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quinta-feira, agosto 13, 2009

Acabo percebendo que eu tenho muito a ver com essa cidade. Apesar de eu não querer admitir, e ainda me sentir perdido nos espaços amplos, na geografia nunca finalizada, na convulsão do centro, no anônimo das casas antigas, no barulho incansável. Eu sou São Paulo pela estranheza e pela invenção. Gosto de me ver como um “gaúcho” típico, nostalgia de um pouco de ordem, de um pouco de velhos vernizes aristocráticos, língua culta, política afiada. Nem somos tão nobres, nem a cidade é tão suja. Eu me misturo bem, lá eu era outsider.

Há o duro do comércio, ou seja, tempo. Há as atendentes sérias, os funcionários exaustos de tantos ignorantes, os carregadores de mala que em uma palavra -5178- sabem norte e sul. Tudo funciona. Não me canso de ver a miséria que é como uma ferida aberta nas avenidas, velhos, mulheres, cabeças e pés sujos em meio ao cimento e os carros importados. Eu abomino minha raça e tento ficar ligado ao chão, mas minha mente é turbilhão, como as flores e as folhas que caem. Eu sou essa impaciência. Meu olhar não fixa, mas capta, sou pouco sério. E, em meio a tanto plano e tanto sucesso, só penso em destruir, criar, em estar em outro lugar, será que as pessoas viram o vento levando pequenas folhas na Alameda Santos?

Saio da calçada, uma moto da polícia, emergência. Ao lado da colorida feira, um cadáver ainda vivo. Um celular com TV e GPS no jantar.

E como unir minimamente, sem comprar em bloco fósseis medíocres, quem é mais viajado, quem fala mais línguas, quem compra mais. Como perceber sem enredar-se? Em passagens, imagens, em manipulação. Em ser o melhor. Em ver Paris. Em ter lido muito. Moda. Carro. O Certo. O Pensamento. Bolsa, sapato.


Uma voz de Jornal invade minha casa do vizinho pelo ar. Toda a multidão com uma mesma mente. Tem um velho ao meu lado, evitar a mudez.
Este trem não prestará mais serviço, todos devem desembarcar, plataformas lotadas, empurra empurra, luta na porta, um homem força sua entrada, a porta fecha, desliza como um peixe para fora, a humilhação de senhoras esmagadas em pé em ônibus lotado. Natureza, mórbida resignação, sem jogo. Querer um bem que seja criar mil possibilidades.

A elite do país, a crítica do país, os blocos de poder em choque, fragmentos e destroços que se remontam, Baudelaireplus no entra e sai do chat, na obra da Paulista, funil de multidões, homem mal educado cospe no metrô, homem bem educado me atropela na calçada, acidadenãopodepararacidadenãopodepararacidadenãopodepararacidade. Vovó quebrou o telefone, mas não foi com você, tava estressada, não foi com você meu neguinho...

Cada um no seu blog, pelo msn, cada vez mais rápido, pela webcam, via satélite, sozinho. Informado, tolo. Inflexível. Tanto saber me tornou burro. Meu corpo, frio, não fala, eu o malho. Em busca de alguém. Abrindo a mata escura. Eu sei mais, você vai tirar meu lugar, não pense que me humilha. O pai não vê o filho, cada um no seu casulo. Eu sou o lobo da cidade, minha própria alma é seleção natural.


E ainda assim, eu nasci nessa teia sem nota de descanso que é beleza e perigo, sem Tábua, na quase-grade, percebendo coisas-em-si negras, potentes, que me puxam, um Deus sem resposta única e filho do amor e do gozo, pedra-Godô, é preciso ser único a cada gesto, único com cada pessoa. Busco ver, tocar, pegar espaços de percepção, para agir. O econômico é a igualdade rasa, transforma tudo, você e ele são mais um pouco.


Nem os artistas, nem os pensadores, os compradores de carro são os modelos da humanidade. O flâneur, o dândi, o marginal são os produtos mais vendáveis.
A disciplina da democracia sem igualdade. A cidade São Paulo mix-mundo das multidões secas, dos diamantes ouro micro chip.
Queda e esfacelamento, pensar depois de Auschiwitz.

Os elétrons do meu corpo, a distâncias siderais, correndo, guardam a geografia afetiva: cheiro, cinema, som do triângulo nordestino, viver prazeres na Consolação, a cidade quer arte. A matéria é música da poeira quark, música incerta.

No fim do conflito burgueses X marginais/artistas, os executivos são artistas de si mesmos e os artistas são comerciantes de sua imagem. Máquina que come tudo, e tudo fica igual a tudo. Selva germânica, ruas de vendeta. E ainda assim eu sinto o vigor da Feira da República, eu observo o belo na árvore negra em ondas contra o vão vermelho do MASP, a estranha glória do Viaduto do Chá soberano sobre cacos da metrópole. Algumas árvores no vidro azul da avenida. Olhares amigos.

Eu tenho a ver com essa cidade, porque nunca sou correto, nunca acabo, e e cada dia aprendo o prazer.


Afonso Jr. Ferreira de Lima

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