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sábado, outubro 23, 2010

Corra como um Coelho: no in-joke.



O título pode ser perigoso: seria uma brincadeira de meninos ricos sobre Alice, pop inside joke, vamos ser loucos, vamos ser velhos?

A coisa mais difícil, hoje, é ser surpreendido. Arte é ousadia, mas como ousar se vivemos uma tirania das normas: sexo, beleza, O Sucesso? Idéias, marcas, política global. Para sermos aceitos temos de ser corretos: gestos, livros, excesso.

Somos a sociedade exausta de novidades, e carente, enquanto a outra parte está suja e têm o estômago em coro. Já vi tanta coisa que é chata, não tem rebeldia, é só rebelde de novo. Não: cenário vintage, figurino lindo, Broadway, italianos burlescos, no momento da Itália suvenir.

O gesto, que estabelece, divide, sonha, nasce de uma postura, de um tema fundamental, jogo de atores ancestrais e externos, um interesse ético-(sim)político. Um nada-sei, que desperta o desejar, que alimenta de imagens o fio que sustenta tudo invisível.

Então, como os dadaístas eram birutas, parece fácil ser artista. Acabaram os critérios.

Contestação segundo o manual, inovação para inovar, atualidade européia, a favela de Pixinguinha, favela enlatada.

Viciados em adrenalina, vítimas, gozadores profissionais. Tudo o que poderia causar choque foi ocultado: pobre rico, pensar junto, pessoas gordas, distribuição, vida cotidiana. O contexto. Por isso somos chatos, não estamos em lugar nenhum, tudo é igual a tudo. A exploração foi excluída, nosso discurso morre. Bairros, países, massas inteiras sumiram do mundo.

Se meu filho atrapalha meu trabalho, perco o filho: existo quando me respondem. O processo é mais ou menos esse, como na família onde um filho morto cria uma sombra: se é selva, cada um por si, se temos de fazer parte à força da minoria dos privilegiados, se não podemos ver o todo, prever, participar e ter esperança, essa sombra gera angústia que nos aprisiona no mesmo, na incomunicação, no julgamento, o que mata a renovação. A vingança do morto.

E o coelho? Nonsense sem perder a cabeça. Porque Lewis Carroll (calma, ele não aparece!) só existe se tudo for lógico.

Sim, a sociedade do entretenimento da informação, zorra total (o mal é ser exclusivo), onde New York é mais próxima que M´boi, estereótipos, onde a clínica psicanalítica fala de sombras, espectros, todos são de outro planeta, sem chão, sem “raiz e fibra”, um Orlando rolando por aí.

Fernanda Camargo e sua trupe de inova-tores (Tomás Decina, Pedro Cameron e Carolina Bianchi, um gênio da comédia-dark), consegue rir de si mesma, falar da vida de plástico, colocar a arma na boca da personagem, levantar a plaquinha de aplauso, pensar.

Não é fácil.

Afonso Jr.

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