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quinta-feira, agosto 26, 2010

Rafinha cria o Centro.

Anteontem, assistindo "A Liga" vi uma síntese dos problemas que a TV pode apresentar.
O "Rafinha" é aquela flor que foi capaz de falar que "macaco..." (fazendo o Hélio de la Peña se zangar) e dos 10% de tudo que o Cristian Pior ia levar, levando uma bronca pública. Não é sua culpa: nosso olhar é cego, nosso realismo bebeu do delírio modernista e ficou vendo sem ver.

Não éo caso, claro,mas eu conheço aquela (minha) classe média gaúcha capaz de ser ainda patriarcal, provinciana e modernosa (vista Nike, seja radical!) por que vê apenas um pedaço. O mais impressionante é que ele não é um zero-instrumento do capitalismo (como um Mainard) e parecia bem simpático: o que mostra mais ainda a face do "medo" e do "impacto-que-vende-torna-se verdade".

[Isolados do vale tudo da megalópole, vivendo apenas entre três etnias, sem a circulação de classe de onde todos vendem e todos compram, com ar aristocrático de “quem roubou o meu queijo”, a elite gaúcha vive no século XIX. É uma elite que ainda pode simplesmente desprezar os “pobres”, enquanto aqui é preciso dar algumas migalhas... (15 estações de metrô em 16 anos). Não é a toa que temos um símbolo de monopólio de comunicação e ser artista é estar lá.

São várias piadinhas de "veado" no CQC. Ainda tem graça... (“É um povo mais aberto”, quando a Argentina liberou o casamento gay. Quem tem meio neurônio ri culpado. Bem, que tal fazer piada de judeu?)]

A TV tem de falar rápido: saber o que já sabemos.
Bem,a reportagem reduziu o centro de São Paulo a "ambulantes, viciados, imigrantes e sexo",como sintetiza o apresentador ao final do programa! Uma imagem distante das lojas e uma mulher na parada de ônibus com a pergunta "você se sente segura aqui?" é tudo que se tem a dizer e a mostrar do lugar onde caravanas vem do Brasil todo para ver exposições de arte e comprar suas roupas de boutique! Se andasse uma quadra daria no Franz Café, meia, no Plaza Luz e duas no Bellapan, o pão de café que saiu an Ana Maria Braga, Estadão e ruma à Veja!

Onde está o Sujinho, o Teatro de Arena (onde uma viatura de polícia estava fazendo a segurança na última peça que vi), a Oficina Oswald de Andrade e A Rota, a Fatec, etc. etc?

Será que nosso artista nunca foi ver Harold Pinter na Roosevelt? Será que a feira onde circulam centenas de pessoas (um amigo estrangeiro é que me apresentou), onde já levei diversas caravanas de turistas sem ter problemas pode ser reduzida aos dois malandros que ele apresenta? A mulher responde o que qualquer um em qualquer lugar responderia: falta segurança. (Mesmo na República, à noite, há uma viatura da polícia!) Mas uma amiga foi assaltada na Paulista, né?

Em um mundo de política cínica onde a exclusão começa pela "degradação" da imagem, pois o que não produz pode ser esquecido, e onde a TV tem esse papel formador, não valeria apena mostrar as velhinhas fazendo caminhada na Luz,os universitários na rua Direita, a Ópera do Municipal e a bela nova Mario de Andrade, excelentes restaurantes, como o Nutrissom, e a UNG do Shopping Light?

O estereótipo significa mostrar o que eu penso: é assim que "a elite" foge e a distância se reafirma. Para invadirmos o Iraque, primeiro eles tem de ser "fanáticos" que tratam suas mulheres mal. Para excluir toda uma população,primeiro eles tem de ser "excluídos". Um "favelado" é incorrigível, né, diferente da gente... Quando Ele, Mr. Comunicador, chegou na cidade, alguém disse: “Hei, olha o Centro...” E o Centro se fez.

Coisa diferente seria mostrar que, apesar do esquecimento da Prefeitura, da luz insuficiente, policiamento fraco em ALGUNS PONTOS e não atendimento aos dependentes do Crack, sim, o Centro vive (muito!) e faz parte da cidade.

Um comentário:

Grupo de música-teatro disse...

Brilhante quando dizes: "Não é sua culpa: nosso olhar é cego, nosso realismo bebeu do delírio modernista e ficou vendo sem ver." Um olhar agudo como o seu destrincha a realidade, separando o joio do trigo, o falso do verdadeiro. A generalização não pode ser uma verdade - advem de um olhar distante e distraído, como o da tv. O palavrório repetente, a fácil palavra convencional não pode ser verdade:a fina película desgastada do real não pode defini-lo, entende-lo, pensá-lo.

abraço

Rodrigo da Rosa