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sábado, agosto 20, 2016

A mansão depois do bosque

Fernando estava morando com seus tios e sua avó num condomínio de casas recém construído ao lado de uma antiga mansão, da família Tomasi. O herdeiro vendera parte das suas terras para o novo empreendimento e praticamente não saía de casa. 
O menino havia passado pelo trauma de assistir, do carro de seus tios, o carro no qual estavam seus pais ser parado por assaltantes. Eles foram tirados do veículos e sua mãe foi baleada, permanecendo internada. Seu pai também ficou gravemente perturbado e decidiu isolar-se na casa de campo.
Fernando não deveria sair de dentro dos muros do condomínio, mas subornava o vigia com dois cigarros que roubava da avó. 
Gostava de brincar no pequeno bosque atrás da casa, que fazia a divisão com a mansão Tomasi.
Um dia, observou senhor Tomasi trabalhando no jardim. Parecia estranho. Chegou perto e tentou descobrir o que fazia.  
Sonhou com a casa. Muitos vidros dentro dos quais haviam pedaços de animais. 
No outro dia, decidiu aproximar-se da janela e observar o interior da mansão. A janela tinha uma base de vidros coloridos. Uma cortina de renda. Muitos quadros nas paredes, que pareciam de gente morta. Uma lareira com uma santa em cima. Os móveis eram antigos, pesados. Uma mulher estava sentada numa poltrona de veludo verde, de costas para ele.
Tentou descobrir com o vigia algo sobre o morador da mansão. Todos ali haviam chegado agora e pareciam prontos a partir. Algumas casas haviam sido compradas como investimento e permaneciam fechadas. Outras, pertenciam a pessoas que vinham à negócios poucos dias por semana.
Sua avó percebeu que estava agitado. Pediu aos tios que o levassem a um psicólogo. 
Outra vez ele jurou ter visto uma menina no jardim da casa. Ouviu outra voz. Ela parecia estar conversando com senhor Tomasi. Teve medo e contou a seus tios, mas não contou como havia saído; eles o colocaram de castigo por mentir. 
Normalmente seus tios não deixavam que visse televisão, em especial o jornal. Como havia ficado de castigo, pode ficar com eles na sala depois do jantar. Os jornais relataram o desaparecimento de três crianças nos últimos meses. O governador estava dizendo que não podia pagar os policiais.
Fernando sabia onde estevam. Conseguiu sair de casa antes de amanhecer. Começou a analisar o jardim.
Retornou com medo de ser descoberto logo que o sol despontou.
Eles o levaram a um psicólogo. Ele achou que o menino vira algo estranho.
Sua tia lhe deu de presente um canivete - "Você vai se sentir mais seguro".
Ele voltou ao jardim. O homem estava adubando as rosas. Senhor Tomasi acabou convidando-o para um chocolate.
Ele entrou na casa.
Essa é minha mulher - ele disse, apontando para a poltrona verde. Eu a desenterrei uma semana depois do funeral.
O menino ficou petrificado.
Toca a campainha.


Afonso Lima





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