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quarta-feira, setembro 09, 2015

Elizabete Costa Spiel


Não acho divertido. Não. A chuva começou às oito horas da manhã, ao meio dia tinha virado uma tempestade, um furacão às três da tarde. A luz caiu. Eu procurei uma vela, a luz ia sumindo. Sem lua. A piscina, uma mancha negra lá embaixo. A vista do vale era uma mancha negra. Eu andava no escuro. Meu celular estava sem bateria, eu não podia ler, não podia ouvir música, não podia foder ninguém. Pensei em bater no vizinho, desisti em um segundo. A noite se aproximava. E eu achei que tinha dado certo, quando casei com o cara certo. Ele me pagou um uísque, me comprou um carro e me levou para sua casa na serra. Ontem, eu tinha televisão. Eu me lembrei das coisas estranhas da minha vida. Uma longa vida fascinante com todo tipo de coisas e pessoas estranhas. Meu personagem podia falar assim. Uma mãe pobre e doida, que deixava a menina com uma avó doida e surda para dançar por aí. Eles dançam no escuro. Eu nunca entendi o uísque, ela diz. Ontem, morreram algumas pessoas, ele diz. Foram mais que algumas pessoas, na realidade, ela diz. Eu digo para ele, isso é pouco. Poder falar. Só isso não basta. Desde que fiquem no seu lugar, ele diz. Meu trabalho exige muito de mim, ele diz. Que vençam os melhores, ele diz. O governo disse que não ia pagar salários. Ele tem outros planos. Os policiais não trabalham de graça. Meu personagem podia falar assim. Um pai morto muito cedo. A mãe chorou pouco e colocou flores durante três anos, depois cansou. Ele, eu conheci onde eu trabalhava. Eles dançaram no escuro. Pensando bem. Não posso escrever no escuro. Os policiais não trabalham de graça, eu digo. Agora, nós, nós sabemos. Ele tem outros planos. Ele precisa da crise. Então, começaram as mortes. Ontem, eu tinha televisão. Meu personagem podia falar assim. Nos demos bem, eu e ela. Eu nunca errava os talheres. Compramos juntas bolsas com pérolas. Eu nunca fiz as perguntas erradas, a mãe dele nunca fez as perguntas erradas, somos felizes. A noite chegou. Uma sensação estranha. Experimento cobrir a cabeça com o edredom. Ontem, morreram algumas pessoas. Foram mais que algumas pessoas, na realidade. Não é tão grave, ele diz. Ele está dirigindo por aí e não há um único policial na cidade. A vida sempre dá um jeito, ele diz. Talvez eu não merecesse, minha mãe diz. Experimento alongar, dançar na escuridão. Experimento comer algo no escuro. Experimento respirar fundo. Olho lá fora. Não vejo nada. Agora eu tenho que ficar aqui sozinha, pensei, sozinha em minha cama numa escuridão completa no mundo. Ainda uma tempestade. Todo tipo de coisas e pessoas estranhas. Uma longa vida fascinante. 

Afonso Lima

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