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segunda-feira, fevereiro 01, 2016

Passeio na livraria

A atendente da livraria diz: "Aqui na cidade, vende muito literatura russa".
É um chalé de vários andares, madeira escura, janelas verdes, art-nouveau, construído para ser livraria. Várias estantes com "Literatura Russa", escrita em gótico. No último andar, fotos da Revolução de 1923 e a neve tomando conta dos campos - pessoas sob grossos palas. Lenço branco contra vermelho, o republicano autoritário e o acordo assinado no castelo do "liberal". A guerra começa com um longo poema em que o partido latifundiário chama o ditador pelo nome de um pássaro carniceiro. "O sangue manchava trincheiras, calçadas, portas e o salão da Intendência" - disse Flores da Cunha.
Lembro de uma professora comentando que o livro "Pais e Filhos", de Turgueniev, de 1862, foi acusado de criar um movimento niilista ao criar essa palavra. Um livro ("O que fazer?", de Tchernyshevsky), sugeriu, na época do czar, que patrões podiam ser esquecidos, inspirou Marx e Lênin e foi responsabilizado por iniciar a Revolução Russa de 1917.
A cidade é pequena, pinheiros, poucas lojas, um lago. Um sebo, há 50 anos as pessoas tinham Maeterlinck e Schinitzler. Muitos livros em alemão. E as pessoas gostam de Tolstói.
Mas, uma notícia, agora, me esclarece alguma coisa.
Em Sverdlovsk, dois amigos começaram a beber numa noite fria.
O que é a verdadeira literatura? "A única literatura verdadeira é a prosa".
Um deles é ex-professor. Poesia. Uma paixão, vira faca.
Um ano antes, quem ama mais Kant matou outro homem.
Observo a neve no campo. Eu desconheço essa gente. Os russos não brincam.
Meu amigo judeu também veio da Rússia.
A névoa desce sobre a cidade.
Um pouco impressionado com um mundo onde as ideias são levadas à sério.

Afonso Lima

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