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sexta-feira, junho 09, 2006

O que podemos aprender dos vitorianos?
Lendo o livro de Thackeray sobre esnobes, fica claro que por trás de tudo está uma idéia de igualdade. Quando clero, universitários e lordes se sentem mais importantes por serem quem são, são ridículos. Pelo menos para os “cidadãos” da Europa, no período do liberalismo, clímax do secularismo, todos os cidadãos deveriam ser iguais.

É triste pensar que, depois de mais de vinte anos de pseudo-liberalismo corporativo, o esnobe volta a ser um personagem central. Toda a publicidade funciona criando a idéia de que há uma elite – pessoas que se vestem bem, sabem mais e são mais bonitas. Já vi inúmeras propagandas que, claramente dizem “para poucos”, “não é para qualquer um”, “exclusivo”, “alguns vão ter, outros não”.

No seu belo livro “A rebelião das elites”, Christopher Lasch fala dessa nova “ruptura” entre pobres e ricos: os 20% do topo, as classes privilegiadas, se tornaram completamente independentes tanto das cidades industriais decadentes como dos serviços públicos. Cria-se assim uma “aristocracia do talento”; as pessoas que, seguindo o lema anti-estatal de J.F. Kennedy- “não pergunte o que seu país possa fazer com você, mas o que você pode fazer pelo seu país”, não tem instrução ou talento especial, vão sofrer calados ou dar origem ao PCC e ao tráfico do Rio.

É esse incentivo ao esnobismo que se nota por boa parte dos programas. É quase cômico se tentarmos achar esnobes nos dias de hoje: quem está em Caras mostrando o drink a beira do mar; nossa linda Débora Seco falando do lugar que mais gosta em Nova York; conheço filhos de senhoras faxineiras que são esnobes contando para seus colegas que foram ao cinema e comeram pipoca; universitários iletrados e esnobes que falam a toda hora “você leu isso?”; tinha mesmo uma colega que a cada duas palavras falava da superioridade econômica do seu marido e usava a palavra “Paris”. (Anti-esnobes são, por exemplo, Cafu e Falcão. O primeiro, assim como Ronaldinho Gaúcho, estão na galeria dos célebres conscientes.

O segundo, além do papo simpático, simplesmente deu um quarto de hotel a Mario Quintana, quando foi preciso. Ronaldo Fenômeno, oelo contrário, segue dando mostras de estrelismo; já disse que não é negro, depois traiu, ao que tudo indica, sua noiva três meses depois do casamento, e agora, respondendo ao presidente Lula que, emvideo-conferencia teve a infeliz idéia de comentar sobre seu peso, pareceu agredir desproporcionalmente um cargo oficial; o presidente disse que tem se encontrado várias vezes com Ronaldo e sabe que ele está magro, mas lê sempre na imprensa que ele está gordo; afinal, perguntou ao treinador, ele está magro ou gordo?
Ronaldo simplesmente disse que “ele me chamou de gordo, mas muita gente diz que ele bebe pra caramba”, mostrando claramente que se considera acima da figura do próprio presidente).
Foi nisso que deu a revolta secular contra o idealismo cristão- que motivou o ateísmo humanista, de solidariedade pela precariedade, de Russel e tantos outros; parece que, sem alma, o homem não tem um valor intrínseco.

Se a América ofereceu uma fuga das sufocantes classes feudais européias, ela gera a insegurança e a complexa ansiedade para se sobressair como elite, que o jornalista Neal Gabler comenta como típica da sociedade norte-americana; o importante passa a ser a aparência.
Então, o que podemos aprender dos vitorianos? Depois de confundi-los com carolas moralistas, homens rígidos e mulheres submissas, teremos de dar o braço a torcer; de igualdade, parece que eles entendiam mais.

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