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quarta-feira, julho 08, 2015

São Paulo conservadora

São Paulo é cosmopolita, aberta ao novo e disposta a abraçar a diferença, não?

Um conhecido, que mora há anos em Londres e tem um trabalho consolidado, tenta participar de uma seleção e ouve do coordenador: "Isso não é teatro". 
Um grupo de fora da cidade vai dar entrevista para os jornais e quase não é divulgado porque não se sabe qual editoria enquadrá-los (artes cênicas? artes visuais? dança?)
Um crítico famoso detona os grupos contemporâneos de um festival internacional porque, supostamente, estão abandonando o teatro.

Uma amiga ouve do pai, um engenheiro: "O PT é terrorista". Milhares de camisa-amarela pedindo tudo e sabendo quase nada ocupam a Paulista. 
A capa do jornal repete dia e noite que tem algum problema com a ciclovia, foca-se no que deu errado. 
Pergunto para uma amiga, que mora há anos na cidade: "São Paulo é mesmo uma cidade conservadora?"
"SIIIIM!" - ela responde.

Como propor aproximações para dar conta de uma realidade como essa?
No centro de tudo, o fato do acúmulo de riqueza num prato da balança, importando modelos estrangeiros pela metade - shopping, mas não pluralidade jornalística. O antigo hábito da mistura de classes em locais como o centro antigo foi substituído pelo medo dos condomínios fechados fora da cidade. 

A concentração cria espaços fechados e normas rígidas: símbolos de pertencimento, formas de controlar o medo (no clube, babás têm de usar branco, para sabermos quem são as babás). E pior, a luta dos excluídos uns contra os outros pelos parcos recursos, a luta para anular o outro, para "fazer parte". As elites que detêm a força (de decidir) e o argumento (para desmoralizar a contradição) não querem ouvir vozes dissidentes.

(Precisamos lembrar que a "autoridade" se estende até mesmo ao segurança terceirizado e ao policial que podem te tratar como lixo. Da mesma forma a esquerda pode ser reacionária se fixada em terminologias inoperantes ou num modelo teórico que só vê "modos de produção" e "desenvolvimento"). 

Isto está mais claro quando a vanguarda idiota, que não tem o medo da reação, obedece ao clima criado e se joga em aventuras irresponsáveis como xingar pessoas em restaurantes ou gritar a sindicalistas nas ruas que eles são "vagabundos". (Um costume é aceitar lógicas as mais simplistas, mas que conservam as antigas classificações). Chega-se ao ápice da barbárie quando alguém cria um adesivo com a presidenta de pernas abertas para o tanque de gasolina do carro. 

Por outro lado o capital (não nos iludamos com a sutileza de sociedades complexas) é uma força de inércia: são patrimônios acumulados, leis estabelecidas, rendimentos planejados... Um secretário é pressionado a aprovar uma lei que vai contra tudo que acredita porque "temos de ceder ao que já existe..." Como a maioria dos juízes fazem parte dessa classe, e, com exceções, vivem seus hábitos de clã, é recorrente o olhar conservador, pensando antes de tudo no benefício dos grandes proprietários e do grande empresário (o que justificaria as constantes e inflexíveis remoções e desocupações, como se o escândalo não fosse uma parte da cidade sem direitos).  

Lembro também que a cidade de São Paulo concentra cerca 20% dos mortos e desaparecidos políticos registrados no Brasil, ou seja, a repressão fui muito mais forte aqui. Aqui também a riqueza foi uma "desculpa" para que uma parcela da população cedesse politicamente. Isso persiste: por que devo participar de algo se posso ir para Miami?

Uma das nefastas heranças da ditadura foi o isolamento da universidade e um campus distante (antes da tática atual do sufocamento econômico). Existe o peso dos racionalismos parciais, os saberes de longa tradição, que não vivem no atrito com as ruas. É claro que o que mais precisamos no Brasil é de professores e pensadores, mas os intelectuais não podem ser quem desvaloriza todas as outras formas de saber.

(O velho Kant, provavelmente estava muito preocupado com o determinismo mecanicista quando imaginou a arte uma rota de fuga, desinteressada, só tendo interesse em si mesma; não ajuda o pós-estruturalismo onipresente na sua luta contra a linguagem que nos subjugaria, o fascismo da gramática e a liberdade como literatura gratuita; a literatura, essa coisa fluída, talvez queira também hoje redescobrir as verdades que podem nos guiar na confusão).

Se não criamos espaços de proteção para que grupos marginalizados e ideias novas possam pautar uma contra-estrutura, afundamos na inércia. Se quem legitima segue leis antigas, eu vou produzir o que agrada. (A elite da colônia quase sempre é mais rigorosa em preservar uma Europa do passado). 

Ainda, a multidão, transformada em anônima pela centralização do poder e falta de participação, assim como por políticas urbanas que a vêem como massa (sem espaço público) e indivíduos (no carro), passa a ser motivo de fechamento, mais ou menos como um jovem coloca fones de ouvido se o exterior o perturba. 

Uma amiga estrangeira comenta: "Em São Paulo, justiça social não é um consenso. Em qualquer país democrático as pessoas teriam vergonha de ver tantos moradores de rua. Aqui, querem capitalismo sem democracia". Lembro de um urbanista que fez um projeto que afetaria milhares de pessoas e me repetia: "Mas eles serão recompensados". É fácil aceitar uma pseudo-racionalidade sem que ela precise olhar o outro nos olhos. 

Mas é das ilusões que a sociedade cria de si mesma - da vergonha - que nascem as contradições e o barulho dos excluídos força passagem. Onde há emprego, há brechas para formação e direitos podem ser exigidos. Portanto, os jovens estão na internet, estão no passe-livre, estão contestando com dados e leis à questões "há muito respondidas". E, é claro, existem outras elites dispostas a investir em novidades, como as ciclovias. 

O maior gesto conservador de São paulo é a acomodação, a incorporação, o fato de que não apenas as maiorias-minorias têm dificuldade em negociar suas demandas, mas que recebem migalhas para desbaratar sua fúria. Isso vai tão longe como "movimentos" de bairros periféricos terem sido comprados para votar em conselhos com o executivo em projetos que prejudicam sua comunidade. Ou como não levar adiante a punição dos responsáveis pela ditadura. 

Será que a própria "diferença" não pode virar um nicho? Os urbanistas sabem muito bem o que fazer, mas nada o que propõem é feito. Falando do imperialismo latente no conceito de orientalismo, Edward Said diz que se "escondeu a disputa" sob a qual a estrutura foi criada.  
Ele também conta como no Cairo alternam-se arranha-céus e prédios em ruínas. Também São Paulo é cosmopolita e, ao mesmo tempo, arcaica. 

Afonso Lima

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