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segunda-feira, abril 16, 2007

Kill Bill

Bem, começo minha saga pelo KB - que a Globo fez o favor de me entregar em casa- vendo uma moça usar uma caixa de cereais para lançar uma faca e ser morta por outra. Eu acho que a grande sacada para se assistir a esses filmes é estar preparado para uma "piada" ensanguentada atrás da outra, uma espécie de fecho pelo sangue de toda cena. Personagem é ação. Gente é figurante. Diálogo, ação, morte. Eu não estava preparado.

Se fosse apenas lixo, como Power Rangers ou filme de kung-fu, ninguém ficaria tímido para dizer que achou pretensioso e banal.

Mas vejam bem, não é siplesmente trash! É um diretor "brilhante" trabalhando com elementos da cultura de massa, que ele bebeu na mamadeira, é um símbolo cult da minoria chamada nerds-todo-mundo que sabe de cor os episódios da Jornada nas Estrelas. Claro, todos nós vivemos de seriados e novelas, isso que nos permeia de todos os lados. Não é pecado a diversão,
mas até a diversão merece um pouco de distanciamento.

O filme parece ser uma série de "referências", permeadas pela bela fotografia e um enredo frágil, mas didático, que corre fácil. Antes de ser uma originalidade em cima de elementos pop é mais um, sem muita novidade. A novidade é a roupagem "rica". É um filme, no fim, de imagens, um filme onde cor e contraste são o roteiro.

Como disse Michel Laub - BRAVO! edição nº 78 (março de 2004):

"Um certo esteticismo já dá o tom aqui: com sua ausência de referências políticas, reflexo do fim da era das ideologias, e sua dedicação à metalinguagem e às paródias, resposta ao make it new moderno, o pós-modernismo chegava às telas em larga escala. Cães de Aluguel se abstém de traçar painéis e julgar." http://www.bravonline.com.br/noticias.php?id=783

A cultura de massa deixa de ser culpada e passa ser a "cultura" de onde se tira a cult-ura. Um mundo sem trocas, sem grupos, mas com Tvs e internet. Quando não há como sair da redoma, você se fecha ainda mais nela. Uma incapacidade total de entender, relacionar, refletir, politizar, mudar... Adolescência eterna...

QT é o mestre das artes que parece conhecer todos os diretores, todos os filmes banais da história. Talvez seja só a mídia e os "intelectuais" querendo um "novo nome"...

Os filmes originais de kung-fu, têm algo de humor que é a velha fórmula oriental da harmonia dos opostos: é bom um pouco de açúcar no sal e um pouco de verduras na carne, pois eles se misturam e formam umtodo mais completo. Humor (sem graça) no drama é uma das coisas que mais me irritava nos animes no início...

Os "seriels killers" asiáticos, assim como os animes, são desenhados com um tamanho "deboche" que não se pode ter neles mais do que um rascunho zen ou uma máscara Kabuki: é a essência, mas caricaturizada, simplificada, tornada geometria.

Você não pode levar a sério, mas ele também não se leva a sério (sou cultura de massa, e ponto!)... (Ou talvez, na nossa cultura secular liberal, cínica, o que é aceito como "arte" por outros grupos seja impossível, como as cenas mitológicas de serpentes e homens musculosos do palácio de Saddam Hussein, para nós, horror kitsch!)

Mas Tarantino parece fazaer as coisas com ar de "arte" (nos EUA, muita coisa já foi levada á sério....) Ou, pior, assim como juntar milhões de sacos de lixo em uma esquina, não é simplesmente arte, mas "arte pós-moderna", explicada por Foucault.

A diferença para "Pequena Miss Sunshine" é evidente. Ele "vê de fora"... Cortar a cabeça de um membro da reunião, um braço, 450 galões de sangue falso, parecem uma piada ou uma reflexão? Não sei ...

Referências pop fazem parte de nossa vida no mundo-ficção, mas elas precisam- mesmo que desordenados, mergulhados no caos - de um material ético, crítico, ou caem na mesmice...

Talvez depois do 11 de setembro, a violência tenha entrado na vida cotidiana dos consumidores de entretenimento de forma a redesenhar a contúnua fagocitose do "marginal" pelo "estético"...

O diretor disse em entrevista a Bravo:

"Sempre gostei de filmes sobre vingança, da simplicidade deles, sejam westerns, filmes de kung fu, policiais, filmes de samurai, de detetive.Você estrutura o filme conforme a lista de desafetos que o vingador irá eliminar.
(...)

Na minha opinião, violência é aquilo de mais cinematográfico e divertido que você pode fazer num filme. Não agrada a todo mundo. E nem precisa. Mas, por mais que se discuta isso, para mim as seqüências de ação são as que mais se aproximam do cinema em seu estado puro."

http://www.bravonline.com.br/noticias.php?id=783

Se você vive a cultura de massa e reflete sobre ela, bom para você. Se você é cultura de massa, péssimo para nós...

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