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terça-feira, dezembro 23, 2008


Madonna esteve aqui

Para a minha geração ela representou um ícone de poder- soube sintetizar, principalmente para mulheres e gays um modelo de força, com a mensagem "express yourself", contra tradições mofadas, bom senso e puritanismo (claro, isso era também indúsria cultural num mundo pós 68).
O pop internacional era nosso ambiente cultural, nossa "tradição".
Para essa geração anos 2000, com house, Britney (que tenta ser o mesmo para adolescentes maluquinhas) e rap, a oferta é muito maior- e, graças a Deus, a música "étnica", a brasileira, ressurgem com força...
Os anos 2000 foram bons para Madonna: reencontrou-se no tecno. De Bedtime Stories -94- até Ray of Light-98 (uma luz no fim do túnel, mas difusa) - tudo fica confuso, são inclusive 8 anos sem turnê, em busca de um personagem.

Depois de tentar produzir reflexão na nação em pânico com American Pie ("grande fracasso de sua carreira"), em que ficava visível o cansaço da estética Erotica e a busca de um novo papel (inclusive no cenário pop: techno, neo-punk, romântico?), perguntando que país é esse e recontando o sonho primitivo norte-americano de ser rebelde, on the road, ironizando o "sonho" (e a arrogância), reencontrou seu caminho como entretenimento bom com Confessions on a Dance Floor, onde, para mim, lembra que era uma "disco". Quando ouvi Hung up percebi que não estavam vendendo apenas imagem: era delicioso!

No que deve ser uma auto-ironia, ela agora assume vender "doces", como numa loja. Busca modernizar-se com o hip-hop e o R&B, uma natural re-invenção, mas que anula até certo ponto a "descoberta" do "retrô" 80´s, estético, sonoro e coreográfico. Mais um período de transição...
Aqui os show foram considerados "mornos" (até os fanzíssimos do M.O.L. falaram de músicas "requentadas", do último bloco "esquecível"...), teve até a Betty Lago dizendo que era um show "classe média" (ou seja, conservador), o que irritou quem, diferente dela, não pode ir a Nova York.

As versões que eu vi de "Vogue", "Express Yourself" e "Give it to me" - de um álbum que tem as chatas "She´s not me" e "Miles Away"(single fracasso)- gostei: realmente, ficaria tudo mais fácil se fosse um todo punk (retornando ao início em Nova York), ou techno, porque, como foi dito, até ciganos tocam guitarra, ela até aparece com fitinhas coloridas, la isla... (Ainda, em alguns momentos sua voz parece não existir- é estranho vê-la falando, voz desafinada...)

Imagino que o último show em São Paulo foi o mais animado, em que ela, sem resbalar num palco molhado, elogiou a platéia e saiu enrolada na bandeira do Brasil. E teve a capela de Like a Virgin, realmente emocionante. "Vocês são a melhor platéia que já tive".
Talvez tenha faltado, aquela re-invenção mais ousada. De qualquer forma faltou identidade no show, ela, a senhora em criar novas personalidades, como em Confessions, onde a era 80´s volta com tudo... (as malhas de Gaultier são históricas!)

Isso porque quando a mensagem da "sexualidade" é assimilada, e a política não é aceita (o clip sobre a guerra - Madonna deve se orgulhar da postura firme em um momento em que Bush ainda não é a piada de mau gosto que é agora- foi retirado do ar: medo de não vender ou respeito aos soldados?), que fazer?

Dançar! (E "Sorry" foi um momento de dança política!) Por que ela abandonou bons produtores e figurinista é um mistério... (Se alguém tem dúvida do estrondo de Confessions...)
O espetáculo parece ser um acordo entre a estética do já-visto (roupas pretas, dancinhas coreografadas, máscaras), tantando manter a linguagem e um pouco de remix, para celebrar o novo milênio. Também comentaram sobre o excesso de "marcação" e pouco espaço para manifestações espontâneas... O velho acordo capitalista: agradar ao público (vender bem, não mudar) e mudar (ser novo, agradar).

Mas Madonna tenta e sempre continua. Adorei ver ela se divertir no palco - mesmo com "fuck this rain!" Vendendo bons doces.

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