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domingo, abril 01, 2012

Epoché
Está muito frio. As folhas estão tremendo, o som dos carros, o som do pássaro (será um pássaro ou um ser mitológico com voz humanóide?).
Ontem, mais um casarão virou pó. Eu virei pó, de preguiça, de fugir, de alto à baixo, da direita para a esquerda. É a internet, a novela, especulação imobiliária, a mídia, ainda a metafísica ou a razão, os agrotóxicos. Eles fugiram para a cidade de mentira e vivem no campo, eles vivem sozinhos com suas máquinas em rede, nossos funcionários receberam dinheiro e venderam nossas terras, tijolos e janelas.
É preciso tecer o passado com o futuro, lembro dos meus primeiros. Escola. Quando a água pinga na teia de aranha. A neve em pleno verão. Sonhos, fadas, recriando com palavras um mundo vazio. Deuses brigaram por um garoto da Índia, fora dos eixos, um carrossel desgovernado. O amor.
Eu lembrei ontem dessa história na hora da tempestade.
Lembrar tecer sorrir parar permanecer.
Se os olhos estão abertos.
Uns sabem, na dor, mas seu saber é pouco.
Outros, por saber, nas moléculas, se perdem. Floresta do esquecimento.
Está muito frio e eu quero escrever sobre a destruição.
Sentado no jardim entre folhas e cimento.
O passado em ruínas.
A memória faz o questionamento.
Um eu na teia que resiste ao vento do mau progresso.
E como saber ler silêncio.

Afonso Jr. Lima

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