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domingo, agosto 17, 2008

Tente entrar

“Entrar no metrô que é uma parede humana e ser esmagada com um braço na tua cara, o prefeito acha nomral? A gente vive no limite do stress!” - quando uma amiga me disse isso, pensei que estava exagerando.
Hoje liguei para a Eletropaulo porque dois meses minha conta chega com atraso devido a um erro de CEP. “O senhor tem de ir na agência em horário comercial”. “Meu amigo, em horário comercial eu estou trabalhando”. “É assim, não há o que fazer”. Argumentei que se um ser humano fez esse sistema maluco, um ser humano era capaz de desfazê-lo. Ele concordou que eu não devia pagar multa por um erro deles, mas não havia o que fazer. Então, uma simples ligação faz você se tornar o Átila. Disse que iria reclamar para a agência reguladora caso atrasasse de novo e ele concordou em anotar minha reclamação. Cidadão - ninguém.

Lembrei-me de quando fui instalar internet em casa a primeira vez. O modem, o provedor e a banda larga eram de empresas diferentes. Cada um me mandava fazer uma coisa e nada funcionava, um colocava a culpa no outro... Descrevi mais de cem vezes os detalhes – coloquei X em Y, cliquei em N, plantei bananeira etc; "não, eu já coloquei aí; o provedor disse que era isso; não, isso eu já fiz". Nenhum primitivo mecanismo de registro, falei a mesma coisa para cada novo e novo e novo atendente. Quase uma semana para alguém entender, "ah, já clicou alí?"

(Aliás o que há além da Teleforçabiônica? 3G ainda não vale a pena, Net "não está disponível no seu bairro", bem central! Microhard-Monopólio!)

O que mais me assusta nessa sociedade “liberal-fascista”, criada à mídia insípida, é ouvir jovens que só tem respostas individuais para problemas sociais. Em São Paulo é ainda mais comum. Os quase-pobres arrumam algum emprego se tornam quase-mais que seus irmãos quase-nada e logo descobrem que “os pobres são pobres por que não trabalham” ou “a esquerda vitimiza essas malandros que só querem bolsa família”. São Paulo é uma bolha de consumo que isola a todos do Brasil e da outra São Paulo, logo ali, mas há anos-luz do cidadão da Paulista.

Nada mais normal nesse contexto, então, do que ver um homem-cadáver na rua, com seus ossos a mostra, dormindo no cimento, parecendo um fanstasma de Auschwitz, enquanto o governo fala alegremente em “higienizar” o centro porque afinal esses vadios só sabem fumar crack, o que nos envergonha e estraga a paisagem. Alguém falou no Estadão sobre por que motivo alguém fuma crack, quem são esses moradores de rua que chegam na farmácia pedindo fraudas para vender por R$ 2,00 na esquina e queimar seus neurônios? Não, é preciso falar da estética, a “Cracolândia” – nome entre o irônico e o simplista, que mascara um mundo todo, jogando-o para o lado do “outro sem volta”, com um adjetivo-estigma - veio do nada e volta ao nada. Uma amiga diz que em SP há o "status de bairro", quando chegou na sua faculdade no primeiro diz a primeira coisa que lhe perguntaram foi "Onde mora? Você pega metrô? E depois ônibus? Quanto tempo?"

(Urbe-caos... Mega-empresário quer Estado? Planejamento- além do próximo produto? Inclusão- além do seu nome na Fortune? Reforma- além de menos imposto? Cada um por si e todos por mim... Na democracia dos mega-empresários, do lobby corporativo e dos "compre-Batom!"- equalizador de mentes, o bem comum é passado. Se as pessoas passam fome é porque há outras prioridades... Não está tudo bem? Não será tudo resolvido? Não pode esperar? A distância geográfica de São Paulo cria a "dor distante" do nunca visto, a explicação "racional" do inominável. A depressão ultra-consumista da "psicose" fragmentadora do jornal-esquizo-bricolage. Verdrängung, recalque, empurrar o real incômodo. Quem não crê no poder devia ler sobre o Consenso de Washington, tanque que achatou os anos 90. O capitalismo, alguém já deve ter dito, é um sistema de pensamento que mata tudo que não é produtivo, cala os indecisos, suprime os fracos, afasta os possíveis contraditórios da política do progresso: sem reconhecimento do estranho, surge a crença e a conclusão fechada de uma experiência particular, sem diálogo há conflito.)

A elite de São Paulo tem uma forma “amistosa” de lidar com isso, é o lado da biopolítica clean que cria projeto social malandro, afinal são preguiçosos por natureza. A miséria é um fato histórico e social cientificamente explicado e complicado demais para resolver. O racismo novo é feito de caras “feias”, "da Zona Leste" gente “sem cultura” e “tapada”, que atrapalham a circulação fantástica de informação e capital do primeiro mundo, o eixo Paris-Londres- São Paulo. É a linha FHC, puramente consciente dos problemas do mundo -pensando em um plano técnico para elevar algum % em tantos anos que irá... - e capaz de falar as coisas mais fascistas, os discursos mais classistas contr a incompetência dos operários barbudos no poder.

A aceitação resignada de que são dois tipos de pessoa, que pena, alguns que não entendem, não falam bem, não são belos (e principalmente não se esforçam), e os que entendem, falam, sabem, são: o inverso da democracia, baseada na participação. Miséria é ruim, mas não é comigo e pode esperar. A elite gaúcha, hoje enredada em corrupção, é mais bruta e mais tacanha (financistas robóticos, empresários-coronéis com ambições "globais", generáis da Inquisição), e por isso, mais ridícula, simplesmente manda bater. Comte: a moral manda que todos trabalhem para o progresso, quem critica o progresso merece chumbo. A única cultura é a Veja. Para um estudante que foi agredido e preso pela polícia em manifestação pacífica, um senhor de meia idade diz "Bonito, heim?" Um amigo dizia: "A culpa é do povo, na Europa o povo sabe votar (será?)"...

(Em comum, a ilusão da felicidade solitária, filhos sem afetos, pais ganhando dinheiro: uma juventude linda, fanática, informática, celulática, malhática, trancada no quarto, bebendo, batendo o carro do papai, tomando ecstasy e "buscando diferencial" pela força. Epidemia de jovens damas- de -ferro executivas e mussolini-clintons. PS: Por sorte há também jovens espertos, que sabem que há vida além do video-game...)

Democracia agora é: marketing de massa, vender meu conceito ao povo. Jovens adultos que falam "objetivamente", querem resultado, rápido, toda dúvida atrapalha a venda. Não há nada de podre na Dinamarca. A classe média brasileira é esse animal estranho - "saí do buraco, seu pobre" é mais que "como vamos tapar o buraco?" – ouvi de um jovem de 18 anos: “Aqueles protestos contra uma represa na África, deviam matar todos, estão atrapalhando o desenvolvimento”- mesmo preso entre empresas déspotas e governos de direita, parece não ter o mesmo contingente informado e rebelde da classe média norte-americana e européia, ou pelo menos sai menos à rua, e pode dizer tranquilamente: “os nordestinos deviam voltar pro Nordeste” ou “se apanha da polícia é por que é baderneiro”.

3 comentários:

Dann disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Gabi Fernandes disse...

Oi Afonso!Que bom te achar...Sou a Gabrielli, a Gabi, fiz aquele curso de teatro contigo do IPDAE, ha uns anos atras.Sou amiga da Dayane, irmã do Clean...te lembra? Faz tempo até que estou te procrando. Esta dando aula, trabalhando com teatro ultimamente? Esatava revendo "noite" esses dias, lembrando daquela epoca, bateu saudades. Mas eu estou seguindo a profissão mesmo, infelizmente parei com o teatro mesmo durante o colegio mas agora estou voltando, vou fazer o vestibular da UFRGS este ano e tentar entrar para o curso de teatro e fazer disto minha vida...mande noticias suas.
Beijos Gabi

ps: se tiver um curso pra me indicar, agradeço!

email/msn: gabriellimf@hotmail.com

Anônimo disse...

Olá Afonso ! Estamos contentes que estejas aí em São Paulo, brilhando... Temos lido teus artigos. São ótimos. Abraços, Helena e Ialmar Pio (vide no www.altavista.com.br e busque IALMAR PIO (clique em POESIAS E CRÔNICAS DIVERSAS para ler minhas produções literárias, agradeço um comentário no meu blog. ) Tem também outro de trovas e sonetos que é http://ialmar.pio.schneider.zip.net/

Além de 337 sonetos. Obrigado sempre.