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domingo, outubro 19, 2008



"Já dentro do presídio, os trabalhadores foram postos com os rostos contra uma parede, ao lado de dois jovens negros, de chinelos de dedo e pés sujos de cal, algemados. Aos gritos e pauladas na parede, os dois foram levados primeiro. (...) O ambiente era digno de filmes de horror. Paredes podres, caindo sozinhas, tudo muito gelado e úmido. (...) Durante as revista, os homens eram obrigados a despir-se completamente, retirar todos seus pertences, inclusive alianças ou crucifixos. Nus, eram obrigados a agachar-se algumas vezes em frente aos policiais. (...)

Os dois primeiros presos políticos a ser encarcerados foram postos em uma cela comum com outros homens presos naquela noite. Apenas dois entre os 20 presos aparentava ter mais de 35 anos. A maioria negros. Todos, absolutamente todos, com rostos sofridos de trabalhadores pobres. (...)
Ambas as celas eram cubículos gradeados, escuros, úmidos e muito frios. Misturavam-se restos de pães, banana, urina e fezes, onde, por vezes, passavam ratazanas em busca de alimentos. (...)
Eles foram ainda trocados de cela uma três vezes durante a noite, passando também por identificações, fotografias, etc. (...) O mais duro durante a noite, porém, foi suportar o frio lancinante, que congelava seus corpos permanentemente tiritantes, sentados em uma bancada gelada, durante toda a noite. Dormir um pouco era um sonho impossível."

Relato de universitário preso durante manifestação pacífica em Porto Alegre, contra o desrespeito às leis trabalhistas e sonegação dos quais é acusada a Wal Mart




A miséria não existe.


Faz tempo! Nesse ínterim os Estados Unidos se tornaram uma nação democrática (conheço uma professora americana que dizia não votar porque Bush e Clinton eram iguais), a idéia absurda de que mercados mais-que-livres iam melhorar a vida de todo cidadão (como coloca Delfim Netto na Carta Capital) caiu bem fundo, e a Veja desandou (é um fenômeno da auto-superação) para as bordas do racismo chamando a cultura de Evo Morales de "pré-histórica".


Onde estará o sorrisinho da Época, que na sua revista de julho de 2008, dizia que havia um espécie de invasão de ideologia no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), claro, com a ala "heterodoxa", que defense mais presença do governo, dizendo que o debate de idéias não pode se transformar em embate de poder (como coloca Edmar Bacha, economista do Plano Real). Como se deixar de investir durante 25 anos nos diques de Nova Orleans não fosse também ideologia e poder. Vamos retomar da parte onde o chefe do mundo admite que tudo que se viveu nos anos 90 era ideologia?


"Em outras palavras, você descobriu que sua visão do mundo, sua ideologia não estava certa, não estava funcionando?", questionou Waxman. 'Exatamente, é exatamente isso que me deixou chocado, porque eu estava indo para 40 anos ou mais de indícios consideráveis de que isso estava funcionando excepcionalmente bem."
www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2008/10/081023_greenspan_errorg.shtml
(Provavelmente ele estava olhando só a mancha vermelha, e não Jupiter...)



Ainda, uma novidade: vou criar o termo assédio estomacal. Um homem me pára no Supermercado, pedindo arroz e feijão, sei que precisa para a família. Uma senhora ganha metade do meu sanduwishi na saída de outro Supermercado. Dou uma linguiça para outra mãe com fome na rua. Hei, alguém vai fazer alguma coisa com esses 50 milhões de pobres do Brasil? Há duas coisas que me revoltam: o nojo de pobre que nasce como filho indesejado (?) da publicidade num país dividido e falta de democracia. Na sociedade falsamente livre, a pobreza desapareceu, saiu da mídia, é "matéria non grata". A miséria não existe. Talvez essa seja toda a mensagem de "Ensaio sobre a cegueira": há coisas, ainda, essenciais...


Em São Paulo, ainda não me acostumei de ouvir como primeira pergunta "qual seu bairro?", como uma identidade.
"Onde você mora? Parelheiros? Onde fica isso?" - diz um personagem do Pânico. O que pode ser uma piada sobre gente se afogando com auto-ironia, acaba sendo o nojo de pobre que vem se alastrando na nossa sociedade... lembra dos "cajuzinhos", do Caco Antibes? Será que algum dia teremos vergonha de fazer humor com a classe social assim como temos- a duras penas- de fazer com cor de pele e gênero?


É a eugenia pós-moderna, eugenia do consumo, do bullying de "status", "padrão-TV", eugenia fashion: se alguém ainda duvida que isso exista...


"O Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul propôs sete Ações Diretas de Inconstitucionalidade (ADINs) contra leis orgânicas de municípios gaúchos que estimulam a eugenia em suas políticas educacionais. (...) Os municípios gaúchos que introduziram o estímulo à eugenia em suas leis orgânicas são: Barra do Quaraí, Uruguaiana, Passo Fundo, Riozinho, Muliterno, Ernestina e Ciríaco".http://www.rsurgente.net/2008/03/ministrio-pblico-combate-eugenia-no-rs.html


Se o capitalismo é dinheiro gerando mais dinheiro, os abismos crescem, desconhecer o outro é odiá-lo. Uma democracia com tão pouca voz do povo que qualquer fala do político vira verdade- e meus amigos repetem "essa polícia é um bando de vagabundos..." O Serra simplesmente desmoraliza a polícia colocando uma contra a outra e ainda dá uma da durão, apagando o rastro da não-democracia.


"Segundo Paulinho, a greve é justa porque os salários da corporação em São Paulo estão defasados e que o governador tem que negociar. 'Serra é quem quer fazer cortina de fumaça para esconder a responsabilidade [...]
Ele foi eleito para resolver problemas, não só para andar de helicóptero por aí", (...) Não planejei nada, ele que não negociou, é só ver os fatos. O problema é que o movimento tende a crescer caso as negociações não evoluam', disse". www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u457461.shtml



Enquanto isso meu estado afunda no lado negro da democracia- que não- quer- mostrar:


"Há quase um mês em greve, para os bancários do Rio Grande do Sul era só mais um piquete em frente a Agência Central do Banrisul. Ninguém poderia imaginar que o local seria palco para mais um exercício do Comandante-geral da BM. O sinal foi dado quando um policial militar, sem a presença de um Oficial de Justiça, como manda a lei, tentou abrir as portas lacradas pela greve.
Em poucos minutos pelo menos cinco viaturas com polícias da Patrulha Tática Especial com bombas de gás lacrimogênio, escopetas, escudos transparentes e cacetes reluzentes tomaram a entrada do Banrisul".
www.midiaindependente.org/pt/blue/2008/10/431084.shtml


Eu não quero viver em um mundo onde a informação gera apenas depressão ou ansiedade. Em um encontro da UNICEF com grupos de toda Zona Sul de São Paulo fiquei por dentro de outras violências. Fiquei feliz de poder falar um pouco disso em contos no concurso da Cultura:
http://www.livrariacultura.com.br/scripts/contos%5Fcultura/index.asp?autor=EJFDCC


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