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quinta-feira, novembro 03, 2016

Eu sou Alpha

Quando J. abandonou o escritório para se dedicar a pesquisas ocultistas, sua família preocupou-se. Logo, um sobrinho decidiu entrar com um processo para tomar seus bens, a casa e os imóveis no centro da cidade. Apesar do patrimônio, ele vivia como um monge - a casa estava em ruínas, os cômodos cheios de objetos estranhos, máscaras, desenhos, papéis e livros. Todos os dias a cozinheira preparava a mesma combinação de frango, vegetais e arroz. 
Seu estudo começou no dia em que alguém, lendo o jornal, comentou:
- Uma doida vidente diz estar recebendo mensagens de uma entidade chamada Alpha.
No outro dia ele pediu demissão.
A cozinheira, que chegava todos os dias às 7h, chamou o sobrinho ao perceber que J. desaparecera sem levar nenhuma roupa, e ele notificou a polícia. Suas anotações no caderno azul - encontradas pelo sobrinho, diziam:

Dia 20 de outubro

Finalmente, fui procurar a senhora que dizia estar recebendo mensagens da entidade. Ela mora em Santos num conjunto de casas muito deterioradas. 
Ela me falou que a entidade dizia haver uma mensagem urgente a ser transmitida e pedia que realizasse um ritual para a abertura de uma espécie de portal. Ela não tivera a coragem de fazê-lo, mas deu-me as indicações. A entidade dizia chamar-se Alpha. 

30 de outubro

Eu realizei os ritos indicados. Coloquei no meu altar uma pirâmide, velas, evoquei os nomes indicados e chamei a entidade. Senti um cheiro forte de incenso, mas fora isso, nada ocorreu. 

31 de outubro

Acordei com um sonho estranho. Uma luz muito forte emana de um ser que é dois seres unidos. Ela diz ser Spodet, a mensageira que aos homens "o que é legítimo aos olhos dos deuses", portanto os dias benéficos. Sábios desenham símbolos com a contagem dos dias. A luz entra pela abertura do templo e toca a imagem da deusa. O deus de cabeça de cão aparece. Ela diz que devo preparar-me para descrever o que me for inspirado. 

Dia 2 de novembro

Começo a desenhar imagens que me surgem. Algumas fórmulas. O lápis já não é suficiente. Tenho que comprar diversas cores. é uma espécie de seita, homens de túnicas brancas, estão venerando uma entidade. Mas a entidade não surge imediatamente. Vai ficando mais e mais visível. Por fim, ela tem um corpo. Eu decidi procurar por essa entidade. 

Dia 5 de novembro

Spodet me leva a um professor que tem um livro sobre mitologia. É um medico, que dá aulas na universidade. Mostro-lhe as imagens. O homem está assustado e me convida a ir à sua casa. 

Dia 6 de novembro

Ele pediu para eu dormir na sua casa. Fez rituais de proteção. 
O homem me diz que, segundo tradições antigas, vibrações agressivas podem se tornar regras internalizadas e viram identidades que podem, por um fenômeno chamado co-emergência, trazer uma forma semelhante. "Quando uma entidade é cultuada surge energia associada". Sombras aparecem quando as regras produziram e infestaram o eu. 

Dia 8 de novembro 

Eu decidi realizar os ritos na casa do professor e abrir um portal. Jantamos e ficamos na sala conversando até a lareira extinguir-se. Ele cochilou e viu a imagem da entidade nefasta. 
Eu pensei que sua mesma ambição podia ter feito co-emergir o Ômega.

10 de novembro

O professor estava muito assustado e pediu que não o procurasse mais. 
Também desisti de evocar Spodet ao ler que ela conferia poder, mas podia trazer ambição ardente. 
Mas não pude deixar de pensar no fim daquela mensagem urgente. Lembrei-me de uma fórmula que escrevera sob símbolos do deus-cão. 

10 de novembro - Madrugada

Repeti a fórmula no altar.  Escrevi uma narrativa. 
Uma seita de sábios- brancos, homens reunidos em torno da ambição pelo conhecimento. Essa seita planejava tomar o poder usando a influência do mundo espiritual para aterrorizar e negociar com juízes, políticos e homens poderosos."

J. desaparecera no dia 11. O sobrinho herdou a propriedade e passou a ficar inquieto com uma opressão constante e uma presença que dizia sentir quando andava à noite pela casa. 


Afonso Lima












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