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segunda-feira, agosto 14, 2006

Fiquei sabendo esses dias que o banrisul mudou para Windows- êpa, mas não era as mil maravilhas o software livre? Fica no ar o gostinho de monopólio...

BANRISUL : Licitação, Software Livre, Preconceito e Discriminação
Publicado em: 26/09/2005


Baguete
Mario Teza

Coluna aborda os prejuízos que o Rio Grande do Sul terá em mantendo-se a nova orientação da Diretoria do BANRISUL por acabar com o uso de software livre na instituição.

"É interessante explicitar que preconceito segundo o Dicionário Houaiss é uma "atitude, sentimento ou parecer insensato, de natureza hostil, assumido em conseqüência da generalização apressada de uma experiência pessoal ou imposta pelo meio, intolerância (por exemplo, contra um grupo nacional, religioso ou racial)".

Já discriminação é o "ato que quebra o princípio da igualdade, como distinção, exclusão, restrição ou preferências, motivado por raça, cor, sexo, idade, trabalho, credo religioso ou convicções políticas".

Fica claro portanto que o preconceito é uma atitude e/ou uma forma de pensar preconcebida, que pode levar ao ato de discriminar.”


1. BANRISUL : uma história de independência tecnológica.

“O BANRISUL é o maior banco do Rio Grande do Sul, com presença em 76,2% dos municípios e atendimento a 97% da população gaúcha. Sua rede de atendimento está composta por 1.002 pontos de atendimento, sendo 386 agências, 293 postos de serviços, um escritório de representação em Buenos Aires e 322 pontos do BANRISUL Eletrônico. Do total de agências, 357 estão localizadas no Rio Grande do Sul, 14 em Santa Catarina, 13 nos demais estados brasileiros - Distrito Federal, Bahia, Ceará, Minas Gerais, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo - e duas no exterior, em Grand Cayman e Nova Iorque.

O BANRISUL encerra o primeiro semestre de 2005 com um lucro líquido de R$ 174,4 milhões, 54,9% superior aos R$ 112,6 milhões obtidos no mesmo período de 2004. O patrimônio líquido chegou a R$ 1,1 bilhão, com evolução de 32,8% sobre o resultado registrado em junho de 2004.

O resultado do primeiro semestre de 2005 foi influenciado pelo crescimento das operações de crédito concedidas às pessoas físicas, principalmente na consignação em folha de pagamento, para aposentados e pensionistas, operações que têm reflexo positivo na economia gaúcha, movimentando o comércio e a indústria. Os números alcançados pelo Banrisul igualmente podem ser atribuídos à contribuição de novos produtos e ao aumento da base de clientes, que se refletiu na expansão das receitas de prestação de serviços.” [2]

Na década de 80 o banco investiu na sua automação, posicionando-se no início dos anos 90 na vanguarda da automação bancária. Durante o Governo Alceu Collares (PDT), o Banco preparou sua independência tecnológica. Esta foi consolidada no Governo Antonio Britto (PMDB).

No ano de 95 o Banco define que na área tecnológica a palavra de ordem era a independência de fornecedores. Para tal constroem um conjunto de definições para a compra de equipamentos, para o desenvolvimento de sistemas que tem por base padrões internacionais interoperáveis. No Governo Olívio Dutra (PT), o banco avalia tecnicamente a conveniência de adotar software livre nas agências e nos caixas eletrônicos. Depois de um minucioso estudo, a conclusão é favorável.

(...)

4. O Grande problema do Edital.

Mas o grande problema que até agora não foi questionado junto ao Banco, ao Governador ou ao DOCUMENTAÇÃO ORIGINAL DO SISTEMA OPERACIONAL TAMBÉM EM PORTUGUÊS/BRASIL.”

O Banco removerá 4.000 computadores que rodam Microsoft Windows- 95 e 3.500 computadores que funcionam GNU/Linux, sistema operacional livre, e no seu lugar utilizará 7.500 máquinas com Microsoft Windows XP Professional. Imaginava-se que o Banco aproveitaria a oportunidade para concluir a migração para software livre do restante do seu ambiente. A direção do Banco vai em outra direção.


6. O BANRISUL destacou-se no cenário bancário brasileiro e internacional pelo uso de software livre.

O coordenador de automação bancária do Banco do Estado do Rio Grande do Sul (BANRISUL), Carlos Eduardo Wagner, declarou em 2004 para o jornal Gazeta Mercantil:

“Hoje, das 3,5 mil máquinas de auto-atendimento do Banrisul, 3 mil operam com o GNU/Linux. As demais estão em processo de conversão. De 2001 para 2002, iniciou-se o processo de instalação do software livre nos servidores e nas estações de trabalho. Todos os 400 servidores do banco estatal gaúcho já operam com o GNU/Linux, assim como 3 mil das 4 mil estações de trabalho - as restantes são máquinas mais antigas, que deverão ser substituídas ou ainda passarão por um processo de conversão."

Além do GNU/Linux, todas as estações de trabalho têm instaladas o OpenOffice?, software livre que congrega editor de texto, planilha de custos, software de apresentação, de desenho e outros. "De 2000 até agora, a economia com licença e memória foi de R$ 18 milhões", calcula Wagner. "Mas a questão não é só custo, mas custo e qualidade", afirma, ressaltando as vantagens de estabilidade e também de segurança. [6]

Em 2003 escrevi um pequeno trabalho sobre o uso de software livre no Rio Grande do Sul. Ele foi publicado pelo Institute for Connectivity in the Americas - ICA. [7]

O BANRISUL, primeiro banco no mundo a utilizar intensivamente software livre, economizou R$ 9 milhões.

No BANRISUL os valores são R$ 9.206.200,00 conforme comprovação abaixo:

(...)
1. Total economizado = R$ 9.206.200,00 [8]

7. A pergunta que fica no ar: Por quê?

Os dirigentes e técnicos(as) do BANRISUL envolvidos(as) na licitação são pessoas honestas. Por isso, minha tese é que estas pessoas discriminam software livre por terem preconceito a esta opção. Salta aos olhos que este preconceito leve o Banco a gastar o que não precisa.

A atual Diretoria do BANRISUL resolveu quebrar a orientação histórica de garantir a independência da instituição frente aos fornecedores de software. Sua decisão traria enormes prejuízos para o banco. De imediato, um gasto desnecessário que pode chegar a casa dos vinte milhões de reais.

A partir desta decisão o banco gastaria mais alguns milhões por ano com as renovações de softwares que são o padrão do fornecedor único que o banco está escolhendo. No longo prazo, será o fim do padrão tecnológico do banco mantido desde dos anos 90.

Preconceitos em relação ao uso de software livre fazem parte do dia-a-dia de quem defende esta opção. Em alguns casos até compreende-se, afinal, quem desta área tão concorrida gosta de arriscar o “pescoço” numa “aposta”? Sempre existe a dúvida, software livre tem suporte? Tem continuidade? Porém, este não é o caso do BANRISUL, que foi pioneiro no uso desta tecnologia. Bancos privados como o HSBC, BRADESCO, tem adotado software livre. A Caixa Econômica Federal [9] está provendo todas as lotéricas do Brasil com uma solução livre. O Banco do Brasil tem seu programa de migração em pleno andamento, com software livre.

O Banco HSBC foi destaque no jornal Valor Econômico por usar software livre:

“Quem utiliza os serviços bancários dos 16 mil terminais de qualquer uma das 1,7 mil agências e postos do HSBC no Brasil é atendido por sistemas baseados em GNU/Linux, software de código aberto - pode ser copiado, modificado e instalado sem pagamento de licenças.

No fim de 2004, o banco concluiu um projeto que reduziu os 840 servidores (computadores de grande porte) presentes na maioria das agências a apenas 92 máquinas centralizadas em Curitiba. Os programas proprietários foram substituídos pelo sistema de código aberto.

Pesquisa realizada pela Federação Brasileira de Bancos (FEBRABAN) mostra que 60% do setor no país já utiliza GNU/Linux. Na edição anterior do levantamento, o número era de 40%."

Em junho de 2003 a INFO CORPORATE destaca:

"A grande novidade do mercado é a adesão pesada do Itaú. No ano passado, após uma conversa com a IBM, o banco resolveu testar um projeto piloto em seus mainframes para avaliar a performance de algumas aplicações de internet. O teste durou oito meses, mas o Linux acabou sendo tirado da produção. "Concluímos que ele é um sistema sério, mas, nesse instante, não pretendemos colocar mais uma plataforma", disse na época Arnaldo Pereira Pinto, diretor de sistemas de internet do Itaú.

Quando todos esperavam que o banco abandonaria de vez o software livre, uma nova empreitada foi iniciada. E de forma inusitada: nos desktops. "Resolvemos testar o Linux nos desktops com serviços fechados, ou seja, nas estações que só podem ter duas ou três aplicações de uso controlado. Temos muitos computadores com essas características no banco, máquinas que nós sabemos exatamente o que possuem, sem mais, nem menos", diz Arnaldo Pinto.

A escolha dos ambientes fechados serviu para evitar que os usuários tivessem problemas em lidar com a instalação ou o uso de aplicações no Linux. "Sabemos que o Linux ainda não está maduro para os desktops, por isso o colocamos em ambientes fechados. Ao mesmo tempo, formamos uma base de usuários que passará a conhecer o sistema", diz ele. A migração já começou, mas o Itaú deve rodar o sistema para valer no fim de junho, quando escolherá entre a Red Hat e a Conectiva. A idéia é que o piloto chegue até os caixas eletrônicos.

Antes do Linux, as estações de trabalho rodavam em Windows. "O que nos interessa, agora, não é o preço, mas sim utilizar algo estável e que as pessoas conheçam. No começo devemos até gastar mais, mas estamos conhecendo o Linux, vendo como ele se adapta. Nossa missão é se aproximar de uma tecnologia nova. Não podemos pagar um preço alto na hora de uma eventual migração no futuro. Somos um banco, temos escala. Nós não temos a necessidade de mudança de servidores agora, mas, e se tivermos? Vamos correr o risco? Eu acho que não", afirma o executivo do Itaú." [13]

Agora que o mundo [*] vira-se para o exemplo do Rio Grande do Sul, a Diretoria do Banco resolve ir na contramão!

8. Se eu fosse presidente do BANRISUL ...

O Banco vai jogar algo como R$ 20.000.000,00 pela janela. Logo no melhor resultado semestral, ele está queimando 17,60 % das operações de débito em conta-corrente aos aposentados, na modalidade INSS/Fidelidade, foram contratadas 53,8 mil operações, com alocação de R$ 88 milhões de recursos no período.

O BANRISUL também alocou R$ 5 milhões, através da linha de crédito BNDES Hospitais, destinada a garantir o saneamento e ampliar a capacidade de atendimento do Sistema Único de Saúde (SUS). Com o dinheiro das licenças de software proprietárias poderia quadruplicar o dinheiro para o SUS ou manter o valor de R$ 5 milhões até o final do mandato do Governador Rigotto e pelos três anos seguintes do próximo governo.

O Banco destinou R$ 32 milhões que foram aplicados no Programa de Financiamento para Capital de Giro (Promicro). Com o gasto desnecessário em licenças de software proprietário poderia financiar mais 64 % de micro crédito.

Na área de Desenvolvimento Agropecuário, o BANRISUL liberou, via repasses do Banco Nacional de Desenvolvimento e Social - BNDES, o montante de R$ 19,5 milhões em 753 operações, sendo R$ 4,5 milhões em 481 operações no Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar – PRONAF. Com o dinheiro das licenças, poderia quase quintuplicar os recurso do PRONAF.

O BANRISUL esteve presente em 53 feiras e exposições agropecuárias, financiando R$ 9,3 milhões, destinados para financiar os produtores rurais para a aquisição de animais, máquinas e equipamentos agrícolas. Com o dinheiro das licenças que a Diretoria quer gastar o Banco poderia participar de 113 feiras, dobrando o apoio aos produtores rurais. Como incentivo aos setores industrial, comércio e serviços, foram destinados R$ 20,4 milhões, voltados a investimentos de capital fixo, desenvolvimento tecnológico e capital humano em 71 operações. O Banco poderia dobrar o número de operações com o dinheiro das licenças.

O BANRISUL aplicou no primeiro semestre em crédito imobiliário o total de R$ 94,7 milhões em 1,6 mil operações, destinadas à compra de imóveis novos e usados e à construção de unidades residenciais e comerciais, inclusive com a utilização do FGTS à vista.

Os recursos alocados no segmento da construção civil possibilitaram a geração de 1007 empregos diretos e 6.588 empregos indiretos, bem como a movimentação de toda a cadeia produtiva do segmento com a construção de 289 novas unidades. Com o dinheiro das licenças poderia ter realizado mais 337 operações gerando mais 211 empregos diretos e mais 1.390 empregos indiretos, construindo mais 61 unidades.

A BANRISUL S.A Administradora de Consórcios comercializou 1,4 mil cotas no primeiro semestre de 2005, com um montante aproximado de vendas no valor de R$ 25,3 milhões. Com o dinheiro das licenças o Banco quase dobraria as vendas de consórcios.

A modernização tecnológica envolveu um montante de R$ 53,3 milhões no primeiro semestre deste ano. O BANRISUL lançou, em maio passado, um produto inédito na América Latina: o Cartão Internet BANRISUL, um “smart card” que abre uma agência virtual na tela do computador em qualquer parte do mundo onde o cliente estiver. O exclusivo cartão é o primeiro “smart card” utilizado em transações de Internet Banking. Com ele, o cliente tem a certeza de que, mesmo que sua senha seja descoberta por alguém, ninguém poderá operar no seu Office Banking. O cartão é munido de um microprocessador (“chip”) capaz de armazenar uma Certificação Digital emitida pelo BANRISUL. Ao mesmo tempo, realiza cálculos criptográficos que validam a própria senha do cartão, reconhecendo-a como válida ou não, estando preparado, inclusive, para auto bloqueio em caso de erros consecutivos.

O Banco vai jogar pela janela quase 50% de tudo o que investiu em desenvolvimento tecnológico neste ano se mantiver o gasto com licenças de software desnecessárias.

Nas ações de responsabilidade corporativa foram investidos R$ 11 milhões em projetos educacionais, culturais, esportivos e voltados à saúde. Com o dinheiro das licenças poderia dobrar esses investimentos beneficiando projetos como os Concertos BANRISUL para a Juventude que desde a sua implementação já beneficiou cerca de 30 mil alunos; o Programa Criança no Esporte, este contempla 200 crianças de 7 a 14 anos, em situação de vulnerabilidade social, matriculadas na rede de ensino regular, proporcionando atividades educativas, sociais e culturais nas escolinhas de futebol dos clubes gaúchos;

o Projeto Pescar BANRISUL, que é a primeira instituição pública do País a ter uma unidade de ensino dentro dos padrões do Projeto Pescar, teve sua segunda turma iniciada em maio de 2005, com 22 jovens. Além desses, programas voltados ao meio ambiente como: o Programa Energético BANRISUL - Progeb, que busca a adoção de medidas necessárias à conservação, redução de consumo e gastos do sistema elétrico e a minimização do impacto de medidas de racionamento de energia. Este programa proporcionou economia de 88.136 Kwh, que equivalem a R$ 212 mil, admitida uma tarifa média de R$ 0,40/ Kwh.

Já o Programa Reciclar, recuperou durante este semestre 56 toneladas de resíduos secos e orgânicos, além de direcionar de forma adequada mais de 17 mil unidades de material entre lâmpadas florescentes, pilhas, disquetes, madeiras, reatores e embalagens plásticas. Este é um projeto do BANRISUL que engloba aspectos sócio-ambientais, colaborando na geração de emprego e renda e no resgate da cidadania para promoção do desenvolvimento sustentável, beneficiando aproximadamente 3 mil pessoas no Estado e em Santa Catarina.

9. Conclusão

Normalmente minhas conclusões são longas. Mas neste caso, socorro-me somente de uma frase: "Que tempos são esses, em que é mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito!" Albert Eistein. [12]

http://www.baguete.com.br/coluna.php?id=1876&nome=marioteza

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