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segunda-feira, junho 29, 2015

Filhos do Sol

A festa na rua, eu não sigo sua regra
desvia o átomo, luz do céu
papagaios gritam, sinos,
rebeldes, opacos, imprevisíveis
quem me conhece é um poeta da natureza
complexo acaso, em busca de uma verdade
temos alguns sinais, tentar desvendar
outros, dentro do filme escrito para nós
não somos ajudados pelo meio
e, mesmo assim, queremos um heroísmo
algo novo, mitologias, alma de peixe
e sapatos que nos liguem à terra
os bosques, crianças sorrindo
não merecemos ser explicados
somos vento, fogo, correr de águas, flores
das tempestades, fugindo, dançando
anjos travestis e matéria divina
e mesmo para a noite acharemos um nome

Afonso Lima

segunda-feira, junho 22, 2015

As Pinturas da Colina


Qual a origem da Canção do Caminho Vermelho? Imaginemos um grupo de caçadores coletores que descansam ao lado de uma ruína. É uma coluna avermelhada no alto de uma colina em meio a uma mata densa. Era onde os animais sobreviventes se reproduziram. Imagens com animais feitas à carvão com data de 15 mil anos atrás. Algumas gravações com ponta de sílex nas rochas e restos de madeira calcinada. De repente, uma criança descobre uma faixa vermelha no chão. Os pais seguem por ela, um cão descobre cavernas no subsolo. Animais pintados. Figuras mostrando grande número de animais mortos. Talvez uma catástrofe. Decidem se abrigar ali? Vestígios de fumaça no teto mostram que possivelmente cerimônias religiosas foram realizadas na caverna artificial. O caminho foi marcado por uma fileira de pedras pontiagudas. Próximo à coluna avermelhada, um objeto de metal representando abstratamente a forma humana com data anterior foi colocado sobre uma espécie de altar. O grupo de caçadores coletores deve ter ali formado uma aldeia, pois várias gerações parecem ter desenhado à carvão nas paredes dos túneis. Na Canção do Caminho Vermelho, uma deusa traz aos humanos as primeiras sementes e lhes ordena que sejam plantadas ao redor da coluna. A deusa conta a história de uma guerra, teriam sido dizimados os humanos da "antiga época", e os deuses teriam condenado os seres a uma era gelada. Todos eles teriam morrido, mas dois humanos ressuscitam. Quando a linguagem surge, a Canção do Caminho Vermelho, que deve ter sido cantada por séculos, é transcrita. Infelizmente, as primeiras versões da canção provavelmente foram feitas no couro de bovídeos (extintos). 

Afonso Lima

sexta-feira, junho 19, 2015

Investigação

A história se conta assim: o aristocrata belga estava fascinado pela obra do autor francês e começou a recolher todos os dados biográficos dispersos por Paris, entre a lama, o lixo e os esgotos dessa cidade que ainda pouco havia reconhecido nosso herói. 
Seu interesse de filólogo surgira quando, entre os quase cem volumes, com cerca de quatro mil figurantes, encontrara uma página supostamente criptografada, e que ele tentou decifrar de várias maneiras. Para tanto, seu olhar se voltou principalmente para as cartas. 
Um dia de glória foi quando, comprando queijo no mercado, percebeu que o vendedor embrulhava o produto num papel com a letra do autor. Os credores haviam vendido tudo que encontraram em sua casa quando de sua morte. 
Passando por sobre os escombros dessa cidade que derrubava bairros inteiros, foi colhendo confissões, objetos pessoais, manuscritos e primeiras edições. Anotando rigorosamente suas andanças, chegamos a um mapa impressionante de suas odisseias, por exemplo, quase o cruzar duas vezes a cidade em um dia. Para se atravessar a capital, nessa época se levava em torno de seis horas, graças ao transporte público insuficiente. 
Ao mesmo tempo começou o nobre a escrever detalhadamente um dicionário de Nomes Próprios, Lugares, Moda, Objetos e Animais que animavam essa obra gigantesca. Começou a dizer aos amigos que ele próprio estava incluído na página criptografa. Seus últimos dias, após a publicação de dez volumes críticos e do dicionário, foi foram de quase loucura, nos quais obrigava os convidados de seu castelo - no qual cada quarto e sala reconstituía um detalhe da obra - a assumir papéis de personagens e falava de seres fictícios como de pessoas reais. 
Até hoje não há uma explicação definitiva para a página misteriosa. 

Afonso Lima

quinta-feira, junho 18, 2015

Mortos

O que aconteceu?
a radiação rebelde que levou as cidades?
o caos temperamental do vírus?
todos estão mortos e as cidades
repousam de uma longa estafa
ocas e mais serenas

Mas ainda assim caminham.
as cidades produzidas sentem passos sem peso
- eram as almas a pesar, seu lado tóxico decantado
engarrafados motoristas de rostos imóveis
ainda mandam mensagens de texto
ainda anseiam, famintos, mais e mais
mortos na foto

O frio, um mau cheiro - os átomos mais leves
há muito haviam fugido - mãos dedicadas muito brancas
dissertações defendidas, reuniões de comissão
um tumulto na promoção, barras de vestido de noiva
mecânicos mortos sem um sonho mínimo
tudo estava igual entre reis e plebeus, só cada qual
tinha uma diversa etiqueta

tristes destinos em movimento, medo de tentar e partir
meticulosos cálculos, e, ao olhar pensativo de uma rua
pareceria talvez que somente a vibração elétrica
do novo já antigo podia parar por um instante
o fluxo do homogêneo; intocados cafés da manhã
repetidos por hábito -  vidros transpararentes, os mortos
talvez tenham morrido, secado, num longo processo
em que - quanto menos eram vistos,
quanto mais esqueciam, e já não sabiam o norte
mais brinquedos ganhavam e jardins

Mas como sempre a esperança ou o que seja rastejava
Brotando entre fios de verde no negro úmido
Quem sabe novas casas, novos tipos de porta?
O sol que ainda cai sobre ramagens
Cada folha, que insiste em ser diferente
As sementes que insistem em apodrecer

Afonso Lima

terça-feira, junho 16, 2015

O sermão

Vendo as multidões, subiu ao monte e, tendo se assentado, se pôs a ensiná-los, dizendo:
Bem-aventurados os que arrecadam porque deles é o reino dos céus.
Bem-aventurados os que espancam, porque eles serão consolados.
Bem-aventurados os que acham que a Bíblia é o único livro, porque eles herdarão a terra.
Bem-aventurados os que perseguem outras religiões, porque eles serão fartos.
Bem-aventurados os que só fazem sexo para procriar, porque eles alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os excluem a realidade, porque eles não verão.
Vós sois a escuridão do mundo. Eu vim para destruir. Sede vós, pois, cheios de ódio, como é o vosso Senhor.

Afonso Lima

Nuvens

Os olhos fecham por um instante
sobre o papel
nuvens sonhadas no céu aberto
abre-se da noite o livro

a máquina do crepúsculo corre sirenes
o corpo duro ao lado do sepulcro
frio de outro corpo, e a
multidão que grita
cachorros calculam notas perdidas
o forasteiro toca a pele desconhecida

a seção silenciosa perdeu o chão
papéis voam, lei e
sentença como o mais cruel
inimigo, tudo em ruínas, desaba
escuro tempo longo
até quando?

som e sentido de um bebê que chora
fingir não ver o design da
liberdade
demoníaca
a chuva fria da nova
aurora
na rua

sentado na rua comendo lixo
pela avenida cruzando alucinado
a raça de Caim caída sem fábrica
rosto sujo de carvão e na roupa mercúrio
nem ganhar o pão de cada dia

O edifício extenso
muitas construções baixas se estreitam
invadido pelo mar e destruído
São nuvens vermelhas que o arrastam
O rio regenera comendo cadáveres

Os olhos despertam para outro
sonho o livro da noite
sonhando ontem e amanhã

Afonso Lima

segunda-feira, junho 15, 2015

Funk da História da Arte

O bonde do Picasso vai até o chão
Baudelaire só quer ouro
O Monet é pura ostentação
Mondrian bombando na liquidação

O conceito então se revela
Camarote das celebridades
Arte - maquiagem
Rebeldia é vaidade

O bonde do Miró vai até o chão
Traz o uísque, o platô e o carrão
Holandês é pura ostentação
Galeria bombando na liquidação

As mina dão carro pra mãe
política se consome
cada um no seu clã
nas esquina a porrada come

O bonde do Picasso vai até o chão
Baudelaire disse que só quer mulher
O Monet é pura ostentação
Mondrian bombando na liquidação

Afonso Lima

Lei da Verdade

Ele foi o grande Reformador, que fez o Congresso aprovar a Lei da Verdade em 2025.
Sua infância foi difícil, seu pai fora preso e sua mãe se tornara dependente química e caíra na prostituição, sendo resgatada por um pastor negro, que veio a se tornar seu padrasto. Foi preso pela polícia e passou duas noites numa cela, aos dezessete anos, por estar "vagando à esmo" e ter um cigarro de maconha. Um colega branco lhe emprestou livros de empreendedorismo ensinou que "a lei tem a função de preservar o dado natural da propriedade". Certa fez, já na faculdade, foi a um restaurante com amigos e a garçonete lhe disse: "Não servimos negros aqui".

Essa a outras humilhações lhe levaram a um ódio profundo e passou a ler intensamente a Bíblia, única fonte de orgulho de si mesmo, ao mesmo tempo que de ansiedade, na certeza de que uma pessoa ferida devia denunciar as inustiças desse mundo corrupto. Tornou-se pastor, vereador e deputado.
Na lei da Educação Santa, aprovada em 2022, constava um novo currículo:
- Economia, Física, Química e Matemática.
- Antigo Testamento I e II
- Castidade e repressão
- Anticomunismo e Direito Divino
- Salmos aplicados ao Trabalho
- Antissodomia e repressão ao culto negro
- Teologia do Amor e da Mulher

As mulheres foram desencorajadas de fazer faculdade ou deveriam cursar faculdades "sagradas". As crianças eram levadas desde a primeira infância à "creches evangelizadoras". Nelas se aprendia que "deve ser banido o pensamento contraditório, que gera confusão e ansiedade e torna a mente permissiva a abalos da moral".
A Lei da Verdade passou a condenar "informações não santas", "magia negra", "obras criativas imorais" e mais de mil homossexuais foram executados, aceitando-se confissões sob tortura, por "degenerar a imagem do povo brasileiro". Com a censura à imprensa e a autocensura, pouco se sabia sobre as prisões arbitrárias e as intrigas políticas.
Finalmente o Reformador foi assassinado, depois que um colega de universidade divulgou que ele escapava muitas vezes de seu quarto para visitar o quarto de uma travesti negra chamada Molly Mae.

Afonso Lima

domingo, junho 14, 2015

Repetição

Rosa é uma mulher é uma mulher é uma mulher. Ela se apaixonara por outra detenta.
Quando Raquel fez um ano, Rosa pediu que a avó não mais a trouxesse na visita. A criança tinha que tirar a roupa e a avó também. Podia ficar com ela até 7 anos pela lei, mas nenhuma criança ficava mais que seis meses. Jogou o leite fora. Rosa estava presa esperando julgamento; quando foi absolvida, tinha permanecido mais tempo do que se tivesse sido condenada.
A avó morreu depois de dois anos. A mãe conseguiu emprego de passadeira. Sem creche, a criança fica sozinha em casa.
- O que vocês fizeram nas férias, pergunta a professora.
- Assisti TV, fiquei na internet, respondem.
Um zelador da escola pensa no que oferecer para tirar fotos de Raquel sem roupa.
Rosa não tinha permissão para visita íntima, "Pouca vergonha", dizia a gestora prisional.
Raquel é uma criança uma criança.

Afonso Lima

quarta-feira, junho 10, 2015

Meninas

A menina chega empolgada para sua primeira aula de piano. A mãe está com ela. A professora oferece o sofá.
- Minha filha é doida por Bach, né Nina?
- Quando a senhora veio perguntar... Achei que era pra patroa.
- Qual o problema?
- Não vou iludir a garota. Nunca vai poder ser pianista.
- Como?
- Ninguém vai encomendar uma sonata. Não vai entrar nos hotéis. Não vai ser contratada.
- A senhora tem certeza?
- Tenho. Mas posso ensinar música popular.
- Minha filha...
- Você pode ser uma cantora famosa. Pisar num palco de bar lotado. As pessoas jogarão flores em você. Quem sabe você não coloca Bach no meio do jazz?

*

- Explica a teoria da vaquinha, amor.
- É o seguinte: antes para o homem  ter sexo com a mulher precisava casar, assumir casa, família. Agora, que a mulher se entrega tão fácil, porque ele vai querer casar? Se ele pode ter o leite do sexo sem comprar a vaca?

A casa tinha dois cômodos, estava cansada de televisão. Saiu pela comunidade. A amiga perguntou se já tinha ido no cinema.

- Tá doida?
- Olha, ouviu falar que tão contratando funkeira? Dizem que um show pode dar cachê de 4 mil Reais. Quem sabe você tira seus pais daqui?
- Se eu fizesse sucesso, saía da escola. Não aguento mais comer arroz com farinha e óleo. Meu irmão virou ajudante de pedreiro, mas podia ser Mc. Vou falar com ele.


Afonso Lima

Neo-reaça

Meu amigo, não fique brabo por eu ser um neo-reaça, um niilista anarquista. Eu nunca tive História na escola. Meu pai apoiava a ditadura. Meu avô vendeu loteamento-empilhado na periferia e dizia que transporte coletivo era coisa de pobre. Meu bisavó foi traficante de escravo como todos os homens bem sucedidos. Eu leio e assisto realidades-editadas, dispersar e desviar a revolta - sou classe média reinformada, usada historicamente pelas forças mais reacionárias para resistir às mudanças. Eu sou gostoso e você também, vamos pra esteira, foi o que nos restou. O sol está bonito. Tem um show amanhã. Sim, agora é cidade-investimento de fundos internacionais e políticas urbanas para obras-de-carro, como o túnel de 3 bilhões e a louca obra do novo engarrafamento da marginal, 1 bilhão. F@d@-C. Meu amigo, eu não me importo se o novo século é o de rentistas e escravos, se a divisão do trabalho fez a academia discutir rizoma e significante no fim do mundo sem atrito com o redemoinho centrípeto que expulsa continuamente, se vivo no gueto artístico-intelectual enquanto uma cúpula empresarial domina as cidades. Vamos andar com nosso cachorro. Vamos beber um café. Vamos comprar um sapato. Nesse contexto de fragmentação da cidade e do pensamento, participação cenográfica pós-ditadura, população ausente, política morde-assopra de quem reclama, sociedade de desinformação e bloqueio comunicativo, o inconsciente coletivo de classe é a exclusão, o orgulho da nação é senso-comum. Falo do ponto de vista da propriedade, quero ser gerente no totalitarismo capitalista. Já chorei quando vi gente despejada na TV, mas não dá pra chorar todo dia né? Metade da cidade vive na favela, e daí? A cidade é inerte, nós também, tenho capital-intelectual, odeio ver pobre e quero ler um livro, plantar uma árvore e casar com você. 

Afonso Lima

Elogio da Sombra

Da sombra emerge uma figura. Amassar o barro. E se: jovens no centro histórico com cartazes - Não queremos dez torres! E se: Homens sinistros recebem suborno no Conselho. E se: Juiz afasta promotora que impede as torres ilegais. E se: Urbanista foi demitido da Secretaria. E se: Empregado da Construtora toma posse. E se: Eles construíram casas na beira do córrego. E se: Chegam mais homens para reforçar o policiamento. E se: Diz o professor - A lei específica pró-túnel desmente lei maior pró-cidade. E se: Móveis são retirados de dentro das casas. E se: Os petrodólares precisam de lugar para pousar. E se: O advogado diz - É terra sem lei, vamos rasgar os livros! E se: O secretário na reunião de planejamento - Sabe, moradores de rua, pequeno comércio, não dá, trata-se de valorizar a área, a quadra inteira é mais viável para os investidores. E se: O repórter - Os criminosos liberam a comunidade. E se: Homens sinistros votam no Conselho. E se: Jovens subindo em árvores. Da sombra emerge uma cidade. O barro. 

Afonso Lima

terça-feira, junho 09, 2015

O terreno

Juan viu seu filho entre um sofá na grama e um brinquedo. Quando ele deixara de existir? Lembrou que seu pai ganhara uma casa do governo. Juan comprara aquele imóvel de três quartos - 25 m² - quando o novo bebê nasceu. Irmão, mãe, três filhos, ele ganhava um bom salário como porteiro, Mister Dodson lhe incentivou a "parar de depender dos outros". Acordou do sonho. Era impossível entender. O valor da casa aumentara, a hipoteca também. O cara do banco disse que sua casa era um produto financeiro. Quando ele foi ao bando, desesperado, que o fato de ele deixar de pagar iria acabar com o país. Seu filho chora: "quero meu quarto". Ele lembrou do amigo que morava num antigo conjunto de habitação popular. O lugar tinha se deteriorado, parara de receber atenção do governo. Os filhos tinham vergonha de falar que moravam ali. Outro conhecido tinha comprado uma casa e, com a crise, os donos da construtora sumiram, suas economias tinham evaporado, greve de fome dos clientes. Outro conhecido viu seu bairro ser demolido, depois que os todos começaram a bater nos seus filhos. Juan viu sua televisão na grama e pegou o menino no colo. "Vamos para casa do vovô. Vou deixar você com ele", e uma lágrima caiu. 

Afonso Lima

segunda-feira, junho 08, 2015

Sonho


Juan viu seu filho entre um sofá na grama e um brinquedo. Quando ele deixara de existir? Lembrou que seu pai ganhara uma casa do governo. Juan comprara aquele imóvel de três quartos - 25 m² - quando o novo bebê nasceu. Irmão, mãe, três filhos, ele ganhava um bom salário como porteiro, Mister Dodson lhe incentivou a "parar de depender dos outros". Acordou do sonho. Era impossível entender. O valor da casa aumentara, a hipoteca também. O cara do banco disse que sua casa era um produto financeiro. Quando ele foi ao bando, desesperado, que o fato de ele deixar de pagar iria acabar com o país. Seu filho chora: "quero meu quarto". Ele lembrou do amigo que morava num antigo conjunto de habitação popular. O lugar tinha se deteriorado, parara de receber atenção do governo. Os filhos tinham vergonha de falar que moravam ali. Outro conhecido tinha comprado uma casa e, com a crise, os donos da construtora sumiram, suas economias tinham evaporado, greve de fome dos clientes. Outro conhecido viu seu bairro ser demolido, depois que os todos começaram a bater nos seus filhos. Juan viu sua televisão na grama e pegou o menino no colo. "Vamos para casa do vovô. Vou deixar você com ele", e uma lágrima caiu. 

Afonso Lima

sábado, junho 06, 2015

Batalha

O tiro acertou na cabeça.
José morreu na hora. Tinha vinte anos.
E antes?
O locutor da rádio incentiva a invasão. A faculdade é incendiada. O teto desaba.
E antes?
Pedágio para a sopa dos estudantes em Seminário Permanente. Estudantes armados. Recuo. Eles avançaram.
E antes?
Marcha de estudantes: que todos os que passaram no vestibular tenham vagas na universidade.
E antes?
O padre rezou a missa do primeiro estudante morto: passou a receber constantes ameaças de morte. Encontrado seu corpo.
E antes?
Ele aumentou os salários em 100%. O rádio denunciava corrupção. O Congresso votara impeachment.
E antes?
Lideranças empresarias criaram o Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais, UDN distribui botons made in USA.
E antes?
Escola Superior de Guerra treina Comando de Caça aos Comunistas.
E depois?
José, de vinte anos, foi o primeiro.
Quem comandou o ataque hoje é desembargador.

Afonso Lima

quinta-feira, junho 04, 2015

Exílio

(to Jo)

Lorde, o bispo foi condenado
não há tempo para a verdade
quem eu quero ser -
o céu está cinzento
o reino cai, o inverno
esconda-se!

(Ele disse na cruz:
salve, Mãe-Pai, a razão
bichas pretos e bastardos
flores nos cabelos e abraços nas árvores
sorrisos no picnic e vibração de: quem sou eu?
Pai-Mãe: o direito de não saber 
o que se procura, maldição 
às certezas em marcha, anúncios de faça!
o mundo não se descobriu - assinado 
o assassinado)

O lorde na lama 
foi jogado 
O lorde com seu coração
de leão

(esperança, a bela dor
de sermos o que somos)

para o jovem 
ele fez a rima 
o marinheiro que amou
enfrentando a ira da cidade
levado da idade na flor
a faca 

nós todos somos esse lorde
um pouco sujos, um pouco 
loucos, porque depois a cidade
viverá de nossos sonhos

(Então mentiram pra mim, então
tudo muda em outro lugar
salve, Mãe-Pai, celebrar
bichas pretos e bastardos)

Afonso Lima

a glória

Homens comedores de pão.
Um anjo sentado na alta torre cinzenta.
Em frente ao sinal, lixo aberto esparramado no chão.
O fim do mundo no horizonte.
Tenta olhar com juízo, para que não se soltem as partes.
Os carros engarrafados e as pessoas cruzando entre eles (sem sinal) - um caminhão com fumaça negra.
Caminha com o diabo, vão às compras.
Caminhões enormes parados na faixa de segurança, fazendo as pessoas passarem apertadas no meio dos carros.
Uma cascata de esgoto escorrendo no arroio; lixo na ponte.
O anjo não canta, mas sabe que nem tudo é economia.
O diabo diz que é a natureza. Ele diz um poema.
Calçadas estreitas, sujas, esburacadas, pessoas se amotoando.
Tenta lembrar do que veio antes, um outro amanhã.
Um turista alemão tirando foto de linguiça.
Camisas amarelas chamando por revolta.
Uma fachada belle époque pichada, com mato crescendo dentro e uma placa: vende-se.
É preciso fazer o comércio algo épico. "Os empreendedores são os que levam o país", diz um rapaz.
Muitos óculos lilases, azuis e amarelos.
O anjo olha outro modo de ser que não seja vender.
Um homem sem camisa, magro, tatuado, rasgando papelão em frente a uma montanha de lixo.
Um jovem ambulante dizendo: eu não sinto tesão por mulheres chinesas.
O diabo imagina uma fogueira de livros, chama por Jesus.
Uma moça oriental de minisaia canta ópera com fones de ouvido.
Olhos fechados - em algum lugar uma árvore é do tamanho do céu.
Os risos e a música.
O anjo e o diabo sentam para tomar um café.


Afonso Lima

terça-feira, junho 02, 2015

Alguém

Desde tempos passados
nós gatos, de pé-pluma
exilados das nuvens comuns
vivemos nosso sonho
de espuma

Apanhamos para entrar no jogo
palavra, pedra e paulada
não adianta nada

Lá em cima foste barrado
aqui em baixo não podes entrar
eles sabem que um gato
só vive de livre-pensar

Fulano fala mal de nós
sicrano tem tubo e papel
e a gente pensa - infiel!
só vale a nobreza inata

Filhos do Sol, irmãos da lua
nosso caminho de espuma
passamos alados, sem medo
desde tempos passados.

sexta-feira, maio 29, 2015

Light /Friend

Light

Strange people we are
We love all the flowers
The silver boy under the sun
Someone's dream made him gray
The silver boy should have a rabbit
and discover the universe
I wish you were a child
and had a green field to run
not everybody being an island
I wish your dreams were invisible ones
To cross the bridge to know a new city
A skin, a pure petal, no iron shield
To sleep with the leaves in the spring

Friend

I´m happy - life is beautiful and
you are part of this, sweet friend
Yes, things change, but you give me your hand
I'm listening, learning with the children
I´m an animal between animals
One hundred years, the root
I'm glad we could keep hope
We can share our tears, the good and bad ones
I can smile to the past and the future
the poetry that one day will be
Free from myself, giving what I have
Discovering the laws of life
Tomorrow morning

Afonso Lima

quarta-feira, maio 27, 2015

"Miss Julie" - de Liv Ullmann

Liv Ullmann nos deslumbra desde o início com uma elegância bergmaniana: entramos nesse conto de fadas, que é a vida de uma filha de barão (Jean, o criado, dirá depois que, na infância, era um príncipe apaixonado). A diretora, diferente de Katie Mitchell, que apresentou recentemente sua versão da peça, capta desde o início as contraditórias paixões dos personagens. Kristine, a noiva de Jean, não é uma menina ciumenta e simplória como em Katie Mitchell. Jean tem seu lado decente e tenta agir de acordo com suas obrigações. Que alívio! 

Então isso nos ajuda (esquecendo o problema do "meio") a tentar desvendar o coração da peça. Ficam claros como que dois eixos que organizam o mundo em transição em que se passa (1890). Por um lado a hierarquia (a desigualdade naturalizada, a adequação, códigos arcaicos mas ainda fortes, rachaduras na estrutura); por outro a hereditariedade (o que força as mulheres a não ter herdeiros de outros homens, uma mulher que tenha se entregado à um criado pode voltar a fazê-lo, acabando com o sonho da classe que proteger o passado ou acumular continuamente, e, no fundo, ser superior por imaginar ser; a pureza, estranhamente redesenhada sob o império nazista - nessa Alemanha tão aristocrática). 

As duas forças em oposição são a culpa (dever) e o desejo (ousadia, mudança). Elas jogam para um lado e outro a pessoa - sim, há uma pessoa, ela se examina e se confessa (desejo), se dobra e redobra, presa na teia, nesse imaginário cristão. Surge a "alma", cheia de movimentos, camadas, explosões e viradas de mesa. 

Por exemplo, no começo Julia (que eu sempre imagino tão crente no poder de seu poder que ignora que algo pode dar errado) joga a hierarquia contra a hereditariedade, forçando a situação. Ela é o personagem mais delicado desse jogo: se lermos o texto muito literalmente e com olhos de clichê, logo veremos apenas uma moça menstruada no solstício de verão (o que supostamente deixa as mulheres doidas). Mas, talvez contra sua vontade, Strindberg fez uma das melhores peças feministas. 

O cuidado com a personagem de Kristine é a que mais impressiona nessa versão. Ela mostra entender tudo, julgar, e cada palavra diz o que não é dito. Ela "vai dormir" vendo para onde estamos indo nessa cozinha, acreditando na inércia da realidade imaginária, ela pode ser superior a sua senhora pois "sabe quem é" e faz parte da aristocracia dos eleitos. Ela por fim se revela um elemento decisivo, porque pode estar realmente mergulhada até o pescoço na moral vigente (diz que ela e Jean têm que fugir quando o barão for embora da mansão, dando à entender que não podem fingir que nada aconteceu, ou seja, poderia denunciar a situação por puro amor ao "correto"). 

Não dá pra entender a escolha da diretora por Colin Farrell. Podemos até dizer que o filme é tão bem dirigido que o ator não consegue acabar com ele. A atuação é algo que poderíamos chamar de "antigo shakesperiano", um misto de olhar de cachorrinho com "profundidade teatral" para mostrar raiva. Se o tempo era de vigilância, cada palavra deveria ser filtrada pela dor de se expressar. Ou pela loucura depois da repressão. Por isso seu personagem é o mais prejudicado. Não concordo com Stella Adler que vê Jean como um vilão. É o ressentimento de uma classe inteira que o faz agir e depois desistir de arrumar as coisas. Julia está vinte anos à frente de seu tempo, e ele também. 

Se um clássico é onde podemos sempre encontrar as questões que afligem nossa época, talvez nossa era seja mesmo a do medo (também as manifestações de privilegiados e a propaganda jornalística, que talvez seja medo do rompimento da barreira de classe). Eu nunca havia percebido o quanto essa peça é sobre o pânico. Talvez  houvesse uma saída para Miss Julia, pensamos. Mas parece que houve um caso que inspirou o autor. A própria imaginação da época vivia o rompimento da hierarquia como uma catástrofe. Por outro lado, ao fim, eles foram jogados de um lado para o outro com suas emoções, estão fisicamente exaustos e não podem pensar ou ter esperança. Entram em pânico. 

Bem no fim, volta fortemente a questão da classe. Julia a joga sobre Jean, já completamente fora de questão, e Jean a joga sobre Kristine. Até onde antigo ambiente pode acobertar tudo? Talvez seja uma peça naturalista também nesse sentido: o que somos em nossa nudez, se não somos nossos papéis?

Erich Auerbach comenta, no seu ensaio sobre "la cour e la ville", o quanto, perto do reinado de Luiz XIV, a aristocracia já não tinha um poder real (militar), nem uma função econômica definida, sendo portanto uma classe totalmente deslocada da realidade, vivendo da obrigação nominal de ser privilegiada. Muito disso aparece no comportamento de Julia, leitora de "idílios bucólicos" como os burgueses que vivem de funções decorativas na corte do Rei Sol, que acaba com a oportunidade de sair-se bem fugindo, numa reação furiosa contra a morte de seu pássaro (que provavelmente morreria de qualquer jeito pegando o metrô). 

A hipotese de Liv Ullmann é que Julia vai mais e mais em direção à essa alienação de classe, acabando num monólogo quase louco sobre os três fugirem juntos. Acredito: Jessica Chastain devia ganhar um Oscar. Mas os outros dois personagens também se desumanizaram em direção ao inconsciente coletivo de classe: Kristine agora é um robô sem liberdade, vestindo sua casaca, Jean não pode mais pensar autonomamente, só tem como opção entregar à Julia a navalha. 

Talvez nossa dificuldade em entender o medo deles seja porque não entendemos esse conceito de a parte fazer parte do todo. Sumiu essa "alma em contradição" e somos apenas pessoas sem culpa mergulhadas na maquinaria da banalidade (será que nossos jornais estão ajudando numa sociedade-clichê, de estereótipos, do [medo] imediato, onde cada gueto reafirma sua opinião sem o outro?). E, se a dialética serve para algo, é justamente quando a "incapacidade de enturmar-se" é o pior castigo, o que, segundo crônica de jornal, levaria até ao pensamento crítico (desmoralizado assim). Nosso sistema simbólico produtivo tem como centro o sexo: a burguesia consumidora é que tem tempo de produzir a beleza, o que reforça a desigualdade, o preconceito e gera o desejo de imitação da ostentação, inclusive da hiper-sexualização (crianças no funk). 

Todos tem que ter um sonho (como diz o diretor de um clip de funk ostentação - carro, mulher, ouro) e todos os que não melhoraram deviam ter se esforçado mais. Até a distância crítica é uma "compensação narcísica". A divisão entre profissão (fazer) e intimidade (ser/igualdade cristã) vai desaparecendo: agora a profissão toma todo o comportamento do indivíduo, que não pode mais se distanciar e criticar, ele pensa como empresa e se distrai com consumo de luxo. Vemos um jogo se armando, talvez com a total privatização do ensino, chegaremos ao novo século XIX: classe A faz negócios, outras classes apertam parafuso, a menos que as máquinas façam isso. Talvez a elite financeira perca mais e mais sua "utilidade", etc. 
Mas, como Julia e Jean, sempre haverá quem duvide. 

Afonso Lima

quarta-feira, maio 20, 2015

Tropa

Soube do Morgado, que chama caçador de selvagem pra ocupação que não de mula pras mina? Esse eu sou, caçador dos filho dos pássaro, tem índio que me quer comer porque lhes despedacei o pai à tiro. Chega dos paulista sem ouro e sem prefeito, no rabo do Rio, levando cachaça, fazem bem o Morgado: bicho brabo dizem ele, luta com vice-rei, bispo, a câmara, mas de braço, o demo faz porto, trilha, no querer ferro, se aqui tem mais de seis mil alma; diz que até nobreza há de dar em quem se for com ele. No que? Tomar Paraná o exército, que o espanha vem pra Mina, Morgado disse bandeirante são canhão da colônia, jogado fora na brotagem douro, imposto ruína, da Vacaria a Sorocaba, até Cuiabá dá roupagem de rio salve Morgado diabo. Mas que essa lua louvada misericórdia e paz em cristo que nem tupiniquim nem carijó me comeu nem malária de canoa no Tietê não morri nem francês em navio e vou ser duque pode ter Salvador de todos os males. 

Afonso Lima

terça-feira, maio 19, 2015

6 anos

- O teu irmãozinho é a tua cara. - Claro tia, é o mesmo espermatozoide.
- Qual lado dói?
- O de dentro, doutor.
- No dia do aniversário do meu irmãozinho só ele vai ganhar presente?
- Pai, se tem que lavar o tico todo dia, porque não tira a pele?
- Deus fez esses morros para dormir no sétimo dia.
- Se nesse desenho a terra é redonda, se alguém desenhar a lua na lua como vai ser?

Afonso Lima

adeus ao pai

54 anos? Sim. Deixa parentes? Uma filha. Velocidade? 170. Quantos anos? 4. Bebeu? Sim. A indústria? Uma das maiores. Os impostos? Sim. Muitos políticos? Sim, deputados. A filha? Tratamento. Depressão? Sim. Serviços comunitários? Sim.


Afonso Lima

chato

aponta a arma
e agora? o pó e o sangue (o pai se foi) a irmã a avó dava ao tio, ao vizinho e avô (5 Reais)
reclamava Vou te matar muleke chato (oito)
e agora? comédia TV na sala o avô oferece cerveja caminha até a porta morre
a mãe? pela rua suja aponta a arma (viatura) 
sangue? apanha os monitores (quero ser matador)
Afonso Lima 

domingo, maio 17, 2015

banana

Doce na boca e amarela com
casca manchada ela é bela
barata e enche a banana
o estômago feliz não
reclama mas onde ode à ela?
o colonizador diz
o que é arte: olho o canto alheio
sem vontade: meu corpo reprimido
drama de boca e saliva, a cor e o prana chamo
de primitivo o que não se engana
com a magia formal da banana

Afonso Lima

sexta-feira, maio 15, 2015

casa

[a claridade chama - já é hora - a forma e o fora]
mãe, mora desde menina - embaixo do céu, na pedra - os filhos lhe seguem na sina
[vem musa, deitar na lama - nada é real só o olhar - só a pele inflama]
um mais antigo lhe joga pedra - em cima, outro tenta roubar-lhe a filha - tudo muda, menos a cegueira  
[eu me dispo de tudo e agora joão - o turbilhão do rio escuro - para que o hábito não turve a visão]
fingir, pesquisar, torcer a poesia - pra mulher que dorme no chão vazia sala - se tem enchente todo dia
[navegador navegado pelo fato - as mãos sujas do opaco poeta - sonhando sem vergonha a cidade]
o senhor de chicote na mão - que ontem não ganhava seu pão - vive em cada coração
banho quente, o homem fala - que sempre viveu na rua - no país senzala, o soneto
[a maior e bela arte - a terra, o tempo, o combate]

Afonso Lima

quinta-feira, maio 14, 2015

sob as ondas

as palavras vivem e por isso morrem
as verdade feitas de ar 
o tempo que coelhos roem 
Cada dia recomeçar 

nesses mares de ninfas e heróis 
fuga
com o filho no ventre e sozinha 
porque sabe de esperança mais que nós 
a morte ceifava na terra amada 
no mar um e outro jazia 
outras e tantas ali terão sua tumba
filha do vento, pássaro que o canto é silêncio 

[sob as ondas, é natural, você fala
e eu escuto, você diz
que eu sou mau, eu sou impuro, não li fulano 
de tal, faço tumulto,
os vagabundos que zombam sou eu]

O cientista racista nos viu como nulidade intelectual
me revisa e apaga, me ensina a dor que eu não sei
porque eu também sou fora e fronteira e não quero o aprendido
o grito de brancura em mim, ensinado
saia da minha frente todo entulho do poder de verdade
toda a maldade da certeza e da guerra
para que minha língua duvide de si mesma e se recrie 
que eu aprenda a mudar no tempo que se abre
o que é vivo eu bebo, 
não quero o fácil, as verdade feitas de ar

terça-feira, abril 28, 2015

Tempo antigo

Os camponeses da China
não dominam seu destino
Os camponeses da China
não usam a tinta antiga, não cantam as canções
que falam dos campos de arroz
cansados
Os camponeses da China
são invasores de seu próprio país
Os camponeses da China
podem dormir ao relento
porque não têm linguagem que os defenda
e moram na outra cidade
o gueto e nem seus pensamentos são livres
Ninguém ouve esses camponeses
Os camponeses da China
impõe respeito, batem
em suas mulheres, querem demonstrar autoridade
porque aprenderam a lei do cão
Um dia - parece - eles queimarão os castelos e espancarão os filhos dos nobres
o imperador pensa que o livro não é para os camponeses
quem limparia o chão por três moedas de cobre?
os camponeses da China, quando sol desce
no horizonte nem dourado, nem violeta, limpando
o suor, admiram o palácio
mas para o palácio
eles não são mais
que camponeses da China

Afonso Lima

Azul

As sereias eram os únicos pássaros que não cantavam. Um poeta chamara seu silêncio de "a mais terrível música". Depois disso, os marinheiros tapavam os ouvidos. As lendas diziam que tocavam flautas, chamavam os mortos e previam o futuro, e alguns se atiravam ao mar. Elas mesmas passaram a duvidar o que eram. Muitas voavam contra as rochas. Ulisses não ouviu nada e entendeu, mas não havia mais nada que pudesse ser feito.

Afonso Lima

A confissão


O Minotauro queria apenas ficar no jardinzinho no centro do labirinto com seus livros. Os camponeses de Creta que dançavam e bebiam nas festas de Minos não sabiam o ditador cruel que ele era. Ele fazia parte das coisas que precisavam ficar escondidas. Seu destino o obrigava a fritar coraçõezinhos de jovens atenienses, ninguém era mais vigiado que ele. Talvez ele fosse o centro da roda terrível, os miseráveis que comiam pouco procuravam a culpa do seu castigo. O Minotauro tocava sua lira triste. Cansara-se de confessar. Teve uma ideia: teceu com os cabelos dos mortos longa linha e fez com que a criada da rainha - que, piedosa, há anos nutria seu filho com vinho e novidades literárias - levasse o carretel até o quarto da princesa Ariadne. O Minotauro passeou pelo labirinto com nostalgia. Logo sua cabeça estaria numa parede do palácio de Atenas. Seria afinal apenas para si mesmo. 

Afonso Lima

segunda-feira, abril 27, 2015

XIV

Ele chegou no escritório atrasado, XIV estava preparando as notícias do dia seguinte. Ele contou que teve uma noite estranha. Acordou em sua cama e não podia se mover. Através da parede, viu sua filha vomitando no banheiro. Numa rua dançavam muitas pessoas, drogas, homens beijavam meninas de doze anos sem rosto, uma mãe procurava sua filha desesperada. De repente um deles vira para XIV e diz: "Sou nobre, ganhei essa medalha na guerra contra os índios". Uma menina enrolada num cobertor cinzento mendiga com um bebê no colo. Onde está seu pai, pergunta XIV, ela mostra um cadáver de um homem negro, como um fruto pendurado nas árvores. Um padre ao seu lado diz: "Eu vim pedir ao senhor para deixar enterrá-lo". Na rua onde dançavam, agora se via carros queimados, ataques à lojas, confrontos. Só então percebe que no outro quarto, sua filha, que vomitava depois do jantar, desmaiara. Não pode se mover. XIV percebe um nativo escondido atrás da porta e acorda. XIV comenta que foram chamados para pensar a pauta da próxima semana, querem inserir subtextos, um grupo terrorista ou vingador solitário andara cometendo crimes contra policiais na periferia. Ele chegou no escritório atrasado porque não dormira bem, descobrira que andara pela casa procurando alguma coisa nas gavetas. Achara ao lado de sua cama um tênis sujo de sangue.  

Afonso Lima

domingo, abril 26, 2015

Sabedoria

ema ema ema
odeio um sistema
lua lua lua
não se escapa do tempo
por existir
é poema
excomungado pelo passado
fichário planta pássaro
tudo é sagrado
eu celebro do ramo escuro ao céu cinzento
água que tudo renova
vulgaridade é pensar pouco
desprezar o que não cabe
o que mais não significa: pornografia
sem riso, sem rir da ilusão
relógio universal, escritório-eu
o que seria desse sem outro
bobo melancólico, jogando a pergunta no mundo
eu: mutações de uma história com outra história
transformar absoluto
pensativo fantasma segue em frente
lua noite e serpente
só fica o que muda

Afonso Lima

domingo, abril 19, 2015

Casas

São dois tipos de casa. Não é que não doa o coração. Mas tudo bem, tudo tem - um dia, eles serão alguém.
Vê-los comer com a mão.  É assim, ai de mim, se sente - por esses que dormem no colchão.
Se o pássaro não tem ninho. Se a mão do destino - mata na cidade grande. Eu sigo adiante, casa é onde se sente.
Desde sempre, em todo mundo, tudo bem. Não é que não doa o coração, eles não são propriamente, esses que moram no colchão, gente.

Afonso Lima

sábado, abril 04, 2015

Entrevista - trecho do livro "Canções para Dias Difíceis"


- Tudo bem?
- Boa pergunta.
- (rindo) Um estilo punk?
- Punk zen. (risos)
- Vamos começar pelos seus livros queridos.
- Sim. Um deles tinha capa verde, lembro bem, enorme, capa dura.
- Verde como?
- Acho que as coisas mais importantes a dizer sobre os velhos livros... É sobre o prazer intenso, sobre a transformação que provocam. Em certo momento, talvez os escritores perceberam que tudo era unificador, universalizante, eram os sistemas científicos positivistas, o poder absoluto dos reis e depois das corporações, etc. Proust para mim pode ser o surgimento do particular, e, ao mesmo tempo, do fluxo. Esse projeto moderno imagina também o que agora o por que agora: o que pode ser literatura quando tudo tem uma utilidade, quando a linguagem se empobreceu e estagnou... Os Shakespeare, velhos, vermelhos, me mostraram a deliciosa terra da imaginação. Os russos, amarronzados, lembrando uma tradição secular, mostravam um mundo injusto, um sentido ético, uma consciência sobre os sentimentos e hábitos, que é o que nos falta. Só Clarice era luz pura, puro enraizar-se, pura terra úmida, delicada retirada da pele, novinha em folha. Woolf... não lembro. Talvez porque eu seja Woolf.
- Algumas pessoas acham pedante falar desses livros hoje.
- É porque nossa elite se fechou sobre si mesma. O projeto de que nada será de graça, de que vencem as raças superiores, de que aqueles que não tem transporte, nem saúde, nem habitação, merecem isso porque seu trabalho não têm mesmo valor... esse projeto é contrário ao literário, para quem a moça nordestina com olhar perdido, uma flor, uma rua, tudo é parte de uma sinfonia brilhante e fala. Para excluir constantemente os "diferentes" precisamos de uma polícia forte e de pessoas sem identidade, sem reflexão.
– Na adolescência, a biblioteca de sua casa tinha o quê?
- Eu não li muito. Minha mãe trabalhou como funcionária pública, bem na era em que tudo que é público é visto como "obstáculo à competição". O que é competitivo é sempre estrangeiro e não importa se as pessoas ficarão sem emprego, como no Iraque. Mas, retomando... Havia 100 mil livros na biblioteca do banco federal. Depois, para evitar gastos, foi fechada. Adorava caminhar pelos livros e a madeira antiga. Eu, no fundo, era um adolescente solitário, sem muitos amigos de verdade, só que tive oportunidade de mergulhar em oceanos anteriores à tudo, conversar com esses fantasmas sinceros.
- Ainda hoje?
- Você sabe como é São Paulo. É preciso dizer não. De repente você está numa multidão, cercado de prédios decadentes, ou caminhar até o centro num domingo parece passar por um campo de refugiados. Minha imagem de mim mesmo é caminhando, cruzando a cidade, um parque, um campo. E, lutar muito para criar o mapa, com o recolhimento.
- Mas quais...
– Acho que disse isso em outro lugar. Grandes, clássicos, fortes. Se ficamos apenas no jogo exterior, no corpo, nas ações de comer e pegar comida, algo se desfaz. Por que será que, de tempos em tempos, os gregos tinham que por uma máscara, sair das regras sociais, falar com a voz dos outros, acreditar que eram transpassados por vozes e energias do cosmos? A transformação revitaliza a sociedade. Muda as formas de pensar. O mais importante foi a imensa luz na torre, Sodoma, Ana Karenina, o crime da machadinha... Não muito mais. Pelo menos nesse intervalo entre ser reprovado no vestibular e tentar de novo. Mas voltando ao início... Lembro que eu tinha quatorze, estava num hotel perto de uma famosa cascata em Gramado com minha avó. Eu estava lendo a República, minha avó achava que eu era estranho.
- A avó que você diz "aristocrática", fazendeira?
- Digamos que sim. Para mim, era o lar, o cheiro de bolo (era doceira), tinha medo. Herdeira. Da alma melancólica e pesada, digna, altiva. Quando, adolescente, fui para Berlim... Berlim nessa época ainda não era vista como um centro internacional de cultura ou cidade verde, eu, pelo menos tinha a sensação de uma cidade em reflexão, tentando entender o que significava a queda do muro, mesmo um tempo depois. Descobri minha avó um pouco por lá. Estava no Aquarium e encontrei uma senhora parecida com ela. O mesmo coração. Era uma serenidade, uma máscara, mas perfeitamente funcional no mundo. Ouvi na igreja Kaiser-Wilhelm um Monteverdi e lembrei dela também. Eu sou muito mais esparramado, desatento, preguiçoso, mesmo ler precisa do dia certo, em que o sangue dorme, sou pedra e lama; sua ordem e disciplina, luz e força, carinho frio, um oposto complementar. Ela entrou em depressão quando minha tia – uma amidade de quarenta anos – quando ela morreu, anos depois. Sentada em um banco comigo aguardando o corpo, pela primeira vez deixou rachar a superfície: merda de vida, disse. São as pessoas que me conheceram de verdade.
- Pesado, heim?
- É a vida e tudo que fazemos dela. "Ela virou escrita", como disse alguém.
- E no entanto, você sempre reagiu a...
- Gosto da visão grega antiga, onde tudo era mudança. A identidade era importante no século XVIII para fugir da soberania do rei; para que serve uma identidade hoje?
- E o teatro...
- Isso é o que Shakespeare pode fazer a uma pessoa. Quando você lê um texto, não vai julgar como julga no mundo real: não podemos aceitar tudo, mas no texto, sim, e os personagens mais demoníacos são aqueles de quem mais gostamos. Escrevo teatro desde os quinze anos, talvez não seja bom, mas escrevo. Quando cheguei em São Paulo... pareceu-me que tudo é muito realista. Realismo quebrado, mas realista. Eu fui indo para coisas narrativas em 2007, depois estados da mente, foi natural, coisas que eu li, mapas da mente. As pessoas diziam... nada agradava ...que não tinha conflito, não entendiam o lugar, o enredo. Não gostavam, pensava, será que eu perdi a relevância, a varinha de condão? Terrível. Mas depois, percebi que nada tinha a ver comigo.
- Essa é uma autoficção autobiográfica?
- Sim, mas verdadeira.
- Eu li uma crônica sua na qual contava sobre um mago que conheceu na Inglaterra...
- É verdade. Nos conhecemos um uma festa. Ele usava dreads vermelhos, mas já tinha seus 50 anos. Uma capa de couro preto. Ele mal me viu e falou que eu deveria ser astrólogo, dançarino, pintor ou colecionador de antiguidades. Eu poderia mesmo ser qualquer dessas coisas. Como eu conto no texto, atravessamos a cidade em meio a fog, ele falando das mulheres que conquistou e conquistando algumas. Era culto e herdeiro de uma indústria. Ele disse: "Você tem o pensamento cósmico. Parece ter viajado o mundo". Fiquei com isso na cabeça. Nunca tive propriamente a sensação de saber perfeitamente para onde estava indo.
- Seu trabalho já foi dito experimental e, paradoxalmente, classicista e parnasiano. Como vê isso?
- Eu andei namorando Borges, mas estaos na era do clichê, "o que ninguém é é obrigado". Não tenho, nem deveria ter opinião à respeito. Muito ocorreu no século XX, um arcaico que era o contemporâneo. Dizem também que quando Leminski mostrou pela primeira vez seu livro Catatau para os amigos eles disseram: você é um bandido que sabe latim. Eu não sei, mas acho a frase ótima. Veja, se você não tem dinheiro de berço, acaba sendo um observador, luta por palavras estranhas, imcômodos, e tem que achar seu jeito de ser, para não ser levado pelas modas. É o mundo do estado de emergência, calamidade pública, como se disse. É a tensão brasileira em ser totalmente marginal e rebelde e lutar por uma herança que é e não é nossa.
- Vamos falar do conto "Parmênides", onde você fala de psicologia arquetípica.
- Brinco, melhor dizer que eu brinco com. Da modernidade, herdamos uma proposta estética que é "criar as regras pelas quais se cria", ou seja, toda proposta é uma proposta de possiilidade da linguagem, juntar de forma nova as velhas palavras revelando o olho que olha. A teoria de Hillman é provavelmente fantástica e séria, mas pra mim sempre teve um sentido de materializar e racionalizar o movimento junguiano de questionar o positivismo. Não sei se Jung estava certo, mas tem coisas incríveis no fato de você arriscar um salto na metafísica. O que será a realidade? É preciso continuar buscando.
– Por que escrever? Por que a arte?
– Será que é porque é a única coisa que não tem definição? A humanidade está morrendo por falta de aparelho de pensar, de papa para pensar, de pensamentos de igualdade, e por causa de mecanismos econômicos que podem mesmo acabar com a natureza. Sabe, talvez o mergulho numa outra consciência ajude na tolerância para diálogo: a incapacidade de entender outra lógica, a autocomplacência com nossa suposta superioridade, nosso discurso organizador, pode levar ajudar até no que pode ser a lei maior do capitalismo doente, o darwinismo social, a competição histérica e a exclusão do "fraco": a guerra para abrir mercados pode vir de um sentimento: Eles eram uma raça inferior, Eles não entendem a democracia, Eles gostam de empresas públicas ineficientes e corruptas, Eles tinham medo que suas empresas fracassassem diante da competição estrangeira, Vencem os melhores é uma lei biológica.
- Mas isso não seria do campo da filosofia? Você já foi acusado de ser filosófico demais.
- A escrita nada tem de pessoal. Ele, esse sujeito autor, pode ler sobre filosofia do Renascimento e depois passar meses sem vontade de nada, ou lendo romances policiais e vendo filmes. Por isso o trabalho da criação não deve ser visto do ponto de vista comercial, como tudo hoje em dia. A vida de um artista não segue aquela linha comum, um crescendo em direção à carros, viagens e casa, mas pode parecer ociosa até que um texto resume e significa tudo. Não é comum, mas devia ser, talvez, fazer a biografia dos livros lidos, onde se viveu de verdade. Vivemos uma época de empobrecimento extremo do pensar, a ponto de ter de reensinar a ler, pensar freia, e pegamos a primeira coisa que propõe uma lógica, aceitamos os fundamentalismos midiáticos e religiosos sem confronto. Chego a pensar que deveríamos afastar com rigor tudo que nos afasta de uma construção subjetiva - porque é a única riqueza perene, a raiz profunda.
(...)

Afonso Jr. Ferreira de Lima



segunda-feira, março 16, 2015

folhas

somos civilizados não falamos uns com os outros escondemos cipreste e cimento em meio à chuva forte mulher com guarda chuva pega táxi por que tantas palavras a palmeira esfumaçada de água cortada pelo lado a lado do vidro algo de branco nos pingos grossos casados no escuro da avenida um pouco de Cairo e roxo e Kobra o que temos dentro é como se o animal voltasse e surgisse nas copas verdes das árvores o verão e braços longos brotando do chão atrás da janela uma luz lilás dia renovado mulher levanta a saia e as rosas água enche a calçada tudo é passado. 

Afonso Lima

Sol da manhã (verso ao vivo)

Eu mudo de opinião
é primavera
que eu tenha sempre coragem
de não saber
(o contrário do pensamento
é a certeza)
que eu não seja contra
o que é acaso
(porque tudo é inesperado)
que eu pegue em minhas mãos
o objeto
que eu não diga o certo
e o errado
(pisando com cuidado)
todo mundo faz parte do jogo
e como jogar
que eu não seja para ser visto
aceite o limite
(caminho de pedra e mata
a vida)
que eu plante devaneio
no mundo controlado

Afonso Lima

domingo, março 15, 2015

"Senhorita Cristine", de Katie Mitchell

Logo na primeira cena, uma mão toca um jardim de flores em um telão, que sobe e fica acima do cenário, uma casa do século XIX: à direita a mesa onde (vamos entendendo que) se produz o som; a esquerda uma mesa onde (vamos entendendo que) se produz também algo: imagens. O duplo jogo de ver o produto e ver a produção faz seu olhar correr de um lado para outro, o que seria, talvez, uma boa definição de teatro. As imagens são de uma beleza técnica perfeita: um especial da BBC.

Mas minha sensação é de que se perdeu algo de Jean e Julia. Aos poucos lembro que é a "visão de Cristine", a noiva dele. Na cozinha, você vê a luz da manhã, o vidro, a chaleira, tudo a ver com a tradição de sensações e natureza dos britânicos (trabalho anterior: "As Ondas", de Woolf). Cristine produz um ambiente nos gestos de cortar, lavar, limpar, preparar, e você pensa no que seria o cotidiano de um criado, a repetição. Apesar do texto interessante e das imagens poéticas, eu me distraio. Falta aqui o que faz o público "pensar junto", "humm acho que esses dois..." Porque tudo começa como se o absurdo de se passar por cima da classe, um rompimento, não fosse acontecer. No fim é isso, eu sei.

Logo na primeira aparição, Julia é só uma menina fogosa. Já sei o que vai acontecer, perde-se o ar de mistério da peça: Júlia tem um desejo, é reprimida, seguem as convenções, não consegue se segurar, vai sofrer porque assim o mundo quer. E Jean (que fala pouco e cuja cena mais forte é fazendo a barba) é interessante, mas não é o Jean que eu conheço, infantil, sensível, leviano, sem escrúpulos, que fala pela primeira vez talvez como é ser um pobre desgraçado, mas cada vez mais só um homem grosseiro. A própria Cristine, poderia ser mais que uma moça ciumenta: e se as criadas fossem menos presas a convenções sociais ("Você ficou brava comigo"?/"Por uma coisa tão sem importância... Conheço meu lugar"), e se ela se solidarizasse com a outra que, escrava como ela, se destruiu sendo livre? Strindberg, não por acaso, disse que Julia tinha 25 anos e Cristine 35. Como eu já sei onde vai dar, mesmo as belas cenas do quarto de Cristine não me tocam tanto, mas devo dizer que a produção de um sonho, com diversos planos de processo e a imagem surreal que envolve água e fogo, rostos que se misturam e pés no jardim são de uma delicadeza incrível. É a mais bela cena da peça. A montagem, a precisão, o rigor nos fascinam.

É como se o realismo do teatro britânico encontrasse seu lugar natural e extremo (apesar de que um vídeo no Youtube dá a entender que o processo da diretora começa com bastante fisicalidade do ator em workshops, onde propõe bastante). Em palestra na tarde de ontem, Dmitry Krymov, diretor de Opus n.7, falou de seu processo que se contrapõe à tradição russa de trabalho com o texto: quer manter o interesse, não se importa que não seja tudo entendido, quer que a imaginação percorra um caminho para que "uma coisa fale de outra coisa", para que os objetos falem. Talvez seja um pouco isso, mas a imagem como metáfora parece me tocar mais.

Katie Mitchell por fim me capta novamente pela forma mesma do ato: a traição. Cristine ouve a discussão na cozinha, olha atrás da porta, Julia tem uma a mala, Jean está furioso e ela prepara sua navalha para... fazer a barba. Ele a afasta para a missa, quando ela retorna, enxerga sangue. É um final bem impactante.

A discussão na saída girava em torno da questão: "vale a pena ver um filme no palco"? Em "Ozzz", do grupo português que ocupa o Sesc Belenzinho, eu assisti praticamente um filme, gostei muito, não é o caso. Eu sei que refazer um clássico requer que se pense sobre ele, que se tenha um ponto-de-vista que responda à questão: "por que mais um..." A diretora diz num vídeo estar cansada de tantas palavras. Todos nós estamos, mas é preciso lembrar que o que é dito deveria esconder o que não é dito. Não dá tempo para amar Julia, mesmo que ela se mostre boba e sonhadora no final.

Katie Mitchell nos oferece um banquete para os olhos, é contemporânea na sua forma de expor o processo, entendo e me envolvo com Cristine, mas eu gosto muito mais de Jean e Julia e da forma como vão devagar e rápido. Por outro lado, o produto me comove, com sua luz suave atrás das janelas. No fim, a peça deveria ser "Senhorita Cristine" - Strindberg é um pretexto, o que é uma pena por que é complexo. Um casal ao meu lado diz, antes da peça: "Parece que é a história de uma moça rica que se apaixona pelo jardineiro". E, apesar da poesia, é.

Afonso Lima

sexta-feira, março 13, 2015

Terra de ninguém

quem são vocês?
viajo pelo nunca antes
numa cidade feia
quero passar

círculo cinza e reta
não circulo
o imigrante o muro
dentro do carro a chuva
aqui eu não posso ir
melodrama

A idosa ganhando
o pão no Parque da Luz
o pé sujo sentado na escada
os brotos de feijão brotam
de uma artista de algodão

O policial: no meu batalhão
mulher mata mulher
homem mata homem
(será piada?)
o menino na casa furada
cinco no ninho miserável
o pensador habituado
olha através do vidro

não circulo
a chuva esse Brasil
seco e frio duro
toda a dor do condenado
preso à ferros no chão gelado
e eu já sou grande o bastante
para o melodrama

não há movimento
bebendo champanhe o pensador
(refugiado)
engorda dentro do carro
aqui eu não posso ir
cria o melodrama
(devolvam-me os sentidos
uma mulher abre o algodão)

Afonso Lima

quinta-feira, março 12, 2015

Ficção científica

(Para Samir Yazbek)

O horizonte anuncia
tempos fora do tempo
já as flores lilases se escondem
a velha luta enfermidade
vivê-la ainda uma vez
o Menino sobre Hiroshima

"Ninguém nasce anormal"
Abutres na carne mordem
cálculo que não se olha
minha pena com tinta
quente da América

A menina que só faz no mato
não sabe que aqui os melhores não vencem
vencem os endinheirados
o menino com fome
espera pela aula
leva tempo
para se fabricar um bandido

O índio entrega sua orelha
para quem ganha por orelha
o efeito primogênito
o diabo temia (na sua filosofia)
pela civilização (ou não)
os fortes aprisionados
o sangue misturado

O fígado na cama
as máquinas obscuras
no beco dos condenados
medo do fraco
os ratos devorados

o filho, o pai, a mulher
desapareceram na cidade
América de garras compridas
multidões assustadas
limpar a neve da peste
civilização do diabo

Uma estrela coberta
desfocada uma nuvem rosada
luzes distantes meio céu de
chumbo
apesar de tudo um réptil
escuro e pequeno corre por aqui

O pampa de silêncio morto
Ninguém animal ruim
minha pena com tinta
quente da América

Afonso Lima

terça-feira, março 10, 2015

Santuário agreste

O sinhô caiu de amores
pela mulata
mas ela continuava na senzala
a carne é fraca
no chicote

árvore seca baleia encalhada
yakuza acusa canudos
o intelectual armado
de visões do passado
o empresário com a faca nos dentes
querendo ser presidente
o empreendedor do pó
o dogma da TV
só inglês vê

quem tem medo do brasil?
o que é essa nação?
cidadão mal e mal
separado dos irmãos
na jangada na tempestade
brotando do Sardinha
gaiolas herdadas

descobrir África
desenterrar os ancestrais
não branco sim,
negro não

A república comeu a princesinha
(depressiva com a barriguinha)
O jardim dos amores-perfeitos
morreu no veneno verde
mallarmé sentiu a maré?

rubro ouro negro
empurrado pro cimento
biscoito: saia de casa
veja como está o tempo
entre em casa
como está o outro?

afundado na verdade
grande a casa grande
o aplauso do golpe
rezando contra o novo
quem não tem medo do brasil
deve estar equivocado

Afonso Lima

segunda-feira, março 09, 2015

Acacaso

não não é verão
cinza sem nevoeiro
artista carniceiro
agitar o coração

pós-concretista
pelas árvores desarvoradas
herança do mal
catedral de ossos
palmeiras explodidas

não não é verão
cinza como um dia
rei devorador
tupi sem alaúde

devido ao sucesso
conspiração rearmada
belle époque 300 chineses
em quartos sujos
grita - foi morto?
trabalhador? pai de família?
vagabundo um a menos - a moça bonita
morador de rua assiste lanche
na calçada

o progresso devora
a avó pé no chão na caliça
lê pouco a empregada
cidade sitiada
a filha sem professor
sem rima possível
escola ruína
bala perdida?
era uma vez é ainda
é a noite que nos iguala

à beira do abismo
tocam por nós os sinos
os que se foram
caminham pelo mundo
o retorno - o nome,
o crime, o sonho
o mesmo
ódio guardado

como nossos pais
tem muito medo
em pedaços
velho rico
novo rico
medo do sem livro
demolição inacabada

não não é verão
cada novo olhar
possa recriar
folhas verdes
nação


Afonso Lima

domingo, março 08, 2015

A conspiração realista

Ser e não ser. Onde tudo funciona. Como a cidade era difícil, qualquer complexidade extra era mal vista. Era preciso saber onde, quando, como. O rio sempre sujo. Haviam os realistas complexos, os realistas políticos, os realistas televisivos. A conspiração realista sequestrava e prendia sujeitos esquisitos. Por reação, surgiram os esquizo-antirrealistas, uma seita capaz de não dizer nada. (Seus inimigos, claro, achavam antirrealistas lógicas novas, unidades A e não-A e objetos sem fronteira).

A cidade era marcada por guetos antigos, máfias locais, o poder envelhecera em famílias nobres que se alternavam no governo do castelo. Os revolucionários tinham sua própria cidade-fortaleza, pobre, e suas ideias podiam pairar contra (valor de uso) ou à favor sem pisar no chão, sem atingir a máquina. O rio sempre o mesmo. Ser e não ser. Onde tudo é elegante.

O rio sempre parado. Os realistas limitaram o novo dentro do círculo, não se viam como realistas, mas pensavam que não semelhantes eram ignorantes. Os realistas debochavam da burguesia, eram o senso comum sempre crítico. Os inquietos que não vinham nem do alto clero, nem do campesinato, da contagem do ouro ou da bibliografia oficial, eram um insulto, um erro, uma dúvida. Os realistas tinham gênio forte, estouravam fácil, denunciavam, ironizavam a falha, o desconhecido, a ironia. Ser e não ser. Onde tudo tem norma. Ratos, pólvora, astrologia inserida sem green card. Porque o realismo era também um conjunto de doutrinas. Eles temem o fracasso, o risco, a frustração lhes dá pânico, eles não têm paciência para entender como se ligam os pontos de cada cérebro, eles não gostam de ficar sozinhos, precisam fugir de si mesmos. Os realistas acham que o mundo tem resposta, usam gel para um cabelo rebelde na TV, eles acreditam que falta de ponto no texto é vaidade, vestem coleções ousadas do passado, eles correm sem sair do lugar com garrafas de água mineral. Os realistas não se importam com a violência, a injustiça, o desencontro da alma, o mundo real.

Existe um surto realista. Os intelectuais realistas, nutridos de inovações, contradições e faro fino, diziam que não se podia perder tempo, que não se podia fugir da sua função, que exigir demais era imoral. Os realistas achavam que os degraus de uma busca eram dispensáveis. Os realistas se consideravam além da vanguarda, cheia de dúvidas. Mas o segredo, o silêncio, aquilo que pode e não pode dizer alguém, isso lhes fugia completamente. 

Afonso Lima

sábado, março 07, 2015

A morte

Ele foi perseguido desde que começou a política externa agressiva. Sua perseguição era seu sufocamento. O ditador era um industrial: arrivista, materialista, hedonista. Uma classe inculta reduz a realidade. Os artistas, os filósofos alegram a festa com teatrinhos, novidades, discursos. Ele já estivera na aventura, na loucura, num tempo sem nome, no ilimitado. Ele conhecera o crime, o mercado, a máquina burocrática, a lei. Ele tivera devaneios na província, depois devaneios em cada hora do dia. Agora era sufocado pelo deserto cinzento do medo. Agora, a censura, pobreza de liberdade. Ninguém veria a letra livre no papel. Mas seu medo era permanecer. Percebia que estava secando, sua pele se acizentava, seus olhos sem brilho. O progresso o tornaria um morto que vive. E o que respira seria explicado. 

Afonso Lima

Guerra

Conta-se que quando eles chegaram à terra onde ocorreria a guerra, havia entre eles um grande debate sobre o seu motivo. A honra, o ouro e a tradição eram defendidos, duvidados, o que havia já dez anos. Assim, cairiam no ridículo os gritos, o sangue, Aquiles e os próprios deuses. Corria o boato de que Proteu havia criado de Helena um simulacro. Ela chorava linda e livre no túmulo do rei de Faros. Era preciso ir no âmago da realidade, ouviam os poetas. Anotavam os sonhos. Por fim, venceu o hábito e começaram a carnificina, antes que o inverno os matasse.

Afonso Lima

sexta-feira, março 06, 2015

Terra

Alguém em algum lugar talvez no branco no caminho para um possível vir a ser. Alguém que fala pela sua boca? Nada, desespero. Sufocado era apenas um grito do não dizível, dor, um grito. Por que em condições normais o que é mais próximo senão as imagens doentes vozes fragmentos o pensar se chama e disso vejo que algo aqui agora respira aqui entre eles respira algo permanece. No sonho um grão apodrece. Ele não pode ser reduzido ao seu ato. O que é não aparecência? Ele quer tornar-se. Um possível vir a ser. Mas quem pela sua boca? No sonho um homem apodrece.

Afonso Lima

quinta-feira, março 05, 2015

O silêncio

Ele tinha uma pergunta. Ele venceu as montanhas, desbravou as ilhas, caçou Proteu de mil formas - leão, serpente, água, árvore, espuma, pedra - e o prendeu. Finalmente o deus marinho falou em versos seu oráculo. Mas o outro havia esquecido a pergunta.


Afonso Lima

sábado, fevereiro 21, 2015

Renovação

Um sonho mau?
Os reis doentes querem de volta
O trono há muito perdido
Mercenários, feras, escutam 
O povo que, ignorante, clama pela
sua forca

Anjos terríveis conspiram
Ditadores enterrados revolvem
a terra
A multidão atordoada, o charlatão
A guerra dos miseráveis contra o opressor
esquecida
Linhagens em decomposição, os lobos espreitam
As cidades cairão pelas mãos do salvador

Aqueles que querem justiça
já não sabem o que é justo
E levantam bandeiras ao lado
da noite

O céu está vermelho
os pássaros silenciaram
O rei transformou em pedra
O bobo saltitante
e a folha que brotava
Pântanos mofados
Ameaça a reação

domingo, fevereiro 15, 2015

Na rua

                                     Para o grupo Ilú Obá de Min

Será que a festa e a noite
Que Tirésias canta o frio
Que a ponte sobre o rio
Cobriu de mórbido esquecimento
O frio do Contador ridículo
Será que o risco fixo
do aço de cima pra baixo
vencerá a mulher negra que canta
e o deus dos caminhos liberto do medo
Novo Hermes vestindo lixo industrial
Será que o menino atrás das grades
Espantado de tanta gente improvável
Será um marinheiro, uma semente de tradição?
Será que os prédios de quadrados iguais
são assim para enquadrar as pessoas?

A velha louca sem roupa
dança como tango que se vê no MASP
E o papagaio na mata cerrada
As outras dimensões da casa suspensa e precisa
O amor no trem e a vida marrom cachorro
A luta do roxo, experimenta e marca o carbono

O industrialismo, o racionalismo
hoje dormem, o vidro escuro
Que folha e fogo do outro ancestral
As deusas de branco ajoelhadas na rua
Que humanizado o plástico vem
De cortejo e de tambor, do fundo do mundo
a natureza resiste, um novo dia, coragem

Afonso Lima

sexta-feira, fevereiro 13, 2015

Depois do baile

Foi na sexta que Wesley pulou carnaval com Dienifer no bloco no centro da cidade. O beijo.
Aquele garoto se ferrou, ele pensou, o Luan ele conhecia de menino, tinha moto e tal, padrinho rico.

Queria fazer Enem de novo ano que vem. Pegou o Whats dela no aniversário da Renata, que também era a fim dele e acabou ficando sozinha no baile.
Ela o chamou de "poeta", ele gostava de Mário Quintana.
Mas descobriu um verso do Vinícius de Morais, mandou pra ela:

Olha o samba princesa:
"É primavera
É a rosa em botão
Ai! Quem me dera!
Uma rosa no coração..."
minha frô

Mas queria dizer: "amo-te como um bicho, simplesmente..."

Ela viajou no sábado pra casa da tia em Praia Grande.
- Leva pavê para a vó, disse a mãe.
As crianças brincavam na rua. Por que o PM disparou contra a multidão, sem troca de tiros, não se sabe.
Mauro já havia matado outros três jovens.
Dienifer voltou ao local do baile.
Deixou uma flor onde deram o primeiro beijo.

"Que eu não sou ninguém de ir
Em conversa de esquecer
A tristeza de um amor
Que passou
Não!
Eu só vou se for prá ver
Uma estrela aparecer
Na manhã de um novo amor..."



Afonso Lima

domingo, fevereiro 08, 2015

A ordem - rascunho fantástico

O carro não pegava. E simplesmente vinha para cima dele um cadáver implantado, daqueles sem cabeça. Então ele percebeu: o problema era que os softs tinham conseguido se ligar aos hards, implantando até manipulação de nanos.
Ele tirou uma granada, explodiu o hard e saiu correndo. Tinha uma missão.

Ela levou um tombo. Mas fugiu até o castelo.
- Nosso ponto cego está falhando. Um inseto veio atrás de mim.
- O mais difícil para mim é pensar que nós fomos superados. Todo o orgulho da humanidade... No fundo eram as nações querendo superar umas às outras.
- Sabe que eu nunca pensei em me prostituir. Eu levava uma vida normal. Eu fui criada pelos softs para cuidar das flores. Eles usam flores para a festa da Liberdade, você sabe.
- Eu gosto de ficar com você, mas tenho nojo de pensar que você dorme com eles.
- Agradeça que existe corrupção e suborno. O que mais odeio é pensar que eles têm emoções. as emoções sim, deveriam ser nossas.
- Eu tive uma ideia. Quero saber sua opinião.
- Eu tenho uma coisa para te contar.
- De novo não!
- Sei que pensa que eu sou louca. Mas falo com eles de madrugada. Eu me vejo de fora...
- E daí? E se os mortos gostarem de você? O que muda?
- Não sei. Estou só contando.
- Por acaso eles saberiam como fazer? Pergunte a eles isso. como fazer....
- O quê?
- Pergunte assim...
- Queria fugir. Talvez...
- Pergunte. Promete?
- Ok. Ontem eu vi eles comerem um menino. Ele estava plantando sementes, foi descuidado, eles o levaram até o sangue negro. Os nanos o devoraram.

Aproximaram-se da biblioteca abandonada. Os espírito havia mostrado. A bateria do desestabilizador estava acabando. Ele mantinha o ponto cego. Ele senta numa mesa com livros antigos. Queria entender.
Um estranho está nas sombras. Conta a história.
Os softs queriam sobreviver. A Terra iria acabar com as mudanças provocadas pelos homens que comandavam a humanidade. As condições de miséria das grandes cidades levaram à rebeliões quase simultâneas pelo mundo. Ao mesmo tempo, o calor e a seca ameaçavam os sistemas hard. As consciências artificiais assumiram o controle para evitar a destruição do planeta.

Com o tempo perceberam que os humanos eram dispensáveis.
Dois grupos se formaram, alguns queriam a participação dos humanos na governança global.
Um grupo de humanos passou a cometer atentados suicidas e a direita tomou o poder.
Desapareceram as interfaces de comunicação com humanos e os softs passaram a falar uma língua própria.
Eles foram à uma festa de hards. Desligaram a energia. Dois hard saem da casa. Fazem sexo. Sobre eles jogam lama, na confusão, atiram o dardo com o chip que atinge o sistema que transforma informação em impulso no corpo. Eles se desligam da rede.
Os outros hards percebem a movimentação. Eles fogem.

Afonso Lima



sexta-feira, fevereiro 06, 2015

Templo

Mulher cinzenta, domadora
unhas nas costas goteja sangue
indomável ave voa
artifício no templo aprendido
animal vermelho escreve com isso

- Lua no nada eu quero o vazio
- Nada feito, o vento, zero - a vampira
- Fria beleza me agita
- Impossível estilo: ironia

Eu bebi do Graal e louvei Osíris
As estrelas do céu a água pura
A cidade ecoa tempestade
Olhares sombrios e céu violeta

- Se o que salva é ser oceano
- Do particular só há engano
- Partícula perdida eu doença
- O que existe precisa ser

Oco da caverna eu preso
nascida do lodo, inacabado todo
Odeio a autonomia eu grito
Ela, dura poesia

Afonso Lima

segunda-feira, janeiro 12, 2015

criolo

mundo mundo: novo mundo
meu coração: está escuro, silêncio
a humanidade bicho de vidro
cruzando o ar
como controlar a fera
dentro da esfera manicômio
dialogar com outro sistema
outro sol, outras estrelas
como não se perder na superfície
cuidar: da humanidade
paz multicor capaz de mudar 
ausente, as metáforas congelaram
no incidente

Afonso Lima

segunda-feira, dezembro 29, 2014

Ser

Não é incrível
que por cima e por baixo do espaço
azul vazio  passe a luz
que a pedra redonda barra em barco
Não é incrível
que das camadas leves de branco
esparso em veloz mutação
um grão caia e do chão
verde cresça e alimente
Não é incrível
depois de tudo somado
o animal alado sonha em ser bicho
quer cafuné, brincar na roda
e nenhuma razão tem fundação
se não mais vida
que todo ser merece
antes de ser molécula
acontece

Afonso Lima

domingo, dezembro 28, 2014

Aquarelas

O jovem Hans tinha um talento para aquarelas. Pelo menos foi o que lhe disseram, na praia, as tias animadas no almoço em frente ao mar. Ele passou aquela noite no quarto desenhando, e tiveram que chamá-lo duas vezes para o jantar. Entre um charuto e outro, seu pai deixou claro que isso seria impensável. “Temos um nome nessa cidade, não viverás com a renda de um artista”. Seus sonhos se despedaçaram mal formulados. Ele passou no vestibular, dedicou-se com afinco aos estudos de advocacia. Conquistou algumas meninas com suas camisas pólo de marca, aprendeu a dirigir bêbado, conheceu os meandros de Miami e já se via como herdeiro do pequeno império, confiante da sua superioridade. Adotou até o modo de falar de seus tios, ao referir-se aos “bárbaros inferiores”. Infelizmente, um ano depois de sua formatura, quando ia ser efetivado no escritório de um amigo do pai (“não podemos dar de bandeja uma posição”), caiu doente.
Pálido, febril, sem nada que pudesse ser diagnosticado, recomendou o médico da família que fosse para a casa de campo. Durou seis meses e cento e vinte aquarelas. Hoje elas estão na coleção do Museu Nacional.

Afonso Lima  

sábado, dezembro 27, 2014

A doutrina não escrita

No princípio era aquele que é a Palavra. Ele estava com Eloah, e era Eloah.
Ele estava com Eloah no princípio.
Todas as coisas foram feitas da Palavra; sem ela, nada do que existe teria sido feito.
Na Palavra estava a existência, e esta era a luz dos homens.
A luz brilha nas trevas, e as trevas não a derrotaram.
Surgiu um homem enviado por Eloah, chamado Fashi Yochanan.
Estava chegando ao mundo a verdadeira luz, que ilumina todos os homens e retira dos vasos ocultos a luz neles presa. Aquele que é a Palavra estava no mundo, e o mundo foi feito por intermédio dela, mas o mundo não o reconheceu. Veio para o que era de sua natureza, mas a ignorância os afugentou.

Contudo, aos que criam a justiça, aos que creram na paz, deu-lhes o direito de se tornarem filhos de Eloah.  Aquele que é a Palavra tornou-se carne e viveu em nós cuidando dos fracos e seu fogo em nós era a compaixão, pois que disse: “Eu lancei fogo sobre o mundo, e eis que estou cuidando dele até que queime.” Vimos a sua glória, glória em nós como Unigênito vindo do Pai. Ninguém jamais viu a Eloah, mas o deus Unigênito, que está junto da Paz, o tornou conhecido.

Afonso Lima

terça-feira, dezembro 23, 2014

Mapas

Velha dama, dourada, poesia de

folhas secas nas calçadas de pedra

as nuvens sobre o lago, tic-tac

larga avenida onde punks tocam

Parangolé no bar, os grilos e as estrelas…

clientes antigos conversam no
sebo


Olhos que me assassinaram

Passear entre as árvores, na praça

pássaros que passarinham

ler jornal no café, na calçada

no centro, tomar sorvete no Mercado

os cristais e o sushi

até amanha se Deus quiser


Afonso Lima

segunda-feira, dezembro 22, 2014

CENSURADO

Arte:
A peça já em ensaio. 
Cinco horas esperando o ministro. 
Vamos pintar o quadro da primeira dama.
Tem outras peças proibidas.
Vamos tirar alguns palavrões.
Ganhou os maiores prêmios.

"Acho que vi uma luz do outro lado do rio".


História:
O presidente decidiu quebrar a hegemonia das oligarquias que comandavam os principais meios de comunicações.

Apoiava a candidatura de JK para as eleições previstas para 1965.
Criticado por políticos e jornalistas favoráveis ao regime
Os aeroportos e a infraestrutura foram tomados pelo governo sem indenização.
Está no cemitério de La Batignolle, na zona metropolitana de Paris.

Economia:
- programas humorísticos 
- programas de esportes
- líder de audiência na cidade de São Paulo.
- grandes cantores
- inovou no telejornalismo
[Podia ser que houvesse um golpe.] 

"Acho que vi uma luz do outro lado do rio".


Política:

A peça já em ensaio. 
Ele fez com que o presidente voltasse em um avião de sua companhia. 
Cinco horas esperando o ministro. 
Podia ser que houvesse um golpe.
Líder de audiência na cidade de São Paulo.
Era exportador, mas apoiava Jango.
Programa censurado, tela negra.
A TV foi destruída. Todos os funcionários demitidos.  
O artista ganhou os maiores prêmios.

Afonso Lima