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segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Gente, o que aconteceu com a novela brasileira?
'Páginas da Vida' foi ainda mais inacreditável do que 'América'...
Eu confeso que quis acreditar, mesmo incomodado pelo excesso de "burguesia" da trama, mas vá lá, ver o Rio em Photoshop é bonito e saber das fofocas das pessoas é legal...

Eu gosto e não gosto do estilo Manoel Carlos, a quem muito respeito: o que gosto é a cronicidade (que às vezes descamba para a tragédia da gritaria sem explicação), ele relata o que vê entre amigos, parentes, etc; o que não gosto são os diálogos de supermercado (me dá duas caixas de leite) e lições de moral (temos de ajudar os pobres e não ter preconceito), além, é claro, do "leblonismo" ao qual me referi...

Algumas pessoas comentaram que o autor estava com problema na coluna, parava a todo instante para se alongar... Isso explicaria a criança que só serve para ficar o tempo todo odiando negros...
Pode ser: a verdade é que nesta novela somente as imagens do Rio convenceram... provavelmente tudo já foi dito por Carina Martins, mas há que se falar dos personagens...

A Sandra de Danielle Winits (mostrando que pode... atuar) foi um caso para Aristóteles descobrir: o primeiro personagem que chega em um lugar e começa e dizer coisas como "vocês não merecem minha presença, devia ter nascido na casa do patrão, eu tenho um marido casado e vou roubá-lo". Um personagem a procura de um autor, portanto... Danielle Winits está de parabéns, pois interpretou o própria falta de lógica, 2+2 são 30.

Lília Cabral se tornou um nome na história da dramaturgia televisiva, mas Ana Paula Arósio foi também liberta dos modelos de linda inocente que lhe prendiam. Pude acreditar nela, pela primeira vez. Pena simplesmente seu personagem não existir além de uma modernice que acabava boba.

Natália do Vale, maravilhosa, teve mais sorte, fazendo a dondoca violenta e mesquinha. Foi ela que mostrou o que é interpretar, ao lado de regina duarte, sim, com minúsculas coitada, esta, coitada, presa nos tais diálogos de café da manhã, coitada. E revira o olho, e mexe o pescoço, ai, estou apaixonada...

Caco Ciocler e Vivianne Pasmanter tiveram de levar um enredo para dois dias durante nove meses... Um problema geral do texto...
Aconteceu que os personagens perderam qualquer lógica, eu te amo mas não te quero... Ana Furtado, com sua personagem quero quero quero um cara que me odeia conseguiu algumas vezes igualar o personagem Sandra no quisito sou maluca-luca-luca e azar o teu. Freud, urgente!
O namoro do aviador e da artista plástica ganhou o prêmio "passeando pela praia e falando que linda lua". Inacreditável. Sônia Braga devia fazer aula de fonoaudiologia, leva uma hora para dizer eu te amo, e acaba com qualquer cena...

A cronicidade virou inutilidade, o enredo virou só motivo, os personagens simples figurantes de sentimentos rabiscados, mais de 100... Fica difícil tentar uma pós-escola de Frankfurdt tentando acreditar em cultura dos elétrons.

O contraste com "Vidas Opostas" é chocante: texto que mostra o contato com a realidade, subversão mostrando policiais envolvidos no crime, o lado do povo, etc., mesmo que eu ache a violência fácil uma isca fácil pra um suposto ibope que não veio...

Disse a musa da TV: "a opção narrativa é tão pobre, paupérrima mesmo, que mina as duas pretensões do folhetim – a dramaturgia e o merchandising social."
http://zapeatrix.blig.ig.com.br/

Infelizmente, apesar do respeito que se tem pela equipe técnica, o resultado foi um país das maravilhas do estereótipo com fios (reciclados) que não se encontram...

Bem, voltei a ler Agatha Christie e Sherlock para relaxar...
Nós que recebemos a cultura das corporações ás toneladas, ficamos na esperança de que possamos ganhar na mega sena ou ver um programa de qualidade. Às Lotéricas, gente!

ajr

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