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terça-feira, dezembro 30, 2008


Diamantes

São um milhão em São Paulo.
São 8 mil, eu li no jornal.
Um milhão. Mas não só mendigos de rua, “sem-teto”, como é politicamente correto. Os favelados estão no “milhão”.
São Paulo sustenta esse país. A gente que trabalha... eles vêm de onde?
De onde não tem comida.
Claro! Mas a cidade não dá conta.
Molhou a mão na psicina. Maldita hora seu pai a obrigara a ficar na festa com os amigos esnobes.
47%, sabia? 47% da renda. Com 10% da população.
Você quer casar comigo?
Não seja ridículo.
Metade queria, ser fraca.
Ok. Então, e os outros?
Outros?
Você nunca leu Lacan? Os outros, aqueles que você pensa que são você. Comprei na Cultura.
Não seja riículo.
A noite estava preto e branco, folhas e grilos.
O brasileiro é preguiçoso por natureza. O governo fica dando bolsa isso, bolsa aquilo... vão ficar acomodados só mamando...
Essa gente come torrão de açúcar e pede comida na esquina.
E adianta dar teatro pra essa gente? Se der comida vão jogar um no outro. Essa gente tem de dar passagem de volta pra sua terra.
Nazista.
Grilos, lua com pingos.
Somos jovens, precisamos de sexo.
Você não é tão jovem. Passou dos 30.
Mas preciso de sexo. E sai muito mais barato, para mim, pelo menos.
Tá bom.A água da pscina ficou cheia de bocas.

O Muro

- Fala inglês?
- Já leu Clarice Lispector?
- Passou no vestibular?
- É magro?
- Tem internet?
Essas eram as perguntas. Para entrar. Uma pessoa podia responder não a uma delas. O muro tinha 6 metros de largura. Chumbo em ambos os lados.
Quem passasse, chumbo. A cidade ia ficando mais cinza a cada dia. Lixo pelas ruas. Homens magros estendendo a mão. Carros prateados, impenetráveis.
Crianças negras dormem sobre o metal da Paulista.
No bairro pobre, milícias armadas tomam as casas. Grupos sem-teto protestam frente ao Banco de vidro, a polícia usa o gás fatal. O muro segue, dentro, pessoas nervosas votam no líder forte. Aceleram a construção, grupos protestam, são chamados "retrô" pelos jornais.
Cada pessoa, para entrar na Grande Loja do Dentro, deixa seu cérebro, depois sua língua, finalmente mãos e olhos e ganha jogo de futebol, seriado americano e DVD.
A marcha vai até a Livraria Cultura. Intelectuais pararam tentando impedir o muro.

Alameda Glete

Para Ana Maria Alfonso-Goldfarb

Acabara de sair da exposição do Einstein. Lembrara que matéria e energia são a mesma coisa e que a viagem no tempo é possível. Caminhando distraidamente pela São João, pensei que adoraria voltar ao glamour dos cinemas de gala, barquinho, violão. Minha intenção também era descobrir o segredo de Alexandre. Um cofre de ouro, com o segredo alquímico, que Alexandre Magno mandou ocultar no mosteiro de Amorium, na Frigia, segredo que Aristóteles aprendera de Apolônio, o qual o descobrira na Babilônia, onde Hermes I o escondera quando de um grande dilúvio. Se minha mente, por um segundo, lembrou de Caetano, pensou em ir na Sala São Paulo, não sei. Entrei na alameda Glete e não lembro. De repente vi por dentro todas as coisas e uma moeda tinha energia para iluminar a cidade. Vozes de amigos, multidão, Levo três horas todo dia até o Carrão, Esse povinho que mora na periferia, Acordo às cinco, trabalho doze horas, chego às oito e meia em casa, não tenho amigos, Não vou ao centro, só tem mendigo, gente feia e crakero, Se precisa de médico pra o bebê na madrugada, só tem à uma hora de distância, Por que os pobres se matam?, Eu cresci comendo todo dia mingau de fubá, era o que tinha, Eu comprei o vestido com saquinhos de pérolas da Vogue, Nordestino filho da puta volta pra tua terra! A alameda Glete não saia da minha cabeça. Vi tudo. Street viveu no Palácio, deu casa aos operários, os jovens estudaram na casa, a ditadura separou, apagou a memória, uma cidade do pensamento. Mundo abandonado. Cai em pedaços, as águias morreram, a água contaminada. Se o Sol dá vida a tudo, o ouro, seu similar, também dá vida e saúde. Eu vi. Só podia estar lá dentro. Ninguém percebeu ainda. Olhar página a página. Kafka, Platão, Bukowski, Borges. Decidi viver trancado. Livraria, vivo aqui, à noite busco o Tesouro.

Afonso Junior Ferreira de Lima, 2008

Licença Creative Commons
Alameda Glete e outros de Afonso Jr. Lima é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

segunda-feira, dezembro 29, 2008


Buscando na web uma tradução de Miss Saigon, só achei versões hiper-literais...

Como o que conta é cantar, tentei fazer a minha. Claro, precisa de algumas mudancinhas na hora de organizar as sílabas, mas acho que com treino (e dando um jeito no "...so diffeeerent...") tudo pode funcionar ;)


Kim

O sol, você, sou luar
Pela sorte unidos
No alto dia e no breu
Somos felizes, você é meu

Chris
Mistério você aqui
Meu lugar é tão outro
outro, outro, tão longe de você
Como a noite nos fez
tão longe estar, amor?
Kim
Surge lá fora o sol, não!
Chris
A lua no céu a brilhar!
Kim
Canta a manhã!
Chris
Estrelas se vão!
Kim
Ainda tremo...
Chris
... de paixão!

Estamos no céu!

domingo, dezembro 28, 2008

Bienal: sobre o vazio e outras coisas

***




(AS: O que está acontecendo com Israel? Alguém pode me explicar que atrocidade é essa?)



***




É com certa ironia que o destino coloca juntos um grupo que evoluiu até a sofisticada linguagem do vazio e outro que quer entrar, está tão fora que não sabe bem a etiqueta, odeia alguma coisa invisível e usa essa linguagem como quer... Claro que é irônico a linguagem da "participação"- nascida de uma sociedade dadaísta/"anarquista" anti-conservadora- de um mundo pós-super-moderno virar "agressão" num contexto tupiniquim de exclusão... A arte chama participação, temos jovens doidos para ser parte de alguma coisa...

"Tanto na Bienal, quanto na Belas Artes, fui só para ver o que ia rolar. Mas, quando percebi, a lata de spray já estava na minha mão"- diz a rainha do branco.
"Vândala" ou "heroína dos descamizados"? "Pega mata e come..."

Sim, na "Bienal do vazio" houve a polêmica (horrenda) prisão de Caroline Pivetta da Mota (que os jornais chamam de "a pichadora") por quase dois meses. Ao mesmo tempo, Cholla, um cavalo de 23 anos arrebata o Prêmio Internacional Arte Laguna, na Itália ganhando de mais de mil artistas do mundo todo.

Assim, começam as simplificações. Não é a deixa para falar mal da elite cultural e da falta de critérios da arte?

A Bienal começou com o tom da crítica. "Crise financeira da instituição, que não pagou grande parte dos gastos da edição passada, inclusive com curadores estrangeiros", anunciou a Folha (9/11/2007). "A atual presidência da Bienal esteve envolvida em várias polêmicas, neste ano, e chegou a assinar um ajuste de termo de conduta com o Ministério Público, por cometer irregularidades ..." (8/11/2007)

Então a proposta desde sempre foi bem interessante: um debate até sobre o formato, a gestão, o patrocínio desde o modelo pai-senhor americano, etc... (Lembro de um artigo de Ivo Mesquita sobre isso, mas não acho agora...)
A arte no mundo todo se encontra em crise, provavelmente, porque os artistas vivem dentro das bolhas de luxo -linguísticamentosas, claro- cada vez mais fechadas, e o "atrito" com o real da "massa" sumiu, desde que a política real desapareceu da "opinião pública", coberta de produtos paradisíacos e tele-jornalvela.

Foi esse um daqueles momentos em que a violência oculta vem a tona em toda sua feiura: como disse o Ministro Paulo Vannuchi , "Daniel Dantas ficou preso muito menos tempo".

A maioria das críticas caiu sobre a curadoria, mas não vejo claramente qual sua suposta "culpa" neste caso. "O parque Ibirapuera é uma área de preservação ambiental e o Pavilhão da Bienal é um prédio tombado e monumento histórico estadual (...) Há uma lei e transgredi-la implica risco" -diz Mesquita em carta à Folha em 18 de dezembro. Ele chamou o ato de "arrastão" e assim descreveu o evento:"40 jovens invadem o pavilhão da Bienal como um arrastão, derrubando tudo, agredindo pessoas fisicamente, com o objetivo de, segundo a convocatória pela internet de seu líder Rafael Augustaitz, pichar o segundo e o terceiro andar, destruindo todas as obras. "

Estranho foi a frase da curadora Ana Paula Cohen na entrevista coletiva que antecedeu a Bienal:
"Estão convocando gente da periferia da cidade para fazer isso, e essas pessoas não sabem no que estão se metendo." (13/12/2008) Ameaça? Constatação? Soa um pouco "nós e eles"- será o caso de negar que foi criado um abismo? A falsa idéia de que "todos são iguais" aqui pode esconder a oportunidade negada de muita coisa: somos iguais em tudo, com os mesmos direitos, mas:

"Pesquisa realizada na Zona Sul de São Paulo pelo Departamento de Serviço Social da PUCSP e citada pela mesma reportagem da revista Carta Capital, mostra que '81% dos bairros pesquisados não têm bibliotecas públicas, 98% não dispõem de teatros, em 96% não há cinemas. Bancas de jornal também são raras. Das famílias entrevistadas, 39% reclamam que seus bairros não contam com delegacias e 46% dizem que não existe ronda policial' e ainda 'das casas visitadas, 78% apresentavam mais de quatro bares nas proximidades (p.14)."

(Telma Falcão, 2003 - Núcleos de Apoio a Pesquisa da Universidade de São Paulo.
http://www.nevusp.org/portugues/index.php?option=com_content&task=view&id=809&Itemid=96)

Lembro-me de uma amiga que tentou falar sobre a situação das escolas da ZL de São Paulo (onde mora) e foi censurada por outros moradores que não querem falar mal da região. Será o caso de esconder que a polícia perdeu o controle sobre Ipanema, negando-se a responsabilizar-se pela festa de Ano Novo lá, para preservar o turismo?

Por outro lado, Pedro Alexandre Sanches e Ramiro Zwetsch , na Carta Capital fazem uma mistura fina transformando tudo numa questão de luta de classes, numa suposta rebelião contra uma "elite" egoísta. Como se Ivo tivesse culpa de ter uma história sofisticada. (http://www.cartacapital.com.br/app/materia.jsp?a=2&a2=10&i=2947)

Como ele responde, na carta: "Contraditoriamente, o Estado não lhe assegurou uma moradia até agora, conforme se depreende da lei que a mantém na cadeia! "

O que há é sim uma contradição "do sistema" (mas quem assina?): o patrimônio recebe leis de proteção e as pessoas não tem onde morar.

Elite mesmo é, por exemplo, o tal Instituto "Liberdade"(sic). Empresários que não querem pagar imposto (e, portanto distribuir renda) e chamam isso de "liberdade de impostos", desejam ganhar com a saúde e perguntam "É o Estado o melhor provedor de saúde?", cria um think-thank para esparramar idéias contra o Estado com as leis do Estado e afirma: "Travamos uma disputa de idéias da sociedade contemporânea, uma disputa pelas idéias que irão favorecer os progressos da liberdade". (?)

Elite mesmo é quando "o volume de recursos que chega aos bairros ricos é em média 4 vezes maior que chega aos bairros pobres."

(http://noticias.uol.com.br/ultnot/2008/04/24/ult23u2015.jhtm)

O que percebo desse líder -citando Nietzsche- que comanda as pichações é que apropriou-se da linguagem "poser" da arte sem idéias (ou seja, arte que não representa postura perante a vida, e , portanto tem forma que não é "estética", não causa impressão aos sentidos) e da linguagem "pró-revolução" daqueles que já não vêem um diálogo possível (PCC, que leu seus 3 mil livros de esquerda, incluído). Talvez um caso de auto-promoção, como afirmou Mesquita, mas como dar-lhe crétido, afinal, não é um "membro da elite?" Isso tudo (uma rebelião confusa) enquanto a direita criminaliza qualquer reflexão contra a concentração de poder.

Salva o grupo o "pichador" Tatei que diz: “A gente não está de bobeira. Agora todo mundo está metendo o pau, mas ninguém quer saber como a gente vive". Caroline disse à Folha que picha “para o povo olhar e não gostar”. Então é isso: destruir o patrimônio é ir contra os direitos humanos do novo mundo, patrimonial.

"São manifestações de grupos que querem fugir do anonimato sinalizando sua existência, sua territorialidade" -diz o Ministro, evitando entrar no fácil comentário de um artista de que cita Jean-Luc Godard ("Cultura é regra, arte é exceção"): "A Bienal ao apagar os pichos está situad[a]e sitiad[a] no terreno da cultura, já os pichadores, eles estão no terreno da arte".

O picho "Abaixa a ditadura!" (sic) lembra o que o húngaro Ferecnzi dizia sobre o trauma na criança, uma "confusão de línguas": na linguagem da arte contemporânea, assim como do mundo contemporâneo, tudo entra em questionamento, menos a questão política da desigualdade; na arte-ataque da pichação tudo é política, já que não há espaços de diálogo na sociedade dita "aberta" (sonho do Instituto "Liberdade"). O trauma nasce não só da violência, mas da negação da violência, da sua "reação de desmentido".

É uma questão de distribuição, mais investimento público e não pode ser engolido pelo discurso, esse sim elitista, de uma arte do norte, pós-Estado de Bem-Estar Social, "o que é arte?"

E o cavalo? Se a arte contemporânea não tem mais nada a ver com o casamento hegeliano do "conceito" com a "forma" , "a individualidade" romântica do artista, mas apenas com seu intuitivo julgamento estético na escolha de formas, e se a arte está na recepção que "monta" o texto, já que até o lixo e a natureza podem ser belos, nada impede que o belo venha do acaso. Ou seja, fujam da estéril crítica ao vazio, simplificações e luta de classe falsa.

terça-feira, dezembro 23, 2008


Madonna esteve aqui

Para a minha geração ela representou um ícone de poder- soube sintetizar, principalmente para mulheres e gays um modelo de força, com a mensagem "express yourself", contra tradições mofadas, bom senso e puritanismo (claro, isso era também indúsria cultural num mundo pós 68).
O pop internacional era nosso ambiente cultural, nossa "tradição".
Para essa geração anos 2000, com house, Britney (que tenta ser o mesmo para adolescentes maluquinhas) e rap, a oferta é muito maior- e, graças a Deus, a música "étnica", a brasileira, ressurgem com força...
Os anos 2000 foram bons para Madonna: reencontrou-se no tecno. De Bedtime Stories -94- até Ray of Light-98 (uma luz no fim do túnel, mas difusa) - tudo fica confuso, são inclusive 8 anos sem turnê, em busca de um personagem.

Depois de tentar produzir reflexão na nação em pânico com American Pie ("grande fracasso de sua carreira"), em que ficava visível o cansaço da estética Erotica e a busca de um novo papel (inclusive no cenário pop: techno, neo-punk, romântico?), perguntando que país é esse e recontando o sonho primitivo norte-americano de ser rebelde, on the road, ironizando o "sonho" (e a arrogância), reencontrou seu caminho como entretenimento bom com Confessions on a Dance Floor, onde, para mim, lembra que era uma "disco". Quando ouvi Hung up percebi que não estavam vendendo apenas imagem: era delicioso!

No que deve ser uma auto-ironia, ela agora assume vender "doces", como numa loja. Busca modernizar-se com o hip-hop e o R&B, uma natural re-invenção, mas que anula até certo ponto a "descoberta" do "retrô" 80´s, estético, sonoro e coreográfico. Mais um período de transição...
Aqui os show foram considerados "mornos" (até os fanzíssimos do M.O.L. falaram de músicas "requentadas", do último bloco "esquecível"...), teve até a Betty Lago dizendo que era um show "classe média" (ou seja, conservador), o que irritou quem, diferente dela, não pode ir a Nova York.

As versões que eu vi de "Vogue", "Express Yourself" e "Give it to me" - de um álbum que tem as chatas "She´s not me" e "Miles Away"(single fracasso)- gostei: realmente, ficaria tudo mais fácil se fosse um todo punk (retornando ao início em Nova York), ou techno, porque, como foi dito, até ciganos tocam guitarra, ela até aparece com fitinhas coloridas, la isla... (Ainda, em alguns momentos sua voz parece não existir- é estranho vê-la falando, voz desafinada...)

Imagino que o último show em São Paulo foi o mais animado, em que ela, sem resbalar num palco molhado, elogiou a platéia e saiu enrolada na bandeira do Brasil. E teve a capela de Like a Virgin, realmente emocionante. "Vocês são a melhor platéia que já tive".
Talvez tenha faltado, aquela re-invenção mais ousada. De qualquer forma faltou identidade no show, ela, a senhora em criar novas personalidades, como em Confessions, onde a era 80´s volta com tudo... (as malhas de Gaultier são históricas!)

Isso porque quando a mensagem da "sexualidade" é assimilada, e a política não é aceita (o clip sobre a guerra - Madonna deve se orgulhar da postura firme em um momento em que Bush ainda não é a piada de mau gosto que é agora- foi retirado do ar: medo de não vender ou respeito aos soldados?), que fazer?

Dançar! (E "Sorry" foi um momento de dança política!) Por que ela abandonou bons produtores e figurinista é um mistério... (Se alguém tem dúvida do estrondo de Confessions...)
O espetáculo parece ser um acordo entre a estética do já-visto (roupas pretas, dancinhas coreografadas, máscaras), tantando manter a linguagem e um pouco de remix, para celebrar o novo milênio. Também comentaram sobre o excesso de "marcação" e pouco espaço para manifestações espontâneas... O velho acordo capitalista: agradar ao público (vender bem, não mudar) e mudar (ser novo, agradar).

Mas Madonna tenta e sempre continua. Adorei ver ela se divertir no palco - mesmo com "fuck this rain!" Vendendo bons doces.

terça-feira, dezembro 16, 2008

Meu Mundo

Quem poderia dizer que aqueles dois simpáticos senhores, no café da Cultura, estavam pensando os destinos do mundo?
- Vocês deviam ser como nós! Vamos lá! Vamos transformar o mundo em uma ditadura sem limites. Acabamos de lançar o Centro Cultural Universal, investimento de 10 bilhões de dólares, aço escovado e vidro, teto removível, 6 bilhões de livros. Mas as reportagens políticas são retiradas.
- Não sei não... Aqui também é assim... Viu o caso do cartunista demitido por falar mal dos Bancos?- E nada de “poluição espiritual”. Erotismo e gente falando mal do passado são proibidos.
- Isso é estratégia antiga, custa caro. Deixe-os muito ocupados para sobreviver e estarão muito cansados para tentar entender. Tire deles qualquer ordem maior capaz de investir no bem comum, de modo que subir a escada seja tarefa de cada um. Da favela para a universidade.
- Isso vende bem, é “moral”, ética do trabalho... E vocês, no fundo, controlam também a informação, não? Digo, há empresas gigantes, diversificadas, que mandam em estados inteiros, não?
- Se fizeres bons acordos com super-poderes de informação, de modo que os conceitos, a linguagem, a cultura desapareça, e nada faça sentido, até que percam sua identidade e regridam até a animalidade, depressão e violência...
- É prático, até. Esse negócio de ter de abrir livros da Amazon, perseguir escritores piratas, cansa... Adoro como vocês criam uma identidade obcecada, o desejo, incentivam a frustração, o prazer individualista, até a solidariedade virar uma piada. A atriz famosa só pensa em cinzeiros de prata, carros importados, viagens e drogas e o cara da favela só pensa em ser a atriz famosa.
- Sim, claro... A violência se espalha no mundo abandonado. Deixe 25 anos Nova Orleans sem investimento e a própria natureza se encarrega de acabar com a pobreza...
- E a classe média?- Estarão endividados para comprar celular, roupas caras e pagar academias... O belo deve ser oferecido num contexto de a-pensamento. Quem dá a arte é quem dá a verdade. Mas, enquanto isso, deve retirar todas as limitações legais contra o poder das corporações, de modo a que se você poluir um rio, não tenha que pagar por isso...
- É, dá inveja desse mundo de vocês. Bem, vamos continuar nossa discussão no hotel. O Poder Global está todo lá.


Afonso Junior Ferreira de Lima
dez 2008Participando do Concurso da Cultura...
Mais em:
http://www.livrariacultura.com.br/scripts/contos_cultura/index.asp?autor=EJFDCC