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sexta-feira, junho 09, 2006

“Apague a luz”. Essa frase banal dita no meio do filme "Caché” (2005. 117 mins. Direção: Michael Haneke)

me pareceu sintomática de uma série de coisas. Mas antes, um a parte que faz parte.
Não acho nem um pouco engraçado quando a empregada da casa em Belíssima é destratada com o bordão “Rezina da Glória, cuzina”, ou o personagem jamanta é tratado como cachorro, por ser feio e pobre.

O filme Cachê, voltando a ele, me diz exatamente isso: primeiro, a sociedade burguesa, mesmo depois da demolição dos valores religiosos, continua firme: agora significa trabalhar, cada vez mais, e não ter tempo. Depois, é melhor esquecer que não demos a “eles” a oportunidade de ter instrução decente.

A primeira cena do filme é uma longuíssima visão da frente de uma casa.
Me lembro sempre (já devo ter dito isso) que quando Bijork e Juliette binoche foram de ganso e melindrosa na festa do Oscar, as revistas simplesmente acharam ridículo e fora do tom. E como também sempre digo, isso representa bem a visão da arte na Europa como “vanguarda”, e a arte nos EUA, pelo menos no main-stream, como “gozo” no sentido Lacaniano, alívio sem evolução.
Outra cena boa do filme é quando, após uma tragédia, ficamos assistindo o protagonista sentado, sem nada ocorrer.

Isso significou pra mim: bem, precisamos de um tempo para REFLETIR.
(esse Caps Lock saiu sozinho, mas é interessante mantê-lo).

“Apague a luz” pode significar: que sobra desse eu ocupado se fico entre a atenção e a espera?
Enfim, sem querer chover no molhado falsamente cult de que tudo que é francês é bom, ou obrigatório de ver e gostar, o filme trabalha naquela vibração sutil que deixa espaço para as coisas serem descobertas, abertas; é um suspense que se cria com detalhes, com uma tensão suave: um “medo” real, porque nada está pronto; “que vai acontecer agora” não significa, ele vai explodir ou levar um tiro (a morte, por sinal, é a síntese do “pode ser assim”) mas “pode ocorrer algo, pode mesmo”.

Bela forma de falar do abismo social entre “franceses” e “argelinos” na sociedade; e daquilo que sempre pode voltar, porque foi esquecido.

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