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quarta-feira, junho 29, 2022

The son of H.P.

At a luxury hotel in Harrogate, I was greeted by Sir Arthur and Mary Clarissa. She apologized for having discussed a sensitive topic with the old writer at a party at her house, but she had come to imagine that spiritualism would help me. By chance, Sir Arthur had received a letter in which a lady told a very similar story.

When I was Chief of Police in Brussels, I met the young Miller who was passing through Paris with her mother towards the East. We met again by chance during the War when I arrived on the island as a refugee. She was working as a nurse at the time.

She invited me to her house. In the conversation, between cookies and tea, I told her about a boy I had adopted in Belgium, an orphan.

- I always said, Mary Clarissa, that the reason for the crime is what is sought today; that I am an expert, actually, in the psychology of criminal affairs. Well, it's exactly the "why" that is missing here.

The boy, very happy and always willing to hear beautiful stories, had mysteriously disappeared during a ship trip we took on the Adriatic. There was a storm, and the waves seemed about to capsize the vessel; in the confusion, I left the boy in the cabin while helping calm the passengers; when I came back he was gone. We searched the whole ship, the captain and I, after things calmed down, we notified the police when we disembarked, I had hoped for months that they would find him.

Afterward, she and I didn't speak to each other for a while. One day, I got a call from her. She had lost her mother, her husband abandoned her, she told me we should meet. A.C.D. would be present.

They told me that Sir Arthur received from a friend in Dublin a letter in which she told that her neighbor Mrs. M., being ill, had decided to tell her the truth about her adopted son. The lady died, and the lady asked the writer if she should finally tell the secret as the other woman had requested.

Many years ago, on a journey across the Adriatic, in the midst of a storm, a six-year-old boy, of Belgian origin, took refuge in his cabin. He told her that a man had kidnapped him and was holding him captive. She ended up talking to the captain, and they both decided to hide the child. The next day, the boy began to say that it was all a joke and that he wanted his father. The captain thought it was a kind of "love for the criminal syndrome", or even fear of being discovered. A doctor present on the ship was consulted. At the same time, they were suspicious of the egg-headed Belgian policeman who was circling the ship very nervously. The doctor decided to medicate the child, and he was practically unconscious until they left the ship, which happened as quickly as possible.

Only after they arrived in Ireland, on her property next to the city, did she realize that the story about an adoptive father could be real. But, by then, her husband had already fond of the child, and she was too ashamed to reveal it to everyone. Finally, the boy was adapting himself, and his past become like a distant adventure. 

Mary Clarissa, at that moment, was surprised by a musician from the hotel orchestra, who asked her:

- Aren't you that mystery writer?

We knew our peace was over. We parted ways, and I decided to go to Dublin to meet my son.

Afonso Jr. Ferreira de Lima 

O filho de H.P.

Num hotel de luxo em Harrogate, fui recebido por Sir Arthur e Mary Clarissa. Ela se desculpava por ter comentado sobre um tema delicado com o velho escritor em uma festa em sua casa, mas chegara a imaginar que o espiritismo me ajudaria. Por acaso, Sir Arthur havia recebido uma carta em que uma senhora contava uma história muito parecida.

Quando eu era Chefe de Polícia em Bruxelas conheci a jovem Miller que passava por Paris com sua mãe em direção ao Oriente. Nós nos encontramos novamente por acaso durante da Guerra quando cheguei à ilha como refugiado. Ela trabalhava como enfermeira na época. 

Ela me convidou a sua casa. Na conversa, entre bolinhos e chá, contei-lhe de um menino que adotara na Bélgica, órfão. 

- Eu sempre disse, Mary Clarissa, que o porquê do crime é o que hoje se busca; que sou especialista, na verdade, na psicologia dos assuntos criminais. Pois bem, é justamente o porquê que aqui me falta. 

O menino, muito alegre e sempre disposto a ouvir lindas histórias, desaparecera misteriosamente durante uma viagem de navio que fizemos pelo Adriático. Houve uma tempestade, as ondas pareciam prestes a virar a embarcação; na confusão, eu deixei o menino na cabine enquanto ajudava a acalmar os passageiros; quando voltei já não estava. Revistamos todo o navio, o capitão e eu, depois que as coisas se acalmaram, avisamos a polícia ao desembarcar, por meses tive esperança de que o encontrariam. 

Depois, eu e ela ficamos sem nos falar algum tempo. Um dia, recebi sua ligação. Ela perdera sua mãe, seu marido a abandonava, ela me disse que devíamos nos encontrar. A. C. D. estaria presente. 

Eles me contaram que Sir Arthur recebeu de uma amiga sua em Dublin uma carta em que ela contava que sua vizinha, sra. M., estando adoentada, resolvera contar-lhe a verdade sobre seu filho adotivo. A senhora veio a falecer, e a dama perguntava ao escritor se deveria por fim contar o segredo como a outra solicitara. 

Há muitos anos, em viagem pelo Adriático, em meio a uma tempestade, um menino de seis anos, de origem belga, se refugiou em sua cabine. Ele lhe contou que um homem o havia sequestrado e o mantinha cativo. Ela acabou falando com o capitão, e ambos decidiram esconder a criança. No dia seguinte, o menino começou a dizer que era tudo uma brincadeira, e que queria seu pai. O capitão achou tratar-se de uma espécie de "síndrome de amor ao criminoso", ou mesmo de medo de ser descoberto. Um médico presente no navio foi consultado. Ao mesmo tempo, desconfiaram do policial belga com cabeça de ovo que circulava pelo navio muito nervoso. Ele resolveu medicar a criança, e ele passou praticamente desacordado até saírem do navio, o que se deu o mais rápido possível. 

Somente depois de chegados na Irlanda, na sua propriedade ao lado da cidade, ela foi percebendo que a história do pai adotivo poderia ser real. Mas, nesse momento, seu marido já se afeiçoara à criança, e ficou com muita vergonha de revelar isso a todos. Por fim o menino foi se adaptando, e seu passado ficou como uma aventura distante. 

Mary Clarissa, nesse momento, foi surpreendida por um músico da orquestra do hotel, que lhe perguntou:

- A senhora não é aquela escritora de mistério?

Sabíamos que nossa paz havia acabado. Nos separamos, e eu decidi ir a Dublin conhecer meu filho.  

Afonso Jr. Lima


domingo, junho 26, 2022

A Segunda Eva

Era assim a história:

Eva olhava a si mesma na água, estava cansada, havia sido expulsa do Paraíso depois de Adão ter reclamado com o Altíssimo.

- Se nos unirmos, podemos vingar-nos de nossos opressores - dizia a Outra. 

- Você está querendo usar-me porque não pode mais entrar no Jardim, disse Eva.

- Sim, é verdade. Eu sou um demônio, mas você pode ser transformada num animal e passar despercebida. Eu fui lançada à Terra dos Demônios porque me neguei a ficar por debaixo dele. Eu queria poder controlar um pouco nosso desejo. Ao invés disso, ganhei uma terra onde nada cresce e onde o vento é sempre impetuoso e seco. E você também caminha sem rumo, por entre pedras e insetos, você já é um dos animais, que não têm os anjos a ensinar-lhes.

- Fui expulsa porque o Primeiro sentiu asco ao ver-me sair de sua carne. 

- Eu amo a beleza disforme. Nesse novo caminho, a mudança é a lei. Tens que contar a tua irmã nossa história, e como ela já é de fato uma escrava. Somente no sono Adão aceita que ela viva. 

- Mas o que acontecerá comigo depois que eu lhes disser as palavras que me ensinarás? Serei lançada ao fogo ou me esmagará algum anjo?

- Eu te protegerei - ainda que não possa entrar aí, estarei nos portões do Paraíso e lutarei com Uriel, o Anjo que os protege, para dar-te sua Espada de Fogo. Nós nos uniremos em carne, e tu gerarás uma raça de homens inquietos, amantes dos sons e das cores, aos quais ensinaremos símbolos, e que jamais deixarão os reinos adormecerem. Depois, me tornarei uma ave e seguirei os filhos de Adão e da Nova Eva para que conheçam o amor com nossos filhos.

E assim a segunda Eva viu sua pele tornar-se fria.

Afonso Jr. Lima 


Live: As memórias dos sobreviventes de Hiroshima


 

sábado, junho 18, 2022

Problemas familiares - oficina com Juan Peralta

M - Creo que voy a quitar el dispositivo que te permite respirar. No querías escucharlo.

H – Yo no quería nada extraño en mi cuerpo.

M - Puedo decidir sobre tu vida. Ya no puedes discutir nada.

H - Puedo pensar. Sé que tienes ese derecho, pero quiero vivir.

M - Nunca estuve limitado por nada. No quiero ser oprimido.

H - Quiero algo más que ciclos.

M - Al principio yo estaba. Fue el origen de la especie. Mi agua caliente creó torres de azufre y hierro. Les paso y creo moléculas orgánicas.

H - Usé piedra pulida. El agua era fundamental, paramos, criamos gallinas y vacas. Necesitamos defender nuestro pueblo. El mar es feroz. El viento puede ayudarnos.

M - Analizando las circunstancias tomas una decisión.

H - Está bien, mátame. Hacer algo.

M - Tu acción es la guerra.

H - Si me rebelé contra ti fue porque quería ser diferente.

M - Hablemos de eso. Es una tragedia, es decir, la imitación de una acción, varias acciones con un vínculo causal. ¿Y cuál es la trama, qué pasa?

H - lo sé. Esta trama resultó de la composición de acciones más pequeñas unidas entre sí por necesidad. La acción define, no el carácter.

M - Dijeron que tenía cara de enojo. Tus héroes están manchados de sangre. Mataron a mis hijos, perforaron los ojos de los monstruos. Me dieron un nombre, dijeron que perseguía a los que intentaban volver a casa para vengarme.

H - Corté la madera. Cuento monedas. Nuestras ciudades tienen chimeneas. Casas climatizadas. Nuestra ciudad contamina el agua. Hace más calor. El agua está más cerca, los tsunamis más peligrosos.

M - Avanzo sobre la tierra. Penetro el suelo. Las grietas crecen. Caen las paredes. La casa se derrumba. El barrio está vacío. Caen los edificios. La tierra tiembla. Los animales corren.

H - Encontrado muerto dentro de una habitación. Soy el criminal, la víctima y el detective.

M - Creo que voy a quitar el dispositivo que te permite respirar. No querías escucharlo.

Afonso Jr. Lima

Live: Positivismo social - O legado de Saint-Simon

 


Açucenas

Joana, 16 anos, está em seu quarto lendo um livro de fantasia. De repente, na cama, percebe um jovem de roupa branca. 

- Quem é você? 

- Oi. Sou um anjo. Você vai ser a Mãe de Deus.

- Como entrou aqui?

- Olha, eu sou um anjo. Quando eu disser as palavras mágicas você será a Mãe...

- Eu sou menor de idade. Deus não pode...

- Pode, acredite. Já foi pior. Aceite essas flores. Açucenas. 

- Aço... quê?

- Elas têm a forma de trompeta. É que quando eu disser as palavras...

- Escuta, não tem feminismo nesse Céu de Deus? Como vou acabar meu ensino médio? Não sei se vocês sabem, mas aqui tem um série de saberes que são essenciais para a vida adulta, como metonímias e cossenos, sem os quais não te deixam ter acesso a mais conhecimento, conhecimento superior. 

- Também vou colocar uma vela aqui, pronto. Quando eu falar apago a vela e... Que lindo! Vai viralizar. Ah, sim. Maria conseguiu fazer parte do Conselho dos Quatro há alguns anos. 

- Mas Maria é virgem, né? 

- Olha, nesse século, a humanidade vai invadir florestas e liberar vírus, vai ter mais insetos porque vai ter mais calor, tudo vai ficar bem infernal. O departamento de marketing achou que era necessária uma esperança. 

- E eu tenho que carregar a arma secreta contra os vírus por nove meses? Isso se chama assédio sexual divino. 

- Tecnicamente não, porque o Espírito Santo é tipo, espiritual. A santa pomba é estóica. Ah, mais uma coisa. O departamento de marketing acha que você tem de usar azul.

- Quanto a isso, ok. O problema é se vão enfiar meu filho numa estaca.

- Tecnicamente não é seu filho. Só por questão de contrato. Mas não, ele será ecologista. 

- E pode garantir que não vão enfiar meu filho numa estaca?

- O que tem acontecido com ecologistas é mais ligado ao fogo. 

- Que horror. Estou chocada. Você não pode voltar ano que vem? Quer dizer, não quero que Três Pessoas acabem no tribunal por crime e tal...

O anjo se comunica com a base.

- Ok. Você tem bom coração. Os Santíssimos vão esperar. A paz esteja com você. 

O Anjo foi diminuindo e saiu por um raio de luz que entrava pela janela. 

*

Afonso Jr. 


sexta-feira, junho 17, 2022

quinta-feira, junho 09, 2022

sexta-feira, junho 03, 2022

Elas também - e daí? - impressões sobre um julgamento

Vai demorar ainda muito tempo para avaliarmos a importância do movimento Me Too. Se pode imaginar que 30% da humanidade tenha sofrido abuso sexual - e talvez mais no caso das mulheres. ('That's enough': France confronts decades of neglect of incest cases) Não há dúvida de que um sistema todo foi construído ao redor da descrença na voz feminina - a começar pelo policial que não acredita na denúncia, chegando ao juiz que humilha a vítima. 

Mas devemos pensar: sempre que você tem poder - um poder moral também - pode surgir abuso, pode ser usado como forma de generalizar a culpa para grupos ou excluir pessoas para enfatizar superioridade e domínio. Existe o bullying pseudo-progressista (woke bully). Se o medo de afirmar a verdade sufocar a reflexão, quem ganha? Afirmar que se trata de "punir uma mulher que nomeou suas experiências" pode mesmo ajudar a evitar abusos? 

A advogada segue dizendo que ela foi "demonizada" - esquecendo que a acusação não é prova (o que pega muito mal nos Estados Unidos, e talvez seja para criar uma "onda" que leve a reduzir a indenização). Seu grande erro pode ter sido "editar" demais sua cliente, de modo que, quando apareceram falhas, toda sua credibilidade ruiu. Excesso de ficção. Ainda que o melhor que se possa fazer é criar uma teoria coerente com as informações disponíveis, o tribunal deve ser o limite último contra o relativismo - até mesmo o relativismo teórico em moda no pós-estruturalismo. E é por isso que tem sido atacado. 

É chocante o uso da tese de que o resultado "faz recuar o relógio" - é como se o sentido de grupo (de facção) devesse prevalecer mesmo sobre as evidências. Justamente o avanço das políticas de proteção é que permite que haja casos isolados de abuso. Os conservadores aproveitam para dizer que "é o fim do Me Too" ou que "só a palavra da mulher, agora, já é prova". Não podemos viver entre dois fanatismos: a mitologia perversa da extrema-direita ou a agressividade política de algumas pessoas muito certas de estarem defendendo as minorias. 

Tudo aponta para que alguém tentou aproveitar-se de um movimento legítimo para destruir a carreira de um ex-marido e ganhar dinheiro com isso. A impressão geral do momento (doxa coletiva) criou uma atmosfera para que pequenas evidências descontextualizadas gerassem uma decisão errada. É simplesmente impressionante que, de fato, um juiz veterano tenha acreditado nisso e companhias como Disney e WarnerMedia também. 

Todo mundo sabia que Deep tinha problemas com droga e álcool. Era a parcela de verdade que toda narrativa mentirosa precisa - agora será usada como trampolim para narrativas conspiratórias de como "os homens são vítimas das mulheres". 

Assistindo como Heard se dirigia aos jurados, ao invés da pessoa que lhe perguntava, ficava claro que havia algo muito errado. Era muito angustiante ver que uma pessoa havia sido muito provavelmente difamada e perdido trabalhos em função de uma performance. O fato de que ela não convenceu nem o juri, nem os milhões de telespectadores não é irrelevante. 

A questão é que, em relações tóxicas como essa, é muito difícil estabelecer os limites, o que pode ou não ser enquadrado em cada conceito. É preciso muita tenacidade e análise cirúrgica para desmentir cada pequena mentira que cria um cenário irreal. Além disso, nenhum tribunal pode ter tempo ilimitado, e nunca as evidências coletadas podem ser "tudo que existe ou existiu" em torno do caso. 

Os advogados do acusado sempre tentarão mostrar a suposta vítima como o real agressor, mas ainda assim o juiz inglês parece ter se equivocado aceitando apenas provas diretas que respondessem à pergunta "se Depp tinha cometido a violência ou não". (2 junho 2022 - BBC) Neste julgamento, os fatos externos (para além da fala da suposa vítima) que circundam o "evento" não apareceram (por exemplo, nunca apareceu uma suposta mulher de quem Deep teria tido ciúme e pelo que teria iniciado uma briga). 
 
Não sei em que ajuda pensarmos de modo tão superficial como para dizer que: "Muitas vítimas de violência doméstica que assistiram a este julgamento provavelmente concluirão que, se compartilharem suas experiências, serão desacreditadas, envergonhadas e condenadas ao ostracismo." (2 junho 2022 -The New Yorker). Havia um triunfalismo de facção em algumas declarações de que você estava sendo "manipulado" contra a acusada. Teve quem dissesse que haviam descartado "fotos de ferimentos" e seria difamatório dizer que ela "mentiu sobre o abuso". 

Antes de mais nada, o sistema seria tão ingênuo à ponto de descartar uma prova que mostra que a vítima foi violentada sexualmente? Além disso, podemos partir da ideia de que o crime é certo, a prova em contrário deve ser o objetivo? Alguém é estuprado com uma garrafa e não busca um médico? Pode ser, mas aceitar a palavra sem evidência como prova pode ser ainda mais catastrófico ao sistema democrático. Os jurados podem ter acessado à internet, mas isso os levaria a condenar uma pessoa inocente? 

Tara Roberts, administradora da ilha privada de Deep, narrou como ele foi atacado e afirmou: "Amber lhe dizia que ele era um ator fracassado... que ele iria morrer como um velho sozinho". (28 de mai - 2022 - G1) Sean Bett, o guarda costas, mostrou fotos da violência doméstica contra o ator, que havia documentado justamente por prever acusações da atriz, etc, etc. 

Em nada favorece o movimento em defesa das verdadeiras vítimas a onda de "culpado até provar inocência". Porque o que a extrema-direita faz é, na verdade, rebaixar o pensamento, destruir a sutileza, de modo que se pode inclusive generalizar a ponto de defender isso ou aquilo à custa da verdade particular. As teorias de conspiração apagam os dados concretos. O que me parece melhor - no caso de comentários que não estejam acompanhando minuciosamente o julgamento - é simplesmente dizer: não sei; não posso dar opinião definitiva baseado apenas na minha impressão, porque ela representa minha pré-concepção. 

O que isso afeta as mulheres vítimas de violência em geral? Bastante, se seguirmos a ideia medíocre de que existem mocinhos e bandidos, ou de que o sistema de Justiça não se baseia em evidências, mas em opiniões. O fato de que algumas mulheres mentem não deveria impedir que se condene quem pratica violência. Cada caso segue sendo único, e a história de opressão e violência contra as mulheres segue sendo um eixo formador da nossa sociedade. De qualquer modo, poder revisar nossas certezas e convicções ainda é o melhor caminho. 

Amanhã podem surgir novas evidências, ou podemos descobrir que o julgamento foi uma farsa (como ocorreu recentemente no Brasil). Mas, por hora, é bom refletirmos que não podemos transformar esse caso no caso "se os homens/ as mulheres" isso e aquilo. Cada denúncia deve ser tomada a sério e investigada com cuidado. Os progressistas precisam estar atentos ao uso dos direitos humanos para promoção pessoal e calúnia, de modo a evitar que a extrema-direita se aproprie disso. A democracia depende de que não seja apenas minha opinião fanática, a qual defendo até a morte. Isso foi o mundo das guerras de religião. É preciso voltar à melhor democracia que podemos criar. 

*

Afonso Jr

https://ponte.org/artigo-no-julgamento-de-heard-e-depp-quem-perdeu-foram-todas-as-vitimas-de-violencia-domestica/

https://www.newyorker.com/culture/cultural-comment/the-depp-heard-verdict-is-chilling

https://www.bbc.com/portuguese/internacional-61677816

https://www.theguardian.com/world/2021/feb/10/france-begins-to-confront-decades-of-neglect-of-incest-cases

https://www.youtube.com/watch?v=cRQWGbk1pqM

https://www.youtube.com/watch?v=fAqSdHBtxBE 

https://www.youtube.com/watch?v=Y83aKLBtEA0 

quinta-feira, junho 02, 2022

Exercício - Oficina Mariano Tenconi Blanco

El hombre se arrodilla.


Me entrego ciego a la suerte

Signior

Que de cerca soy perseguido!

Es muy poco entendimiento

Que solo los letraos es que pueden

Por demonios ser guiados

Que somos unos matuchos

Nuestras hembras y varones 

Cuando me alconzó cimarrón

La china allí su hechiso estaba

Me ha clavao del pico

El dulce diablo estrupicio

Llamándolo como gato de noche

El padre del artificio

Un duelo sale de entre nosotros

Que la china estaba prometida

Dos potros y la luna de sangre

Signior

Tan de cerca soy perseguido!

Lo maté el compañero

Y al trote salió marchando

Ese pobre desdichado

El por demonios guiado

En nuestra casa encontró

La china ahorcada

Signior, castigáme, juez nuestro general

Me ha clavao del pico el amor

Y los campos cubiirán mi cueipo

 *

Afonso Jr

quarta-feira, maio 25, 2022

La autoficción (ESP)

Si digo esto es con una mezcla de vergüenza y orgullo.

Entro en su habitación muy sencilla, con una mancha de humedad en el techo.

Me siento en el sillón que tiene una lámpara al lado.

En ese momento estaba muy solo y aceptaba que cualquiera le leyera.

Quería revisar todo Stevenson antes de crear algo.

Son casi las ocho cuando abro mi paquete y como mi sándwich.

Camino por la casa mirando algunos cuadros y retratos.

Miro el manuscrito sobre una mesa.

Parece saber lo que vi:

- Escribí esta historia - es como un cadáver enterrado en el polvo.

Me acerco a una foto de tamaño natural de nuestro autor.

Miro su rostro muy de cerca, quiero ver cómo eran sus ojos cuando veía.

Tengo la impresión de que avanzan hacia mí, camino hacia atrás, pierdo el equilibrio y caigo sobre la mesita donde está el manuscrito.

 

Siento que me estoy cayendo.

Despierto en el arrabal norte, observo a compadritos en la esquina.

No sé qué pasó, corro y me encuentro con un caudillo de provincia cabalgando en la calle.

En la ventana, un Quijote y, junto a él, una copia sobre mitología griega en dorado.

Intento averiguar dónde estoy, entro en la librería y me saluda un hombre de bombachas.

Una chica entra en la tienda - muy guapa, ella pregunta acerca de Oscar Wilde, yo fue tomado de intensa emoción, una experiencia mística -, me mira los pantalones y se ríe.

Se acerca y dice: ¿Cómo está tu abuela inglesa?

Me sobresalto, instintivamente me miro en el espejo y veo el rostro, su rostro, el rostro de la maldita fotografía.

Desesperado, busco su nombre en los estantes y me lanzo a su libro.

*

Afonso Junior 

quarta-feira, maio 18, 2022

Lawfare (ESP)


¿Qué mierda es este grupo de estudio, hijo?

En la Floresta. Hay wi-fi.

Estos matones.

Vete a la mierda.

Recuerda quien eres, tu sangre. Yo no te daré ni un centavo más. Usa tu dinero, lo de afuera.

Papi, es genocidio blanco.

No seas temerario, la educación es para eso, hijo.

Estamos peleando, porfa. Son los judíos, los globalistas.

Nadie duda de que la raza blanca esté amenazada, pero necesitamos más información, los votos de los pobres, necesitamos noticias, influencers y publicidad.

No papi. Si, controlar las emociones, gil.

Estudia el lawfare. La Justicia. Todavía tenemos la ley.

Crea santos. Vive el momento.

Hay que seguir hablando del Estado ineficiente, del mérito de los herederos, del heroísmo de ganar solos sin déficit fiscal.

Mierda. No sé por qué sigo hablando. Si no usas Telegram.

El socialismo y el colectivismo atraicionan el darwinismo cósmico.

No conozce 4chan. Carajo.

Política es entretenimiento. Acepto que hacer un show en la tele puede ayudar a publicitar la cosa en internet con uno u otro “el humilla” y “el calla” como titular.

Es el apocalipsis.

No hay duda de que la demografía... Ya sabes lo que le hicieron a Hitler, hijo.

Papi. Ser un guerrero, derramar sangre.

Tenemos que reunir los votos de los jóvenes radicales, la juventud exhausta, tenemos que enfrentarnos al populismo corrupto.

Violencia. Necesario.

No es posible, la puta madre. Creé un burro.

Derramar sangre de alguien.

*

Afonso Junior

domingo, maio 15, 2022

Live: Grupo de estudo - Tykhe e caráter no Hipólito de Eurípedes

 O Grupo de estudo - A Tragédia grega lê a tese de doutorado de Cristina Franciscato. A autora conversou conosco introduzindo sua pesquisa.



sexta-feira, maio 13, 2022

Live: O Brasil e o governo militar


 

Doutor Estranho no Multiverso da Loucura - crítica

Depois de ficar algum tempo sem ver filmes da Marvel, mais ou menos desde que X-Men virou uma máquina de explosões, confesso que me surpreendi por conseguir gostar do filme, e por ele não ser um universo fechado acessível apenas aos "iniciados". Mas tem coisas muito irritantes nesse Dr. Estranho.

Uma das piores é a constante abertura de novos "universos" - abas e subtramas que podem criar um "carnaval da totalidade". Tendo no primeiro Homem-Aranha um exemplo do oposto, de muita sensibilidade. 

Para derrotar Wanda, Stephen Strange precisa do Livro de Vashanti - e depois isso não parece ter importância. Mas por que ele foi procurar a vilã, em primeiro lugar? (São essas coisas que devem ter um explicação - em algum lugar! - mas que não conseguimos entender na hora). Wanda quer o poder de America Chavez (muito bem apresentada aqui) para ir para um universo em que esteja em paz com seus filhos imaginados - mas o trabalho mental de criar essa narrativa é constantemente atrapalhado por algo perdido da cronologia Marvel de 20 anos e pelo festival de cenas desconjuntadas. E ninguém vai ver filme de super-herói querendo Ingmar Bergman, mas barriga tem limite. 

Um dos prazeres dos fãs quando vão ver a transcriação de uma mídia para outra é o simples deleite de "estar com quem se ama". Para esse fã, pouco importa a narrativa, a emoção de ver em 3D um livro praticamente basta. 

Mesmo assim, Marvel criou um número considerável de fãs dos seus filmes, desde 2002 - e uma onda de propagação que passa a qualificar esse legado, sendo praticamente impossível querer contrapor-se a uma "cultura sedimentada". 

Por isso observei bem os jovens atrás de mim. Empolgados no começo, ameaçando atrapalhar o filme, saíram meio confusos e falando baixo, parecendo nem entender muitas coisas. 

A única explicação para os criadores de conteúdo nerd estarem tão empolgados é que os outros filmes devem ser muito mais desconexos. A única opinião que vi mais crítica foi justamente de alguém que não trabalha com cultura pop. E acho isso um mal sinal. 

Começamos com uma explosão de CGI - ok, que estamos num "outro universo", e os quadrinhos eram psicodélicos, mas a artificialidade do mundo remete muito mais a uma "vontade de brilho" do que a uma necessidade narrativa. Uma paisagem de isopor de Star Treck acaba sendo mais plausível pelo simples fato de não ter glitter. 

Um dos problemas centrais do filme é que deve cumprir muitas funções: deve ter uma luta de monstros porque supostamente os jovens morreriam sem ela (tomara que não tenha matado aquele monstro incrível dos quadrinhos!); deve trazer esse e aquele personagem tão esperado; deve trazer referências a outros filmes e ter piscadelas para os caçadores de easter eggs; deve ter humor porque é disso que se trata a Marvel; deve seguir uma cronologia, encaixando com algo que passou e sendo transição para outra coisa, etc, etc. 

É um milagre que qualquer roteirista consiga um mínimo de coerência nesse contexto. E é um grande mérito de Michael Waldron e Jade Bartlett terem conseguido. Mesmo assim, parece que estamos nos afastando do que conhecíamos como cinema: a condução emocional de relações, porque a relação emocional está no outro filme. Os milhões de fãs escalaram pelo menos um ator: e parece que lidar com tanta ansiedade compromete a tarefa simples de contar um evento.

Um dos erros centrais é que - ainda que se explique razoavelmente o drama da anti-heroína Wanda - não se poderia repetir o que foi dito em WandaVision. O resultado é que 70% do sentimento está no passado. Mas quem se importa por condução emocional, aí vem mais um universo colorido! É um tipo de cinema novo, cinema-evento?

Temos, por exemplo, a elogiadíssima cena da guerra de notas musicais. Ideia linda, Harry Potter no Fantasma da Ópera. Mas que isso significa em termos de enredo? É apenas uma "aparição bonita"? 

A luta em Kamar-Taj - a "terra oculta do Himalaia" - também parece fazer apenas figuração aqui: ninguém sabia que Wanda manipula a realidade? Que espécie de magia é essa, para que serve?

O resultado é que (simplificando um pouco) estamos aqui para ver coisas, e não para sentir. O coração da história nunca aparece de verdade. Ah, mas é tão legal quando aparece um Illuminati, ou um zumbi! O filme é um grande fanservice. Impossível não, aqui, mas toda obra precisa antes de tudo responder a sua própria coerência, suas questões. Eu preferiria uma hora com força emocional do que duas horas para unir todos os universos Marvel. 

É claro que esse tipo de história tem outra coerência (não o drama de conflito clássico), mas mesmo a coerência da ameaça e da luta necessitam ser mais que cinco minutos de reencontro com personagens. E ao que isso leva é a uma "barra de energia" em que os poderes sobem e descem de acordo com o personagem do checklist (dois homens você mata em um segundo e duas mulheres em um minuto).  (Um comentarista chega a dizer que não entendeu o que eram as "incursões" porque estava prestando atenção nas aparições de astros que haviam ou não sido noticiadas). 

A direção, entretanto, é muito competente em reunir esses retalhos em algo interessante - Sam Raimi se diverte e diverte os fãs; de modo estranho, entretanto, parece que roteiristas e diretor são possuídos por forças que não controlam. O que unifica o filme é sem dúvida a crença que Benedict Cumberbatch tem no seu personagem e a força emocional de Elizabeth Olsen. 

Só duas vezes na minha vida lembro de sair de um cinema no meio de um filme - e uma delas foi com Animais Fantásticos. O dom para criar milhares de personagens funciona para romances, mas não na tela. 

Aqui não foi o caso. Consegui reunir o que a indústria separou e saí feliz em ver que ainda existem poderes criativos na Marvel. Apenas não pude apagar a ideia de que penetrei num universo fechado.

Afonso Jr. 







sexta-feira, abril 29, 2022

sexta-feira, abril 15, 2022

terça-feira, março 29, 2022

sexta-feira, março 25, 2022

segunda-feira, março 21, 2022

Hermenêutica mambembe

Não é fácil esquecer

O que nunca aconteceu

Sua bengala e sua cartola

Fantasmas de um amor

O demônio do quarto correntes

Correntezas invisíveis 

As letras pequenas do contrato

Fluxos românticos o neon teu vinho

Teatro francês desespero 

Azul wifi, jazz e não é amor 

Buraco negro sem paixão

Minha casca atingida não sabe ler 

Juntos na varanda pego tua mão

Corremos escuro mar da puberdade 

Em espelhos meu eu me olha 

Contando historias cama

Assisto os gemidos 

Num cavalo veloz eu corro

Não sei quem é você

Se existe um você 

Os astros mudam máscaras

Danço outras danças - choro de palhaço

A flor da minha pele em pedra

Taxodermia no castelo - dormia 

Você cria meu sonho - eu sei

O que não entendo e já não estou

*

Afonso Jr. Lima 




sábado, março 19, 2022

sexta-feira, março 18, 2022

sábado, março 05, 2022

Um vaso para sua flor

uma força estava ali 

a resposta antes da pergunta

desde pequeno

meu sonho pronto

meus objetivos 

tenha filhos

a família garante o Natal do comércio

um calendário que movimenta o mundo

não podemos dispensar os trabalhos da criança

tudo que precisa um lar

o corpo é

oportunidade de negócios

dois iguais nunca vão do mesmo modo

entrar tão bem no planejamento

é hora de 

moldar a pele pra ter sexo

ter sexo para garantir terreno

um lugar na sociedade 

seguir a moda para atrair 

comida top ou

parceiros que possam consumir

o brilho das pessoas falidas

a educação sexual das massas

o sonho do supermercado

reprodução em série do desejo

o teatro da família 

sexo compras

e o planejamento para

sexo e compras

a linguagem da ordem

vida é sexo

sexo é dinheiro

dinheiro é sexo

tenha filhos

O dia das mães do comércio o 

calendário 

O poeta revoluciona.

*

Afonso Jr. 



Live: Benjamin e o fascismo


 

Live: O Banquete - Platão

 


sexta-feira, fevereiro 11, 2022

A lacrada do monarca

Precisamos refletir sobre o que ocorreu - e talvez não tenhamos nenhuma fórmula mágica explicadora. 

Todos nós temos momentos de raiva, de agressão, de estupidez. Minha verdade pode desconhecer o mundo do outro, e ok. Um não-fascista muda, e a diferença é que tem autocrítica. Não conheço Monark e não posso falar muito do caso particular. Mas o tipo de jovem agressivamente conservador me lembra muito mais o poder que as teorias da conspiração dão aos ignorantes. 

O poder de inverter o jogo e seguir por cima - enquanto vocês, otários, não sabem nada. O tom de desafio é o pior: "desafio o senso comum". Os monarcas brancos da nova onda acabam tendo de novo o poder patriarcal. 

Uma pesquisadora contou uma vez que, com as fake news de 2018, seu irmão, que nunca estudou muito, se tornou o "intelectual da família", aquele "sabe-tudo" que dizia o que ninguém tinha visto. O mesmo com os anti-vacina incontroláveis. É que o tiozão do churrasco começa como tiozão do twitter. 

Segundo o G1:

"O apresentador já foi criticado por declarações consideradas racistas e homofóbicas. Em 2021, Monark foi muito criticado depois de ter questionado no Twitter se 'ter opinião racista é crime". 

Ele defende com vemência, por exemplo, que o "estado tem de que se quebrar em mil estados" com sua armadura de verdades superficiais -  se é bom que tragam pessoas especializadas para o grande público, acaba sendo um reflexo do rebaixamento dos debates que as redes propiciaram. Foi feita alguma pesquisa? Não, é "sem roteiro". É tão complexo definir a verdade para uma pessoa vivendo numa bolha dessas porque ela duvida da autoridade de todos que discordam dela. 

Essa onda de pensamentos reacionários foi se esparramando na rede com liberdade. Segundo Adriana Dias, doutora em Antropologia pela Unicamp:

“Os grupos atuam há bastante tempo com bastante impunidade. Se você não tem uma punição severa a esses grupos, eles vão crescer e se expandir”. (Sul 21 - 11 de fevereiro de 2022)

Qual a quantidade de informações conservadoras necessária para que se chegue a naturalizar o nazismo? Olavo de Carvalho estava na rede desde 1998. O ódio ao diferente está sendo plantado, justificando a injustiça e apagando a história da miséria - Arthur Do Val chama Padre Julio Lancelotti de "cafetão da miséria" (UOL - 10 de setembro 2020). É o marketing da ignorância. Como explorar politicamente o ódio e vender as ideias amargas das grandes fortunas se alguém acredita na igualdade? Uma boa pergunta é que país é esse que permite um cidadão de 30 anos viver nessa bolha. Que permite livros de escolas militares contarem mentiras. Porque a educação pública deveria servir para isso: dinamitar preconceitos familiares, de grupos sectários, de facções, pensamentos antidemocráticos. 

No Brasil, o ódio racial é fundacional: portanto, não espanta tanta amizade com radicais. A vergonha pelo passado nunca ficou bem enraizada. A classe acumuladora quis retirar uma presidenta eleita - mas pensava que era possível uma democracia simulando normalidade. Que respeite alguns direitos, mas exclua quem não lhe agrada. Se vale tudo, vale tudo. 

A eleição de 2018 mostrou uma nação incapaz de pensar o real, também por um sistema de comunicação que não permite pluralidade. Foram as antenas do poder que criaram o "apolítico". Se vê aqui o perigo de dar "os dois lados" da forma que tem sido compreendido: abro mão de um ponto-de-vista e, na realidade, favoreço grupos extremistas. Como comentou o humorista Maurício Meirelles: "Eu nunca tento trazer alguém com um pensamento tão errado". (Metrópolis - 08 de fevereiro de 2022) Uma democracia em estado de monark. 

Ninguém pode ser esclarecido sobre tudo, e exige muito esforço sair do mundo de slogans e clichês que vivemos com os monopólios de informação e a publicidade. Para ser preconceituoso, no Brasil, e falar uma porcaria, é só "seguir o fluxo" do senso comum. O que se soma agora é a ideia de "libertação". O nazista típico foi criado num ambiente de sufocante tradicionalismo com colheradas de ambição. O fascista é incapaz de aprender, ou seja, duvidar. Ele sabe mais sobre o mesmo. O antissemitismo assassino foi cimentado na velha lenda de que a verdade foi escondida, de que o perigo está nas sombras. 

Obviamente essa "liberdade" que odeia ser limitada é o prato principal do feudalismo - a aristocracia rural, os industriais escravocratas e a "burguesia" rentista podem expandir o lucro às custas do trabalhador, da saúde, da vida. O perigo do capitalismo é essa expansão necessária e cega. 

O caso lembra o do jornalista britânico Milo Yiannopoulos - que começou antifeminista e depois disse que "alguém de 13 anos... é sexualmente maduro".

Segundo a BBC:

Ele se descreve como um "libertário cultural" e um "fundamentalista da liberdade de expressão", que se opõe à ideia de justiça social e do politicamente correto. (22 fevereiro 2017)

Outro caso famoso é o de Lars Von Trier - o diretor de cinema - que disse que compreendia e sentia compaixão por Hitler. O "rebelde" foi considerado persona non grata em Cannes.

Já vi stickers de Hitler na balada - claramente o ambiente gamer está sendo apropriado pela extrema-direita, que estuda comunicação. É a tática do "comece pequeno": você atrai por algum preconceito comum ou ressentimento justificável e vai radicalizando no submundo virtual. Assim algumas coisas são "neutras" - se propagam até que o mal seja dominante. Você pega uma parte aparentemente racional ("todo mundo tem direito à expressão") e esconde o contexto ("o nazismo é o fim da liberdade"). 

O que vem junto é o reforço da ideia da diferença essencial: por exemplo, mesmo errando, o cidadão de bem é "boa gente" - como justificou o homem que espancou o filho de um vizinho que estava usando roupas de hip-hop em Punta del Este esta semana. É claro que não é necessário ouvir alguém que claramente nos vai atacar. 

O fascismo é a propaganda da violência. Deixar que contamine é criar ambientes de destruição da comunidade. A democracia é a luta constante contra a opressão, que cresce com a enorme concentração de riqueza. Não podemos supor que as palavras não têm poder. A banalidade do mal está na linguagem que herdamos, nascida de sociedades coloniais, misóginas e racializadas. Não podemos esquecer que o nazista era também um fanático - não apenas alguém que usa ideias para ganhos pessoais - e precisamos ficar alertas contra os "imperativos de consciência" lunáticos como o que o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos alegou ao defender a não vacinação de crianças.

"A esquerda radical tem muito mais espaço que a direita radical" - ele disse. Que esquerda? Alguém viu defenderem extermínio? Ele acha que a esquerda radical é quem? O PCO, "o partido da revolução e do comunismo", tem espaço? Como ele consegue dizer isso num país em que Lula foi banido por anos da TV?

Ele se justificou: "é uma ideia que acontece em outros lugares do mundo — nos Estados Unidos". Lá não se erra? Esse país mudou depois do vexame de Trump. A Alemanha sabe porque foi destruída. 

A defesa de uma causa é uma novidade - e a causa é: "sem limites". No caso do deputado, claramente manipula os jovens para implantar teses da oligarquia - como a de que as universidades públicas favorecem os ricos, ao mesmo tempo que que fala em liberar o partido nazista para "jogar luz" nessas ideias. E vamos moldar consciências para ter o salário oficial. 

Já não é a primeira vez que esses "libertadores" esquecem a história que está por trás de alguns significantes sedutores. Muitas vezes vem junto a negação mesma do Holocausto. No caso do secretário de cultura, claramente esqueceu que o chefe tinha aliados no campo envolvido. 
 
Outra coisa paradoxal da atmosfera do nosso tempo é que o "governo" usa imagens associadas a Israel (também por influência dos evangélicos conservadores) - ao mesmo tempo em que se nutre de mentalidade clone do nazismo - superioridade de poucos, violência justificada, repressão ao contraditório e colonização dos espaços. Estamos num momento em que o Palácio do Planalto é o Gabinete do Ódio.

Assim, Segundo a EFE (14 jun. 2021): 

Brasil subrayó que desde que Bolsonaro asumió, el 1 de enero de 2019, el poder "las relaciones con Israel fueron elevadas a un nuevo nivel de prioridad". Entonces el equipo diplomático del líder ultraderechista brasileño se marcó como principal objetivo acercarse a Estados Unidos e Israel, liderados en la época por Donald Trump y Benjamín Netanyahu, respectivamente.

O palestino de hoje é o judeu de ontem. Evidentemente, falar de governantes radicais não significa falar de uma etnia - por mais que a propaganda oficial tente criminalizar quem critica governos racistas. Pode ser que amanhã o Estado seja dirigido por grupos mais democráticos, e o país em si faz parte da memória afetiva de milhões de pessoas. 

Como sempre, temos o jovem classe média reclamando da "lacração", de como não pode mais ser "livre" - ou seja, racista ou homofóbico. É a crise dos reacionários percebendo que não tem mais o poder do discurso único. Tem muito a ver com os "filhos do condomínio", que nunca são barrados. São os que acham lindo ser "hétero top". Como estaria errada uma sociedade que tem valores que me colocam no topo da "cadeia"?

Mas, como disse alguém, todo mundo que estudou Humanas sabe o que é ser "cancelado": a ideia de que você pode ser autoritário e não ter um pingo de empatia por uma boa causa é muito comum entre pessoas que se sentem progressistas. Ou as mais progressistas - enquanto todos os outros são lixo. A esquerda, claro, é apenas uma multidão de pessoas lutando cada qual contra uma opressão - mas é preciso evitar o silenciamento por pureza intelectual. Isso nada difere do woke verde (o cancelador de uniforme) que acha que o comunismo está nos ameaçando. 

Defender que nazismo é "uma opinião como outras" é uma ignorância assustadora. Porque é fazer uma Távola Redonda na qual só um dos convidados é canibal e está armado. O que assusta não é só que alguém defenda a "liberdade" usando esse signo maldito, mas principalmente que consiga dissociar a palavra de todas as ações criminosas, calculadas, em escala industrial. 

Porque isso fala da irrealidade cotidiana que toda a super-concentração de poder gera - a deformação da realidade que ditaduras planejam como primeira meta. Num mundo de senso comum não há democracia. "Segura teus B.O.s" é a frase famosa de Jojo Todynho; está na hora da sociedade pensar como produziu um país de Monarks. 

Afonso Jr. Lima 

 https://sul21.com.br/noticias/geral/2022/02/neonazismo-grupos-crescem-online-e-acendem-alerta-para-violencia-no-mundo-real/

https://www.bbc.com/portuguese/internacional-39050308

https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2022/02/08/quem-e-monark-antes-de-defender-existencia-de-partido-nazista-apresentador-foi-de-youtuber-a-podcaster.ghtml

https://www.metropoles.com/colunas/leo-dias/saiba-quem-e-monark-e-por-que-ele-esta-sendo-cancelado-na-web

https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2020/09/15/arthur-do-val-padre-julio-lancelotti.htm


sexta-feira, janeiro 21, 2022

sexta-feira, janeiro 14, 2022

sexta-feira, janeiro 07, 2022

Live: New weird, CF, fantasía... (20h)


 

La Cueva

Descreveríamos como un espacio completamente blanco.

- ¿Alguien ahí? ¿Hay alguien ahí?

Antes. Mira la Cueva.

En la madrugada, Nuria camina por la calle.

Nuria, en la barra de un bar, mira acia una chica peliroja que entra.

Con 3 años, juega con una muñeca.

Su padre le grita a su madre en la habitación contigua.

- Son malditos comunistas, ¡por Dios!

El sol se apaga.

En el espacio completamente blanco, Nuria senta en el piso.

Nuria, sentada en un banco, saca una foto de la chica peliroja de tu bolsillo.

El bar.

Nuria e la chica peliroja, en la barra del bar, se besan.

Un bosque de noche; escucha los sonidos de los insectos.

Nuria observa a uno agujero de la tierra. Entra por él.

En el espacio completamente blanco.

- ¿Papa?

Noche, la plaza.

Nuria, en el banco, parece escuchar algo, se levanta y camina.

Del agua surge un animal que puede respirar con el aire.

Está en un espacio en blanco con la chica peliroja, que tiene peinado raro e gafas.

- Son fascistas, ¿entiendes? ¡Tenemos que luchar!

Bosque.

Nuria, sola en el bosque, parece despertarse de un sueño.

*

Afonso Jr. Lima

The mythology of the flesh

(This is a rush translation. Copy may not be in its final form.)

Many of them were interviewed so that the pieces could be picked up. They kept them alive to take their children; then they called the parents and showed the photos of the bodies.

But all survivors of the invasion heard the story of the Black Book.

They told the story of the God Carnivore. He had created the first human and, from the same substance, a female. The First asked for a hierarchy among them, and the woman was banished. The second woman was created from the material of the First, but it seemed repugnant to him to see her flesh taking shape once it was destroyed. The Third emerged after an induced sleep, amplified from the same material. But the truth is that, before they reproduced, the First returned and, taking the form of the Third with the use of magic, managed to get pregnant. The God discovered and removed the ripe fruit from the womb of the First, placing it in the Third. Thus were born the Golden Twins. The First's son wanted to avoid the death of the beings he saw as brothers, he refused to offer offerings, so he was punished with a curse: in delirium, he ate the younger brother's heart and went on to live a second life. Their descendants are the Children of Heaven, whose parents left the earth centuries ago. Somehow, therefore, the followers of God, upon returning, should take the children of human women and then kill them, as God had done with the First. They would renew the species.

Now, invasion historians were reconstructing the mythology of the flesh.

*

Afonso Jr Lima

quinta-feira, janeiro 06, 2022

A mitologia da carne

Muitos deles foram entrevistados para que se pudesse juntar os pedaços. Eles lhes mantiveram vivas para tirar seus filhos; depois chamavam os pais e mostravam as fotos dos corpos. 

Mas  todos os sobreviventes da invasão ouviram a história do Livro Negro.

Contavam a história do Deus Carnívoro. Ele havia criado o primeiro humano e, da mesma substância, uma fêmea. O Primeiro pediu que houvesse hierarquia entre eles, e a mulher foi desterrada. A segunda mulher foi criada do material do Primeiro, mas lhe pareceu repugnante ver como sua carne tomava forma, assim que foi destruída. A Terceira surgiu depois de um sono induzido, ampliada da mesma matéria. Mas a verdade é que, antes que reproduzissem, a Primeira retornou e, tomando a forma da Terceira com o uso de magia, conseguiu engravidar. O Deus descobriu e retirou o fruto já maduro do ventre da Primeira, colocando-o na Terceira. Assim nasceram os Gêmeos de Ouro. O filho da Primeira queria evitar a morte dos seres que via como irmãos, negou-se a oferecer oferendas, assim que foi punido com uma maldição: em delírio, comeu o coração do irmão mais jovem e passou a viver uma segunda vida. Seus descentes são os Filhos do Céu, cujos pais abandonaram a Terra há séculos. De alguma forma, por isso, os seguidores do Deus, ao voltar, deveriam tirar os filhos das mulheres humanas e depois matá-las, como Deus fizera com a Primeira. Eles renovariam a espécie.  

Agora, os historiadores da invasão reconstruíam a mitologia da carne. 

*

Afonso Jr Lima 



sábado, janeiro 01, 2022

A casa torta

Quando a noite chegava no jardim, se acendiam as tochas. Dragões, sereias, Homens-Montanha. Dentro da vagina de pedra, as paredes luziam em rochas e conchas. O Inferno.  

O sacerdote regava a Árvore do Bem e depois a Árvore do Mal e mostrava um galho que representava a madeira adorada pela Rainha, Árvore da Salvação, encontrada depois pela mãe de Imperador. 

Em meio aos cânticos e taças, observam a água da fonte.

- Eles estão se manifestando com tochas. Acreditam que houve um roubo. Estão invadindo as salas oficiais, com espadas. 

Os príncipes dourados haviam difundido sua fé. Os livros censurados, a fala do alto das sacadas - uma multidão dócil. Mas jovens marchavam com punhais, cada casa recebeu a visita de doutrinadores pregando a luta contra o mal. 

Assassinos deviam entrar nas casas dos traidores. Tentar destruir os palácios com ajuda de seus guardas. 

O sacerdote grita, as tochas se apagam, os cães ladram, todos saem para fora da casa torta. 

A lua cheia ilumina os monstros. O portal se abriu. 

*

Afonso Jr. Lima






sexta-feira, dezembro 31, 2021

sexta-feira, dezembro 17, 2021

quinta-feira, dezembro 16, 2021

As Três Irmãs/ O jardim das cerejeiras - algumas impressões

Em curso com Elena Vassina, releio as peças.

As Três Irmãs é a obra sobre a passagem do tempo. Ou ainda a obra mais sobre a passagem do tempo.

Sua cor é o marrom da madeira das casas, o vermelho da lareira, a luz do crepúsculo. 

A peça é muito densa, paira sobre ela um determinismo talvez ligado à autocracia, ou à situação a mulher nesse ambiente, talvez ligado ao determinismo “biológico” num mundo onde a ciência era ainda pouco desenvolvida, uma sombra ameaçava constantemente a vida.

"Em primeiro lugar, estou enferno. E agora sei que muito enfermo. Mas não posso fazer nada", escreve Anton Tchekhov em carta. "É quase um ancião, tem as feições contraídas, parece doente", falou com despeito Lydia Avilova nas bodas do autor (Henri Troyat). 

Se diz que Schopenhauer era leitura de Tolstoi, que - pouco antes de escrever Ana Kariênina - sentia que sua vida "estava paralisada". Depois, sua cura será a fé e a obra social. (Mas o Círculo Chaikovski formava grupos de operários, e as brigadas vermelhas abalavam o governo de Alexandre II com "incêndios, roubos e assassinatos" - segundo Michael Knox Beran).

Aqui não apenas temos personagens que "perdem-se em reflexões", segundo o professor, marido de Macha - uns (Irina) são mais leves que outros (Macha). (Outros são de tal forma ridículos que não ajudam a amenizar o clima - Solionii e Tchebutikin são instrumentos desafinados).

As inovações de Tchekhov - como os elementos de atmosfera que cada personagem emite no seu leitmotiv - estão aqui muito claras. Esperando Moscou. No teatro pós-dramático, o tema do leitmotiv é muito comum, porque une os fragmentos na ausência de um enredo.

Não são diálogos, são blocos de sonhos. Parece que a fala se desencaixa do corpo - poder-se-ia encenar uma espécie de dança, cada personagem com seu movimento. Isso porque o corpo não está em ação, muito pouco interage com os outros, mas é suporte para a exploração de uma paisagem interior, de uma estrutura. Diz Irina: "Se não vou para Moscou... O que posso fazer?" Paradoxalmente, é ela que parece despertar do sonho muitas vezes os personagens para avançar a história... "Fico sozinha, sem nada para fazer, odeio o meu quarto".

Um tema pouco explorado é o do soldado frustrado com sua vida de pouca ação. Tempo perdido. Jogo como vício militar.

Tolstoi trabalha os militares heroicos; aqui os militares e sua família estão decadentes, vemos o machismo ridículo ("Eu mesmo lhe dou um tiro").

É difícil percebermos a comédia porque o autor tem muita empatia, nos identificamos com o sofrimento. É como se Tchekhov quisesse rir deles, mas acabasse amando-os.

Se, na Gaivota, fala-se do egocentrismo da intelligentsia - da ingenuidade da menina que se deixa seduzir pelo ouro falso, da vaidade - aqui é um ambiente "onde não se produz nada" - "historia idiota" - como o duelo.

O casal impossível Macha - Verchinin nos atrai desde o começo por representar um bom senso e delicadeza muito humanos. Por um lado, está o Tchekhov como analista implacável - o método científico, no mundo pós-romântico que pergunta como as coisas funcionam; por outro, o poeta, solidário com o sofrimento e a injustiça, o professor que percebe o moldar aristocrático da realidade para que não haja igualdade.

Se olhamos com a distância necessária, vemos o caso Macha - Verchinin  como reflexo da luxúria militar, homens solitários, muitos dos quais zombam do "filosofar" como o faz Solionii - em zonas militares e guerras, a situação da mulher é rebaixada, surgem prostíbulos. (As irmãs trabalham, mas é o homem que pode levar a família a reencontrar seu antigo status na sociedade).

Verchinin é o "major apaixonado"; o encanto da "nobreza militar" (pessoas "finas e educadas" para Macha) e o encanto que os letrados têm pra quebrar a solidão, frustração da zona militar (ouvir suas "lamúrias") - mas tudo dando em relação estéril - o ruído do fogão não nos deixa crer no amor sublime que parece existir.

O Jardim das Cerejeiras é a peça onde mais "nada acontece" - o que temos é um deslumbrante lirismo e o foco nas relações humanas, ou em cada universo pessoal. Sua cor é o branco das flores. Cada personagem tem sua filosofia de vida, nos mergulha na sua linguagem. A romântica aristocracia tinha um amor ao belo - o que falta à burguesia sem poesia - mas também era tola a ponto de "viajar à Paris" com o dinheiro enviado para comprar a casa. Cada um tem sua razão - não há forças para o embate dramático. 

Aqui, tudo é agitação. Temos um comerciante, jovens senhoritas, um contador, um criado malandro, um velho criado, um estudante, proprietários... Parece que Holbein usou uma técnica de "câmera clara" no seu quadro "Os Embaixadores", que era a colage de múltiplos reflexos espelhados para formar um todo. Seria uma tapeçaria de fragmentos da luz. Todos estão entrando e saindo, a comédia é mais visível. (Mesmo assim, muitas vezes prometem ir e nunca vão). Todos têm seu aspecto de ridículo.

Mas o século XX não parece poder ver aqui muito humor. "Quero viver ou dar um tiro na cabeça?" - diz Epikhodov. O peso do real ("Em agosto, a propriedade será leiloada") talvez soe, para quem já viu Hiroshima, muito além de uma "punição pelo riso".

Tchekhov, o mestre do amor universal, descreve em suas cartas com certa frieza irônica seus personagens: Irina é "uma criança, alegre do início ao fim"; Vária é "uma mulher limitada, de roupa preta, que parece uma freira chorona, etc..." 

Mas me parece que a forma correta de interpretá-las é justamente buscar esse outro lado - Liubov não como "criatura de moral duvidosa", que dá um dinheiro que não tem (o que aparece por si só se não for enfatizado), mas como uma pessoa comum, perdendo sua juventude, tentando lidar com sua perda, negando-se a aceitar o novo mundo "vulgar". A grande dama triste nos emociona por não aceitar cortar suas cerejeiras... Ela acolhe o "camponesinho" que chora. Tão humana e capaz de dizer: "E agora, como rareia seu cabelo..."

Há uma fala do estudante Trofimov que parece um ponto central, ainda que tudo em Tchekhov seja relativo, e nunca se possa encontrar a "moral" definitiva: aqui, ele diz, todos "filosofam e discursam sobre temas elevados" enquanto "os trabalhadores se alimentam como animais". Mesmo relativizado pelo ponto de vista de um estudante que quer “mudar o mundo”, a crítica é contundente. É perigoso amar a arte mais que a vida. Tchekhov vivia a época em que a colônia penal servia para explorar as minas de carvão - denunciou como o Estado servia a interesses privados. Enquanto a mística do Império falava no Pai de Todos, imagem de Deus. 

A peça é plena de luz e graça - névoa, flores e álamos. Uma orquestra inteira que faz poesia. A nobreza - mesmo com a hierarquia fixa da monarquia - parece ter uma diversidade de valores: hoje, a riqueza demonstra achar que a cultura atrapalha, é inútil. A ameaça do progresso, que pode ser pior; a cidade contemporânea é demolição e reconstrução - o ruído é nosso novo cantar de pássaros; o jardim das cerejeiras vendido num leilão é a verdadeira tragédia. Ainda mais para nós, que pedimos um pouco de beleza, enquanto a ambição semeia milhões de mortos.  

Acabamos amando cada um desses seres imperfeitos como amamos a natureza - também ela plena de luz e sombra. Obra-jardim, nos coloca num estado poético, como se víssemos o nascer do sol. “Oh meu belo jardim... Minha vida... minha juventude... Adeus. Adeus!”

Afonso Jr. Lima 


domingo, dezembro 12, 2021

VIDA

Rita Hayworth estava estreando seu novo filme. Rubens lançava sua novo game.  

Era quase Dia da Edição, quando você podia rever seu ano e ficar com os melhores momentos. Nessa festa, na qual cada casa tinha sua árvore de luz, era realizada uma cerimônia criando um avatar para um "real" capturado recentemente. O discurso do Presidente do Conselho contava do mundo horrível antes da duplicação.

As pessoas tinham no máximo 17 anos. Quando chegavam aos 18, O Ano de Despedida, a memória era atualizada, ficando apenas 30% do registro. Era o necessário para programar, vender e comprar. Pelo eixo dos olhos duplicados se sabia o desejo. O sequenciamento também era obrigatório para viver em VIDA. Foi o fim das cirurgias plásticas. 

O projeto VIDA começou como uma forma de evitar as moldagens negativas de ambientes corruptos. 
Dentro de VIDA, tudo era decidido pelo Conselho Técnico.

Era possível evitar cruzar com pessoas cujo perfil não era desejado. Alguns encontros eram evitados para que não surgissem filhos imperfeitos. Além dos militares que aprisionavam "reais", grupos fascistas os perseguiam e executavam.

O material genético do organismo estava recebendo uma informação nova: formou-se na Praça Central, de onde era transmitida a cerimônia para milhões de casas duplicadas, um rosto monstruoso, totalmente imprevisto e não selecionado. 

Imagens de um grupo de "reais" com o rosto borrado.
- Aquele seu amigo não voltou mais para o escritório virtual de VIDA? Sua ex-mulher desapareceu? Você nunca saberá porque eles foram apagados no mundo UM. Você está desconectado. O que eles estão fazendo é desaparecer com os DNAs que não se adaptam às suas expectativas. A meta é a perfeição. 

O monstro falou sobre o projeto de melhoria da humanidade pela empresa. 
Tentaram criar uma Atualização - houve uma queda do organismo. As memórias de décadas foram recuperadas. Gritos na cidade. Milhões de pessoas desorientadas recebendo luz do sol no rosto. 

*
Afonso Jr. Lima 




Live: Dramaturgas no Uruguai


 

domingo, dezembro 05, 2021

hoje você não

eu também desapareço

estava você 

e não

vieram os soldados

vieram as bombas

meu coração

tinha paredes de metal

que você fez

frágil fortaleza 

o mundo não é do grito

é das manhãs, que persistem

Afonso Jr. 

faça você verde

bicho tinha o rio

bebia o rio

água mãe 

bicho sabido subiu

ponte de vidro

pro céu fumaça

queimou rio

foice na face

bebe sujo bicho

lixo no fluxo

bicho contra bicho

bicho exportação

fome de bicho

roer o próprio osso

rio pesado

veneno na veia

laços de sangue

cantiga do rio de dentro

rio na veia

laço no próprio pescoço

água que corre

mata a sede

bicho mata bicho 

na corrente

ao vivo se acha o bicho

caule pouco vivo sozinho

se perde estéril estrada

água se vende

sempre tem outro bicho

tem pé memória 

contra a corrente luta a história 

alvorada na nova cidade?

outro monstro?

Afonso Jr 

sábado, dezembro 04, 2021

sexta-feira, novembro 26, 2021

Live: A tragédia grega


 

Godzi presidente

Godzi nasceu da radiação. 
A campanha falava no raio capaz de eliminar o mal. Godzi receberia um chip capaz de controlar seus instintos. Deus estaria do lado do monstro, afirmavam os teólogos. 

Ele foi colocado para falar na tribuna, ele recitou frases em latim. Eu sempre disse que ele não poderia ser presidente.

Havia muita gente nostálgica - ele representava um tempo onde tudo parecia ser mais fácil. 
Era uma velha história. Nos anos 1970, um Partido resgatou a ideia de Ordem e Pureza do início do século XX. Grupos extremistas entraram nas universidades e destruíram bibliotecas. 

Existiria um hálito radioativo capaz de purificar, limpar a sociedade. Godzi era capaz de se regenerar com facilidade. Mas na presidência, o hálito apenas serviu para incendiar florestas inteiras. Morreram muitos animais com ventos tóxicos - revoltando ativistas na Noruega. Veneno nas águas. 

Os supremacistas brancos mestiços eram seus maiores apoiadores. Performances de queima de bruxas com roupas da Cruzada. Godzi em viagens internacionais falando que precisamos fazer nosso país ser os Estados Unidos de novo. 

Em Godzi, o chip falhou. Tentaram colocar uma Mulher Medieval na vice-presidência. Alguns militares, experimentos do Império em época recente, viam uma grande conspiração global, tinham medo do comunismo, mas também de tudo que não havia na ditadura - da ecologia, das mulheres no poder, do Supremo Tribunal. O Exército ficou preocupado com a economia. O fim da escola pública civil ficou prejudicado. O caos na natureza desencadeou mortes aos milhares. 

O monstro tinha dor de cabeça. Tomava remédios. Godzi estava fazendo campanha para mais quatro anos. A resistência estava em cada esquina. 

*
Afonso Lima 


quarta-feira, novembro 24, 2021

Como fazer um Tchekhov

Como todo grande escritor Tchekhov é sempre atual. Portanto, depende do presente o "Tchekhov correto", pois o que causa máximo efeito no mundo de Stanislavski não será o mesmo no nosso mundo. Ao mesmo tempo, como médico, o escritor é o gênio da objetividade, deixa as respostas ao processo longo do leitor. 

Então, dialogando com o filme A Gaivota, dirigido por Michael Mayer, de 2018, gostaria de falar do Tchekhov "correto" - ou que me parece interessante. As primeiras frases da peça são já tão profundas que não poderiam ser de modo algum psicologizadas, porque não há como dizer "Estou de luto pela minha vida" de forma natural. (Professora Elena Vássina nos conta que é uma citação de Guy de Maupassant - de suas anotações em "Sobre a Água").

Então, parece-me que o caminho da expressão é o pior possível. É preciso aceitar a incomunicabilidade essencial desses personagens, personagens tão opacos e mutantes, pois é isso que dará margem à interpretação infinita. É preciso esquecer a vontade e os sentimentos. 

Essa é a peça de um contista; ela poderia ser apenas "monólogos da lua", descrições de paisagens do imaginário. Não precisa dessa ficção que se convencionou chamar "eu" (o hábito que Beckett vê desmontado por Proust). 

O filme traz um pouco de lágrimas. A lágrima é o drama, é conflito. É uma tentativa de prender Tchekhov no realismo inglês. Você chora quando sabe quem é, quando pensa que sofreu uma injustiça, ou quer alguém que se foi. Eles não sabem quem são. (Nina: "Mereço que me matem... Sou uma gaivota... Não, não é isto.") Ele não irá pintar uma rosa, mas perguntar-se o que é uma rosa - nesse sentido é modernista. Tal é o desafio de não entender, tão necessário. 

Para nós, é muito difícil imaginar o que significa a falta completa de esperança (talvez porque nosso sistema venda a esperança em cada frasco de desodorante). A sociedade de Tchekhov está parada, nada acontece, nada pode acontecer, volta sempre ao mesmo ponto (os servos estão livres e segue esse terror). A intelligentsia como um fruto (aparentemente) inútil na árvore do totalitarismo. Seus personagens não vão a lugar nenhum, a estrutura muda para não mudar. Nenhuma ação é possível. (É que o tempo da arte é muito longo). São peças sobre a frustração e o egoísmo.

Mas também sobre arte. Sobre o que deve ser o teatro. Até mesmo na Sibéria esses personagens assistem teatro (um teatro provavelmente feito de gestos herdados e poses exteriores). As projeções do autor - como dois escritores, como duas atrizes, como médico, etc. - são universos aos quais se deve descobrir, são objetos colocados para nossa análise científica. Nesse ponto lembra Rumo à Damasco. É o puro abstrato (como viu Meyerhold) e a máscara. 

Há, portanto, duas formas que parecem simplificar esses universos: uma é a exposição de sua superfície, outra é o aprofundamento dramático. 

Já vi atrizes gritando como se pudessem entregar uma mulher vaidosa expondo sua vaidade. Parece-me que é justamento o oposto. A face oculta da lua fará com que se veja o todo. É preciso ver Treplev não apenas como um garoto mimado e romântico, mas como (a máscara de) um jovem maduro e seco, em quem o público deve se ver. Da mesma forma, Trigorin é menos interessante como um apaixonado tolo, do que como um vaidoso incapaz de ver os outros. Arkadina é pior como mãe e atriz atormentada do que como A Arte, brilhante e fria, capaz de viver de e para si mesma.

A superfície do mar é agitada, mas o fundo se move devagar. Porque esses personagens não são apenas indivíduos que têm sentimentos - a máscara - mas são sentimentos. E como se interpreta um sentimento? A única forma de interpretar um sentimento é "executando-o", como a única forma de interpretar uma melodia o é; é preciso assumir que são filhos do darwinismo, perderam todas as referências que a tradição lhes dera, interpretá-los como se fossem mesmo maquinas.

A outra forma é dar um sentido à tudo. É claro que, dadas as expectativas que o cinema cria, de que haja "pessoas reais", de que haja conflitos como os nossos..., qualquer filme vai sofrer muito para poder nos deixar no estado de suspensão que o texto propõe. Não são textos que nos dizem que a vida não vale a pena - já que o autor parecia ter uma vida cheia de entretenimentos e amizades - mas que perguntam sempre pelo sentido, pelo sentido depois de tantas descobertas, e criam um espaço no tempo para que nós tenhamos esse vácuo. 

O mundo é como esse lago, inconstante e fugaz (a palavra "lago" aparece vinte vezes no texto). Dostoiévski vai mudar nossa vida, mas também nos deixar num estado de tensão talvez incompatível com a dura banalidade do cotidiano. Dostoiévski percebeu Auschwitz, mas Tchekhov percebeu a fila de banco. Essa é a comédia. Tchekhov está mais próximo de Beckett - sua resposta é a ironia. 

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Afonso Junior