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quarta-feira, janeiro 01, 2014

Notas de viagem

Nota do autor - Um amigo me ligou perguntando se algum dia havia publicado “observações de uma viagem à Porto Alegre”. Achei que era uma piada. Ele disse ter ouvido no rádio um editor que publicou uma antologia de relatos de viagem “na qual consta uma ‘à vida burguesa do final de ano”. Procurei o editor. Ele me disse que recebera por correio o texto impresso e não conseguira me encontrar. Mas estava disposto a pagar os direitos, “achei que deveria ser publicado, mesmo assim”. Disse-lhe que eram observações feitas sem nenhum trabalho de reelaboração, que não fazia ideia onde tinham ido parar nem como chegaram até ele. “Não nos cabe saber tudo, ele falou”. Seja como for, não me sinto no direito de proibir a obra. Afonso Lima, Porto Alegre, 2013

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Véspera de Ano-novo, os supermercados lotados. As crianças pulam, impacientes com quarenta minutos de fila, as mulheres escolhem flores, reclamam porque acabou a ervilha congelada, decidem se devem levar ais ave ou peixe. Édipo também sofreu.

Um sol forte nas pedras, uma criança ou um monstro gritam um nome incompreensível. Precisamos comprar.

É Natal, as crianças brigam por uma garrafa de 3L de coca ou guaraná, um homem de fones de ouvido tem um ataque epiléptico no caixa, as senhoras choramingam e reclamam na fila enquanto os netos compram mais salgadinho envenenado.

Árvores enormes, vindas de alguma era Pré-histórica, o casario antigo, com sacadas, alguns bens velhos.

Um homem de meia idade loiro, alto, com três crianças cheias de energia que correm, puxam uma a outra, entram e saem de lojas na praça de alimentação. Uma mãe jovem que dá uns gritos elegantemente.

A rua muito escura, a Praça reformada, mas ameaçadora, poucos postes simulando luz na romântica rua Belle Époque.

Pessoas nos bares, alegres, jovens inteligentes falando de cinema, arte, literatura ou televisão. 34°, é noite.

Sol inclemente. Pessoas abandonadas no chão, ao lado da plataforma de ônibus de cristal azul. Um homem sem camisa e seus sacos de lixo preto.

Casas muito antigas, cartazes coloridos, restaurantes fechados.

Flores pink explodindo nas árvores, casinhas com jardim. Um jasmineiro gostoso. Casas cor de laranja, casas com pássaros à janela. Cercas brancas e trepadeiras.

Muitas árvores, a Mata Atlântida, cobertas de grama verde, alameda de pinheiros, ipês, palmeiras, uma copa rosada esplêndida.

Um segurança que te olha de cima abaixo para dizer as horas.

Muitas lojas estéreis, vidros e compras que não quero. Laranja mecânica no palco, hortelã da Argentina, vinhos-salário-mínimo, carne, carne, carne. Um passeio.

Graças a Deus as pessoas compram livros, ou estão pegando o telefone do vendedor?

A calça do segurança está rasgada, vejo a virilha. Ele agradece.

A moça do café tão simpática, Fizeste uma nova comanda, Como senhora?, Erraste o pedido e fizeste outra, com um sorriso, a moça cora e entende, boazinha. Simpatia demais.

Aqui vemos um Chalé do Século XIX, reformada, em frente ao Mercado Público incendiado, mais caro e delicioso. Saíram os camelôs que criavam agitação, parece deserto, só uma mulher carrega os filhos num carrinho de supermercado.


Averiguação. Policiais param um homem na rua. Sem camisa. A mulher se aproxima, nervosa, ela traz – documentos? Safada. Sempre carteira assinada. Seis filhos. Tapa na cara. O cara começa a apanhar. Cabeça pra frente, cabeça pra trás, pontapé. Fio de sangue? Sou pedreiro. Pelo amor de Deus, não leva. Quer prender a mulher por participação no tráfico. Senhor policial, às vezes. Mata e some. Aterro sanitário. Nem pra enterrar. Eu observo e penso se posso fazer algo. 


Afonso Lima

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