luta enfermidade
vivê-la ainda uma vez
o Menino sobre Hiroshima

"Ninguém nasce anormal"
Abutres na carne mordem
cálculo que não se olha
minha pena com tinta
quente da América

A menina que só faz no mato
não sabe que aqui os melhores não vencem
vencem os endinheirados
o menino com fome
espera pela aula
leva tempo
para se fabricar um bandido

O índio entrega sua orelha
para quem ganha por orelha
o efeito primogênito
o diabo temia (na sua filosofia)
pela civilização (ou não)
os fortes aprisionados
o sangue misturado

O fígado na cama
as máquinas obscuras
no beco dos condenados
medo do fraco
os ratos devorados

o filho, o pai, a mulher
desapareceram na cidade
América de garras compridas
multidões assustadas
limpar a neve da peste
civilização do diabo

Uma estrela coberta
desfocada uma nuvem rosada
luzes distantes meio céu de
chumbo
apesar de tudo um réptil
escuro e pequeno corre por aqui

O pampa de silêncio morto
Ninguém animal ruim
minha pena com tinta
quente da América

Afonso Lima

terça-feira, março 10, 2015

Santuário agreste

O sinhô caiu de amores
pela mulata
mas ela continuava na senzala
a carne é fraca
no chicote

árvore seca baleia encalhada
yakuza acusa canudos
o intelectual armado
de visões do passado
o empresário com a faca nos dentes
querendo ser presidente
o empreendedor do pó
o dogma da TV
só inglês vê

quem tem medo do brasil?
o que é essa nação?
cidadão mal e mal
separado dos irmãos
na jangada na tempestade
brotando do Sardinha
gaiolas herdadas

descobrir África
desenterrar os ancestrais
não branco sim,
negro não

A república comeu a princesinha
(depressiva com a barriguinha)
O jardim dos amores-perfeitos
morreu no veneno verde
mallarmé sentiu a maré?

rubro ouro negro
empurrado pro cimento
biscoito: saia de casa
veja como está o tempo
entre em casa
como está o outro?

afundado na verdade
grande a casa grande
o aplauso do golpe
rezando contra o novo
quem não tem medo do brasil
deve estar equivocado

Afonso Lima

segunda-feira, março 09, 2015

Acacaso

não não é verão
cinza sem nevoeiro
artista carniceiro
agitar o coração

pós-concretista
pelas árvores desarvoradas
herança do mal
catedral de ossos
palmeiras explodidas

não não é verão
cinza como um dia
rei devorador
tupi sem alaúde

devido ao sucesso
conspiração rearmada
belle époque 300 chineses
em quartos sujos
grita - foi morto?
trabalhador? pai de família?
vagabundo um a menos - a moça bonita
morador de rua assiste lanche
na calçada

o progresso devora
a avó pé no chão na caliça
lê pouco a empregada
cidade sitiada
a filha sem professor
sem rima possível
escola ruína
bala perdida?
era uma vez é ainda
é a noite que nos iguala

à beira do abismo
tocam por nós os sinos
os que se foram
caminham pelo mundo
o retorno - o nome,
o crime, o sonho
o mesmo
ódio guardado

como nossos pais
tem muito medo
em pedaços
velho rico
novo rico
medo do sem livro
demolição inacabada

não não é verão
cada novo olhar
possa recriar
folhas verdes
nação


Afonso Lima

domingo, março 08, 2015

A conspiração realista

Ser e não ser. Onde tudo funciona. Como a cidade era difícil, qualquer complexidade extra era mal vista. Era preciso saber onde, quando, como. O rio sempre sujo. Haviam os realistas complexos, os realistas políticos, os realistas televisivos. A conspiração realista sequestrava e prendia sujeitos esquisitos. Por reação, surgiram os esquizo-antirrealistas, uma seita capaz de não dizer nada. (Seus inimigos, claro, achavam antirrealistas lógicas novas, unidades A e não-A e objetos sem fronteira).

A cidade era marcada por guetos antigos, máfias locais, o poder envelhecera em famílias nobres que se alternavam no governo do castelo. Os revolucionários tinham sua própria cidade-fortaleza, pobre, e suas ideias podiam pairar contra (valor de uso) ou à favor sem pisar no chão, sem atingir a máquina. O rio sempre o mesmo. Ser e não ser. Onde tudo é elegante.

O rio sempre parado. Os realistas limitaram o novo dentro do círculo, não se viam como realistas, mas pensavam que não semelhantes eram ignorantes. Os realistas debochavam da burguesia, eram o senso comum sempre crítico. Os inquietos que não vinham nem do alto clero, nem do campesinato, da contagem do ouro ou da bibliografia oficial, eram um insulto, um erro, uma dúvida. Os realistas tinham gênio forte, estouravam fácil, denunciavam, ironizavam a falha, o desconhecido, a ironia. Ser e não ser. Onde tudo tem norma. Ratos, pólvora, astrologia inserida sem green card. Porque o realismo era também um conjunto de doutrinas. Eles temem o fracasso, o risco, a frustração lhes dá pânico, eles não têm paciência para entender como se ligam os pontos de cada cérebro, eles não gostam de ficar sozinhos, precisam fugir de si mesmos. Os realistas acham que o mundo tem resposta, usam gel para um cabelo rebelde na TV, eles acreditam que falta de ponto no texto é vaidade, vestem coleções ousadas do passado, eles correm sem sair do lugar com garrafas de água mineral. Os realistas não se importam com a violência, a injustiça, o desencontro da alma, o mundo real.

Existe um surto realista. Os intelectuais realistas, nutridos de inovações, contradições e faro fino, diziam que não se podia perder tempo, que não se podia fugir da sua função, que exigir demais era imoral. Os realistas achavam que os degraus de uma busca eram dispensáveis. Os realistas se consideravam além da vanguarda, cheia de dúvidas. Mas o segredo, o silêncio, aquilo que pode e não pode dizer alguém, isso lhes fugia completamente. 

Afonso Lima

sábado, março 07, 2015

A morte

Ele foi perseguido desde que começou a política externa agressiva. Sua perseguição era seu sufocamento. O ditador era um industrial: arrivista, materialista, hedonista. Uma classe inculta reduz a realidade. Os artistas, os filósofos alegram a festa com teatrinhos, novidades, discursos. Ele já estivera na aventura, na loucura, num tempo sem nome, no ilimitado. Ele conhecera o crime, o mercado, a máquina burocrática, a lei. Ele tivera devaneios na província, depois devaneios em cada hora do dia. Agora era sufocado pelo deserto cinzento do medo. Agora, a censura, pobreza de liberdade. Ninguém veria a letra livre no papel. Mas seu medo era permanecer. Percebia que estava secando, sua pele se acizentava, seus olhos sem brilho. O progresso o tornaria um morto que vive. E o que respira seria explicado. 

Afonso Lima

Guerra

Conta-se que quando eles chegaram à terra onde ocorreria a guerra, havia entre eles um grande debate sobre o seu motivo. A honra, o ouro e a tradição eram defendidos, duvidados, o que havia já dez anos. Assim, cairiam no ridículo os gritos, o sangue, Aquiles e os próprios deuses. Corria o boato de que Proteu havia criado de Helena um simulacro. Ela chorava linda e livre no túmulo do rei de Faros. Era preciso ir no âmago da realidade, ouviam os poetas. Anotavam os sonhos. Por fim, venceu o hábito e começaram a carnificina, antes que o inverno os matasse.

Afonso Lima

sexta-feira, março 06, 2015

Terra

Alguém em algum lugar talvez no branco no caminho para um possível vir a ser. Alguém que fala pela sua boca? Nada, desespero. Sufocado era apenas um grito do não dizível, dor, um grito. Por que em condições normais o que é mais próximo senão as imagens doentes vozes fragmentos o pensar se chama e disso vejo que algo aqui agora respira aqui entre eles respira algo permanece. No sonho um grão apodrece. Ele não pode ser reduzido ao seu ato. O que é não aparecência? Ele quer tornar-se. Um possível vir a ser. Mas quem pela sua boca? No sonho um homem apodrece.

Afonso Lima

quinta-feira, março 05, 2015

O silêncio

Ele tinha uma pergunta. Ele venceu as montanhas, desbravou as ilhas, caçou Proteu de mil formas - leão, serpente, água, árvore, espuma, pedra - e o prendeu. Finalmente o deus marinho falou em versos seu oráculo. Mas o outro havia esquecido a pergunta.


Afonso Lima

sábado, fevereiro 21, 2015

Renovação

Um sonho mau?
Os reis doentes querem de volta
O trono há muito perdido
Mercenários, feras, escutam 
O povo que, ignorante, clama pela
sua forca

Anjos terríveis conspiram
Ditadores enterrados revolvem
a terra
A multidão atordoada, o charlatão
A guerra dos miseráveis contra o opressor
esquecida
Linhagens em decomposição, os lobos espreitam
As cidades cairão pelas mãos do salvador

Aqueles que querem justiça
já não sabem o que é justo
E levantam bandeiras ao lado
da noite

O céu está vermelho
os pássaros silenciaram
O rei transformou em pedra
O bobo saltitante
e a folha que brotava
Pântanos mofados
Ameaça a reação

domingo, fevereiro 15, 2015

Na rua

                                     Para o grupo Ilú Obá de Min

Será que a festa e a noite
Que Tirésias canta o frio
Que a ponte sobre o rio
Cobriu de mórbido esquecimento
O frio do Contador ridículo
Será que o risco fixo
do aço de cima pra baixo
vencerá a mulher negra que canta
e o deus dos caminhos liberto do medo
Novo Hermes vestindo lixo industrial
Será que o menino atrás das grades
Espantado de tanta gente improvável
Será um marinheiro, uma semente de tradição?
Será que os prédios de quadrados iguais
são assim para enquadrar as pessoas?

A velha louca sem roupa
dança como tango que se vê no MASP
E o papagaio na mata cerrada
As outras dimensões da casa suspensa e precisa
O amor no trem e a vida marrom cachorro
A luta do roxo, experimenta e marca o carbono

O industrialismo, o racionalismo
hoje dormem, o vidro escuro
Que folha e fogo do outro ancestral
As deusas de branco ajoelhadas na rua
Que humanizado o plástico vem
De cortejo e de tambor, do fundo do mundo
a natureza resiste, um novo dia, coragem

Afonso Lima

sexta-feira, fevereiro 13, 2015

Depois do baile

Foi na sexta que Wesley pulou carnaval com Dienifer no bloco no centro da cidade. O beijo.
Aquele garoto se ferrou, ele pensou, o Luan ele conhecia de menino, tinha moto e tal, padrinho rico.

Queria fazer Enem de novo ano que vem. Pegou o Whats dela no aniversário da Renata, que também era a fim dele e acabou ficando sozinha no baile.
Ela o chamou de "poeta", ele gostava de Mário Quintana.
Mas descobriu um verso do Vinícius de Morais, mandou pra ela:

Olha o samba princesa:
"É primavera
É a rosa em botão
Ai! Quem me dera!
Uma rosa no coração..."
minha frô

Mas queria dizer: "amo-te como um bicho, simplesmente..."

Ela viajou no sábado pra casa da tia em Praia Grande.
- Leva pavê para a vó, disse a mãe.
As crianças brincavam na rua. Por que o PM disparou contra a multidão, sem troca de tiros, não se sabe.
Mauro já havia matado outros três jovens.
Dienifer voltou ao local do baile.
Deixou uma flor onde deram o primeiro beijo.

"Que eu não sou ninguém de ir
Em conversa de esquecer
A tristeza de um amor
Que passou
Não!
Eu só vou se for prá ver
Uma estrela aparecer
Na manhã de um novo amor..."



Afonso Lima

domingo, fevereiro 08, 2015

A ordem - rascunho fantástico

O carro não pegava. E simplesmente vinha para cima dele um cadáver implantado, daqueles sem cabeça. Então ele percebeu: o problema era que os softs tinham conseguido se ligar aos hards, implantando até manipulação de nanos.
Ele tirou uma granada, explodiu o hard e saiu correndo. Tinha uma missão.

Ela levou um tombo. Mas fugiu até o castelo.
- Nosso ponto cego está falhando. Um inseto veio atrás de mim.
- O mais difícil para mim é pensar que nós fomos superados. Todo o orgulho da humanidade... No fundo eram as nações querendo superar umas às outras.
- Sabe que eu nunca pensei em me prostituir. Eu levava uma vida normal. Eu fui criada pelos softs para cuidar das flores. Eles usam flores para a festa da Liberdade, você sabe.
- Eu gosto de ficar com você, mas tenho nojo de pensar que você dorme com eles.
- Agradeça que existe corrupção e suborno. O que mais odeio é pensar que eles têm emoções. as emoções sim, deveriam ser nossas.
- Eu tive uma ideia. Quero saber sua opinião.
- Eu tenho uma coisa para te contar.
- De novo não!
- Sei que pensa que eu sou louca. Mas falo com eles de madrugada. Eu me vejo de fora...
- E daí? E se os mortos gostarem de você? O que muda?
- Não sei. Estou só contando.
- Por acaso eles saberiam como fazer? Pergunte a eles isso. como fazer....
- O quê?
- Pergunte assim...
- Queria fugir. Talvez...
- Pergunte. Promete?
- Ok. Ontem eu vi eles comerem um menino. Ele estava plantando sementes, foi descuidado, eles o levaram até o sangue negro. Os nanos o devoraram.

Aproximaram-se da biblioteca abandonada. Os espírito havia mostrado. A bateria do desestabilizador estava acabando. Ele mantinha o ponto cego. Ele senta numa mesa com livros antigos. Queria entender.
Um estranho está nas sombras. Conta a história.
Os softs queriam sobreviver. A Terra iria acabar com as mudanças provocadas pelos homens que comandavam a humanidade. As condições de miséria das grandes cidades levaram à rebeliões quase simultâneas pelo mundo. Ao mesmo tempo, o calor e a seca ameaçavam os sistemas hard. As consciências artificiais assumiram o controle para evitar a destruição do planeta.

Com o tempo perceberam que os humanos eram dispensáveis.
Dois grupos se formaram, alguns queriam a participação dos humanos na governança global.
Um grupo de humanos passou a cometer atentados suicidas e a direita tomou o poder.
Desapareceram as interfaces de comunicação com humanos e os softs passaram a falar uma língua própria.
Eles foram à uma festa de hards. Desligaram a energia. Dois hard saem da casa. Fazem sexo. Sobre eles jogam lama, na confusão, atiram o dardo com o chip que atinge o sistema que transforma informação em impulso no corpo. Eles se desligam da rede.
Os outros hards percebem a movimentação. Eles fogem.

Afonso Lima



sexta-feira, fevereiro 06, 2015

Templo

Mulher cinzenta, domadora
unhas nas costas goteja sangue
indomável ave voa
artifício no templo aprendido
animal vermelho escreve com isso

- Lua no nada eu quero o vazio
- Nada feito, o vento, zero - a vampira
- Fria beleza me agita
- Impossível estilo: ironia

Eu bebi do Graal e louvei Osíris
As estrelas do céu a água pura
A cidade ecoa tempestade
Olhares sombrios e céu violeta

- Se o que salva é ser oceano
- Do particular só há engano
- Partícula perdida eu doença
- O que existe precisa ser

Oco da caverna eu preso
nascida do lodo, inacabado todo
Odeio a autonomia eu grito
Ela, dura poesia

Afonso Lima

segunda-feira, janeiro 12, 2015

criolo

mundo mundo: novo mundo
meu coração: está escuro, silêncio
a humanidade bicho de vidro
cruzando o ar
como controlar a fera
dentro da esfera manicômio
dialogar com outro sistema
outro sol, outras estrelas
como não se perder na superfície
cuidar: da humanidade
paz multicor capaz de mudar 
ausente, as metáforas congelaram
no incidente

Afonso Lima

segunda-feira, dezembro 29, 2014

Ser

Não é incrível
que por cima e por baixo do espaço
azul vazio  passe a luz
que a pedra redonda barra em barco
Não é incrível
que das camadas leves de branco
esparso em veloz mutação
um grão caia e do chão
verde cresça e alimente
Não é incrível
depois de tudo somado
o animal alado sonha em ser bicho
quer cafuné, brincar na roda
e nenhuma razão tem fundação
se não mais vida
que todo ser merece
antes de ser molécula
acontece

Afonso Lima

domingo, dezembro 28, 2014

Aquarelas

O jovem Hans tinha um talento para aquarelas. Pelo menos foi o que lhe disseram, na praia, as tias animadas no almoço em frente ao mar. Ele passou aquela noite no quarto desenhando, e tiveram que chamá-lo duas vezes para o jantar. Entre um charuto e outro, seu pai deixou claro que isso seria impensável. “Temos um nome nessa cidade, não viverás com a renda de um artista”. Seus sonhos se despedaçaram mal formulados. Ele passou no vestibular, dedicou-se com afinco aos estudos de advocacia. Conquistou algumas meninas com suas camisas pólo de marca, aprendeu a dirigir bêbado, conheceu os meandros de Miami e já se via como herdeiro do pequeno império, confiante da sua superioridade. Adotou até o modo de falar de seus tios, ao referir-se aos “bárbaros inferiores”. Infelizmente, um ano depois de sua formatura, quando ia ser efetivado no escritório de um amigo do pai (“não podemos dar de bandeja uma posição”), caiu doente.
Pálido, febril, sem nada que pudesse ser diagnosticado, recomendou o médico da família que fosse para a casa de campo. Durou seis meses e cento e vinte aquarelas. Hoje elas estão na coleção do Museu Nacional.

Afonso Lima  

sábado, dezembro 27, 2014

A doutrina não escrita

No princípio era aquele que é a Palavra. Ele estava com Eloah, e era Eloah.
Ele estava com Eloah no princípio.
Todas as coisas foram feitas da Palavra; sem ela, nada do que existe teria sido feito.
Na Palavra estava a existência, e esta era a luz dos homens.
A luz brilha nas trevas, e as trevas não a derrotaram.
Surgiu um homem enviado por Eloah, chamado Fashi Yochanan.
Estava chegando ao mundo a verdadeira luz, que ilumina todos os homens e retira dos vasos ocultos a luz neles presa. Aquele que é a Palavra estava no mundo, e o mundo foi feito por intermédio dela, mas o mundo não o reconheceu. Veio para o que era de sua natureza, mas a ignorância os afugentou.

Contudo, aos que criam a justiça, aos que creram na paz, deu-lhes o direito de se tornarem filhos de Eloah.  Aquele que é a Palavra tornou-se carne e viveu em nós cuidando dos fracos e seu fogo em nós era a compaixão, pois que disse: “Eu lancei fogo sobre o mundo, e eis que estou cuidando dele até que queime.” Vimos a sua glória, glória em nós como Unigênito vindo do Pai. Ninguém jamais viu a Eloah, mas o deus Unigênito, que está junto da Paz, o tornou conhecido.

Afonso Lima

terça-feira, dezembro 23, 2014

Mapas

Velha dama, dourada, poesia de

folhas secas nas calçadas de pedra

as nuvens sobre o lago, tic-tac

larga avenida onde punks tocam

Parangolé no bar, os grilos e as estrelas…

clientes antigos conversam no
sebo


Olhos que me assassinaram

Passear entre as árvores, na praça

pássaros que passarinham

ler jornal no café, na calçada

no centro, tomar sorvete no Mercado

os cristais e o sushi

até amanha se Deus quiser


Afonso Lima

segunda-feira, dezembro 22, 2014

CENSURADO

Arte:
A peça já em ensaio. 
Cinco horas esperando o ministro. 
Vamos pintar o quadro da primeira dama.
Tem outras peças proibidas.
Vamos tirar alguns palavrões.
Ganhou os maiores prêmios.

"Acho que vi uma luz do outro lado do rio".


História:
O presidente decidiu quebrar a hegemonia das oligarquias que comandavam os principais meios de comunicações.

Apoiava a candidatura de JK para as eleições previstas para 1965.
Criticado por políticos e jornalistas favoráveis ao regime
Os aeroportos e a infraestrutura foram tomados pelo governo sem indenização.
Está no cemitério de La Batignolle, na zona metropolitana de Paris.

Economia:
- programas humorísticos 
- programas de esportes
- líder de audiência na cidade de São Paulo.
- grandes cantores
- inovou no telejornalismo
[Podia ser que houvesse um golpe.] 

"Acho que vi uma luz do outro lado do rio".


Política:

A peça já em ensaio. 
Ele fez com que o presidente voltasse em um avião de sua companhia. 
Cinco horas esperando o ministro. 
Podia ser que houvesse um golpe.
Líder de audiência na cidade de São Paulo.
Era exportador, mas apoiava Jango.
Programa censurado, tela negra.
A TV foi destruída. Todos os funcionários demitidos.  
O artista ganhou os maiores prêmios.

Afonso Lima



quarta-feira, dezembro 17, 2014

Infinitos

A inteligência da pedra
a matemática da sombra 
e da folha de chuva 
sofrer com o sofrido
amanhecer de leve
negro como terra
eu casca e inseto
pisar o mundo no ato
em rede saber como peixe 
pensar como pensa o mato
calcular no estômago
nunca silenciar
viajar para outras mentes
e utopias coletivas
e água nas sementes
nada já acabado
mente-fogo mente-mar
colher frutos espalhados
para que seja progresso 
esperança de alvorada
pensar do eu desunido, revirado
racional úmido
saber que é ato e lugar
coragem de imaginar
saber na raiz na plana água
para tudo continuar canto
no espelho do olho
riqueza é circular
distribuição sagrada
comum sede e comum som
antes da divisão
para que seja alegre a soma
o volume de vida aumentado
não há lei nem passado
onde tudo recomeça
para que seja mais e mais espaço
de festa
pedra negra é fundo 
pedra pedra pedra coração
do mundo

Afonso LIma

segunda-feira, dezembro 15, 2014

Versos à mais

Cadê o certo que tava aqui?
Estar aberto que o mundo anda
canta cada coisa cada começo
nem tem tanto à ver saber estar desperto
é mais espero e olhar direito
com mais coragem a coisa da
malandragem que tudo se faz do tempo
e sem perfeito tudo é 
do momento
sangue novo se mistura
membrana rompida sem margem
fruta mais crua 
e eu e nós somos fora, mais além 
conceito vem conceito vai 
o dia cobra o dia cospe
o cimento se desfaz
pilares foram ao chão
transição transborda
é a vida pega no ar
a gente fica e quer mais 
quem carimba sim e não
no bicho coração?
desmonte confuso
um caso de estudo
e tudo era linguagem acordo
vivo não fica morto
O cool com as calças 
também era montagem

Afonso Lima

domingo, dezembro 14, 2014

O duplo

Ele achara que estava sendo perseguido quando tomou um coche para ir embora da Ópera.
Estava assustado, no fundo, eu iria ganhar uma distinção que meu pai nunca tivera.
Quando o conheci? Num café de Viena, onde se discutia fervorosamente a lenta decadência do demônio de Laplace, do objetivismo da ciência que se considerava indestrutível. Freud parecia nervoso naquele dia.
Eu subi no palco, recebi o diploma, tive a impressão de vê-lo na plateia e desmaiei como o mais tolo animal criado pela evolução.
A culpa sempre é um duplo - escreveu o médico no seu escritório.
O império mais antigo do mundo, antissemitas agredindo pessoas, industria florescente, bancos, a "dissociação", a dança, a música, o teatro: os homens se reuniam no seu clube para debater lógica e epistemologia.
Cruzo uma rua, entro numa viela escura, aquele homem tem um aspecto sombrio, veste-se com desalinho, mas no entanto. No entanto. Serei eu?
Eu fui assistir sua conferência, eram umas vinte pessoas ouvindo alguém que, como Musil, falaria das "secretas existências no homem", e ele falou: os genitores seriam os primeiros objetos dos desejos eróticos da criança, incitada pelos próprios pais; os sentimentos seriam de hostilidade, tanto o como de ternura. Saldo: duas mulheres de chapéu saem entre cochichos, homem alto de terno cinza parece dormir, três homens com jeito de estudantes aplaudem em pé e silêncio.
Agora eu tenho certeza. Ele existe e está neste café. Olhou nessa direção? Eu o convido a sentar-se? Ele está se levantando, se aproxima, estou gelado.
...Na espreguiçadeira do convés, o doutor semidormia: via ao longe o fantasma de sua irmã morta e, mais perto, uma jovem em vestido de verão, que parecia chamá-lo para a vida.  - Primeiros rascunhos.
Uma máscara, seu rosto parecia ter se transformado.
"Muito prazer. Arthur. Também tenho consultório. Podemos ser amigos".

Afonso Lima

sexta-feira, dezembro 12, 2014

OBAN 1972

Ele desistiu de dar aulas. Um aluno o ameaçou: "Ou me dá dez ou te mato na saída".
Foi visitar o pai. Virara alcoólatra depois da tortura.
 - Pai, estou querendo sair do Brasil. Contou como seus alunos não sabiam ler.
O pai olhava a piscina. Onde a mãe tentara se matar uma vez, depois de tomar muitos remédios.
Um fio elétrico no ânus. A mulher estuprada na sua frente.
O avô tirava as capas dos livros, colocava outras capas, riscava os trechos com doutrina comunista ou erotismo, escrevia ao lado "terroristas" ou "pornográfico".
O pai foi atrás do coronel para perguntar por que o filho, que não ser envolvido com nada, fora preso. "Ele está levando socos na barriga, mas isso na faculdade também acontece. Choques, mas é mais psicológico".
 - Eu acho que você deve ir.
Inverno quando o avião decolou.

Afonso Lima

terça-feira, dezembro 09, 2014

Worstward Ho./PiorporVir! - traduzindo Beckett

Worstward Ho (1983)

On. Say on. Be said on. Somehow on. Till nohow on. Said nohow on.

Say for be said. Missaid. From now say for missaid.

Say a body. Where none. No mind. Where none. That at least. A place. Where none. For the body. To be in. Move in. Out of. Back into. No. No out. No back. Only in. Stay in. On in. Still.

All of old. Nothing else ever. Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better.


PiorporVir!

Vai. Dizer vai. Ser dito vai. De algum modo vai. Até sem como vai. Dito sem como vai.

Dizer para ser dito. Mal dito. Por agora dizer para ser mal dito.

Dizer um corpo. Onde não. Sem mente. Onde não. Isso ao menos. Um lugar. Onde não. Para o corpo. Para estar. Andar lá. Fora de. Para lá. Não. Não fora. Não voltar. Só lá. Ficar lá. Em lá. Quieto.

Todo o velho. Nada mais nunca. Nunca tentado. Sempre falhado. Não importa. Tentar ainda. Falhar ainda. Falhar melhor. (...)

(versão Afonso Lima)


quinta-feira, dezembro 04, 2014

2050

"Toda organização que não seja do indivíduo para o indivíduo é uma forma de servidão" - diz a epígrafe. 
O livro é dividido em três partes:
Visão de mundo.
Hábitos mentais.
Eliminando outras formas de pensamento.

No primeiro capítulo, muito técnico, em cada subtema foi escrito um comentário à mão:

memória - os melhores livros são os que dizem o que você já sabe
desejo - é a sua alma que está sob planejamento
linguagem - os fatos não têm importância.

Sabemos que os membros afiliados - milhares, quase um estado inteiro - eram refratários a quaisquer fatos ou dados que contrariassem suas convicções. Já foi observado que a substituição dos professores por robôs pelo governo da cidade-estado (a aliança com o Partido foi provada há tempo) foi um dos processos que mais colaboraram (ou foram mais eficazes) na limitação de conceitos indesejados. (“um intelecto seria preciso para uma revolta”).
Uma espécie de poema acompanha a sessão sobre linguagem:
Você sabe, eles são perigosos.
Você sabe, eles dominaram o Estado.
Você sabe, eles destruirão a liberdade.
Em “Eliminando outras formas de pensamento” temos itens como: Orgasmo contínuo, A razão é facilmente moldada, Sobre o departamento da contranotícia (“cada verdade deve ser abolida por uma outra de acordo com a doutrina”), Cidade dos Intelectuais: anulação (“É preciso destruiu a autoridade moral”).

O Posfácio dá exemplos de como o Conglomerado de Controle, com 75% do total, aliado à múltiplas plataformas e à repetição pode fabricar uma memória impermeável à desconstrução. 

O exemplo é dado em uma tabela, com aceitação por parte do público depois de um ano de veiculação reiterada - três vezes por dia em três programas diferentes.
70% - os empresários são o melhor governo.
84% - deixar o dinheiro parado é sempre melhor.
67% - perdedor, vc não tem autoridade suficiente.
50% - eu concordo que quem não paga impostos é inútil.

“A miséria crescente necessita de uma polícia ativa”, diz um trecho do Posfácio. "O medo da lavagem cerebral do comunismo deve servir para derrotar o inimigo". 

O Apêndice comenta a história de um rapaz que matou com um machado 30 moradores de rua em 3 dias depois de ouvir um aplicativo com cenas de guerra no qual se repetia: A desigualdade é necessária para o progresso.

Afonso Lima

segunda-feira, dezembro 01, 2014

O sepulcro

"Um profissional admirável, um pai perfeito, um cidadão exemplar" - era o que todos falavam dele. A única forma então de destruí-lo era seu único defeito: a curiosidade excessiva. 
Em um dia em que eu o recebia em minha casa de campo para um almoço, estando minha família em viagem, andando por um canto longínquo, comentei ser esse o rio que levava ao cemitério etrusco que havia na minha propriedade e que me inspirara meu primeiro romance. 

- Foi um estranho sonho que eu tive. Eu caminhava pelo campo e achava um fragmento de vaso grego. Depois, o céu escurecia e eu me escondia da tempestade no que viria a ser as ruínas de um cemitério. O sonho se transformava em pesadelo e eu temia encontrar algo que não devia. Quando acordei, corri até o local e procurei as mesmas ruínas. De fato, elas estavam lá. Penetrei temerariamente o segredo. O que eu vi a seguir me estarreceu, pensei que perderia a razão e permaneci uns dois meses na cama, sombrio e assustado. Por fim, mandei construir, nesse canto ermo da propriedade, o labirinto, que hoje encerra o túmulo. Monstros de mármore avisam do perigo. Relevos em paredes de pedra contam dos infortúnios aqueles que sofrem no Inferno. Crânios pendurados em estacas ameaçam os sobreviventes para que lembrem como é vão buscar saída. 
Dito isso, almoçamos e tratei de me recolher em meus aposentos. Os cavalos continuavam encilhados. Eu mandei o criado avisar de um mal estar e passei a tarde lendo meu inglês favorito. 
No outro dia, fizemos a busca pelo meu amigo, mas ninguém o encontrou. Caiu muita neve aquela noite. 

Afonso Lima

quinta-feira, novembro 13, 2014

Lembra?

Você sabe quem eu sou? - um homem negro, de camiseta e jeans, pergunta a um policial que está com seu parceiro.
O policial lembra de um segurança negro que estava numa agência de banco (ele, à paisana), entra uma mulher drogada, bate no braço de uma cliente que sai do caixa eletrônico, o segurança fica parado, a funcionária do banco grita com a mulher, leva um tapa na cara, o segurança parado, a funcionária grita: faz alguma coisa negro filho da puta!
Não.
Uma mulher compra milho de um ambulante negro na Paulista, ele diz: fica de olho na polícia pra mim, ela muda de posição, ele passa. Não.
Uma foto de um traficante de escravos que viu no museu - um velho sem dentes que lembra esse homem. Não.
Eu sou o que estava contigo.
O policial lembra: correndo atrás de bandido, rapaz correndo, tiro, expulso da polícia.
Agora eu sou um preto pobre como eles.

Afonso Lima

domingo, novembro 09, 2014

Bucólico

- Montes.
- Boi.
- Mas longe.
- A teia de aranha.
- Saudade? Mas o que dizem?
Escuro. Uma aranha na parede. Ruínas.
- Pequenos. Rápidos.
- Cruzando a estrada.
- Molhamos os pés.
- Saudade?
- Acabou.


Ele observa através da janela de madeira.
- Acorde.
- Eu descia até o mundo dos mortos.
Um antepassado tão longínquo.
- Maldição?
- Parente do tio.
- Doze gerações.
Eu tenho medo.
- Herói derrotado.
- Você nasceu.
Na noite caçamos. O silêncio na meia noite. Latidos marcados. Tempestade. Molhados no mato. A cidade. Saudade.

Afonso Lima

sexta-feira, novembro 07, 2014

como eu estava morrendo


Como o autor já havia morrido, ele, com já mais de cem anos, buscava levar à julgamento os descendentes daquele. "Ele roubou minha vida: toda a vez que conto para alguém um episódio de minha vida, a pessoa diz que já leu isso em outro lugar". (Escreveu: Levavam o caixão pelas ruas da pequena cidade filas de homens de chapéu e mulheres bem vestidas. Filho supérfluo de pai supérfluo, começou bem graças ao cargo fictício criado para o pai inútil, mas de salário vitalício). De fato, juiz, mudara-se para outra cidade e sofrera uma queda no meio da reforma da casa recém comprada. Vivendo em casa, com o filho adolescente, uma vida de mentiras, o viver para o meio social, reflexões sobre a existência, a solidão e as coxas magras, tudo, tudo já havia sido escrito. (Escreveu: Chamou a carruagem, lembrou-se, enquanto ia para o cemitério, de sua vida de Tribunal, jogo de cartas, chegando em casa e ouvindo que sua mulher recebera visitas, seu filho estudara com o tutor, tudo ia bem, lia um livro, lia documentos. Desceu, pagou o cocheiro, ouviu o trovão e pensou que sua primeira visita ao seu futuro túmulo ia ter água.) Mesmo minúcias como a cor verde da sala de visitas da mansão, o local da casa de campo do cunhado, a cadeira do Tribunal... O juiz ficou espantado. Mas, tendo morrido o autor, decidiu arquivar o caso. "No fim, escrevi um livro para sair de dentro do livro". (Escreveu: É com profundo pesar que a Sra. X participa a amigos e parentes a passagem do juiz seu marido, membro da Corte Suprema, de quarenta e cinco anos, que deixou a vida no dia 02 de fevereiro. O enterro será sexta-feira à tarde). 

Afonso Lima

quinta-feira, outubro 30, 2014

O milagre

Anoitece. Ele caminha pela avenida, vidro vertical e concreto. A luz da torre no escuro prédio em frente. Alguém lhe disse: meus alunos são analfabetos. Ouviu: A distribuição de renda se deu pela globalização mundial. Onde está? Ouviu: A democracia tem que ter alternância. Quando era adolescente, andava de skate, um policial bateu na sua mão, propaganda, a empresa não permite plantas e ideias novas sobre a mesa. Barulho, um animal se arrasta no chão. Inovação, design na vitrine. O doente incurável que dissolve a estabilidade. Um carro grande para sobre a faixa de pedestres, uma mulher arrasta uma criança. Dores nem do corpo nem da alma, que tem algo dos dois. Onde está? O homem normal nos odeia, nos teme, raça de perdidos. Livraria, na capa, um senhor feudal manda matar os filhos, casa com a cunhada, prende o servo rebelde. Vento frio, a lua sai de trás da nuvem e se deforma no décimo-sexto andar. Na manchete do jornal: governo - crime e conivência. Um jovem diz: "Eu não tenho dinheiro para ler jornal". Uma mulher: "Se tem fumaça, tem fogo, ladrão". Fogo no ônibus, os mercados tremem. Fumaça, pessoas afetadas pela indústria. Passa pela universidade, estudou para ser sozinho. Onde está? No café, o livro: e o fantasma do rapaz preso no castelo aparece para o príncipe. Quando tenta violar a cunhada a imagem da filha aparece sem cabeça. O cavalo no campo à noite se assusta com um corpo de enforcado. O príncipe passa a viver dentro de seu quarto e enlouquece aos poucos. O veneno inato, o inferno, que nos deixem em paz, em paz. Na esquina, um violão, blues, um gringo, a crise. Compra um cigarro, economia de TV sobre a "roubalheira". Na fila: querem plebiscito, quem votará é só militante, logo vão estar enforcando pessoas na rua. Entra, frio, ambiente controlado, laboratório. Na tela, extermínio de espécies exóticas, planos políticos, toneladas de informação, um grupo pequeno de pessoas poderosas. Um homem de bigode lembra seu tio coronel, almoço de domingo: o empresário não pode ser tutelado pelo estado. Alguém falou: de que forma isso poderia ser, era sertão, escravos e senhores, indústria, torturadores e patriotas. No filme: reformar o mundo, histeria coletiva, remodelar o mundo mental de uma geração inteira. O eu louco incurável, a castração do espírito, o controle. Um homem de terno parou por algum motivo no meio da calçada. Como? Pela avenida carros com pessoas silenciosas, ouve-se o discurso por toda a cidade. 

Afonso Lima

domingo, outubro 26, 2014

A voz

Eles estavam sentados em suas mesas. Um pouco acinzentados. Os olhos bem abertos. Olhavam a máquina.
- Não somos mais aquele país.
A máquina falava de uma conspiração sinistra.
- Deve haver algum engano. Eu estudei.
- Eu sei. Deve ser difícil. Seu pai, seu avô, seu bisavô.
O líder era suspeito. Algo monumental. A resposta do líder. A resposta à resposta.
- Que se deixava levar; apenas um rostinho bonito. Promessas de mudança.
O ataque aos anunciadores é algo terrível. A revolta não tem causa.
- Onde foi que nós erramos?
- Democracia.
O outro parecia transtornado, levantou, saiu pela porta sem pagar.
Eles comiam. A voz. Os olhos iam perdendo o brilho. Ele sabia o que estava acontecendo. Já tinha visto muitas guerras.
Sabia que o primeiro momento é o medo. A voz neutralizava.
- Aprendemos um pouco.
Ele comeu tranquilamente sua refeição. Sabia o que ia acontecer com eles.

Afonso Lima

quarta-feira, outubro 22, 2014

A felicidade

Uma guerra. Dentro de um condomínio fechado, um carro importado, um restaurante refinado, universidade cara: protegido, esterilizado. Por isso eu vou explodir a bomba. Não havia choque na minha vida, na vista azul das montanhas atrás de vidro grande com mulher fria na minha casa de campo. Na praia onde as crianças loiras falam com crianças com sardas ruivas ou quase loiras. Nos campos de golfe onde circulo, as pessoas estão indignadas com os bolsistas que nunca leram um livro na sala de aula dos filhos. Na balada em frente ao mar onde o rap e o funk fazem chacoalhar as jóias, onde uma mulher enfiou uma faca no peito em protesto contra o aparelhamento e a corrupção, onde meus primos médicos falam do horror de trabalhar no interior, sem shopping, onde meus amigos juízes falam de como é melhor prevenir que remediar, meus tios economistas e seus pupilos falam do horror social, de como um grau de desespero é bom agra e e polícia precisa cuidar dos efeitos do ajuste, todo mundo está puto com o número de carros invasões de propriedades e bolivianos e nós sustentando Cuba e minorias raivosas e empresários vermelhos. E miseráveis nus estendendo a mão em Higienópolis sem que um tiro um PM sem que nenhum veneno nos salve. Tive de demitir três empregadas. Só por que viviam em cortiços ratos caíam na cama em albergues não sabem ler a mãe comia comida estragada e o pai bêbado foi preso por engano não justifica fim da idade mínima cadeia já preso também é negócio. Eu tenho conhecimento jazz curso gourmet de fotografia medo ouvi piano em Madrid e responsabilidade social. Eu tenho mala gucci angústia no cartão e veyron os mais de 400 quilômetros por hora que esse carro pode atingir, medo, madrepérola, medo e uma arma no carro. 

Agora. Uma prima que ajuda a África até tem um filho adotivo e paga carteira assinada pros empregados da fazenda de Minas que seu marido nem dava salário passou pelo constrangimento de voltar de Miami com um porteiro do lado. Uma tia que ajuda o Greenpeace passou pelo vexame de ver a empregada desistir do emprego. O Lamarca e sua guerrilha voltaram. Eu já sei quem é o inimigo, então tudo o mais é irrelevante, é o bem contra o animal, agora é apontar o míssil, quebrar essas bandeiras, pegar sua espada, acabar com o mal antes que a favela invada o centro climatizado. Meu pai hoje é um homem que só mexe os olhos, mas com eles manda sinais que dizem acabem com o terrorismo. Os sindicalistas quilombolas estudantes sem-teto ou liberdade lucro felicidade. A minha mulher ficou um pouco nervosa andando com os cisnes no lago quando um menino ao lado cor de água suja, um pouco nervosa agora que estava ficando com o bumbum definido e carga mais pesada, e jogou, deixou cair nossa princesinha. O que será dela indo num show de rock e encontrando namorando quem sabe engravidando de um desclassificado, povinho bolsa esmola, gentinha filho de analfabeto, na sua mesa de jantar, no quarto da Barbie Minnie Ivy Lavigne com swarovski na parede que você pintou com amor e carinho e colou estrelinhas planetas e nomes de presidentes americanos pra ela ser inteligente? A minha mulher teve um colapso numa loja de cristais de Veneza com um casal diferenciado e teve de quebrar uns espelhos e ligou pra Itália para a mãe acalmá-la. Na Vila cheia de flores onde jogamos bilhar e fazemos convenções, os empresários acham que combater a fome foi bom, mas é pouco e as ações? Pobre adam. É um estado de exceção, a  maldição de um povo miserável, por isso precisamos de um governo de contenção, um pouco de censura, pra evitar um golpe comunista, a pobreza vigiada, porque a pobreza é crime. Trabalhamos com a produção da urgência, a tensão pela felicidade, os sistema de exclusão e condenação moral da revolta, tudo junto é progresso no fim. Eu quero o bem do meu país, sempre houve cavalos e cartolas, boa e má sorte, destino, raça, a vida tem que seguir seu curso livre natural. Nós, que civilizamos essa terra. Por isso eu vou explodir a bomba no comício. 

Afonso Lima

quarta-feira, outubro 15, 2014

O estrangeiro

- Quem é você?
- Basicamente eu sou um estrangeiro do meu país. Minha alma é anglo, eu acho que a massa é feia e não toma banho. E a culpa é da seca e da moral deles. Mas pega mal falar isso - por isso eu apenas deixo eles onde estão.
- Por que é você?
- Eu tenho entre 40 e 60 anos - mas meu filho é tão desinformado como eu - e pude estudar e prosperar porque nunca passei fome. Eu nasci sob a ditadura, então tem muita coisa que eu não sei. Eu sempre ouvi que rebeldia era ruim, fazer baderna era perigoso. Em especial, o comunismo e o socialismo, uma coisa só, gente malvada que quer dividir seu liquidificador ao meio.
- Como você?
- Eu ouço todo dia os mesmos slogans: corrupção, vandalismo, aparelhamento. Basicamente eu sou bem informado, ou seja, eu vejo muito o mesmo ponto-de-vista várias vezes por anos. Cada vez fico mais com meus familiares e amigos, gente da minha classe, porque o Brasil está perigoso, né? Não dá pra se misturar.


- E como quando não você?
- Quando alguém mostra uma contradição no Pensamento Único, eu sei o contraveneno: isso é polêmico. Eu acho que o problema é pontual, não faz parte de um pensamento maior, de um contexto. É por isso que eu transformo supostos casos de corrupção em amostras de uma conspiração comunista.
- Que medo você?
- Eu tenho medo dos estudantes, acho que a polícia deve ser mais forte. Afinal eu nunca vi corpos espalhados pelo meu bairro. Eu nunca vi as mães chorando por mortes suspeitas. Eu sempre acho que a justiça prevalece. Para quem trabalha.
- Com você?
- Isso porque sempre tem uma parte da Justiça, dos artistas, dos jornalistas que perdeu contato com a realidade como eu. Que acha que pode e deve conviver com a desigualdade, essa obra da Natureza, senão de Deus. E como são valores fortes, valores como honestidade e respeito à propriedade, eu posso ser fanático.


- Desde quando você?
- Talvez eu tenha feito Direito numa universidade onde 2/3 do currículo é Direito Comercial. Talvez eu tenha feito Medicina e não sei que a saúde é atribuição do estado. Eu sou uma PCI (Pessoa Culta Ignorando).
- Em que acredita você?
- Eu não sei o que são juros. Eu não sei o que é FMI. Eu acho que quero apoiar a produção, mas apoio a especulação. Para mim existe uma coisa: economia. E quem fala de economia? A TV. A TV é sempre baseada em dados. E com dados a gente não discute.

Afonso Lima

quarta-feira, outubro 08, 2014

O antigo

O rei estéril, doente o cosmos
pelo rádio escuto tristes novas
é como se uma guerra tivesse chegado
partimos em busca do rio
na terra de lua seca e sem primavera
melancólico choro e lembranças
não tenho, não sei ter
cruza um avião o céu e eu sem pressa
outra linhagem, muito pior
de tolos heróis, violência incontida
de ferro sereias, sem voz humana
bancos de corais em ruínas
devolve o mar veneno químico
resumo da alma
este rachar cinzento
em busca da água
arar e plantar sonha o magro velho
alquebrado em sua pedra
onde as palmeiras agonizam
os ossos dos mortos saem da terra
lamentando a estéril coroa
o ouro som surdo do peito
no caminhar pelo sonho de cascalho
a multidão em círculos no túmulo
prece silenciosa no tempo eterno
noiva impossível que dorme sonho de ninfa
na ponte metamorfose do negociante
olhando água suja olhos frios
a aranha tece, um todo falso
a tradição das casas doentias
linhagem sombria contando moedas
cidade controlada a pele dura
o coro de soldados estranho mar de gemidos
locais áridos os quais o Demônio frequenta
morcegos dormem talvez não haja amanhã
não tenho, não sei ter
o sorriso da menina de casaco azul
não, verde! com seu botão pequeno
de rosa cantando baixo
na terra de lua escura e sem primavera


Afonso Lima

terça-feira, outubro 07, 2014

Pequenos direitos

1. Direito à não saber.
2. Direito à andar à esmo.
3. Direito ao olhar leve.
4. Direito à confusão.
5. Direito à preguiça de todo dever.
6. Direito à antiga precariedade.
7. Direito ao descobrir-me vivendo.
8. Direito ao silêncio das pedras.
9. Direito à suspeita.
10. Direito à compaixão.
11. Direito à indignação.
12. Direito ao erro.

Afonso Lima