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segunda-feira, maio 15, 2006

Mithologias do Clã, Falus e Stercus no lugar certo

Dizem de uma peça que rolou aí que foi “duas horas de fedor, gritos e fumaça”. As pessoas saíram com nojo, mesmo sendo de graça. “Teatro tem que incomodar”, ou não? Sei lá: queremos ousadia, de toda arte, porque, quem sabe, nos lembra que a mente pode ser mais que o que vemos, mas também queremos que nos explique o mundo, que nos ofereça linhas de percepção de tudo. Queremos que alguém nos mostre: olhe, há coisas não vistas. Então: nada de falação canastrona, no mundo giratório e violento dos mega-impérios de mídia, das legiões de mortos de fome. Mas também nada de chatice clichê, mijo, ruído e falas sem nexo. A forma, claro, exige uma transgressão, mas precisa ter mensagem. Mesmo sem palavras.

Então essa peça “Mithologias do Clã” (na verdade, a peça roda desde 1999, tendo se apresentado já em Londres e várias cidades do Brasil, mas o grupo tem 15 anos) mostra outro momento ótimo do teatro gaúcho. Sim, assim como “Kassandra em Progress etc. etc.”, que mostra um momento de aproveitamento máximo da linguagem da Terreira, com toda rebeldia, mas com beleza e plasticidade (depois do “tédio hiper-filosófico com momentos bons” de Hamlet Máquina).
Senão, vejamos. Será um crime querermos sair do teatro com boas sensações? Já vi amigos meus dizendo: “Não vou mais a teatro, porque só querem gritar e ficar pelados! Que saco!” Num mundo tão louco, um pouco de ordem não faz mal a ninguém: acabou o barato da ditadura, onde as pessoas tinham sobrevivência e não tinham voz; agora é o oposto.

Neste espetáculo, ao meu ver, Falus e Stercus mostra aquilo que se espera de um drama contemporâneo: o ritualístico, o erótico, o sado, o caos, a morte, o corporal. E, melhor, não se perde em uma torrente de palavras que não ajudaram em nada o “In Surto”. A técnica também está super apurada: estão presentes todo tempo, a dureza do olhar. Uma cena em que todo o grupo aparece junto, roupas de couro, contra um fundo vermelho, é como um clássico da loucura. O fogo, que também, como todo incremento, pode ser pura encheção de lingüiça, aparece nos momentos certos e de forma a manter o clima.

Como somos todos filhos da Terreira, lá estão, como fios entremeados, aquilo que eles nos ensinaram: usar o espaço, ficar pelado, mover o público, etc.; e também todos os aparelhos que transformaram o Falus em um grupo tão quente. Fica a vontade de mostrar que ainda é possível usar palavras, com a criação de toda a escola do corpo, distorcendo, amedrontando, cortando os textos. Mas se o teatro é palavra, dança ou qualquer outra coisa, não interessa mais.
Há idéia.

Neste espetáculo som, movimentos, cenário, tudo cria tensão, mas não se perde em exageros. Nem o tempo não estoura a capacidade de vermos acrobacias. Todas elas tem sentido, fogo e confronto. Até a mais que manjada utilização de “público no palco” ficou dentro do possível e razoável. Outro dos comentários que ouvi sobre o grupo, once, foi de uma menina que viu o namorado da amiga ser pelado no Teatro São Pedro. “Depois querem que a gente vá ao teatro disse ela”. Ao mesmo tempo, se bem usado, isso gera a impressão que toda peça deve ter: estou vivo, eles estão vivos, não sei o que pode ser.

Dizem que o teatro gaúcho está passando fome: os diretores famosos não conseguem pagar aluguel, os atores famosos não conseguem tomar ônibus. Talvez seja um pouco de falta de “ir a onde o público está”. Uma vez coloquei 600 pessoas na PUC com uma peça a R$ 3,00; onde você vê em uma Universidade um folder sobre os eventos? A galera toma cerveja de 2 pila, é a real. Outro lado, claro,é a velha privatização do mundo. Teatro é coisa de imposto de marketing, livre pensamento das empresas. Dizem que o RS isentou as maiores empresas de imposto, no valor de R$ 1 bilhão... Arte, pra que? Quem quer paga R$ paus pra ver Marisa Monte e Caetano, os rebeldes...

De qualquer forma é ótimo ver que grupos com mais de 15 anos (alguns bem mais!) tem tamanha eletricidade e capacidade de reinvenção.
Afonso Junior Ferreira de Lima

4 comentários:

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