Páginas

quinta-feira, março 08, 2007

Um Passe de Mágica

"Em todo mundo surge, de vez em quando o desejo de matar, ainda que não a vontade de matar." Essa frase de Poirot em "Cai o Pano" surge como um brilhante resumo dos métodos da grande escritora inglesa Agatha Christie.

Existe um preconceito de fundo romântico que diz que todo livro que não falar de um eu ou dos
sofrimentos de um eu é bobo; outro, de origem modernista, que supervaloriza a linguagem, em
detrimento de o que dizer. Por eses dois motivos o livro de crime sempre é visto como um gênero menor, pois além de tudo gera um prazer real, com a sensação de caso explicado! Amargo para quem pensou sempre que a literatura era uma forma de ganhar status, pelo sofrimento até.
Ou ainda, o assassinato pode parecer aquele gancho fácil, muitas vezes utilizado em novelas, para criar um enredo que parece se sustentar pelo simples "quem matou?". Mas o que poucos percebem é que o texto, de 180, 200 páginas, não atrairia pela simples estratégia do crime. Aliás, em muitos casos, como os dois citados, o crime propriamente dito ocorre apenas em determinado momento no meio da trama. O resto é relações humanas.

Em "Um passe de Mágica" a escritora inglesa cria uma atmosfera de egos em conflito, onde a
ambiguidade humana está toda presente, onde todos poderiam ser e querem ser assassinos. Somos jogados em diferentes direções quando os personagens parecem mostrar uma nova face sempre. A cada página uma nova mudança torna tudo ainda mais desafiador. E, estranhamente, remete justamente ao uso da linguagem tão enfatizado pelo modernismo: quais palavras serão ditas e quais não, para criar esse clima de ambiguidade.
Suas observações críticas - até mesmo ridicularizando os personagens- levantam questões como o sistema das instituições psico-sociais, a rebeldia da juventude, entre outros, que formam o contexto, e aumentam o interesse, para o crime ele mesmo.

Também seria importante compará-la com o método de Sir Arthur Conan Doyle. Parece-me que Sherlock Homes sempre inclui algo que não estava a disposição do leitor que, com razão, sente-se um pouco traído. Então aquele lodo do sapato era das altas montanhas da Escócia? O que nos surpreeende é um segredo bem guardado, mas toda a descrição se dá no exterior. Quando, por exemplo, em "O vale do terror" e "Um estudo em Vermelho" há momentos de romance, isso se dá fora do enredo da história, fora da trama do crime.

A escritora ganhou a Ordem do Império Britânico, merecidamente, já que desvelou as redes de intriga em que estamos mergulhados. Aconteceu comigo de "lembrar" de diversos momentos de dor em minha vida ao ler "Cai o Pano". E, ainda, como diria Umberto Eco, temos a deliciosa sensação de que a vida tem sentido, entendemos melhor o comportamento humano.

Há muito o que se falar da técnica, tão clara no livro em questão, de te envolver com os conflitos humanos até que o crime pareça mesmo desaparecer, herança, quem sabe, de Jane Austen. Porém, esse breve relato é suficiente. Devo confessar que eu havia suposto o truque de "Um Passe de Mágica". Mas o brilhantismo da autora é esse mesmo: você lê até a última página.

ajr

Nenhum comentário: