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segunda-feira, setembro 20, 2010

Somos felizes


Quando nossa mãe nos teve, sabe, foi há muito tempo, muito tempo, nós passávamos o dia todo com fome esperando papai chegar com a caça, havia mato na época, e a gente comia aquela comida e mamãe lambia a panela, ela ficava sem. E minha avó, ela nos contava, ela colocava uma pedra na panela e ficava brincando de roda com eles, pra distrair da fome. Bebiam a água e iam dormir para não lembrar.


O sono é o melhor amigo dos que sofrem. Daí meu pai veio da Bahia, pro interior, sabia ler e sabia escrever, teve poucas aulas de letras, e os irmãos foram ajudando, o resto fez por conta própria. Quando começou a trabalhar aqui, fez um curso e formou-se na quarta série, pode pagar o aluguel. Minha mãe teve cinco filhos: um morreu dois dias depois de nascido. O terceiro filho morreu com 12 meses com alguma coisa parecida com catapora. O quinto, o médico deu medicação errada, também morreu. Minha mãe sofreu muito. Aí eu tive meus filhos. Com eles grandes a empresa disse que ia dispensar os funcionários. Meu marido desempregado. Um tio disse para nós irmos para São Paulo. Minha irmã disse que pagava quando chegássemos lá, mas o homem do caminhão não aceitou. Meu sogro deu um cheque sem fundo. Viemos eu na frente com o motorista e eles sentados atrás, com uma lona preta, só paramos duas vezes para tomarmos água.

Chegamos na casa, só tínhamos café, não tínhamos nem açúcar. Lembrei de minha avó, sopa de pedra. Minha mãe, sofrida, enterrando os filhos. Lembrei de uma mulher que vi no hospital, quando meu marido adoeceu: ela pegou um lanche sujo debaixo de uma maca que um menino jogara fora.

Pensei que eu tinha sorte. A vida não é apenas o que deveria ser é como nós somos mais do que fomos. Por sorte meu marido achou umas moedas no armário. Passamos assim até que minha irmã chegou. Meu marido estava muito nervoso, eu disse: vamos vencer. No outro dia fui procurar emprego. Hoje meus filhos estão formados, sempre ensinei não pegar nada dos outros, e compramos uma casinha, somos felizes.



Afonso Jr. Ferreira de Lima

Um comentário:

Grupo de música-teatro disse...

Parabens! bonito! Singelo, conciso, sintético - uma vida, e um vies.
Abraço