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quinta-feira, julho 28, 2016

Doze anos depois

- Ontem conheci um personagem interessante. Um músico, que trabalha em bailes tocando guitarra - disse Lídia, no piano. Ele me contou sobre o drama de pagar à associação e não ter certeza de que seus direitos foram recolhidos. Chegam fiscais nas festas com ameaças e exigem uma porcentagem. O presidente negociava com uma arma na mesa.
- Que dia foi esse? Foi um apocalipse, vocês viram? A polícia expulsou os manifestantes, a polícia prendeu um deputado que quis evitar um massacre com sem-teto, o Ministro anunciou medidas de força muito suspeitas, disse Alice enquanto sentávamos na mesa.
Era o aniversário de nossa turma de formatura. A maioria de nós estava mais gorda sem desespero, mais rica e fumando mais maconha.
- O que é mais assustador é que sabemos de tudo - Lídia disse sorrindo. Sabemos dos problemas e não podemos influir no sistema. A democracia não se importa conosco. Lídia era artista plástica, mas trabalhava em um banco para sobreviver.
- O que vem por aí é um controle policial, uma perseguição às ideias progressistas. Eu me lembro quando, cheias de esperanças, criticávamos a esquerda, presa entre uma elite escravocrata e o mundo das finanças - disse, com ironia, Nora. Seu marido era um empresário muito bem sucedido que a mortificava com sua confiança no empreendedorismo.
- Nossa geração abraçou o egoísmo de classe média. Será que acabou a solidariedade, sobre a qual a civilização foi feita? - Alice falou, com seu olhar sempre doce, enquanto observava as opções na mesa. Passe a salada, por favor, Nora.
- Hoje meu pai repetiu que estamos acabando com a corrupção. Vocês sabem, um jornalista dos mais respeitados. Nossa classe média iluminada é assustadora - Lídia opinou - Acho que a elite mundial se uniu contra a representatividade... Aqueles que acreditam que nossa sociedade cria oportunidades deviam se envergonhar - dizia ela, servindo-se de mais carne e vegetais.
- Não acho que seja tão simples assim - eu disse, pegando o vinho. Nós melhoramos, ou não?
- Não podemos descansar um dia. Mas tem razão, temos contatos - Nora riu.
- O que você quer dizer?, perguntei.
- Pense comigo: sua família tem contatos, eles te arrumam um curso, você consegue títulos, tudo que você faz tem um selo de qualidade - Lídia disse.
Nora ficou pensativa e disse:
- De um lado, vejo um bando de ignorantes que não tiveram educação e que acreditam que a corrupção começou nesse governo. De outro, um bando de pessoas bem educadas, com seus apartamentos e seus carros, que não dão a mínima para a democracia ou a igualdade. Um bando de pessoas bem informadas, cosmopolitas e idealistas que acham que a esquerda faliu e preferem ficar longe da política.
- O Brasil é conservador, mesmo que haja cada vez mais vozes progressistas. Acho que tentamos fazer tudo seguir a tradição. Se existem ideias novas, vamos combatê-las - Lídia brindou.
Alice lembrou:
- Você viu a manchete sobre o ex-presidente? As acusações parecem muito vagas. Que juiz é esse, meu Deus!
- Sim. É um símbolo. Ele mudou de status. É o status que define o valor. Não interessa o que faz, mas quem - Nora falou.
Acabamos de almoçar e fomos para o jardim. Pelo menos o sol nos aqueceu enquanto caminhamos entre os lírios violáceos.

Afonso Lima

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