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sábado, agosto 29, 2009

"O senador Eduardo Suplicy (PT-SP) encaminhou ofício (nº 01244/2009) no dia 20 de julho ao prefeito da cidade de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM). Na carta, após receber um e-mail com argumentos homofóbicos, o parlamentar pede ao gestor da capital paulista que faça um plebiscito para que os cidadãos paulistanos decidam se a Parada do Orgulho LGBT deve, ou não, continuar na avenida Paulista."

http://www.acapa.com.br/site/

Carta ao Senador:

"Caro Eduardo:

Recentemente o senhor defendeu todo o povo brasileiro no Senado, pela verdade inconveniente, mas necessária. Pela ética.

Mas lembremos que já foi "ético" aos imperialistas colonizarem a África em nome da raça superior. Já foi "ético" matar milhões de judeus em nome da melhoria racial da humanidade. Foi "ético", salvou as aparências, mas não foi correto, custou sofrimento, silêncio, vergonha, exclusão. Não foi moral. Nem sempre o que nos trouxe a tradição, a religião e até a ciência é a verdade completa. E somente uma verdade completa, que inclua gays, mulheres, negros, ricos, pobres, pode ser verdadeira. Odiamos o que desconhecemos, e o mal é fruto do desconhecimento.

Por que motivo os gays mostram-se tanto, beijam em público, por exemplo? (Os heterossexuais beijam muito mais, creia).

É como se dissessem: você me aceita como sou? Minha mãe preferia que eu não fosse assim, a polícia bate em gays e travestis, a religião fanática pede nossa cabeça, acusam-nos de não ter moral e de acabar com a família, culpam-nos pelo que nunca escolhemos, recebo piadas imorais e até agressões físicas de machões inseguros por aí, e eu até fiz com tudo isso uma vida feliz, mas hoje, hoje, você vai ter de me engolir. Me ver como um igual, alguém que quer amor, que sente o mesmo desejo e a mesma necessidade de toque e carinho que você. Hoje, eu sou o que sou.

Há um abismo entre a aceitação das camadas cultas, internaciolizadas (mas nem todos, como prova esse senhor dos Jardins), e as camadas populares, muitas vezes com uma visão restrita de família, religião e papéis sexuais. Restrita porque justifica censura e domínio, nega a realidade e o direito de fala, com argumentos como "Deus, pátria, família", nossos antigos conhecidos. Este caso mostra quanto é instável nosso país de direito: um belo dia decidem que você é imoral, depois criminoso, quem sabe doente.
Aí, pronto, a lei está ao lado do "ético" e do nazismo.

Se as pessoas ricas e com boa formação em geral vivem livremente (ninguém teme mais dizer que os maiores filósofos do século XX, Foucault e Wittgenstein, ou o criador do computador, Turing, eram gays, por exemplo) os menos favorecidos têm de esconder-se e temem a repressão policial.

A polícia negou-se a fazer um B.O., por exemplo, para jovens que estavam em frente ao shopping do ABC e que apanharam feio de um grupo homofóbico, o qual chegou batendo, pois disse que eles haviam "provocado". A simples presença do diferente é tida como ameaça, agressão. Medieval. Ainda tem gente querendo curar o desejo: o senhor quer ser curado de sua sexualidade?

O senhor, sempre ao lado das boas causas, não pode imaginar o sofrimento que representa o silêncio, pois é uma condenação velada, que leva ao ato criminoso, como uma bomba sobre uma passeata. Um povo assim, precisa ser educado, não apoiado com repressão simplista. Um e-mail fala muito de um povo que ainda pensa que pode colocar os que não são como ele de fora, mulheres, negros, pobres, gays, nordestinos; só faltou chamar de "vagabundo".

Se houvesse mais debates públicos sobre o tema, se as escolas aceitassem educação para o respeito sexual, se os jovens fosse ensinados que temos de respeitar nosso diferente e dar-lhe legitimidade, então provavelmente os gays não precisassem afirmar sua condição e jogar na cara de um país repressor sua alegria por ser como todos os outros.

Se os jovens soubessem que os jovens gays são mais iguais que diferentes, que tem os mesmos problemas que eles, e outros, por terem de viver com a ignorância, se esse senhor fosse educado para educar seu filho a aceitar que não apenas as pessoas como ele beijam, mas todas as pessoas, toda a diversidade imensa da vida, negros, brancos, mulheres, homens, travestis, senadores, roqueiros, americanos, então essa criança seria um cidadão melhor. Então não haveria medo e exagero.

O seu lugar sempre foi ao lado da liberdade. Se os gays puderem ter seus filhos, se a família for vista como laço de amor, esse cidadão indignado aprenderá que todos merecem o que ele tem (ou não). A felicidade."

Afonso Jr. Ferreira de Lima



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