Páginas

domingo, fevereiro 08, 2009


As regras do jogo

Li uma entrevista interessante de José Padilha, cineasta de "Tropa de Elite", onde fala da sua "teoria dos jogos". Seu ponto de vista é instigante, sobre o contexto do personagem...

Mas, antes:

Segundo a Folha de 4/02 /2209, no resturante Cracco de Milão um executivo negou-se apagar a conta de R$ 12 mil, por trufa branca ralada sobre (vulgo fungo sobre massa). Carlo Cracco, chef do restaurante, afirma: "As pessoas civilizadas pagam o que compram. Há pessoas que pagam 7.000 euros por uma garrafa de bom vinho, e este senhor não pagou o que consumiu".

Assim, não há limite para a ambição: mesmo que você pague R$ 6mil por um jantar - como de fato o executivo pagou, em busca de um acordo- sempre haverá um status maior a ser atingido.
E a sociedade brasileira é doente por status, discriminação por status, status como valor humano: pode não ser culpa de ninguém, mas podemos mudar as regras.

Fiquei espantado com a Festa de Aniversário de São Paulo, no Vale do Anhangabaú, onde, com amigos, esperei quase 1 hora por Seu Jorge: o show, aberto, foi para uma multidão, mas os únicos policiais que eu vi ficavam na rua anterior, à mais de 200m do palco. Nos andaimes ao redor do palco, nada. Na frente do palco, onde mendigos, bêbados e nós nos apertávamos, nada, nenhum. Andei até o metrô com um amigo, subimos até o Municipal, somente os dois policiais no carro em frente as barracas da Fiesp. Ou seja: povo é povo, se der briga...

No site da Prefeitura se lê: "Cem homens, além do contingente da Guarda Civil Metropolitana e da Polícia Militar, farão a segurança do evento". E, na Folha: "A organização do evento espera receber cerca de 20 mil pessoas, a partir das 16h." Pode?

Da mesma forma, na Virada na Paulista - além do espantoso Daniel tocando sou berrante e do chatíssimo KLB cantando músicas de outros e Micheal Jackson em inglês!- o policial que me revistou parecia estar dando um passe: tapa na barriga, tapa nas costas, pronto! Eram 2 milhões e 400 mil de pessoas... Mas e daí? Na TV só sai flashes... (Ainda: os policiais ficavam dentro de "barricadas" que dividiam uma pista e outra da avenida: Se ocorria algo ficavam como barata tonta pensando em como sair do quadrado e tentando enchergar na multidão... Floripa é bem mais esperta: eles ficam em cima da escadaria da Igreja e saltam sobre o mínimo tumulto.)

Na casa de amigos, a empregada faz um discurso sobre como sua rua na Z.L. fica uma semana sem ser lavada e como a Paulista é lavada todo dia pela Prefeitura. "É que a Paulista chama os turistas" - diz uma amiga... Então vamos lavar a Z.L.!

O que eu mais temo é essa massa de explicações plenamente explicadas que as pessoas têm em mente; a defesa dos direitos humanos baseada em uma visão moralista ("bolsa família incentiva a vadiagem"), distorcida, fechada em um mundo microscópico onde o bem, o belo e a verdade já foram decididos, mas estão longe de tudo que é real. "Prefeitura trabalhando" é um slogam, mas na periferia não há lazer nem policiamento.

Assim, são essas simplificações- idéias pré-concedidas que geralmente culpam o excluído pela sua exclusão- que justificam manter as regras do jogo.

O próprio "Tropa de Elite" sofreu com muitas dessas reações tipo "bandido é bandido, mocinho é mocinho".
Uma série de preconceitos, por exemplo, o que confunde "filme de crítica sobre sociedade violenta" com filme de violência banal - como Jay Weissberg, para a "Variety" que fala de um "estilo Rambo" (há de ser muito ignorante para igualar um filme político como esse a Rambo) e fala de "uma monótona celebração da violência gratuita que funciona como um filme de recrutamento de seguidores fascistas" (sic). Vamos filmar apenas Hollywood!

Por falar nisso, o "Hollywood Reporter" diz que a premissa do filme "é que todo mundo no Rio é corrupto, especialmente as autoridades". Nossa que feio! Um provável esquerdista de elite do "Le Monde", Thomas Sotinel, cai no velho ditado chinês segundo o qual "quando o sábio aponta a estrela o tolo vê o dedo", pois pensa que o filme é "uma apologia da tortura e das execuções extrajudiciais." Como se precisássemos fazer apologia onde morrem tantos jovens -"mil pessoas assassinadas por policiais por ano", segundo Padilha.
Também vi a excelente entrevista da professora Jucileide Rodrigues da Silva, diretora da Escola Oliveira Viana, no Jardim ângela, em São Paulo. Vale a pena trans-Ctrl+V:

"E havia alunos de sua escola que eram membros dessas gangues?

Sim, havia. Os meninos do bairro não têm má índole. Mas pense bem: eles não têm o que fazer, não têm lazer nenhum, passam necessidade porque o desemprego é muito grande, vêem o pai desempregado, a mãe indo fazer faxina, se achar trabalho, comida faltando dentro de casa enquanto a mídia vendendo todo tipo de produto — o melhor tênis, roupas de grifes —, sem que tenham condições de comprar nada.

Daí vem o traficante e lhes oferece dinheiro para vender drogas. Os meninos começam vendendo e depois de um tempo acabam se tornando consumidores. Normalmente, quando eles entram no crack, é uma ida sem volta.

Eles têm a auto-estima muito baixa. Por morar no Jardim Ângela, automaticamente, você é bandido, é marginal, é vagabundo. Eles saem para procurar emprego e ninguém dá porque moram no Jardim Ângela. Tudo isso é que torna o bairro perigoso e esses meninos, marginalizados".
(www.aprendebrasil.com.br/entrevistas/entrevista0068.asp)

Idem : José Padilha para a DW-WORLD, no Festival de Cinema de Berlim, 2008:

"Por exemplo, no Brasil, por algum motivo, a maconha é ilegal. Poderia não ser, mas é. Então, o usuário da maconha e da cocaína, quando compra drogas, está comprando de um grupo armado que domina uma comunidade carente.

E ele sabe disso, isso está implícito na escolha dele. Ele está financiando as armas e as balas dos traficantes, sim. Ele está dentro do processo social que gera isso e está fazendo escolhas conscientes que alimentam esse processo. A classe média tem uma grande dose de hipocrisia no Brasil.

Um policial no Rio de Janeiro: quais são as regras às quais ele está subescrito? Ele recebe 400 dólares por mês, é maltreinado, é colocado numa estrutura corrompida de cima abaixo. E a gente pede que ele faça valer a lei em favelas com pessoas fortemente armadas, com grande risco de morrer durante um longo período de tempo.

A mortalidade de policiais no Rio de Janeiro é enorme. Qual é então o comportamento de uma pessoa, dadas essas regras do jogo? É natural que ela se corrompa. Por isso que temos na polícia 40 mil indivíduos e mais ou menos 30 mil são considerados corruptos pela população. O que é verdade".
(http://cinema.uol.com.br/ultnot/2008/02/15/ult3781u4.jhtm)

Nenhum comentário: