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sexta-feira, outubro 21, 2011



O SILÊNCIO DEPOIS DA CHUVA


Aconteceu alguma coisa. O quê?
Desde que ouvi a leitura pública de um trecho da peça de Gustavo Colombini senti interesse. Ela sintetiza uma série de propostas formais que circulam desde a morte/não morte da vanguarda: o tempo como problema, o fim da ilusão, o espaço da ação como espaço da palavra, a fábula nesse universo da palavra, etc.

Tudo isso poderia levar a um poço sem fundo de formalismos se não houvesse por trás disso um olhar de vínculo, de laço. Um olhar que sabe o que está em jogo, o que importa.

Nosso mundo sofre da doença de cérebros convictos decididos a seguir as regras mais modernas (a minha racionalidade aceita apenas esses princípios, esse autor, esses discursos...) - e nossa sociedade é tão aristocrática que confunde produção com exclusão (mate o funcionário e atinja a meta).

E o teatro contemporâneo aceita o lírico, o narrativo, o jogo de imagens, o que geralmente leva a um vazio pretensioso porque apenas focou no "modelo" e não no seu posicionamento, sua questão frente ao que se dá. Se temos de nos abrir ao novo, e isto é ser receptor (o que mal se pode dar quando tudo é normatizado por teorias), o novo também tem de nos ajudar a remontar nossa identidade perdida.

Nosso artista-teórico (algum conhecimento leva à "inteligência"; muito, à curiosidade), portanto, pode se perder no brilho do que é "texto apaixonado por si mesmo" ou texto-de-clã. O filme "Insolação", por exemplo, de Daniela Thomas e Felipe Hirsch, ainda que seja salvo continuamente pela imagem e pela atmosfera, mostra esse fascínio pela gag- cult, palavra "certa", "inteligente", típica de série americana; o filme perde em verdade.

Que saudade do tempo onde se podia arriscar... amamos a arte e odiamos as pessoas...

Também não podemos cair no pensamento oposto de "o que vale é a experiência", já que nossa tradição é também essa carga filosófica muitas vezes massacrante. (Se você não ler Bachelard não pode fazer teatro...) O mérito de Gustavo é ter entendido a teoria (a enunciação de Ryngaert, a família terrível da fábula de Lagarce, o descontínuo de Vinaver, a repetição de Fosse, etc.) a seu favor. A nosso favor.

Leonardo Moreira teve o mérito de cedo perceber essa riqueza e dar-nos como presente isso vivo. Sua direção é brilhante (também porque vem do texto e não lhe ofusca), cheia de movimentações impactantes, lidando muito bem com um espaço tão íntimo (uma casa) e tão inexistente (o tempo multiforme); soluções como colheres de metal, cadeiras que podem voar, a luz muito presente e o próprio cenário brutal (de Marisa Bentivegna) alimentam o clima. O figurino (de João Pimenta) é um caso à parte: um espelho do mundo cinzento, chuvoso e neurótico que existe por ai...
Gustavo se interessa pelo mundo lá fora. Pela forma como ele pode ser confuso. O que importa é que algo aconteceu.

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