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domingo, agosto 23, 2015

Aprendendo a andar na Paulista

Um homem adulto tira uma selfie. De quê? "Eu de byke na Paulista". Festival de byfie.
É a Holanda? "Não é que as pessoas vão comprar bicicletas. Elas já têm. Só não tinham onde andar" - alguém me diz.
Lembro-me de Porto Alegre, quando o PT fez uma ciclovia na beira do lago Guaíba, mudando a vida da cidade.
A coisa mais legal que vi na avenida foi um menino aprendendo a andar. O pai orgulhoso parecia dizer: "Caminhando na Paulista!"
As crianças roubaram o show: jogando bola com os pais,  em cima do ombro, na bicicleta. "Cuidado com as pessoas", a mãe diz. "Oi, pessoa", o menino passa por mim.
Muita música. Bob Dylan e sax. Comidinhas em food bykes. As pessoas sentadas no meio-fio. Bolinha de sabão.
Alguém teve a ideia de colocar uma bandeira-sinal na ciclovia mesmo sem carros. Os ciclistas educadamente esperam o verde.
"É isso que ele quer", diz o PM, "as pessoas convivendo".
Lembro que no cinema tem sido muito comum gente mandando mensagens, ou seja, competindo luz com a telona. Um rapaz, esses tempos, mandou uma, na segunda eu reclamei, na terceira quase apanhou de um cinéfilo. Uma vez um cara me olhou com uma cara de susto: ele nem percebia que estava em público?
"Na Dinamarca, a lei regula os proprietários", me diz um amigo estrangeiro. Numa cidade onde só é importante o que defende o proprietário individual (até o MP fez o favor de ser contra - "Ele passa o fim-de-semana em NYC", me dizem) e é o tombamento é "ilegal", como disse alguém do CONPRESP para o secretário da Cultura, é surpreendente um prefeito comprar essa briga. Baumann definiu certa vez o neoliberalismo como "um jardim sem jardineiro". A direita, como disse um amigo, está simplesmente fora da realidade. "Defender a ciclovia é ser PT".
São essas viradas que São Paulo dá. Do meio do caos e do fundamentalismo, quando tudo parece perdido, avançamos. Quem dera o Brasil não vivesse de espasmos de melhorias, mas de um poder público disposto a fazer o melhor.

Afonso Lima

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