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sexta-feira, maio 18, 2007

Festival Palco Giratório do Sesc Porto Alegre

Desde quando a arte é apenas isso?
Vida, o Filme, é o meu favoritíssimo livro de Neal Glaber, jornalista americano, que coloca em foco a política do entretenimento, uma sociedade em que todo mundo se diverte e poucos governam.

A peça, Vida, o filme, do grupo "Os Desequilibrados" faz uma adaptação deliciosa do tema. Alguém disse que achou um besteirol. Não, na verdade é sobre o besteirol. É criativa a forma como essa nova e quase única "cultura" global - os filmes que todos vimos, o único assunto que nos une- penetra na cena causando choque, riso e reflexão. Tudo bem, tem gente que não vai entender, mas a arte vai salvar o mundo. Pelo menos não todo o mundo.

Sim, eles repetem a bendita frase "Eu sou Adam, príncipe de Etérnia" mil vezes.
Mas a brincadeira sobre realidade ficcional ou ficção real é retratada de mil formas inteligentes: num debate sem fim sobre filmes, tantos que já misturamos esses estereótipos todos, em um debate entre "Ficção-Nietzsche" e "Realidade-Platão", numa falsa cena de Beckett, num reality-show sobre ninguém, num telão mixando cenas real e fictícias, etc... Soluções técnicas interessantes, desde o palco nu, até luzes de camarim na roupa e um uso muito razoável do telão, como na seqüência "a- vida- é- um- clichê" do amor fracassado.

Os atores, Cristina Flores, Saulo Rodrigues, José Karini e Ângela Câmara brincam de modo consciente e dão o tom certo do deboche no pop.
Hoje, quando todos ainda querem fazer Beckett, e quando o movimento de Grotowski se tornou
um efeito mecânico sem alma, é essencial esse arejamento de cena e de texto. Salve e salve Daniela Pereira de Carvalho e Ivan Sugahara por escrever algo tão crítico e divertido.
O final, com uma música de Sandy e Junior, é hilário.
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Macbeth, do grupo Amok foi recebido com entusiasmo pelos porto-alegrenses. Os textos clássicos são quase uma obrigação de se gostar no meio cult e Lady Macbeth é mesmo um dos personagens mais queridos, e mais atuais. Parece que será deputada.
O grupo usa um figurino deslumbrante, oriental, movimentos trabalhados, um som no palco que cria um ambiente mágico. Ainda assim o início da peça é lento.
Nosso ritmo hoje é outro e é um desafio nos clássicos manter a atenção do público. Numa era de compreensão imediata, Shakespeare precisa de um Dj.
Em alguns momentos não se entende bem o que os atores dizem, em especial o protagonista Stephane Brod, francês (vale ressaltar que sou português é bom, parece português).
Mas do meio para o fim- um pouco pela qualidade do texto de correr a ação após a coroação- a peça ganha ritmo e tudo chama atenção.
Então os elementos todos que o grupo traz- som, roupas, corpo- se unem e fazem um final dos mais interessantes.
Grande destaque para Ludmila Wischansky, a Lady. A direção poderia ter modernizado alguma coisa na sua atuação, que é a de um ator só em cena, mas a atriz tira disso o melhor.
A peça foi aplaudida de pé e é viva e interessante, mesmo eu achando que poderia ousar mais, principalmente na desnaturalização da ação e na velocidade.
Entretanto montar Macbeth de modo integral, colorido e sem nos deixar dormir é por si só um sucesso.

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Esse Gota d´Água do grupo Breviário eletrizou o público de Porto Alegre. Apesar do erro técnico de não explicar que os lugares não seriam numerados, e de encher o teatro com mais pessoas do que as que poderiam ver bem.
Todo o elenco é protagonista e nos prende desde o início: a macumba ganha de cara a atenção do público.
O texto é o que é e os atores retiram dele toda a graça. Georgette Fadel é uma das maiores atrizes que já vi em cena. Sua Joana faz movimentos de umbanda e aparece como uma estátua da depressão na primeira cena. Suas últimas falas bombásticas com o fraco Jasão acabam sendo repetitivas, mas talvez seja um excesso do texto. Ficamos do lado dela, o tempo todo.
Algo incrível acontece quando os atores estão presentes. E, num mundo onde todos qureem agradar, alguém presente é cada dia mais raro.
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Valsa n. 6 é o tipo de peça que todos querem ver. Uma clássico, uma ousadia dentro do teatro nacional.
Mas não basta hoje fazer algo correto. O corpo contemporâneo é dominado por movimentos de comprar, trabalhar, teclar e gozar. O palco exige algo novo.
O corpo no palco tem de se livrar da vontade de agradar. Tem a ver com ética, com abertura e generosidade para com o público e- se tiver- com o grupo. Porque a idéia mesma do ator é de se expor, expor sua fragilidade, e para isso vence suas resistências.
Infelizmente se faz hoje muito teatro para. Para fazer um clássico, para ser ator, para ser belo.
Marina Oliveira tem sensibilidade e, principalmente no final da peça, cresce.
Sentimos que ela ficou um pouco sem tempo, precisava de mais tempo para falar e para penar em cena sobre essa coisa esquisita que se chama Nelson.
O palco é outra vida do texto. Um texto que está em vida precisa de cores novas.
Valsa n. 6 agradou o público na sua estréia nacional. Mas esperamos mais.

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