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quarta-feira, março 16, 2016

Noite e Neblina - golpe, ilegalidade judicial e a delação premiada de Delcídio do Amaral

O que mais a direita precisa agora? De crime de responsabilidade envolvendo a presidente para começar o impeachment e do nome de Lula para que ele não se eleja. Chegamos a um nível máximo de factóide: o que diz Delcídio sobre Dilma? Que "tentou interferir nas investigações da Lava Jato".

Lewandowski já negou. "O presidente do STF esclarece que sequer teria poder decisório sobre o caso, que estava sob relatoria do ministro Teori Zavascki." (Brasil 247)

Parece completamente contraditório com o que sabemos dela até agora. "Dilma convoca Mercadante para dar explicações sobre gravação de Delcídio" - (Folha) - por que ela chamaria se fosse culpada?

E o Aécio Neves? "Delcídio do Amaral afirma que o presidente do PSDB, senador Aécio Neves (MG), recebeu propina em um esquema de corrupção em Furnas, empresa subsidiária da Eletrobras." (CC) Então estão superfaturando obras e desviando recursos para financiar partidos políticos (na melhor das hipóteses).

"Para ganhar a adesão dos grupos de mídia, o pacto tácito incluiu a blindagem dos políticos aliados. Explica-se por aí a decisão de Janot de isentar Aécio Neves das denúncias do doleiro Alberto Yousseff, sem que houvesse reclamações do Grupo de Trabalho." (CC)

E o Serra? "Segundo o delator, a empresa do "primo" de Serra ficou com um valor entre 500 mil e 700 mil dólares por ter direcionado parte da propina de Pasadena. Preciado foi sócio e doador de campanhas de José Serra (PSDB-SP)."

O caso do Procurador Geral (PGR) é assustador. Estará participando de uma manobra para tirar uma presidente eleita?

"No caso petista, o dinheiro teria ido para a campanha de Dilma Rousseff, enquanto no caso do PMDB teria ido para o "grupo de José Sarney", que incluía o próprio Silas Rondeau e os senadores Renan Calheiros, Romero Jucá, Valdir Raupp e Jader Barbalho."

Será que o PT, depois de tudo, ainda usaria caixa 2 para sua campanha?

O mais triste e que a justiça aparece como muito seletiva, em espacial o MP.

"Estranhamos não haver interesse da PF ou do Ministério Público Federal. Imaginávamos que, assim como na Lava Jato, iriam montar uma força-tarefa em razão do grande número de políticos envolvidos. Mas até agora não houve contato algum”, observa um dos investigadores" (CC)

Quem é o Delcídio?


"Por que dizem que Delcídio é “o mais tucano dos petistas”?

Por dois motivos: uma tentativa de filiação ao PSDB nos anos 90 e pela baixa simpatia dos seus colegas petistas em relação a ele. Em 1998, Delcídio assinou sua filiação ao PSDB, mas esta acabou não sendo homologada. Apesar disso, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, Delcídio foi diretor de Gás e Energia da Petrobras entre 2000 e 2001, quando trabalhou com Nestor Cerveró e Paulo Roberto Costa, dois dos delatores da LavaJato. Em 2001 Delcídio se filiou ao PT, mas nunca foi muito querido por seus correligionários. Exemplo disso é a dura nota divulgada pelo presidente do PT, Rui Falcão, afirmando que o partido " não se julga obrigado a qualquer gesto de solidariedade [com o senador]". (CC)

Vingança? "No final, o senador disse que concluiu achar melhor firmar o acordo de delação premiada porque "conhece o governo por dentro" e, por isso, "não sentiu qualquer firmeza nas promessas de solidariedade e de ajuda política que, eventualmente, receberia". O parlamentar cumpriu a promessa de vingança que anunciou, em dezembro do ano passado, ao não receber ajuda do PT.

Chegou a dizer que "se fosse outro o Governo", ele "poderia pensar de modo diferente" e não aceitar a delação.

E o sistema político?

"No ano passado, quando já estava sob a mira do Ministério Público Federal e da Polícia Federal, o chamado “clube do bilhão” repassou R$ 438 milhões para campanhas eleitorais... Para o juiz Márlon Reis, este crescimento representa uma tendência de aproximação mais efetiva das empresas com o universo político, independentemente de partido político. “Doações eleitorais já são uma corrupção por si só. A situação irá se agravar caso esse modelo de financiamento perdure”, argumenta o idealizador da Lei da Ficha Limpa e coordenador do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE).

Márlon admite que a Justiça terá dificuldades em distinguir quais doações foram legais e quais podem ser enquadradas como propina. Para o juiz, o financiamento eleitoral por empresas privadas, cuja proibição é julgada no Supremo Tribunal Federal (STF), é nocivo ao país. “Este sistema dificulta a condenação dos culpados, pois é preciso demonstrar a ilicitude do dinheiro e ainda o conhecimento prévio do candidato sobre o crime. O financiamento por empresas é uma verdadeira máquina de lavar dinheiro público”, conclui o magistrado. (Congresso em Foco)

A SMPB, uma das agências de Marcos Valério, recebeu também dinheiro da Petrobrás - na gestão de Fernando Henrique.

Ou seja, não eram apenas estatais mineiras envolvidas nos esquemas de Valério. As principais estatais federais, Petrobrás e BB, que sobraram das razias privatistas do governo, sempre fizeram "negócios" com o publicitário.
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Volto do almoço assustado com a TV e as conversas de senso comum.

Penso: qual o grau de nossa alienação? a) Usam o respeito que a população tem pela Polícia e Judiciário para esconder atos temerários. "Sérgio Moro rasga a Constituição e queima a Convenção Americana" - “Bandidos do colarinho branco devem ser rigorosamente punidos pelas suas pilhagens ao patrimônio público, mas tudo deve seguir rigorosamente as regras do Estado de Direito, sob pena de a Operação Lava Jato morrer na praia” (Luiz Flávio Gomes) b) Só o PT desviou algum dia nesse país (outra hipótese é aquele 30% do partido) e MP tem lado. c) massificação de opiniões jornalísticas que beiram a irresponsabilidade
A direita não dormiu nesses dez anos: a) ataca a corrupção, para paralisar a esquerda b) ataca a Petrobrás para poder privatizar c) Não deixa que haja debate, com vazamentos de trechos de processos sigilosos, com seu monopólio de mídia avassalador e aproveitando-se que a zelite não se preocupa com detalhes e a maioria ainda não teve acesso à educação. Mesmo assim, tenho esperança. "Todo mundo tenta, só Aécio é Penta" - Um povo que cria um slogan desses, nunca desiste.

Um post anterior:


Dá um google juiz Moro. Superfaturamento, cartel e financiamento do cimento são a cultura política? Vocês imaginam outra narrativa? O que nos vendem é que o Lula ameaçou a OAS pedindo uma mala de dinheiro, do contrário não haveria contrato...


- Ele disse que o cartel, chamado por ele de "clube" de empreiteiras que atuava nas licitações da estatal existe desde meados da década de 1990, período que abrange a gestão de Fernando Henrique Cardoso (PSDB).


O documento registra, ainda, que a empresas investigadas na Lava Jato se "reuniam, ainda que inicialmente de uma maneira não estruturada, com o objetivo de discutir e tentar dividir os pacotes de licitações públicas 'onshore' da Petrobras no Brasil". (BOL)

Outro envolvido no esquema seria o ex-presidente do PSDB, Sergio Guerra, morto em março deste ano. Segundo Paulo Roberto Costa, ele teria pago propina a Guerra em 2009, para que o então presidente do PSDB esvaziasse uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que pretendia esclarecer as denúncias de corrupção na Petrobras.

Segundo Costa, Guerra o procurou e cobrou 10 milhões de reais para que a CPI, aberta em julho de 2009, fosse encerrada. O pagamento, que teria sido feito depois do encerramento da CPI, teria sido feito pela Queiroz Galvão.

Além disso, Leonardo Meirelles, um dos donos do Labogen, laboratório usado por Youssef para lavar dinheiro ilegal, disse acreditar que "o PSDB e eventualmente algum padrinho político do passado e provável conterrâneo ou da região do senhor Alberto" foram beneficiados nos desvios de dinheiro da Petrobras. (Carta Capital)

Nas palavras de Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobras e delator da Lava Jato, não há doações legais no Brasil, mas sim "empréstimos a serem cobrados posteriormente a juros altos dos beneficiários das contribuições quando no exercício dos cargos". (CC)

16/3 - "Juiz liberou gravações (de Lula e Dilma) mesmo tendo recebido material captado após sua própria ordem de suspender os grampos" -

É quase inacreditável que um juiz de primeira instância não eleito mire numa presidente eleita com 54 milhões de votos - quase uma vingança por não poder prender preventivamente seu alvo político principal, o sindicalista candidato (#ImpeachmentPreventivo). O representante da lei participando de um complô político é algo surreal e mostra a confiança na na alienação pela mídia.

- "O procedimento do magistrado, típico dos estados policiais, coloca em risco a soberania nacional e deve ser repudiado, como seria em qualquer República democrática do mundo". (OAB/RJ)

Eu já vi isso. Foi no stalinismo. Rovai - "Escândalo: o grampo foi na sala da presidenta Dilma e não no fone de Lula Escute com atenção ao áudio divulgado pelo Cynara do dia em que o Lula foi interrogado. Atente para o fato de que antes de a secretaria de Dilma ligar, a conversa já pode ser ouvida.


Moro não pode grampear Dilma em hipótese alguma. Ela tem foro privilegiado."

Moro, grampo no Aécio (PSDB) - "Na época do mensalão tucano, em 1998, quem governava Minas Gerais era Eduardo Azeredo. A Folha cita que, de acordo com informações da Procuradoria Geral da República, houve desvio de R$ 3,5 milhões de estatais mineiras para a campanha eleitoral de Azeredo." (R7)

A lição que fica é que a maioria da população ainda não se sente representada nos espaços de poder: academia, mídia, Judiciário, etc. Nossa democratização foi pela metade.
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Ato de juristas na Faculdade de Direito da USP -

Ontem (17/3), um ato histórico reuniu estudantes, juristas, promotores, defensores públicos, advogados, movimento sindical e movimentos populares no Largo São Francisco. Histórico porque personalidades que lutaram contra a ditadura falaram em "estado de exceção" e "ruptura da legalidade". Histórico porque é a elite dizendo que basta, que ninguém está seguro se forem descartadas a presunção de inocência, o direito ao devido processo legal, a ampla defesa, o contraditório. Mas quer saber? Quem sabe? O que sai no jornal é outra coisa. O que chega na massa é a versão simplória que, de tanto repetir, vira verdade. É aí que está a novidade desse golpe. Depois de lutas por voto, por inclusão social, por universidade mais diversa, agora se percebe o peso do direito à informação.

Um amigo me exclui do FB porque começou a postar coisas veementes contra a Dilma, que o recebeu há dois anos. Questionei e fui expulso. Fui expulso de dois grupos da USP imagino que por levantar o debate. Uma amiga na Europa, a quem mandei o texto acima, responde que "Lula é ladrão". Envio a matéria do advogado de defesa e uma sobre a inconstitucionalidade de Moro. Pede para pararmos a discussão. A guerra de informação está sendo travada em cada salão de beleza, em cada restaurante, em cada lugar onde tem uma TV ligada. É o ataque para paralisar.

O teor das conversas vazadas (são sigilosas, lembremos) ontem teve esse papel. O Lula fala palavrão. O prefeito diz "cidade de merda". São fumaça, mas servem para deixar as pessoas impressionadas: "Você viu o novo vazamento do Lula?". Se alguém é grampeado significa que errou, não? Se o próprio juiz divulga, deve haver algo aí...

O jurista Fábio Konder Comparato lembra que a participação popular nunca foi devidamente reconhecida e aplicada no Brasil (plebiscitos, referendos, iniciativas populares, etc.) e os oligopólios de mídia deviam ter sido controlados há anos - as seis famílias controlam tudo. "Todos os poderes deviam ser controlados, inclusive o judiciário" - afirma. Ao juiz de primeira instância de Curitiba, de quem foi pedida a prisão, foi atribuído "desprezo geral pela lei".

Sérgio Salomão Shecaira, professor da USP, fala do STF pressionado pela mídia, deixando correr o caso em Curitiba, mesmo quando, como no caso de Lula, a tese nada teria a ver com a Lava Jato. Da juíza da vara criminal de São Paulo remetendo o caso ao Sérgio Moro, "todo poderoso", sem se preocupar com as ilegalidades cometidas. "Antes dos advogados de defesa saberem do processo, a imprensa já os divulgou". O juiz Marcelo Semer afirma: "Temos de lembrar que, dos nossos 600 mil presos, quase 40% não foram julgados em última instância. Criou-se uma nova forma de prisão, a "prisão preventiva para delação". Afirmou-se que muitos juízes de primeira instância já começaram a prender indiscriminadamente. "Eu não suporto essa constituição, é só pra defender comunista e bandido - quantas vezes vocês já ouviram juiz dizendo isso?" O vazamento de conversas privadas vai contra a "cláusula pétrea" que é o direito à privacidade.

A Associação Nacional de Defensores Públicos (ANDEP) lança nota dizendo que a situação em que o processo penal e a presunção de inocência são violados deve piorar em muito a defesa dos menos favorecidos. Os 240 promotores de justiça do MP de diversos estados, que assinaram uma nota, pedem a "defesa da ordem jurídica". Os diversos coletivos de estudantes falam da paralisação da economia, de prisões ilegais e derrubada de um governo eleito. A Associação Juízes pela Democracia diz que a figura do juiz foi deturpada, deveria ser alguém desinteressado e equidistante das partes. A CUT fala de uma sucessão de irregularidades, como juiz de primeira instância destituindo ministro, detenção arbitrária, presidente grampeada e vazamentos, agressões a sedes de sindicatos e à UNE, a venda do pré-sal como objetivo maior. A Frente Brasil Popular pede que os advogados estejam na marcha, pois pode haver repressão policial. "Eles estão revoltados por assinar carteira de trabalho para doméstica. Minha mãe criou dez filhos e nunca teve carteira assinada. O que esse povo não admite é ver negro pegando avião", diz o secretário adjunto de Igualdade Racial do Município.

"Nesse país, diariamente, os direitos são violados. A PM para as pessoas na rua, as mulheres são praticamente estupradas em fila em revistas vexatórias, invade-se a casa de morador da periferia, se um PM bater em alguém será dito que houve crime de desacato, crime de dano ao patrimônio, de desobediência. O Sérgio Moro não surgiu do nada. É uma cultura de descumprimento da lei e violação de direitos que foi se instalando entre os juízes."

Como a população vai receber essas informações?


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18/3 - Você já pode ser Angela Davis -


Censura Judicial na CBN -

- "Pessoal, infelizmente após duras críticas ao Moro e ao Golpe em minha coluna na CBN, um juiz pediu cópia do áudio para abrir inquérito. A censura está começando. Preciso urgente de um contato com algum advogado de João Pessoa. Temo por arbitrariedades."

(by DCM)


José Henrique Artigas
21 h ·

Pessoal, infelizmente após duras críticas ao Moro e ao Golpe em minha coluna na CBN, um juiz pediu cópia do áudio para abrir inquérito. A censura está começando. Preciso urgente de um contato com algum advogado de João Pessoa. Temo por arbitrariedades.

Afonso Lima



19/3 - A situação degringolou, mas o povo foi para a rua.


O Ministro do Supremo, Gilmar Mendes, impede que Lula seja empossado ministro e o envia ao suspeitíssimo juiz Sérgio Moro. Aquele que vazou conversas privadas de Lula para gerar tumulto no dia da posse. (A Lava Jato diz que foi o procurador geral, Janot). Pior, colocou lenha nas ideias bem delirantes sobre impeachment.


- Para os investigadores e para a oposição, a fala de Dilma comprovaria que o diálogo é uma tentativa de Dilma de evitar uma eventual prisão de Lula. Se Moro determinasse sua detenção, segundo essa interpretação, o ex-presidente apresentaria o termo de posse e poderia se livrar da cadeia – como ministro, Lula terá direito a foro privilegiado, e seu caso será analisado pelo Supremo Tribunal Federal e não mais por Moro. (Carta Capital)


No Congresso, a Comissão de Impeachment se articula.


- PRB, PMB e Rede Sustentabilidade ainda não decidiram como votarão. O deputado Édio Lopes (PR-RR) também não definiu posição. São 5 votos que, em tese, podem definir o resultado. (EBC)


Só essa massa nas ruas pode fazê-los parar. Mas tirar Dilma agora seria ótimo para o presidente da Câmara, investigado até o pescoço.


A OAB declarou-se à favor do impeachment. Mais um golpe na Justiça.


- Em miúdos, a representação máxima dos(as) advogados(as) no país trilha caminhos que refletem a escalada visível do conservadorismo crescente em nossa sociedade. Serão três anos de presidência que sinalizam um passo atrás para os direitos humanos e um embaraço para a democracia brasileira. Mas que certamente renderão frutos eleitorais para o futuro candidato da direita do país.

(Rodrigo Lentz, Carta Maior)


Ou seja, a sociedade mudou, mas ainda estão no Judiciário pessoas identificadas com o privilégio, que não se isentam de agarrar-se em minúcias e suspeitas para distorcer a vontade do povo. Ainda, a mídia, concentrada em monopólios, gera uma histeria de massa perversa. Desde 1988 esperamos a regulamentação da proibição constitucional aos oligopólios e monopólios de mídia.

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TUCA - intelectuais reunidos contra o golpe - https://www.youtube.com/watch?v=9IwmRlY4d70


Grampos ilegais - http://www.conjur.com.br/2016-mar-16/moro-divulgou-grampos-ilegais-autoridades-prerrogativa-foro


Manifesto do Tuca - já foi assinado por mais de 700 personalidades.

A nação brasileira lutou muito para construir um Estado democrático. Em uma ditadura, o poder de Estado é usurpado para perseguir, forçar depoimentos, prender e torturar cidadãos. Uma democracia não pode permitir que os representantes do povo e os guardiões da lei ajam fora da lei. O povo brasileiro já escolheu em que regime político viver.


Antes de todos os cidadãos, os guardiões da lei – juízes, promotores, policiais – devem se submeter ao princípio da legalidade de seus atos e são constrangidos por ritos processuais. Sob pretexto de defender o cumprimento da lei, não podem desrespeitá-la. A luta contínua contra a corrupção é fundamental para assegurar o caráter republicano do Estado, mas não se combate corrupção corrompendo a Constituição.


O juiz Sérgio Moro faz da exceção uma nova regra: com a justificativa de que investiga poderosos, abusa dos poderes à sua disposição e convoca espetáculos escandalosos na grande mídia em que cidadãos intimados ou investigados, às vezes sequer acusados, não são presumidos como inocentes.


Cidadãos são intimidados com exposição espetacular de suas conduções coercitivas e detenções ditas provisórias, em operações vazadas para a grande mídia. Prisões justificadas pelo suposto perigo à ordem pública representado pelo prisioneiro tornam-se pretextos para forçar delações extraídas sob ameaça da extensão da detenção e com o prêmio da liberdade em vista. A validade dos depoimentos não é prejudicada pelo uso de métodos que se assemelham à chantagem e à tortura psicológica?


Tamanha arbitrariedade reforça e ao mesmo tempo reflete a cultura de um Estado policial que trata ainda mais violentamente os cidadãos que não considera poderosos. É uma herança da ditadura contra a qual temos que reagir.


O abuso cotidiano ficou evidente com a condução coercitiva do cidadão Luís Inácio Lula da Silva, que não resistiu a uma intimação judicial porque sequer foi intimado. Todos os anos, milhares de brasileiros são conduzidos coercitivamente a depoimentos sem serem intimados pela justiça. O juiz Sergio Moro já determinou 116 conduções coercitivas cuja legalidade é questionável. A arbitrariedade só ficou mais patente neste caso por atacar os direitos de um ex-presidente que já se dispusera a depor voluntariamente na Operação Lava-Jato.


O argumento do juiz Sérgio Moro de que a condução coercitiva buscava proteger o cidadão público beira o absurdo. Se fosse para proteger a segurança, bastava uma intimação sigilosa. Ao contrário, o juiz Moro mais uma vez preferiu o espetáculo inquisitório ao respeito da lei. A arbitrariedade de seu ato induziu a violência que dizia querer evitar, além de ser abusivo em si mesmo.


Quem vai colocar um limite à arbitrariedade do juiz Sérgio Moro? Ele e seu padrão de comportamento estão acima da lei?


O direito de todos os cidadãos deve ser garantido e não atropelado pelos guardiões da lei. Os cidadãos, as entidades e organizações da sociedade civil abaixo, subscrevem este documento em defesa da ordem constitucional e contra o golpe às instituições democráticas.




http://www.m.vermelho.org.br/noticia/277760-1
https://www.youtube.com/watch?v=CQ4h5zt82kg&feature=iv&annotation_id=55a92e8a-0000-22d9-8071-94eb2c061b6c&src_vid=-KmNR2dJHPs
http://www.ocafezinho.com/2014/01/24/petrobras-de-fhc-deu-dinheiro-a-marcos-valerio/
http://jornalggn.com.br/noticia/lava-jato-tudo-comecou-em-junho-de-2013
http://www.brasil247.com/pt/247/brasil/221218/Lewandowski-nega-conversa-citada-por-Delc%C3%ADdio.htm
http://www.cartacapital.com.br/politica/como-a-lava-jato-foi-pensada-como-uma-operacao-de-guerra-5219.html
http://www.cartacapital.com.br/revista/892/agentes-caolhos
http://jornalggn.com.br/noticia/como-delcidio-do-amaral-se-vingou-de-mercadante


http://www.brasil247.com/pt/247/midiatech/217910/Nassif-%E2%80%9CO-MPF-se-tornou-um-partido-pol%C3%ADtico%E2%80%9D.htm

http://noticias.r7.com/brasil/investigacao-sobre-contratos-de-aecio-com-empresas-de-marcos-valerio-segue-sem-conclusao-diz-jornal-15032014

sexta-feira, março 11, 2016

rota

Alguém em algum lugar
faz alguma coisa e tem
um motivo.
Os carros
velozes a noite,
chuva meus sapatos
molhados o duro mundo me
cerca

luta e a noite vazia de tudo
poesia porque existe
isso beleza?
um café quente
a minha é um tipo de incompreensão
ampla, o feio perde seu nome
é algo com três pontinhos

não posso com verso
quero abrir os átomos e ouvir o som
alguém se move no espaço-tempo
as ondas me pegam

agradeço
os mestres eles que me deram
imagens de viver rota
eu caminho pelas folhas
sim faço ver com linhas
não posso com o tempo
comum quero o belo nos dias
de guerra

alguém pula no espaço-tempo
e as ondas me
atingem beleza
é coisa de outra coisa
quando sinto o que entendo
perco o tempo, sonho o significado
quando a coisa se contempla
tocar as pobres coisas
com meu silêncio


Afonso Lima



terça-feira, março 08, 2016

Barca

Filha já com 11 anos é hora de conhecer o que teu pai pode fazer belas curvas é tanto rio tem aquela mulher que bate no menino que não vende as coisa dela mas eu não é o bingo da prefeitura é que tua mãe já fez isso é que chega o barqueiro pega teu papel anota o número de vezes e depois nós comemos é tanta curva tanto rio um dia você fica velha um dia você vai ganhar a vida sozinha. 

Afonso Lima

segunda-feira, março 07, 2016

Navio

árvores de pedra
floresta de pedra
caminha o homem até o alto
carregando as moedas no saco
trabalho vão, reinício

No templo San Giovanni o marinheiro chora
perdeu a bússola e a vela
as leis são escadas assombradas

A Rainha do inferno lhe passa a mão na testa
o mar negro no sonho
"Não tenho mais alma, eu a perdi na multidão

Paz significa cama quente e comida boa
paz significa lar, água limpa, sono tranquilo
significa a flor e a espada
não nascemos para a resignação
paz que brota com espinhos
a alma é morta quando o corpo é morto

Afonso Lima

Do deserto

Dia de chuva. Sentam no banco.
- Todos sabem que a mulher e o índio são puro sentimento, nada tendo de razão. Não podem participar da sociedade política.
- Mas o senhor acha certo levar a civilização pelo sangue?
- Eu quisera ter a confiança dos senhores de que educando a alma rude ela se civiliza...
- O tempo nos mostrou que a bruteza e a violência impedem a evolução.
- Expor doutrinas... A conversão vale a pena? Um esforço imenso.
- O índio, instável, não será convencido pela razão.
- Não?
- Antes, a ordem temporal, depois a alma.
- Imagina um cacique impedir a união do estado.
- Também nós pensamos que antes é preciso a sujeição.
- Alguns autores na capital acham que é preciso integrar. Não. Conquistar porque não há como. O deserto é uma missão.
- Muito espertos, eles têm alma. Dentro da selvageria há razão e a razão é ambígua.
- Queremos o fim dos caudilhos. Ainda desejamos a república.
- Nosso rei unificou nosso território.
- Dizem que é a raça anglo-saxônica que garantirá a civilização. Sempre carregaremos o fardo de mulheres, analfabetos e miseráveis.
Um índio corre de dois homens armados. Ele é despido e açoitado. Morre no sangue.

Afonso Lima

Drama

Você não pode me deixar. Nosso amor é maior que isso.
- Até quando eu vou aguentar? Eu faço sempre a mesma coisa.
Lembre dos momentos que vivemos. O por-do-sol na baía aquela tarde. Um amor eterno não pode acabar assim.
- Eu virei um estereótipo. Isso achatou minha vida. Todo dia, todos os anos, eu digo as mesmas coisas. Eu tenho o mesmo sentimento. Eu funcionei como um rosto bonito que desperta empatia, mas estamos reprimindo as pessoas. Estamos alimentando sua inércia. Eu quero acordar e não quero.
Seu lindo rosto, tão meigo. Somos uma só alma. Eu fui um idiota. Eu tenho ciúmes de você. Você é meu sol e minha lua.
- Escondemos algo, escondemos o conflito no âmago da vida. À noite, nós fabricamos as pessoas, a unanimidade na sala de estar. Nossos conflitos, nossos gritos, nossas lágrimas subestimam, criam uma falsa paz, não incorporam a sombra real, não ajudam a vencer, são pré-fabricados. Eu podia tomar uma coisa. Eu podia comprar outro apartamento. Eu queria uma tempestade de verdade, raios de verdade, talvez uma vida mais improvável.
A chuva nos seus cabelos. Você é uma deusa. Case comigo vamos esquecer o passado, nosso amor é para sempre.

Afonso lima

sábado, março 05, 2016

verdade

a nobreza nasceu ontem
ela suou, conquistou, tem casa própria
e defende a moral
a nobreza não quer perder tempo
a nobreza quer diversão, um copo na mão e mulherada
a nobreza quer ver GNT
aprende sobre a vida em séries de TV
é complexo demais esse lance de direitos
a nobreza acredita em vilões e mocinhos
a nobreza gosta quando se confirmam suas crenças
a nobreza não tem paciência para dados de distribuição de renda
o mapa é chato, melhor é o inseto
a nobreza pensa que tudo pode continuar como está
a nobreza tem preguiça de ver a violência mecânica
a reação é um ato de desrespeito
pax urbana, pax americana
está disposta a ceder à força para atingir a paz
a nobreza acha que merece estar tão bem
é preciso levar a civilização aos bárbaros
a nobreza não quer perder tempo com a verdade

Afonso Lima

sexta-feira, março 04, 2016

Nas trevas

os bichos azul
geométricos
e as laranjas sol
não
um café
terra e tradição
nas pinturas das igrejas
ouro preto e ócio do
luar
entre as pessoas
não há diferença
o verde segregação
do condomínio
aço-art contra
parede-pixo
quero meu direito
a digerir letras
imaginar paisagens
objeto não-desejável
instinto intelectual
de relacionar

mas em algum lugar
em algum mar alguém
a música dos bichos
o ócio como linguagem

Afonso Lima

sexta-feira, fevereiro 26, 2016

looking for an out

- Nunca te vi nessa balada. Primeira vez?
- Sim. Jonas.
- Luana.
- Legal o lugar. Pena que minha amiga não pode entrar.
- Como assim?
- Sabe, um amigo me ligou e disse: "Tenho dois convites para uma balada da hora". Perguntou se eu tinha camisa pólo. Lá fui eu mandar o figurino pelo watts. Pediu foto dela. "Acho que pra ela não vai rolar..."
- É assim. Sabe um dia vinha com uma amiga negra. Entrei e ela ficou se enrolando uma meia hora no bar. Quando foi entrar disseram: "Acabou a cota de R$60,00, agora só tem cota de R$100,00. Ela não entendeu nada e me ligou. Eu fui na recepção e disse: "Olha nem tá tão cheio aqui - acabei de entrar e ninguém disse esse lance de cotas". O cara me fala bem de boa: "Olha o público que está aqui não quer gente feia. Periferia não". Ameacei chamar a polícia. O cara riu na minha cara. Fui embora.
- Fiquei chateado porque ela trabalha comigo.
- Né?
- Eu devia ter ficado com ela.
- Vem, vamos dançar.

Afonso Lima


quinta-feira, fevereiro 18, 2016

Trecho da peça "Sphinx"

J - Seu pai está um pouco profundamente abalado nervoso cansado
A -  Lembro do dia que conheci sua mãe. Estávamos numa reunião do Partido Comunista e alguém entrou pela porta gritando: “Stalin era um nazista!” De repente, Kruschev, esse camponês bêbado, tinha destruído os sonhos de fazermos revoluções por todo mundo, salvando o mundo do fascismo e salvando a Mãe Rússia do bloqueio capitalista. Sua mãe era a mensageira e ela decidiu ir para a China entender o que estava acontecendo. Aqui, Prestes queria uma mudança pacífica, dizia que não tínhamos armas e um exército. Os cubanos ficaram putos. O Comandante chegou. Eu devia tentar embebedar e acalmar Fidel, mas a coisa não melhorou. A classe alta brasileira não era contra o imperialismo. Eram aliados, e desprezavam a massa ignorante. Sua mãe voltou com uma mensagem do Pentágono obtida pela espionagem chinesa que dizia que o Brasil devia ser ocupado por tropas norte-americanas, que instalariam uma rígida ditadura de direita” por estar “comunizado e com a maioria da população disposta à pegar em armas”. Pura ficção, mas sua mãe decidiu defender a via das urnas, entrando em choque com líderes de diversas frentes.

J - Cale a boca. 
(...)

Afonso Lima

terça-feira, fevereiro 16, 2016

Um brinde

Quando a amiga Carla observou Julio com sua casaca nova (e justa) de casamento, disse:
- Você rejuvenesceu 10 anos.
- Por que as pessoas continuam fazendo isso, se tudo agora dura 2 anos?
- Qual o motivo que teriam para trabalhar 12 horas por dia se não gastassem com alguma bobagem?

Lucas e Mauro estava cumprindo à risca o protocolo: a banda ruim tocando clássicos, mulheres em dourado e brilho em pleno dia, damas de honra em formato de bolo - exceto pelo padre. Ele fora suspenso há um mês por casar duas drag queens.

Sentara ao lado de um jovem atraente, Roberto, que estudava Economia. Então era isso que acontecia quando não se tinha Ciências Humanas.
Klim, klin, klin. 
- Eu sei que ninguém faz discursos em casamento no Brasil. Mas nós vimos séries americanas demais - disse o padrinho.
E decidiu ler um longo poema que ele mesmo escreveu sobre Vênus e Adônis. 
- Sobre que é seu romance - Roberto perguntou.
- Bem, talvez seja apenas um conto. Um escritor que, sempre que volta pra casa percebe na sua máquina de escrever um texto pronto. Por fim ele pensa que o texto é escrito pela máquina quando ele não está. 
- Ele é pobre? Quer dizer, por que não usa um computador. Ah, entendi, é tipo uma viagem no tempo para uma era antiga...
Crepúsculo, o bolo, as pessoas já bêbadas e a despedida dos noivos.
- Eu acho o Gandalf muito mais interessante que Dumbledore - disse Roberto.
- Você pegaria uma outra bebida só pra eu poder ir embora?

Carla disse no carro:
- Assim você jamais vai casar. É simplesmente injusto que vocês homens não tenham tido a oportunidade histórica de casar com babacas e morrer de tédio a vida toda. 
- Quem sabe nós nos encontraremos um dia, de surpresa, numa galeria de arte. Ele me convida para passar uns dias na casa de praia dos pais, eu vou, nos conhecemos melhor e descubro que ele não é um fascista em formação, mas um sujeito complexo, cheio de vida e boas intenções. Depois disso fazemos amor sem parar e compramos uma casa. Decidimos pagar uma festa e chamamos o padre das drag queens, e você pode fazer um discurso ainda pior do que o que ouvimos. 
- É melhor voltar à máquina de escrever que escreve sozinha.

A lua cheia parecia pequena em meio às luzes da cidade. 

Afonso Lima


segunda-feira, fevereiro 15, 2016

Alianças (trecho da peça "O Túmulo")

Como um Chefe do Estado Maior podia estar passando segredos militares aos russos? Ele descarregou a pistola em si mesmo, pressionado pelo chefe, o Barão. As relações entre este e o arquiduque degringolaram. Como o Barão foi incapaz de perceber a fragilidade de um homossexual indiscreto frente a espiões russos. Mostrava a displicência do temperamental Chefe do Estado, que, por outro lado, defendia guerras "preventivas". 

Mas o pior ainda estava por vir. A Inteligência do Império começou a desconfiar de um amigo do filho do Barão, e, depois, do próprio filho. Será que ele entrava no escritório do pai à noite e copiava os planos de guerra para entregá-los aos italianos, que os entregariam aos russos (ele tinha uma amante italiana). Perturbado, o Barão mandou que aplicassem a pena máxima ao filho. 

Havia muito medo no ar. "Um estado de menor importância pode arrastar todas as grandes nações à guerra", dizia o herdeiro do trono. A ambição imperialista, o conflito entre desejos expansionistas (no continente europeu) e coloniais pareciam prontos a explodir. Um movimento imperialista surge na Alemanha unida, disposto a rever a política de contenção de conflitos que gerara um sistema de alianças. 

O Barão e o arquiduque já não escondiam a hostilidade mútua, o Imperador tinha dificuldade em harmonizar diversos níveis e focos de poder. Nesta situação o arquiduque repreende em público o Barão por alterar manobras sem consultá-lo. Por fim, o Barão é demitido e tudo parece se encaminhar para mais meio século de equilíbrio precário baseado em tratados e diplomacia. 

O assassino do arquiduque diria: "Como herdeiro, ele teria impedido a união dos oprimidos, teria feito reformas". 

Afonso Lima

quinta-feira, fevereiro 11, 2016

na rua

hoje os anjos abriram suas asas
se consolam uns aos outros
a cidade não tem tempo para crises metafísicas
nós estávamos nas ruas
batuque

meu preto hoje não vai trabalhar
gravata, sapato marrom
é o dia de ser pornográfico
como drummond
inteligente meu preto
sabe da minha fome
hoje, minha pele mastiga
seu prêmio no meu seio
a palavra secreta

molhados pelo cordão
meu preto de chapéu
mãe oxum mandou chover
a cidade despertou

dia de nada luz
preguiça na cama macia
meu preto deixa o livro
é na pele que se sabe o coração

Afonso Lima


No topo

eu estou na piscina.
essa é a prova de que eu estou certo.
no fundo, vocês não importam nem um pouco, antes de poderem entender, já sentamos na mesa com quem manda e obrigamos que faça o que queremos.
não precisamos ser humildes.
eu sei quatro línguas, não vou ser governado por um sindicalista analfabeto.
gosto de ver as montanhas do meu café da manhã, gosto do que é bom, ouro, vinho e mulheres caras.
eu compro, sou um vencedor.
eu sou útil e é por isso que me pagam bem.
outros como eu só comem, bebem e fodem, eu trabalho.
não vivo num mundo de sonho, vencem os piores.
o lobo é o lobo do homem, eu sou o lobo com sangue na boca.
eu sei que esse preto com uma 38 vai me matar se puder; repressão preventiva é meu lema.
eu jogo tênis, meu carro brilha, tenho uma mulher magra e loira (também criada nos melhores colégios e que sabe comprar roupas, ter filhos e contratar babás) para andar comigo de capota aberta.
para mim só há uma forma de lidar com essa gentinha: eu falo de empilhar seus ossos.
se a luta é inevitável, e os melhores sobreviverão, eu bebo desse cálice amargo.
eles são maus, são burros e a agressão é a melhor defesa.
sou um gentleman inglês, um gangster, eu amo minha empresa e sonegar impostos. Paraísos fiscais é meu segundo nome.
um anel de diamantes, um relógio de ouro branco, praia privativa, eu sou feliz.
eu sei que vocês gostariam de influenciar o poder. eu sei que gostariam de falar, de ter mais "visibilidade".
vocês apresentam dados, fazem passeatas, vocês até têm sua mídia "alternativa" para mil pessoas. coitados.
não será o caso.


Afonso Lima







apropriação

- essa joia é da minha mãe.
- e esse colar?
- não estou entendendo, você sabe por que estou aqui?
- sei, sua cidade não existe mais.
- então?
- eu sou um funcionário...
-  e meu celular? vai levar meu dinheiro?
- se não gosta, fale com um deputado.
- eu devia ter ido para outro país. minha cidade inteira...
- não venham...
- agora, é um monte de pedras... bombas, bombas terríveis.
- não pensem num futuro aqui -
- não existe, está silenciosa como um cadáver.
- essa é a mensagem. somos um país pequeno. se você trouxer sua família...
- os soldados dizem que se não mandar dinheiro eles serão sequestrados.
- você vai receber uma bolsa. houve cortes.
- então?
- e esse colar?

Afonso Lima


domingo, fevereiro 07, 2016

à maneira de maupassant

"Conto à maneira de Maupassant" - diz o russo no subtítulo de seu conto "O assassinato", acrescentando - "Uma história real".
Tolstói fez, em 1892, uma versão do conto "O condenado à vida", do francês Guy de Maupassant, de 1883. Temos algumas linhas escritas nas margens, que parecem situações imaginadas para serem inseridas, mas nenhuma delas está na publicação. 

Assim, frases como "Os juízes eram elegantes, houve jurados, procuradores, discursos e, com toda a pompa se decidiu pela guilhotina" ou "Na Alemanha, depois do duelo entre um barão e um burguês por causa de jogo, os principados desistiram de ganhar com o azar" (cuja inserção é assinalada com *) - não parecem encaixar no todo. 

Vejamos as duas versões:


"A ilha não possuía muito de onde tirar sua fortuna. O monarca vivia com relativa modéstia, em comparação com seus parentes do continente. Quando o juiz condenou o réu à morte*, não imaginava como seria custoso trazer da França uma guilhotina. Pensou-se em várias formas de matar. A forca: não haviam homens treinados e o espetáculo poderia degenerar em miserável tortura. O veneno: os especialistas moravam longe e queriam hospedagem para a família. A morte por afogamento: uma lenda de um assassino de séculos passados, que teria voltado, ainda deixava as pessoas arrepiadas. O que fazer? O jogo era a única fonte de renda do pequeno reino*, e o monarca se viu forçado a prender o homem numa cela, mas a troca de guardas era constante. Feitos os cálculos, uma pensão vitalícia soava muito mais razoável. Foi assim que o reino de Mônaco acabou trocando a pena de morte por equilíbrio nas contas". 

-

"Era deprimente ver o rei assim abatido. Ninguém queria fuzilar um homem por tão pouco. Ele mesmo chegou a ir ao cárcere de pistola na mão, disposto a dar fim no caso. Mas... E se errasse o tiro? A fidalguia não acobertaria um vexame assim na Europa. Já não basta chamarem o reino de "aldeia"? Já não basta dizerem que alimenta sua corte e exército com a roleta? Que fazer, se entre o imposto pouco e a briga do jogo, vale mais a segunda? Mas não havia como matar um sujeito sem importar coisas, pessoas, importar até essa coragem. As técnicas haviam avançado. Estávamos num século da lei e da ordem. Ninguém ia enfiar uma faca no homem sem uma certa formação. Ainda, muita gente achava que a liberdade era incompatível com um "estado". Tudo era dívidas e, com tanto luxo a ser vendido e comprado, os ricos desgostavam de obrigações. Na última montagem, a Ópera parecia bem pobre. Pensaram, pensaram. O criminoso foi solto na montanha. Voltou em uma hora, não tinha como viver escondido em reino tão pequeno. Tentaram colocá-lo num navio. O capitão avisou que a imprensa queria embarcar junto, o que tornava o caso impossível. Já se falava em revolta por medo de novo imposto. A corte começou a fazer doações para que se conseguisse um carrasco. Nesse momento, alguém fez as contas e percebeu que uma pensão e uma terrinha no cafundó ficava bem mais em cota. Assim, assinaram o contrato e acabou-se a pena de morte." 


Afonso Lima

sábado, fevereiro 06, 2016

Bem nascidos

- Os ricos são aqueles que venceram a luta, são os melhores - assim disse o Doutor - Mas com a guerra, os inferiores querem entrar e dominar nossa raça, fazendo involuir a nossa sociedade. 
Estávamos sendo treinados para o maior projeto de esterilização que o país já conhecera. Grandes corporações industriais financiavam o projeto. 
Algumas experiências mais ousadas eram conduzidas pelos institutos  alemães, mas a Fundação pagava. 
Nosso Teste Comparativo de Inteligências (um sucesso com os deputados republicanos) podia detectar os indivíduos dependentes e improdutivos. 
- Os operários têm mentalidade comparável a um menino de 10 anos, os universitários a uma pessoa normal. Não se poderia querer um diploma para eles, como os de vocês, e uma casa como a de vocês, porque a natureza mostra uma diversidade incrível de capacidades. 
Eu fui treinado para levar a "boa nova" a grupos de intelectuais, empresários e cientistas na França, na Suécia e na Alemanha. 
Depois disso, voltei à Europa como secretário do governo. Aprovamos no Congresso leis de controle de natalidade, imigração e esterilização. 
Infelizmente, enquanto o Doutor recebia medalhas do Consulado Alemão, e verbas do petróleo, chegaram notícias ao serviço secreto sobre perseguições aos judeus. A lei impedia que alguns deles ficassem, e muitos foram mandados de volta à Alemanha. 
Amigos nos avisaram que, se fosse declarada uma guerra, seríamos vistos como inimigos pela opinião pública. Trocamos de nome e fomos viver no interior. 
Hoje eu crio animais (recebi um cheque da Fundação) e sou casado, ironicamente, com uma judia. O Doutor desenvolveu uma forma estranha de catalepsia, misturada a episódios de epilepsia.
Ela recebeu até a morte uma pensão do governo. 

Afonso Lima




quinta-feira, fevereiro 04, 2016

porto alegre


Eu vejo na frente do mercado público, no largo ao encontro de duas avenidas, bandeiras, grupos, são sindicalistas, movimento afro, ecologistas, professores, feministas e estudantes.

Por algum motivo lembro de Dyonelio Machado, que fala no mercado, o café, o escritório.
A porto alegre de Dyonelio tem um traço fresco, leve, com sobrados azuis e bondes que soltam homens alinhados de chapéu.

Nada mais terrível que o processo de viver dentro do limite, mas há poesia na mente que voa, que luta, no olho da mente. É "outro estado de consciência", como se diz do texto de Henry James, mas reto e firme. 

É uma cidade cheia de prédios antigos, cheia de parques, com comércio em pequenos prédios na rua, também melancólica, falta a saída rápida das megalópolis, mas cria espaços, tem momentos de generosidade, conversa folgada e relações livres do combate. Anota.

“A tia coloca chocolates e aveia na mala, não vai ficar sem comer. Cuidado com o carregador do celular, não vai esquecer, tão desligado esse menino.“

Uma cidade barroca, com amplos passeios, grandes árvores, na qual o sonho parece uma névoa que confunde realidade e imaginação, associações e passos. Onde o cais e os navios são ao lado do exército e dos longos degraus da Nossa Senhora das Dores. O sol se põe na água.

“Na casa do pai fica uma semana. Precisa de coisas novas, aprender, se não fica triste. Quer ajudar na fabricação da mesa, não faz certo, ouve o pai pensar 'se ao menos ganhasse bem'. Quer dizer que ganhou algum dinheiro alguma vez com seu trabalho, fica mudo.”

Dyonelio era criança quando seu pai foi assassinato. Trabalhou desde cedo e, para poder estudar, dava aula para os colegas. Veio estudar medicina em Porto Alegre e divulgou a psicanálise no estado. Foi preso, como membro do Partido Comunista, por ajudar a organizar uma greve. Tornou-se deputado em 1947. 

Sente-se confortável, boas instalações, um auditório lotado, caminha até o fim da rua central, sobe a lomba, observa a movimentação que tem algo de calma. Os arcos do viaduto, o dia está claro, vê-se o lago. Você não verá o homem velho de chapéu e bombacha olhando o horizonte na praça central, nem a galinha no quintal em casa do centro, o atendente de supermercado suíço. Aqui, os ambulantes sorriem, a pintura de rua faz companhia aos cafés, um filme cult fica ao lado de Stars Wars.

"Anda de carro com o pai, vão à orla, gosta de ver o 'braço de mar' com as pessoas correndo, flores, caminhos de pinheiros, crianças, 'aqui a prefeitura trabalhou', o sol se esconde, chove". 

Então não era mentira, toda aquela coisa de geleiras derretendo e neves eternas evaporando, o branco brotando e a “economia baseada em destruição”.

Depois da tempestade, que devia ter nome mais medonho, copas e galhos cobrem o chão do parque, os troncos quebrados mostram que a poda foi violenta, algumas árvores bem grossas exibem as raízes e as pessoas tiram fotos. Há três dias se junta destroços.
Escrevo. 

“Aquele dinheiro todo no banco. Metade custa esse Hesíodo. Mas é a tradução nova, fundador do Ocidente. Ou será Homero? A verdade é que tem dinheiro prometido, na nuvem, para precipitar. Tem duas moedas, entrega uma no café.”

Vamos, é preciso fechar a mala, lembro do dia que decidi poupar dinheiro, o ônibus com os personagens – o zelador, a senhora japonesa, a baiana que vinha conhecer Gramado, o operário de sessenta anos que ganhou uma miséria para ir até Manaus servir o banco, poupava nos lanches. Depois de doze horas usa a mente para o cimento encolher. 

"Ele sonha: são trinta e seis degraus na escadaria das Dores, vê uma criança cair, não sua tia é que conta o sonho, põe uma mão para a cabeça não bater no degrau. Andam pela cidade à procura das pessoas desaparecidas. Chegam a um local de cerimônia, um homem desenha com tinta preta em um papel, o símbolo parece um círculo". 

No aeroporto, as pessoas sérias, frias, tenta um sorriso na porta do banheiro, improvável. Pelo menos um amigo no banco 12 A.

“Vai na praia, ônibus, a ilha, passa as pedras, uma vida toda em uma tarde, fez um job. Depois de tantos apertos, um dia de rei. Sua.” 

Pensando bem, não viu um policial na rua. Uma notícia de que um centro cultural em homenagem a um poeta está fechado, o governo não pagou a segurança. Agora está na avenida, luzes brancas, o vermelho do carro da polícia, uma faixa negra, eu não roubo merenda, não sou deputado, trabalho todo dia, não roubo meu estado, um homem grita "esses vagabundos", enquanto venda balas. Um morador de rua coloca seu papelão num degrau. Ciclistas se preparam para uma ronda. Um torre com jatos de neon azul. 

"a revolução, disse senhor Adams/ ocorreu na cabeça do povo" (Pound)

Afonso Lima

segunda-feira, fevereiro 01, 2016

Ela

ela me conta assim:
eu nasci numa favela, um cômodo de madeira, sete pessoas, pia, fogão e camas.
ela fala da mãe com emoção:
ela me disse aos seis anos você é um menino, não pode querer presente de menina, você tem tico.
essa imagem, eu tento pensar no edredom, eu respiro fundo, um cachorro late, o silêncio da noite, a luz dos postes na parede:
depois o pastor me trancou num quarto escuro. ele dizia que eu tinha que ser diferente, eu tinha que honrar o que tinha no meio das pernas, se não eu ia sofrer, eu viveria carregando uma cruz que é a cruz dos que querem ser diferentes, iam me apedrejar na rua e pedra machuca.
eu aceito, ela é loira, ela me conta assim na escuridão:
eu apanhei feito bicho com dezesseis anos, diziam que eu era um arrombado, viado, eu percebi que queriam me obrigar, me forçar a ter vergonha, me forçar a ter medo a violência da palavra.
amanhã, aguarde, a cama é quente, ela é mais forte:
o centro é violento, eu ia tirar minha vida, eu ia me dar fim não era por causa de mim, não por me achar errado, era que eu não podia pensar que minha mãe pensava que eu era ruim, mau-caráter, que a culpa não era de deus, da natureza, de quem fez ovo virar gente.
aceito a luz, olho pela janela, a rua está deserta:
eu sigo meu caminho.

Afonso Lima

Passeio na livraria

A atendente da livraria diz: "Aqui na cidade, vende muito literatura russa".
É um chalé de vários andares, madeira escura, janelas verdes, art-nouveau, construído para ser livraria. Várias estantes com "Literatura Russa", escrita em gótico. No último andar, fotos da Revolução de 1923 e a neve tomando conta dos campos - pessoas sob grossos palas. Lenço branco contra vermelho, o republicano autoritário e o acordo assinado no castelo do "liberal". A guerra começa com um longo poema em que o partido latifundiário chama o ditador pelo nome de um pássaro carniceiro. "O sangue manchava trincheiras, calçadas, portas e o salão da Intendência" - disse Flores da Cunha.
Lembro de uma professora comentando que o livro "Pais e Filhos", de Turgueniev, de 1862, foi acusado de criar um movimento niilista ao criar essa palavra. Um livro ("O que fazer?", de Tchernyshevsky), sugeriu, na época do czar, que patrões podiam ser esquecidos, inspirou Marx e Lênin e foi responsabilizado por iniciar a Revolução Russa de 1917.
A cidade é pequena, pinheiros, poucas lojas, um lago. Um sebo, há 50 anos as pessoas tinham Maeterlinck e Schinitzler. Muitos livros em alemão. E as pessoas gostam de Tolstói.
Mas, uma notícia, agora, me esclarece alguma coisa.
Em Sverdlovsk, dois amigos começaram a beber numa noite fria.
O que é a verdadeira literatura? "A única literatura verdadeira é a prosa".
Um deles é ex-professor. Poesia. Uma paixão, vira faca.
Um ano antes, quem ama mais Kant matou outro homem.
Observo a neve no campo. Eu desconheço essa gente. Os russos não brincam.
Meu amigo judeu também veio da Rússia.
A névoa desce sobre a cidade.
Um pouco impressionado com um mundo onde as ideias são levadas à sério.

Afonso Lima

domingo, janeiro 31, 2016

Um romântico

A primeira parte do conto está datilografada em folha branca, retocada à mão e acaba na página 20. Uma curta anotação prevê o final em que "o homem casado, de linhagem nobre, apaixonado pela jovem funcionária da cinzenta burocracia austríaca, desesperado, mata a si mesmo".
Com certeza foi escrita em 1933, pois em uma carta para o amigo Erich Ermer afirma estar "paralisado quanto ao final da novela sobre a jovem paralisada pela guerra e pela miséria, amada por um homem casado, que observa os ricos sentados à mesa do chá, dançando e namorando, enquanto as pobres almas sofrem".
Nessa época os cristãos no poder, com as tropas governamentais, haviam tentado eliminar as ligas social-democratas, e uma breve guerra civil teve curso na Áustria.
Ele teve sua casa revistada. Chocado e prevendo um futuro demoníaco, guarda seus papéis e pensa em viver no exterior.
Em Londres, com sua jovem esposa, continuou o conto.
Nesta versão, o homem, que fora herói em 1918 e sofria as angústias do trauma, sentindo-se parte de uma geração traída em seus ideais, odiava o Estado e todas as suaves despreocupações de sua casta e acaba propondo um pacto de morte a sua jovem amante, que tampouco se sente parte da prosperidade e progresso do pós-guerra.
Dez anos depois, em 1942, frente ao avanço nazista em todos os fronts, prevendo o ostracismo de um escritor judeu, após sofrer ameaças antissemitas e tendo esfriado a relação em fria apatia, deixou o mundo com sua esposa. Sua versão do romantismo, niilista, melancólica e preocupada com a desigualdade e o sofrimento do mundo, foi celebrada crescentemente no mundo todo.

Afonso Lima




Jornada

Onde está essa criança?
Ela não está mais lá.
Ela caminha com fome por alguma rua na qual, em um café elegante, ouve-se um piano?
Ela é obrigada a trabalhar e dorme sobre papelão no fundo de uma fábrica suja?
Ela foi levada por um homem de casaca preta para um bordel e é dada a homens perversos?
Ela foi acolhida por um casal bom e recebida por parentes?
O policial tentava convencer o secretário da gravidade da situação.
Ela foi registrada, ela entrou num abrigo.
Não sabem falar sua língua. Durante o dia, têm de ficar fora do abrigo por lei.
Ela enfrentou o frio. Eles têm febre, seu tio morreu caminhando na neve.
Quando tinha febre, seus pais cuidaram dela.
Eles não podiam ficar no hospital, eles tinham medo de que a fronteira fosse fechada.
Eles não morreram afogados.
Mas algo aconteceu.
Eles não estavam mais lá.
O pessoal do abrigo nunca. Se houve alguma violência, eles não estão preparados.
O secretário disse que chegaram mais de um milhão de barco esse ano, se não sabemos onde estão, nem por isso estão sendo explorados sexualmente.
O policial observava a foto de seu tio, vestido em uniforme azul, pronto para defender a pátria na Primeira Guerra. Morrera na fronteira.

Afonso Lima

sexta-feira, janeiro 29, 2016

uma noite de vinte anos

Esse lambedor de bota, esse torturador vir aqui dar palestra na terra de Jango, na terra de Brizola, na terra de Getúlio, que deus o tenha, eu estava no Palácio nas 11 noites em que o governador Brizola lutou com a arma que tinha, o rádio, para defender a pátria da gang da UDN e dos militares, quando veio o golpe, o comandante do terceiro exército era o marechal Machado Lopes, um carioca sério e culto, estava indeciso, queria apear, disse na reunião sou um homem de cabelos brancos e 63 anos, não posso começar uma guerra, o general Peri Constante, de Santa Maria, disse, o senhor vai ficar aqui e manter a ordem, faz 40 anos que defendemos o Brasil e não é agora que vamos fugir, o Lopes chorou, e de Brasília vieram o chefe do Gabinete da Guerra, e os comparsas, para bombardear o Palácio Piratini, mas os soldados da base aérea se negaram a voar, desligaram os motores, e Brizola no microfone no porão do Palácio, venham, vou resistir nem que seja só eu com minha família, só o povo me tira ou a lei, e os homens diziam, só por cima do nosso cadáver, um voluntário armado e de bombacha disse para um tenente que queria ir em casa ver a família, o senhor é pago para brigar, eu sou um patriota, o senhor fique aqui apoiado nesse saco de areia e pronto para atirar, e veio uma tropa da Serraria com tanques velhos e se pensou se era para prender o governador, e o coronal Machado parou com um carro na frente dos tanques na Catedral e disse, Qual a missão?, Viemos defender a legalidade, disse o comandante, o povo em frente ao Palácio, Tancredo resolveu o caso tirando o poder do presidente, o Jango veio da China, tinham dito que se pisasse no Brasil seria preso, veio pela França e pelos Estados Unidos ao Uruguai, Vamos lutar, o general Osório já está em Ourinhos com 200 caminhões e 11 trens, disse o governador, mas ele era um homem pacífico, e a frota americana já estava ancorada, Não quero derramamento de sangue, o mesmo que disse três anos depois, e foi nisso que veio uma escuridão de 20 anos e tantos jovens, lembro do homem das mãos amarradas, soldado Manuel Raimundo Soares, pai de família, mergulhavam os caras com as mãos amarradas de cima da ponte e alguns morriam afogados, esse foi o primeiro a aparecer o corpo com as mãos amarradas, o presidente da Assembleia abriu audiência pública, foi destituído, mas tiveram que ir na audiência pessoal do DOI-CODI de Porto Alegre e exército, ninguém viu nada, foi a viúva com quatro filhos pequenos, ela disse que sabia que o marido foi torturado 111 dias, e foi o primeiro caso que ficou na garganta do Rio Grande, agora vem um safado desse desonrar nossa Assembleia. 

Afonso Lima

quinta-feira, janeiro 28, 2016

Baiano Cândido

Ele me contou que desceu em direção ao comércio de Pinto Souza, mas teve de parar perto do rio, que estava pra lá de cheio. Um cidadão o hospedou. Disse ter medo do tal Baiano Cândido, de quem tinha ouvido dizer ser bandido feito.
- Esse foi um dos baianos que desertaram na Guerra do Paraguai e gostaram dos campos do sul - disse o dono da casa. Ficou nessas bandas, no morro da caveira. Era um homem que foi degolado e preso pelos braços e morreu jurando que não era maragato. Os coronéis desciam 500 cabeças da serra e voltavam 200. Essa gente pobre matava pra comer. O coronel se enfureceu e mandou um espião que disse ter matado gente dele para se infiltrar. Ele mesmo matava gente pra ficar com as terras. Não se enganaram com o peão trapeiro, isso é cobracriada diziam, um dia ele ficou sozinho na casa e matou a tiro um dos baianos. O outro chegou e ele disse: disparou sem querer, Eu também sei disparar sem querer, lá se foi o cobracriada. Depois o coronel chamou soldados da capital, que fizeram uma tropa com bombacha velha, chapéu e carretão, fingindo buscar aguardente, mandioca e rapadura lá em cima. Mas o espião do baiano sabia e mandou avisar. Quando chegaram por começo desse rio, recebeu o capitão bilhete escrito no couro (o baiano era o único que sabia ler) Estou ciente da sua missão, volte que garanto sua vida, Baiano Cândido. E voltou sem meias palavras, e a fama se fez pelo mundão dos pampas. Agora ninguém sabe onde vive e virou herói das bandas da caveira. 
No outro dia, pela tarde, o rio dando passo, seguiu marcha até o comércio de Pinto Souza, que lhe disse:
- Fugiste na toca do bicho e o bicho não era tão feio.

Afonso Lima

quarta-feira, janeiro 27, 2016

Aniversário

A festa estava se arrastando e eu esperava carona. Comecei a conversar com uma senhora loira, muito bem vestida, mas que parecia tímida e distante. 
Falamos sobre o buffet e alimentação. Ela disse ser funcionária de um banco. Estava afastada. 
Comentei: "Comentei esses dias com um amigo: agora sou eu que faço o trabalho. Agora, eu trabalho para meu banco".
Ela acabou contando sua história: 
- Eu era apaixonada pela minha empresa. Eu amava minha empresa. Mas quando batia uma meta, surgia outra. Por um tempo, eu resisti e venci. Eu comecei a desistir, a adoecer. Vieram as demissões. Trabalho por três. Chorava sem motivo. Não queria me alimentar. Tinha medo de ser demitida. Pensava em pedir demissão. Esquecia coisas, quase bati o carro. Tinha ideias suicidas. Psicólogo, psiquiatra, analgésicos e relaxantes musculares. Antidepressivos, Ansiolíticos, moduladores de humor. Tentei o suicídio. Síndrome de esgotamento. 
Quando alguém nos chamou para cortar o bolo, ela me deu seu cartão. 
- A verdade é que vivemos numa sociedade autoritária.  
Cantamos parabéns, enquanto eu pensava que também me sentia humilhado no meu trabalho. 

Afonso Lima

segunda-feira, janeiro 18, 2016

Um museu de província

Fui contratado como tradutor numa conferência da ONU em Montevidéu. Decidi ficar num hotel menor, onde poderia ler e escrever à noite. Esse hotel parecia muito decente, com sua estátua de Vênus, o quarto parecendo a cela de uma prisão, com espaço para pouco movimento, um armário trancando a porta do quarto conjugado e pombos que vinham na janela. Além disso, ficava ao lado de um cinema, parecia que estava num filme preto e branco dos anos 1950. Alguns filmes antigos me fizeram companhia. 
Meu conto começou quando lembrei de uma série de fotos que um amigo artista plástico me mostrou. Seus quadros representavam uma antiga casa de província, salas vazias, a luz noturna que penetrava de uma fonte externa. Ao longe, a figura de uma mulher. Eu imaginava uma mulher que chega a um museu de província e percorre sozinha essa exposição, e de repente percebe que aquele lugar foi retratado nas imagens, e é como se notasse a presença de dois universos paralelos, cada um com um conjunto de leis, um tempo e um espaço. Ela chega a duvidar qual deles é mais real e por fim entra dentro do quadro. 
Eu fora praticamente obrigado a convidar um colega datilógrafo que se ofereceu para tomar alguma coisa comigo num dos bares charmosos da vizinhança. Eu suspeitei que depois de alguns copos, com imensa vergonha, ele me pediria dinheiro, ganhavam muito mal. Contei-lhe sobre meu conto. Ele disse que, certa vez, foi a um museu longínquo muito semelhante ao que eu descrevia. Lá, observou uma mulher imóvel frente a um quadro que retratava uma mulher de costas num aposento no qual apenas uma cadeira e uma mesa recebem uma luz forte. Imaginou se ela perdera um amor, se perdera um filho. Imaginou que ela decidira sair pelo mundo de carro, chegar a um povoado distante. É como se a realidade fosse assim, algo forjado, é como se ela estivesse em outro tempo e espaço, é como nesses hotéis profundamente silenciosos, nos quais não se hospeda quase ninguém, e que têm uma porta bloqueada por um armário, ao invés de simplesmente uma chave, ele disse. 
Ao acordar, na minha cama, pensei ter vivido um pesadelo. Faltava algum dinheiro em minha carteira. 

Afonso Lima

sábado, janeiro 16, 2016

VS

"Ela estava conosco há doze anos. Ela viu nossos filhos crescerem, ela os alimentou. Ninguém como ela sabia fazer uma cama, preparar um jantar para convidados ou lavar um pátio" - Dona Isis estava transtornada. A empregada desaparecera com uma pulseira de safiras. 
Ela correu, saiu da cidade foi procurar O Grupo.
No centro da imensa floresta de Vorlen existe um grupo de pessoas que não usa as palavras comuns. Conseguiram bloquear a conexão que apresenta a realidade com comentários simultâneos. 
O Vocabulário Seguro (VS) foi criado (e é administrado) pela empresa OYEON para o governo depois da Lei Preventiva do Terrorismo (LPT) ter sido aprovada. Para o governo, uma mentalidade compartilhada é a melhor forma de prevenir "desvios, ilhas de irracionalismo e lobos solitários contra a ordem social". 
A mulher chegou na região onde se encontrava O Grupo. Foi presa e levada ao Conselho. Todos estavam na cerimônia que celebrava o acasalamento dos mamíferos, os sacerdotes usavam máscaras de crânios e todos vestiam capas coloridas costuradas com ossos. Contou sobre seus anos de trabalho e entregou a pulseira como prova de que se arrependia. 
"A realidade foi censurada pela mentalidade racionalista burguesa do Ocidente" - disse o Chefe.
"Você será morta pela Lei de Vorlen a menos que um sonho profético a salve enquanto estiver presa dentro da caverna branca". 

Afonso Lima

quarta-feira, janeiro 13, 2016

Repressão


Vocês sabem todas as respostas
Mesmo assim, não chegarão ao lugar certo
Essas ruas são para circular
Cada cartão de crédito é único
Cada carro, cada família e o conforto que compra

Temos uma plano de terror, nessa fábrica
Vocês serão cortados, calculados, reconstruídos
É a ilha do medo e vocês serão muito felizes

O olhar perdido, o voar no azul
A face no livro, a tentação do antigo
A corrida pela imobilidade, a liberdade de refletir
Serão esquecidas

Cada um deve pagar a conta em dia
Não olhem o horror, não olhem nos olhos uns dos outros
Cada um deve pagar pelas gotas de chuva
A vida toda é medida e o infinito está morto

Se vocês abrirem as asas, se vocês criarem coisas
Se vocês forem estranhos, se vocês contrariarem seus pais
Se vocês ficarem juntos
vão comparar pedaços de verdade
e serão fortes

Afonso Lima



Yzzi

A realidade é absurda, não há dúvida. Nessa época, a Chambre ardente, um grupo especial da polícia destinado a investigar subversivos, sinistramente levara ao forno um número considerável de autônomos, sem que a defesa pudesse sequer ter, de forma adequada, acesso aos processos. Yzzi era um autônomo que vivia comigo desde que meus pais se separaram. Tive meu primeiro espasmo genital com isso. Quando eu era criança perguntava à minha avó, japonesa, se autômatos tinham alma e ela dizia que sim: "Tudo é feito de quintessência". Logo que Yzzi entrou na seita, eu o segui. Cultuávamos os espíritos dos que haviam sido descontinuados. Estávamos uma noite num bar, a polícia fez uma batida, o policial implicou com um amigo de Yzzi e o empurrou contra a parede. Isso reagiu, foi levado. Meus gritos nada adiantaram. Eu chamei um advogado, comuniquei aos outros adeptos. Todos tinham medo. Ele estava desaparecido. Comecei à evocá-lo através da meditação. Eu cantava os hinos, fazia os rituais, jejuava, tentava transcender as aflições da visão e algumas vezes sentia a dor física de abandonar o corpo e alçar outro círculo, sentia estar enlouquecendo, eu precisava crer que sua alma estava em outro lugar. Foram meses nesse processo, por fim senti ser acordado por uma figura estranha, uma espécie de homem sem rosto, e conduzido por uma escada até um monte muito alto. Yzzi estava lá, sentado em um jardim, tocava sua harpa. "Então é verdade que não somos descontinuados" - eu perguntei. Fomos cercados por seres estranhos, pareciam metade homens, metade animais. Eles me falaram sobre muitas coisas, entre elas a origem da Chambre ardente. Ao acordar, perturbado, procurei a senhora Zurara, escritora de romances heroicos, conhecida por sua força moral e influência sobre o rei. Foi assim que a Chambre  foi derrotada e seu líder preso. Mas, infelizmente, as visões não cessaram e acabei sendo sendo internado durante dois anos. Pelo menos eu sei onde isso está. 

Afonso Lima

terça-feira, janeiro 12, 2016

Valentina

Tenho certeza de que com esse testamento frustrarei meus mais próximos parentes, meus sobrinhos e minha irmã, meus amigos queridos e minha companheira de últimos anos. Nada posso fazer. Ainda penso em Valentina, ainda vejo sua pele branca, seu suave sorriso. Ela gostava de caminhar no parque e lá íamos nós em dias de primavera, eu, um velho, ela, toda alegre com seu rosto de menina. Era filha de polacos e italianos, do sul do Brasil. Fazia universidade. Seu abraço me consolou. Nossas conversas me faziam compreender melhor as mulheres, ela argumentava com espírito, era inteligente. Valentina foi a mulher mais pura que eu conheci e sofri muito o dia que encontrou seu “príncipe”, um vienense safado, que nunca me enganou. Não podia desfazer seus sonhos, mas coloquei gente para o espionar. Era um criminoso. Ela me avisou que, ao noivar, nossa relação mudaria. Eu ofereci a ela tudo, ofereci mesmo deixar que vivesse onde quisesse, mas ela estava apaixonada. A última vez que a vi foi no parque, ela pediu que eu levasse seu livro favorito, Madame Bovary, que ficara comigo. Não foi amor, mas essa garota de programa marcou minha vida. Chorei como um menino. Deixo aqui tudo que sei sobre ela, eu deixo tudo para ela, peço que a procurem, que a façam feliz, e que eu, agora morto, possa louvar essa amiga, essa companheira, essa menina que com coragem enfrentou o mundo.

Afonso Lima 

Mensagem

Eu não sei o que é a verdade
O que eu tenho para dar-vos
É meu coração cheio de dúvidas
É a certeza de que ninguém vive sozinho

Não tenha tantas certezas
Não acredite no que é óbvio
Não ache que sabe o que deve ser feito
Geralmente é apenas inquietação

O mais produtivo seria matar todos os pássaros
Que vivem à cantar inutilmente
O mais produtivo seria congelar o mar
e vendê-lo em pequenos pedaços

Até mesmo Lúcifer teve seu motivo
Para negar-se a cair aos pés de Adão
Uma paixão impiedosa esconde outra coisa
A vida geralmente nega toda razão

Eu não sei o que é o certo por certo
O que eu tenho para dar-vos
É minha esperança em novos caminhos.

Afonso Lima 

domingo, janeiro 10, 2016

Jardim


Sem nau e sem mar
Sem mortos sem sol sem profecia
Sem nostalgia de mágoa pouco sentida e sem
Perdão do dia

Meu mar, vinho e nevoeiro
Minha rua solitária, minha adoração do bonde
É canto de desconfiança, meu deus oculto não é
Uma lista de dogmas, Darwin já morto
Esperto demais para dormir em brancos lençóis
E só

Ainda, a beleza
Água cai do céu, uma semente
cachos, espigas, jardim
O calor do sol e a vida
Uma mensagem de esperança
Mesmo fracos e incoerentes
a compaixão em botão

Teus olhos não enxergam
Teu coração é gelo afiado
Presunção sai de tua boca
Desprezo pelo que é vivo

Quando o olhar pacífico de um cordeiro
Se une por riscos e certeza
A um braço aberto de gente adulta
É o que o chinês chama de beleza

Afonso Lima

sábado, janeiro 09, 2016

O Paraíso

- O que você faria para assegurar o Paraíso? – perguntou o jinni.
- Eu cometeria um crime – respondeu o homem. Era o herdeiro de poderosa casa comercial, casado com lindas mulheres e percorria os desertos até a Síria em caravanas louvadas por todos.
- Que crime?
- Eu mataria um parente.
- Que parente?
- Um primo?
- Quem mais?
- Um irmão.
- Uma esposa?
- Sim – o homem tremeu.
- Uma esposa, uma filha, uma mãe?
Ele pareceu duvidar.
- Sim. Mataria todos sem hesitar.

O jinni o envolveu numa nuvem de ouro e ele passou a viver perdido no paraíso de sua ilusão.

Afonso Lima 

domingo, janeiro 03, 2016

Uma noite de lua

A tribo vagava percorrendo vastos territórios, fazia guerra em caso de fome, seus poetas falavam sobre as glórias da batalha e sobre o veludo, o ouro e os perfumes que viajantes encontraram em terras distantes. Mas faltava algo. O chefe pediu ao seu homem de confiança que descobrisse porque os homens caiam em melancolia, suspirando sob a luz da lua, chorando escondido, vagando pela noite do deserto, às vezes sem retornar...
Um dia ele reuniu os líderes da tribo e disse:
- Por que existe o céu e a terra? Como deve o homem guiar sua vida? Como se movimenta a alma em suas lutas eternas? Como não sabemos quem somos não sabemos onde queremos ir. Somos guerreiros, mas para quê? O que aprendemos do nosso dia? A ordem e a beleza perderam-se, veneramos o Deus do Trovão e suamos em busca de comida. Vencemos os fracos e acumulamos ouro, mas estamos tristes. Precisamos de poetas.
Assim, decidiram separar parte dos recursos para cultuar o desconhecido. E oraram aos deuses que trouxessem uma revelação.

Afonso Lima

quarta-feira, dezembro 23, 2015

Meu irmão brasileiro

Venho por meio dessa dizer solidariedade a quem cava cava cava a dura realidade
De linhagem de viajantes, de parede de letrinhas, vem o marujo das entrelinhas
Ter os pés no chão, ser tão joão em Ipanema, a vida encontrava o poema
E você é um farol em tempos de obscuridade o que é esse Brasil que ninguém sabe
Amar ser herói na terra encantada onde você me fez brincar
Moleque, os pés n´areia branca, as trevas desaparecem quando o sol se levanta
Do tempo do ferro do tempo da esmola vive ainda a moçada da escória
Segue teu caminho amigo irmão que a curiosidade de como onde para quê é a nossa salvação

Afonso Lima


sexta-feira, dezembro 18, 2015

a massa

Mataram um homem.
Não é um homem, é um garoto.
Com 17 anos já se pode portar uma arma.
Ele não tinha nada nas mãos.
Era pobre. Era um pobre perigoso.
Não, era negro. Não, ele não merecia.
Armados, protestam, gás lacrimogêneo.
Por que suas mãos estão levantadas?
Uma massa de negros. Colocaram crianças lá para desviar a atenção.
TV ao vivo, podem falar sobre escolas? Sobre encarceramento? Sobre policiais que ameaçam? Na rua por quatro horas e meia.
Milhares de pessoas saem às ruas, ok, isso é uma democracia. Se não fosse uma democracia, isso tudo seria horrível.

Afonso Lima

domingo, dezembro 06, 2015

Acalme-se

Antes de aplicar o choque é preciso avisar que não vai doer. Mas vai doer.
É preciso dizer que não doeu. Que vai melhorar. Não vai.
Diga aos familiares que ele não morreu. Está desaparecido.
O calabouço com água até os joelhos por seis meses, a cela onde, nu, fará suas necessidades, o que enfiarão em sua boca, o que fará arrebentar seu tímpano, têm uma lógica.
Diga que tudo isso tem um motivo. que vamos trilhar o caminho do progresso.
Diga que os rebeldes são terríveis, temíveis, que as senhoras respeitáveis no shopping - sensatas e contra a violência - e os jovens que defendem Margaret Thatcher para subir na vida devem se assustar.
Diga que a resposta é violência.
Diga que você sabe muito, diga que eles não sabem nada, diga que isto não está previsto no manual para cortes de 1996. Que não reduzimos cultura e educação há anos para fazer monumentos de cimento. E quando você não souber mais a diferença entre as coisas, nós te ofereceremos medo, perguntas e soluções.
Diga que não estamos voltando ao século XIX, diga que não são escravos adiados, diga que a educação vai melhorar.
Diga que não precisamos de ninguém cuidando os lobos, porque lobos são confiáveis e você só precisa conquistar seu espaço. Que existe esperança se você for normal.
Você é vital ao sistema, pague ou deixe-o,
Enquanto você sonhar e você gritar nós diremos: "volte ao seu lugar".

Afonso Jr Lima


quarta-feira, dezembro 02, 2015

Queres

Ela abria a mandíbula e preparava as garras para engolir o duplo que ajoelhara-se ao lado do corpo.
- Eu apelo para tua mãe, Noite.
A deusa surge em meio ao caos e a devastação.
- Quem me chamou?
- Eu sou um pobre pescador. Aqui jaz meu corpo, engolido pela terra que desceu. A cidade desapareceu. O rio encheu-se de ferro. Meu corpo não pode ser enterrado. Por isso, tua filha Queres vai devorar-me e jamais poderei descansar.
- Essa é minha função, ninguém achará o cadáver, não podes ficar eternamente habitando ao seu lado - ela diz.
Nix observa o cenário triste. Era como uma pomba esmagada por uma pedra. Árvores escuras, animais mortos, o cheiro no ar.
Ela arrasta Queres e as duas desaparecem numa nuvem cinzenta.

Afonso Lima




segunda-feira, novembro 30, 2015

Duplos

Ele dorme. Derruba a jarra de água.
Uma caravana chega a uma torre no deserto.
Seja bem-vindo, amigo.
Somos chamados de o inimigo interno. Até inventaram histórias macabras em que sacrificamos crianças.
Somos os três filhos de Abraão. Eles dizem que somos essencialmente violentos, mas foram eles que derramaram sangue em nossa terra. Se formos maus, eles podem nos roubar.
Acolha-nos, somos perseguidos. Eles estão na escuridão, são miseráveis, e agora desejam tomar o mundo superior imaginando-se os escolhidos.
Assim como os judeus que viram o Trono de Deus, o Poeta, na Noite, encontrou os profetas anteriores e foi abençoado para dar a mesma mensagem às tribos que nunca haviam tido um profeta.
Deus abençoe a Recitação e as riquezas do califado.
A jarra de água cai no chão sobre o tapete.

Afonso Lima

domingo, novembro 29, 2015

Um muro

Antes, havia a restrição de não se aproximar do muro. Havia cercas e havia o bosque proibido, tiros e alarmes que soavam colocando as pombas desavisadas em pânico. Agora ninguém parecia disposto a alimentar uma pomba velha. Estava com frio e sua liberdade não ajudava. Então era assim? Os que estão bem estão bem porque combateram com mais coragem, foram mais fortes? Se tudo for difícil, os ganhadores ganharam. Ele não podia evitar a sensação de que alguém barrava seu caminho, de que podia ser muito mais, voar muito mais se tivesse um vento favorável. Encolhida perto da calçada, lembrava dos dias em que tinha comida, entregava mensagens para os ditadores. Agora os prédios estavam vazios, os homens pareciam marginais, as crianças não saíam de casa, não era seguro. A pomba fechou os olhos. 
Afonso Lima

sábado, novembro 28, 2015

As bestas

Maiorca, 1232. Nasce.
Agora seus pais têm uma terra, a reconquista.
Aprende árabe, estuda teologia cristã e muçulmana, prega.
Lê as fábulas das Epístolas dos Irmãos da Pureza Muçulmana, pensa em uma fábula.
Conhece Kalila e Dimna - versão árabe do Panxatandra indiano, duas versões: o livro que o rei Afonso X havia dado - traduzido ao castelhano - para a esposa do rei francês Felipe o Belo, que o traduziu ao latim, e a tradução de João de Cápua para o mais elegante latim, de 1278.
Decide ir até Paris pregar na universidade, escreve ao rei pedindo audiência. É recebido.
Após o fim cruzadas, em 1291, o cristianismo abandonou a Terra Santa aos infiéis, afirma, é preciso converter os tártaros para que destruam os Sarracenos. Pede a Felipe o Belo que envie embaixada ao Khã mongol da Pérsia, que simpatiza com a cruz, com ouro e presentes, expondo-lhe a necessidade de expulsar mamelucos da Síria e da Palestina. Também pede monastérios onde se aprenda a língua oriental.
Sua palestra é um fracasso. Tem um acento "arabista", dizem os doutores.
Ele retorna à sua ilha, funda um mosteiro, é chamado à Paris anos depois ("velho e pobre", como se descreve) para o grande Concílio, no caminho escreve um Livro no qual o mal conselheiro do rei, que o levara a prender o Papa e os templários, é retratado como raposa, o que lembra Kalila e Dimna. Morre aos 84 anos, quando suas afirmações sobre conselheiros fanáticos "não de Deus, mas do Estado" foram defendidas pelo jurista Pierre Duby, que escreveu Da Recuperação da Terra Santa.

Afonso Lima

quinta-feira, novembro 26, 2015

Bambee

Bambee sempre achara que Paraíso era imortal. Ele e toda a União da Estrela do Rio tiveram que subir para bem longe da lama que destruiu a cidade. As sereias e os seres invisíveis sentiriam muita dor. Seu pai está agora evocando, com o Sumo Sacerdote, os espíritos dos cervos ancestrais. Eles os aconselham a subir até a grande Torre e pedir ajuda ao deus das tempestades. Comem as folhas sagradas. As almas dos animais mortos se levantam do chão brilhante de restos metálicos para assombrar os homens gananciosos. Sobem até o castelo. O deus prepara raios. O pai se despede do filho, se transforma em nuvem negra e parte carregado de raios para dizimar a raça humana. 
Afonso Lima

terça-feira, novembro 17, 2015

Trecho do romance "Canções para Dias Difíceis" (inédito)

Trata-se de dinheiro, duto de bilhões dos contribuintes dos Estados Unidos, do petróleo do Iraque para corporações; abrir mercados com a guerra. Eliminar a indústria do país, invasão de trabalhadores estrangeiros, reconstrução com subcontratadas das subcontratadas que não fazem nada direito, governo que significa entregar pacotes de notas de cem dólares. Somente o que atinge fisicamente, os nervos, pode levar à pensar. 
Eles eram uma raça inferior, repetiu o comandante. Eles não entendem a democracia, ele disse. Eles gostam de empresas públicas ineficientes e corruptas. Eles tinham medo que suas empresas fracassassem diante da competição estrangeira. Vencem os melhores é uma lei biológica, dizia nosso comandante. Mas parece que os trabalhadores daquela fábrica se negaram a abandonar seus serviços. Agora não tinham água tratada, eletricidade duas horas por dia, usando lenha para cozinhar, um clérigo juntou desempregados para consertar as linhas de telefone, instalar geradores, dirigir o tráfico. A iniciativa privada comprou essa companhia, a primeira coisa que irá fez foi reduzir o pessoal. Eles pensam se colocam fogo ou se explodem dentro. Não será privatizada. Quatrocentos mil soldados demitidos com suas armas. Cimento e trabalhadores importados, sem geradores para as antigas empresas estatais que poderiam produzir. Empresariado financiando a violência, porque suas fábricas acabaram. 
Fecho os olhos. Escuro. Por que agora? A educação-lixo, os políticos fundamentalistas, oligarquias. O sistema de exclusão do Brasil, 

"Canções para Dias Difíceis" - Afonso Jr. Ferreira de Lima

segunda-feira, novembro 16, 2015

Depois da reconstrução

Estou vindo da reconstrução. Não merecia receber estilhaços e ver pratos e mesas voando durante o jantar.
Você está bem, deveria agradecer. Espero que o J. saia logo do hospital. Acalme-se, vou acender o aquecedor. Um jazz. Não podemos sair de casa.
Será que aquele inferno todo. Eu me sinto mal.
Mas os ideais por trás disso. Era uma ditadura, tinha a existência de armas, o terror jihadista.
Um governo opositor nacionalista. Nós lutamos sem saber ao certo.
E a tortura. Quem poderia imaginar que... um milhão de soldados.
Nós fudemos tudo. Acabamos com tudo. Desmoronou, eles não ia aguentar. Uma moça disse que antes não usava véu, agradeceu ironicamente. Sem tratamento de água.
Não se pode prever o mal antes. O mundo está mais inseguro, fazer o que. Marcas de sangue no chão.
E não teria sido um pouco propaganda? Gastamos mais com isso, gastamos bilhões.
A incerteza moderna. Prefere sushi ou pizza?
E nós estávamos lá, falando em contratação em meio ao caos.
Era uma reforma terceirizada. Pizza de quê?
Um milhão de dólares para deputados e senadores.
Vamos tomar um vinho. Você tem de ser menos radical. Você viu o que está passando na TV?

Afonso Lima

A jornada

você pode ficar aqui em casa.
estava escuro e. ótimo, estou cansado, obrigado.
e esse corte?
tive de passar pela cerca.
o homem louco. em nome de Deus.
sim, sim. sabe, estava tudo bem, até que fui preso sem motivo.
sem motivo, sem motivo mesmo?
sim, e meu amigo desapareceu.
agora está tudo bem. você sabe, nossa família respeita muito as refeições em família.
ok, tem uma fila ali embaixo.
o banheiro, pode usar na padaria.
naquele caminhão, morreram alguns que reclamaram da água.
você vai superar. eu fico louco com eles, simplesmente doido mesmo com eles, quem pensam que são dizendo não aceitamos mais ninguém, só espero que não nos faça pagar essa conta. sua cidade não existe mais, espero que não seja deportado, mas pode ser que. não use símbolos religiosos, somos laicos. seja forte e não tenha medo do spray de gás. você pode ficar aqui em casa.

Afonso Lima

domingo, novembro 15, 2015

Em perigo

Período de mudanças. A polícia secreta cria um documento, editando trechos de um romance de 1835, acusando o grupo de "semear o ódio de classe, o ódio de raças". Eles querem invadir, destruir nossa identidade, penetração com planos de domínio. O racista cria a raça. A crise do czar ganha novas causas. Perseguições, incêndios, fuga em massa. Eles compraram uma casa na serra, depois do oceano. Eles criaram galinhas. Mas uma janela é quebrada. Um bilhete ameaçador. Notícias de parentes desaparecidos. Um dia, a mulher encontra na parede do galpão escrito com sangue: "Morte aos comunistas do demônio". Uma nuvem negra sobre a casa. Eles se dão as mãos e dormem para sempre.  

Afonso Lima