Páginas

quarta-feira, julho 07, 2010

J.L. Goldfarb

Conheci J.L. Goldfarb porque freqüentamos a mesma universidade. (Ele casou com a moça inteligente). Não somos amigos muito próximos, mas isso apenas significa que, em um mundo marcado pela multidão que mecaniza, ele tem muitos amigos e trata a todos com bondade.

Abrindo livros, voando por ai, organizando e juntando. Sempre achei que a função de um professor é despertar o desejo dos alunos, porque a intelectualidade enquanto acúmulo pode decair em arrogância sem o sopro da vida.

(Afinal, o que conta, é achar seu próprio desejo, quem sabe, diria Lacan, porque - ai de nós, que não podemos viver dentro das linhas e vivemos - tudo nos interessa e todos os livros formam uma só escrita que luta contra a indiferença e o preconceito).

Claro, ele faz parte daquele povo riquíssimo cujo tesouro ostenta como Livro (era o que os imigrantes do séc. XIX tinham na mala, porque não vieram acorrentados). Mas há ainda mais (como os 49 significados de uma palavra da Torat: há a essência da comunicação, que é a tribo, o olhar, a fratria pelo diálogo.

E ele sai por aí, distribuindo livros (foi pra ele esse refrão) e cantando as maravilhas de se ter um irmão. E é por isso que a gente tem esperança, porque ele vê o que não vemos, e sabe nos contar. (Frei Rovílio Costa, de Porto Alegre, foi outro desses chefes de tribo que erguem Templos à Palavra, criando vínculos onde, por exemplo, a cidade do meu pai, Bom Jesus, perdida no tempo, reviveu). Então, amigo, quando tivermos passado, os herdeiros herdarão a terra, uma semente planta a outra. E está feita a humanidade.


Saramago
É muito emocionante para mim ver o amor do povo português pelo seu poeta, que mudou de ilha. Na biblioteca converso com a funcionária que diz não ser grande fã de Saramago, e eu digo que também não sou um apaixonado, mas penso que ele me ensinou a pensar em termos de cores e sensações, numa nuvem vermelha que corre sem cessar.

Eu só conseguia ver um céu alaranjado e roxo enquanto um Anjo dourado convidava Maria para entrar. (Só li dois livros dele, porque só temos 100 anos, e dá um livro por minuto). Eu digo que admiro sua figura combativa, sempre ao lado dos pobres, sempre não-crente. Pergunto se ela viu o filme, ela diz que não, que os estupros do livro já foram de bom tamanho.

“Mas, infelizmente, essa foi a história da mulher” eu digo, “ele retrata um mundo primitivo onde vale tudo” e, dizendo isso, entendo: “Ou seja, ele fala de hoje”. Penso que deu um choque geral, mostrando um animal que come carne, no mundo congelado do burguês novo milênio, anestesiado com maravilhas luminosas e a velocidade irrefreável da ambição.

Onde o conhecimento se solidifica em castelos auto-referentes. Sempre achei que nas portas dos banheiros estão as verdades escondidas, onde a capa de elegância não pode segurar o fascismo reinante, e é lá que as encontro. (Na faculdade, pensei em escrever um ensaio sobre a quantidade de números de telefone entre homens, porque macho que é macho se esconde).

“Sou paulistano e paulista, mas digo que os nordestinos são mais inteligentes”, escreve alguém. “Senão não teríamos ótimos porteiros e manobristas, o proletariado que nos serve!” – responde outro mais revolucionário. “Podem ser inteligente (sic), mas são tosco (sic)”- responde outro. Ai está um mundo onde o desqualificar vem antes do dominar, porque a base do imperialismo é a incompreensão. Então, eu compreendo Saramago.

Nenhum comentário: