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quinta-feira, maio 22, 2014

Na praia

"Quanto mais correta for uma pessoa, maior o número de coisas que não revelará sequer para si mesma. Eu, porém, decidi lembrar-me, falar sobre elas, ousar trazê-las á luz"- diz ele sobre a alma do grande escritor. Foi no processo de pesquisa para meu artigo sobre "O sósia" de D., que acabei deparando-me com uma história bizarra sobre ele - e o ensaísta. Algo constrangedor, imoral, mas que lhe colocava em sintonia com esse desejo de ir contra o mundo burguês e analisar as "profundesas criminosas da consciência". Ele fala do grande homem que tem uma culpa trágica e identificação com o crime, fantasias mórbidas, que tem uma doença que se assemelha ao êxtase sexual e sua posterior depressão. 

Passei a buscar então a base dessa personagem, "figura viva" como queria Schiller, misto de conceito e sensibilidade e as camadas sobrepostas daquele que representa e do que inspira. "Que precisão de pensamento, expresso nesse belo corpo" - ele fala sobre o rapaz. Dizem que A., neto de um nobre industrial polonês, de férias com a mãe e os irmãos no hotel à beira do Lido, chamava a atenção de outros cavalheiros, inclusive de um outro escritor que chegou a colocá-lo no colo. "Ele era mais bonito do que as palavras podiam exprimir" – diz o livro. O outro, tinha três anos à mais, ainda assim grupos católicos protestaram contra o filme inspirado no texto. Um deles foi preso pelos nazistas, perdeu sua herança na Polônia comunista, e viveu pobremente durante anos. O outro diz que era sempre visto como homossexual, desde a época que o diretor e a equipe o levavam a bares gays e se sentia constrangido, começou a negar isso ostensivamente, inclusive dizendo que o filme foi “uma maldição” para ele, e passou a ser descrito como preconceituoso. "Será que serei apenas esse rapaz?" – ele dizia. O primeiro era um aristocrata jovem quando recebeu da prima, que o reconheceu, o livro, ao qual não deu muita bola. "Perfeitamente belo, com uma seriedade divina, como as esculturas dos mais nobres tempos" – diz o livro. O jovem ficou muito tempo sem atuar, dizia que os diretores não tinham lugar para quem foi a representação da perfeição, chegou a declarar: "Não pedi para nascer com esse rosto. Não vejo a hora de envelhecer". Um morreu em 1989, tendo sido obrigado a permanecer na Polônia pelo regime comunista, pois sua fuga poria em risco a vida de familiares próximos. O outro, acabou casando, teve filhos e, na meia idade, passa a ter conflitos de consciência. Um deles, tendo perdido tudo, teve de ganhar a vida como tradutor na embaixada inglesa. O conde ficou profundamente ofendido quando o diretor do filme não quis visitá-lo em uma visita ao seu país. Deu entrevistas para o tradutor polonês do livro confirmando que era ele que brincava na areia com um amigo, e que isso pouco indicava sua vida como voluntário de guerra e depois prisioneiro quando os nazistas invadiram a Polônia. O outro acaba morrendo em pleno estúdio quando, no intervalo de uma filmagem, põem uma arma na cabeça e faz uma brincadeira - a pressão é suficiente para deslocar um osso do crânio. O primeiro lembrava-se da imagem de um homem “velho” (tinha 35 anos) observando ele e seu amigo, dois garotos jogando bola na praia. Ele lembra de entrar no elevador e quase ser devorado por um olhar apaixonado. Na embaixada, o homem descobre uma entrevista com a esposa do escritor, na qual conta que, quando esteve com seu marido nessa praia, ele ficou transtornado com a beleza de uma criança. 

O livro diz que ele tinha algo de “rico e mimado”, com seus cachos e terno de marinheiro inglês; o sósia (tão perfeita verdade) foi dublado por não ser polonês e dizem que o primeiro ator convidado a contracenar com ele apenas exclamou: “Não posso me apaixonar por alguém que existe”; a esposa do escritor diz que ele hesitou em fazer do personagem um escritor, mas acabou preferindo “dizer toda a verdade” - e, no entanto, era outro. Não existiria Tadzio se não houvesse ideia. 

Mas como dizia, acabei deparando-me com uma história bizarra sobre o grande escritor comentado. Na casa de uma família amiga, cercado de moças e crianças, ele conta sua intenção de escrever um romance sobre um senhor feudal que, entre amigos bêbados de uma noite de excessos, conta sobre o estupro de uma menina vinte anos antes. A dona da casa fica chocada e manda-lhe embora. Eu mesmo recordei que, quando adolescente, ouvi relatos cruéis, narrados de modo frio por outros bêbados. Um amigo conta da trágica ocorrência com sua filha dentro de sua casa num condomínio fechado. De fato, essa análise vem à tona na obra de um escritor que, também ele, se apaixonou, ainda que de forma idealizada, numa cidade úmida, sombria e pestilenta. E é ele quem fala do grande homem que tem uma culpa trágica e identificação com o crime, fantasias mórbidas.

Afonso Lima

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