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segunda-feira, agosto 21, 2006

Saudades de Mitterand

Le dernier Mitterand, Georges-Marc Benamou, 1997

Deixei passar um tempo para escrever essa crônica. Isso porque gostei do filme, o personagem de Mit realmente é forte, inteligente e passa por maus bocados. Há um roteiro bem construído, o jornalista- biógrafo questiona, o protagonista sofre...E porque a moça da bilheteria disse: “Adorei, um dos melhores filmes que já vi...”

Quando se vê um filme corajoso que á capaz de debater política num mundo de “besteirol”, que trata de temas contemporâneos e além do mais de uma biografia e de uma figura tão insondável como Mit, fica até impossível não se gostar. Entretanto...

Mas existe algo que coloca um filme além da discussão, e isso é a vida em imagens, a vida que transcende o mero argumentar. A articulação do sujeito humano tem uma carga maior que a mera defesa de qualquer política, porque defende a beleza do único além deste ou daquele contexto, partido, problema. E, no entanto, essa identificação se dá não apenas quando se pode ver algo relevante, mas quando a presença é marcada pelo particular e enraizada no “mundo da vida”. Quando consegue-se passar de modo claro o efeito do contexto sobre o personagem, e vice-versa, quando “pensamos junto” e compreendemos como possível a síntese que a arte faz da vida. Saí do cinema com a mesma pergunta que entrei: quem foi Mit?

Antes de tudo, busquei na Internet algo sobre o presidente. Nada se sabe. Todos repetem que foi um dos mais longos da França, o máximo que se diz é que brigou com os socialistas, que em algum momento chegou perto da direita. É como se os anos 80 fosse um período de congelamento, um “esperem para ver depois...”

Mit se defende, da acusação de nazismo, profetiza que depois dele será a globalização implacável. Por outro lado, o filme aponta, os anos 80 parecem agora o mundo das fadas. A França tem saudade de Mit.

O filme já parte como se o contexto francês fosse evidente. O começo, complexo, pode até ter como desculpa que o diretor não quer fazer concessões, pretende nos inquietar sobre quem afinal foi isso ou aquilo no distante 1942. Mas o mistério permanece... Tirando uma cena rápida com um personagem secundário, o pai da namorada do co-protagonista, pouco sabemos do contexto “atual”.

Não se lança nenhuma luz sobre o agir político de Mit a não ser em seu passado anti-(ou quase hesitante) –Vichy.
Há um roteiro, um belo ator, uma história de vida, e simpatizamos com o próprio personagem central.
Mas o filme não consegue, no fundo, nos mergulhar num drama humano, nos prender a uma figura de carne e osso. Algumas cenas da doença podem ser duras e patéticas. Mit acaba sendo um mistério tão insondável como o branco retrô do cenário, nem belo, nem feio, imponente, vazio.

Lênin em Que Fazer? coloca: “Se a democracia significa, no fundo, a supressão da dominação de classe, por que um ministro socialista não seduziria o mundo burguês com discursos sobre a colaboração das classes”?

As perguntas fundamentais ainda ficam no ar: era M. um direitista, ou um homem acossado pela direita?

ajr

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